quinta-feira, 15 de julho de 2010

"Amor sem escalas"

"Amor sem escalas" (Up in the air), Jason Reitman, Estados Unidos, 2009
Postado em 18 de fevereiro de 2010, às 21:00

O título original fala mais sobre o filme do que essa tradução boba que fizeram no Brasil.
Porque George Clooney é Ryan Bingham, alguém que vive no ar, em aviões cruzando os Estados Unidos. Quando em terra, ocupa algo parecido com um quarto de hotel espartano e não ficamos sabendo nada sobre sua vida amorosa, nem seu passado.
É um sujeito competente no que escolheu fazer na vida: demitir de seu trabalho pessoas que não conhece. Ele é o empregado ideal, de uma empresa terceirizada nessa função que as próprias empresas não conseguem cumprir, tantos são os que tem que ser demitidos. Evitam assim enfrentar pessoalmente lágrimas e derramamento de sangue.
Pensem nos Estados Unidos no ano passado, quando levas e levas de bons trabalhadores americanos eram postos na rua por causa da temida crise mundial que começou lá.
George Clooney (que está muito convincente no papel de Ryan Bingham) vive sempre "Up in the air", algo como "nas nuvens", para desempenhar seu antipático ofício. E adora isso porque chega a dizer frases como essas abaixo durante o filme:
"Conhecer-me é voar comigo."
"Tudo que você odeia quando você voa, para mim são doces lembretes de que eu estou em casa."
"No ano passado, passei 43 dias infelizes em casa, os outros maravilhosos 322 nos aviões..."
Além de usar uma retórica vazia mas eficiente, já que ao demitido não resta outra coisa senão lamentar-se, o frio Ryan ainda estuda a ficha da pessoa e ironicamente a incentiva a realizar sonhos, agora que já não há outra alternativa:
"Vi que você fez o curso de culinária francesa. Por que não se dedica a isso agora? Para você será um renascimento. Realize seus sonhos e conquiste o orgulho de seus filhos."
Além de demitir pessoas, Ryan dá palestras motivacionais em vários lugares por onde passa. Seu tema é "esvazie a mochila":
"O que vocês levam na mochila às costas? Quero que sintam o peso dela nos seus ombros. Está ficando pesada: coisas, relacionamentos, seu carro, sua casa, seu apartamento... Agora tentem andar. É difícil, né? Eu digo a vocês: mover-se é viver. Vocês deveriam deixar tudo isso se queimar. É muito estimulante não ter nada. Relacionamentos afetivos, então, são as coisas mais pesadas na vida. Vocês não precisam carregar todo esse peso. Seres humanos não são cisnes que são monógamos. Somos tubarões. Não podemos parar."
Mas é claro que a vida dá voltas. Ryan, tão bem defendido por suas convicções (ou pelo menos é isso que ele pensa), vai se dar mal.
Quando, inevitavelmente, o apelo amoroso comparecer, ele não vai saber lidar com isso.
Encontra Alex (Vera Farmiga) em um bar de hotel e não reconhece os sinais de que suas defesas estão desabando.
Sua companheira de trabalho, a jovem estagiária Natalie Keener (Anna Kendrick), que descobre um outro método de demitir pessoas (conversas por internet), fica chocada com o que ouve em seus papos com Ryan. Ela, que sofre por um namoro que se rompeu (via internet), faz o melhor diagnóstico sobre o personagem de George Clooney:
"Você construiu para si mesmo um casulo de auto-exílio."
A moral desse filme me fez lembrar uma conhecida fábula de Esopo: "A raposa e as uvas".
Diz essa fábula que uma faminta raposa, passando por uma videira, reparou em um cacho de suculentas uvas. Mas, por mais que pulasse e se esforçasse, não conseguiu alcançá-las. Exausta e desanimada, olhou novamente as tão desejadas uvas e disse: "Estão verdes, vão me fazer passar mal..."
Acho que parece ser esta a defesa principal de Ryan para lidar com seu medo de envolver-se com a vida ou seja, de sofrer e errar como todo mundo. Enfrentar frustrações e aprender com elas não é coisa fácil. Mas é a única maneira de viver.
"Up in the air" caiu nas boas graças da Academia que indica os melhores para o Oscar: George Clooney foi indicado para melhor ator, as duas atrizes para melhores coadjuvantes, o filme foi também indicado para o prêmio de melhor roteiro adaptado, entrou na lista dos dez mais e o diretor foi indicado entre os melhores do ano.
"Amor sem escalas" foi um sucesso de crítica nos Estados Unidos. Aqui, nem tanto...Talvez porque no Brasil a crise não desempregou como lá.
O “tsunami” aqui, não passou de “marolinha”, como disse o nosso querido presidente.
Mas, certamente, temos nossos “Ryan Bingham”. Todo mundo conhece pelo menos um.

3 comentários:

  1. Paulo Octavio Pereira de Almeida, em 24 de fevereiro de 2010, às 22:49
    Eu gostei bastante do filme, e como ex-executivo de multinacional vi que seguramente um dia iria ganhar um cartão de XX milhões de milhas ( tenho vários amigos que se vangloriam disso ! ) Mas meu comentário é que o final do filme ( aqueles depoimentos tipo auto-ajuda "a la final de capítulo da novela viver a vida" deve ter sido coisa do produtor ( "imagine um final triste? hoje nos USA? nem pensar..") Eu se fosse o diretor teria terminado o filme com a foto CENA que a Eleonora escolheu para ilustra este POST...

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  2. Sylvia Manzano, em 19 de fevereiro de 2010, às 20:34
    Esquecia de dizer e voltei.
    Achei ótimo que a Eleonora reforçou que o tsunami aqui não passou de marolinha, pq houve um momento que fiquei com medo da Rede Globo, ao saber que uma personagem da novela das 8, VIVER A VIDA, seria uma comentarista política e foi criada pelo Manoel Carlos especialmente pra "descer a pua" no Lula e fomentar a idéia da crise aqui no Brasil.
    Como a grande crise tão desejada pela mídia não aconteceu, a Malu - a personagem que fala de política - acabou tendo que mudar seu discurso, amenizar as notícias e até acalmar os brasileiros, ou seja: o tiro saiu pela culatra.

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  3. Sylvia Manzano, em 19 de fevereiro de 2010, às 12:57
    Que delícia ver alguém da "mídia" chamando o Lula de nosso querido presidente.
    Pois é, ele é o nosso cada vez mais querido presidente.
    Eu assisti esse filme e acho que dá uma certa satisfação ver o George Clooney levando o pé na bunda, com perdão da palavra.
    Aliás, poderia dizer o nosso querido George Clooney, creio eu, pq será que existe alguém que não goste dele?
    Por sinal, não só a tradução do título é boba, como a legenda muitas vezes usa gírias que são nossas, isso sem falar nos filmes dublados, que são um verdadeiro crime de lesa inteligência do cinéfilo.
    Acho um absurdo isso acontecer impunemente.

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