domingo, 30 de dezembro de 2012

A Negociação


“A Negociação”- “The Arbitrage” Estados Unidos, 2012
Direção:Nicholas Jarecki

 Ganância e narcisismo são uma combinação perigosa. Pessoas que possuem essa característica em sua personalidade, geralmente dão um passo maior do que a perna na vida. São onipotentes, não conhecem limites e por isso não avaliam bem a reação das outras pessoas e até mesmo as consequências de suas ações.
No filme “A Negociação”, dirigido e roteirizado pelo estreante Nicholas Jarecki, 33 anos, o bonitão Richard Gere, excelente no papel, incarna o poderoso do mundo das finanças, Robert Miller, com um andar duro, olhos frios e cabeleira branca impecável.
Quando chega em casa, a família o espera com expectativa. Ele é muito ocupado, tem pouco tempo para tudo que não seja ganhar dinheiro mas, naquele dia, ele assopra o bolo de 60 velinhas com a ajuda dos netos. Todos lindos, bem vestidos, elegantes com uma simplicidade cara e encantados com o pai, marido e avô.
A filha (Brit Marling) pergunta depois do jantar:
“- Mas por que você quer vender a empresa, pai? Temos bons lucros...”
“- Para poder ter mais tempo para vocês”, responde ele com cara de santo.
“- Mas para fazer o quê?” retruca a filha inteligente e que conhece bem o pai, já que trabalha com ele.
No quarto, com a mulher Ellen (a oscarizada e ótima Susan Sarandon), bem tratada, alegre mas carente como toda aquela família, ele recebe um convite:
“- Vamos partir por um ano? Uma aventura! Só nós dois? A casa de Ravello... Não usamos nunca...”
Mas ele já está de saída para o escritório. Claro.
E a amante francesa não poderia faltar. Julie (Laeticia Casta) muito mais nova que ele, ganhou uma galeria de arte mas também reclama do pouco tempo juntos:
“- Você nunca vai largar dela, não é mesmo?”
Com o cenário escolhido a dedo, um apartamento em New York com vista para o Central Park, uma família encantadora, uma empresa que aparentemente vai bem, uma bela e jovem amante, por que ele continua se estressando?
Porque ele quer mais, muito mais, sempre.
E quando começam a falar em gerência fraudulenta, parece que vem encrenca por aí. E tudo que pode acontecer, acontece. Inclusive um detetive incansável atrás dele (o sempre convincente Tim Roth).
O filme “A Negociação” distrai pela história que tem reviravoltas e agrada pelo elenco que Jarecki conseguiu reunir e sabe dirigir, dando ritmo ao enredo.
Não se trata de um filme inesquecível? Mas também não é um “blockbuster” sem cérebro. Vale o preço do ingresso.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Impossível



“O Impossível”- “Lo Impossible” Espanha, 2012
Direção: Juan Antonio Bayona

Tudo convidava à felicidade das férias, em um dos lugares mais bonitos do planeta, a ilha de Pukhet na Tailândia.
A família Bennet, depois de um voo vindo do Japão, onde moravam, chega ao paraíso, um resort na Orchid Beach. Águas turquesa, areia branca e um sol luminoso
acolhem a mãe Maria (Naomi Watts), o pai Henry (Ewan McGregor) e seus três filhos, Lucas de 12 anos (Tom Holland), Thomas de 7 (Samuel Joslin) e Simon de 5 (Oaklee Pendergast).
Tinham vindo passar os feriados do Natal.
Por ironia do destino, a suíte do 4º andar que os teria salvado do pior, foi substituída, na última hora, por uma suíte à beira-mar, de onde se viam palmeiras e um mar azul.
Estavam todos animados com o “up grade” e o Natal foi feliz. Não sabiam o que os esperava...
Ficamos com o coração apertado pois sabemos o que vai acontecer. E quando vem, sem aviso, surge a impotência do ser humano frente à força implacável da natureza. Não dá para esboçar um gesto. Só se encolher como Maria faz.
A força de vida do ser humano que o faz sobreviver, apesar das adversidades, é espantosa. Belíssima a cena em que Maria, atingida pelos detritos de toda sorte, quando é tragada pela onda do tsunami, desfalece, seu corpo flutua e, em câmara lentíssima vemos seu braço que rasga a água e faz acontecer o encontro com o ar abençoado, seu corpo vencendo a morte e tragando a vida, numa respiração vitalizante,
Todo mundo viu fotos, filmes na TV, ouviu depoimentos dos sobreviventes mas nada como o cinema para nos
colocar em lugares onde nunca estivemos e sentirmos
o que os outros sentiram. Quando o roteiro, a atuação, os efeitos especiais são de primeira linha, como em “O Impossível”, passamos todos pelo horror que foi o tsunami de 2004, que matou milhares de pessoas, um dia depois do Natal.
Vestimos a pele daqueles que passaram pelo terror e morreram (cerca de 300.000) e sofremos com os sobreviventes, separados de suas famílias e vagando desesperados entre os destroços do paraíso.
Naomi Watts está de arrepiar como a médica despreocupada, em férias, que se transforma na mãe sofrida e tão mais próxima do filho mais velho, que a ajuda a vencer com coragem a batalha pela sobrevivência. Foi indicada para melhor atriz em todos os prêmios que já foram anunciados. O jovem Tom Holland também está perfeito no papel.

O impossível aconteceu. E Maria Belón, espanhola, escreveu um livro contando essa história de pesadelo que passou na Tailândia com sua família e que foi adaptada para o cinema.
“O Impossível” não é um filme em que o desastre é o ator principal. Aqui, a câmara foca em planos abertos a primeira e a segunda onda e os destroços em que se transformou aquele pedaço de paraíso. Mas não é o principal. O diretor Bayona prioriza os rostos feridos, as pernas trôpegas, os olhares cansados , o trauma vivido naquela manhã.
Mostra o ser humano em uma situação de exceção. Vemos gestos egoístas e solidariedade, a emoção do reencontro e as lágrimas da perda dos seres queridos.
“O Impossível” é um belo e terrível filme sobre o imprevisível.

domingo, 23 de dezembro de 2012

As Aventuras de Pi




“As Aventuras de Pi”- “Life of Pi” China, Estados Unidos, 2012
Direção:Ang Lee

Todo mundo gosta de ouvir histórias, desde criança. Elas ficam na nossa cabeça e inspiram outras histórias. É o destino delas.
Mas quando quiseram fazer um filme com “As Aventuras de Pi”, algo estranho aconteceu. Muitos diretores tentaram fazer esse filme mas desistiram. Parecia que a história imaginada pelo brasileiro Moacyr Scliar, “Max e os Felinos”, e que inspirou Yann Martel para escrever o livro “As Aventuras de Pi”, era impossível de ser posta em imagens. Muito filosófica...
A história precisava de um mestre em imaginação e soluções mágicas. E ele apareceu.
Ang Lee, nascido em Taiwan e radicado nos Estados Unidos, o cineasta de 58 anos que já fez cowboys se amarem, apaixonou-se por essa história e criou para ela um mar que reflete nuvens e se mistura com o céu e à noite brilha à luz de plânctons e peixes fosforescentes.
Dentro de um bote, depois de um naufrágio no qual perdeu toda a família, um garoto indiano tem um tigre como companheiro de viagem. Mas como foi difícil chegar nesse ponto...
Essa história simples inspira muitas reflexões. Quanto alguém precisa sofrer para desacreditar de tudo, de sua fé, de sua esperança, de sua vontade de viver? Um animal selvagem pode ser um desafio e transformar-se em um estímulo? Quanto amor próprio é necessário para alguém não abandonar-se à própria sorte? Ou é tudo uma metáfora sobre a culpa e de como nos fazemos mal, até domá-la com carinho e aceitar a vida como ela é? E assim por diante. Cada um vai fazer uma pergunta diferente.
No bote, os dias são longos e quando o mar é um lago, Pi e o tigre satisfazem parcamente suas necessidades básicas com peixes e água da chuva. Mas, frente ao mar revolto, de ondas assassinas, Pi e o tigre Richard Parker estão entregues à fúria do vento, raios e trovões de uma tempestade que os coloca à mercê da natureza. Trocam olhares assustados e se viram como podem. Estão juntos, iguais, o menino e o tigre com nome de gente.
Ang Lee, o brilhante diretor que já ganhou um Oscar com “O Segredo de Brokeback Mountain” e outro de melhor filme estrangeiro com “O Tigre e o Dragão”, usa o roteiro perfeito de Yann Martel e a fotografia de Claudio Miranda para nos fascinar com imagens de sonho.
É tudo digitalização e cenas em estúdio? Não importa. Ang Lee captura os nossos sentidos e cria surpresa e encanto. Usado com naturalidade, o 3D não é muito notado porque faz parte de um mundo criado pelo diretor.
A trilha sonora de Mychael Danna ressoa os sentimentos que se passam no coração de Pi e nos embala na magia das cenas que se sucedem, uma mais linda que a outra.
Shuraj Sharma interpreta o menino Pi com uma naturalidade que só um novato conseguiria, pensou acertadamente o diretor, ao escolhê-lo dentre os 3.000 candidatos. E é só ele e o tigre a maior parte do tempo,
vivendo uma história que nos prende a atenção e nos faz torcer por um final feliz.
“As Aventuras de Pi” é um filme para crianças e adultos.
Entreguem-se de corpo e alma à essa obra-prima, sem medo de errar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Viúvas

“Viúvas”- Viudas” Argentina, 2011
Direção: Marcos Carnevale

O diretor argentino de “Elsa e Fred” (2005),sucesso de público e crítica, continua a se interessar pela alma humana e seus meandros. Se, no filme dos velhinhos e seu caso de amor, havia uma homenagem explícita a Fellini e ao universo criado por esse grande cineasta, Marcos Carnevale parece que agora homenageia Almodóvar, nessa história tragicômica de traição, paixão e amizade entre duas mulheres que nada tem em comum, a não ser o amor que sentiram pelo mesmo homem.
Elena, mulher madura, interpretada com talento pela atriz Graciela Borges, é uma cineasta que está dirigindo um documentário sobre as mulheres e o amor, quando recebe a notícia de que o marido Augusto (Mario José Paz) sofrera um infarto e está no hospital. E lá, escuta, dividida entre o amor e o ódio, o último pedido do marido agonizante:
“- Cuida dela...”
“-Como?”
“- Ela não tem ninguém. Não vai aguentar sozinha.”
“- Como pode me pedir isto, Augusto?”
Mas Augusto fecha os olhos para sempre.
Bem que Elena havia notado aquela mocinha vestida numa capa curta, chorando pelos cantos do hospital. O médico havia até se confundido, pensando que ela era sua filha.
Mas no dia do enterro, fica patente que Adela (Valeria Bertucelli), a mocinha, não iria desaparecer tão cedo de sua vida. A imagem viva da traição de Augusto leva flores para Elena e parece totalmente desamparada, sentada nos degraus da capela tumular.
E Carnevale faz então, um desfile de tipos almodovarianos em torno à viúva Elena.
Assim, Esther, a amiga gorda que trabalha com Elena e quer tirar a moça Adela da cabeça da amiga, pondo panos quentes na situação.
Depois a cadela Maggy, adorada por Augusto, para desconforto maior de Elena, jaz pelo chão do apartamento desconsolada e cheia de coceiras.
Por fim a empregada Justina (Martin Bassi), um travesti com pendor para a tragédia, que não pode ser despedida porque parece que conhece segredos da vida de Augusto. Quando quer falar mal de Elena em frente a ela, usa a língua guarani.
Para cúmulo dadesgraça de Elena, Adeladeprimida tenta o suicídio. Mas as provações da viúva não terminam aí.
Esse roteiro sobre as duas viúvas, escrito por Carnevale e Bernarda Pages, tem situações que poderiam ser melhor exploradas. Os sentimentos ambiguos de Elena e Adela mereciam ter sido aprofundados.
Mas a trama prende o espectador e, se não chega a emocionar, também não decepciona.
Não é sempre que o cinema argentino atinge a genialidade. Carnavale não repete aqui o toque de mestre de “Elsa e Fred”. Mas consegue entreter, com ótimos atores.

Azul Profundo


“Azul Profundo”- “Apnoia” Grécia, 2010
Direção: Aris Bafalouka



A Grécia foi o berço da civilização ocidental e teve seu apogeu no século V AC. A filosofia, a matemática, a poesia, o teatro e as artes em geral floresceram em solo grego.
Hoje, o país passa por uma crise financeira asfixiante. O que foi que aconteceu no meio do caminho? Os gregos, tão bons pensadores, navegadores e pescadores, perderam o rumo?
No filme grego “Apnoia” que quer dizer apneia, sem ar, as cores e os tons escuros escolhidos pelo diretor Aris Bafalouka, um ex-campeão de natação, lembra o tempo todo essa decepção, essa falta de ar de que sofrem os gregos nos tempos que correm.
Dimitri (Sotiris Patras), que é o nadador que treina sem parar naquela piscina, tem em casa um pai que não consegue pagar as suas dívidas:
“-Não conte nada para a sua mãe. Ela nunca quis que pegássemos um empréstimo no Banco...”
O rapaz tem um patrocinador que paga pouco e por isso mal dá para ajudar em casa mas se prepara para uma competição.
“- Nadar é a única coisa que eu sei fazer bem.”
Dimitri é um jovem tímido, que não parece se dar bem com os outros, fechado. É na piscina e, principalmente no fundo dela, onde consegue ficar sem respirar por mais de cinco minutos, como os golfinhos, que é o mundo autista onde ele melhor vive.
A namorada Elsa (Youlikas Skafida), que é militante ambiental, pesquisa com um grupo, o que acontece com os golfinhos, que são mortos por envenenamento pelos detritos tóxicos jogados no mar.
Elsa, extrovertida, tenta estimular Dimitri a soltar-se mais mas ele não responde bem a isso. Eles se conheceram na piscina, onde Dimitri dava aulas a Elsa para aumentar sua capacidade respiratória e sua técnica de natação, para melhorar sua atuação nas expedições de pesquisa ambientalista.
Por ironia do destino, ela se intoxica durante essas buscas por detritos tóxicos.
E, desaparece numa missão do grupo em uma praia longínqua. O filme vai e vem entre a piscina e a busca por Elsa, na qual Dimitri participa.
“Apnoia” que foi traduzido por “Azul Profundo”, tem suas mais belas cenas no sonho recorrente de Dimitri, que se vê flutuando como um corpo sem vida, na transparência azul escuro do fundo do mar.
Que ninguém espere por águas azul turquesa e o sol salgado das ilhas gregas em seu eterno esplendor em “Azul Profundo”. Esse é um filme sóbrio, de uma beleza sombria, triste, que combina com os tempos atuais da Grécia. Se bem que, no final, uma luz aponta para uma esperança de sair desse sufoco.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Liv e Ingmar - Uma História de Amor

“Liv e Ingmar- Uma História de Amor”- “Liv & Ingmar” Noruega, 2012 
Direção:Dheeraj Akolkar

Quando o filme começa, vemos um jovem Ingmar Bergman (1918-2007) dirigindo uma cena de um de seus filmes:
“- Silêncio, por favor, rodando.”
Aparece na tela:
“Esta é a história de cinco décadas, sobre dois amigos. Uma atriz lendária e um mestre da cinematografia.”
E o nosso envolvimento começa a crescer, a ponto de querer que algumas imagens congelem na tela para poder desfrutar da beleza e da intensidade que passam.
Porque “Liv e Ingmar” não é um simples documentário. É a história afetiva de uma relação que cria arte quando imita a vida.
No litoral da Suécia, a casa na ilha de Faro, moradia do casal durante os cinco anos de seu casamento, se oferece à câmara que vem do exterior e entra por uma janela. Lá dentro, quietude, simplicidade e conforto nas madeiras e couros do mobiliário. A memória se espalha pelas fotos do casal nas paredes.
Acontece o primeiro close do rosto de Liv Ullmann, 74 anos, envelhecido e belo, onde brilham olhos de um azul raro. Ela conta:
“- Eu tenho tantas lembranças da ilha... Lá eu atuei, dirigi filmes, meus melhores amigos estão enterrados lá. Por um tempo, foi a minha casa. E lá encontrei Ingmar. Ele mudou a minha vida.”
Com amor e humor, Liv Ullmann revê sua vida diante da câmara de Dheeraj Akolkar, diretor indiano radicado em Londres, durante dois dias. Ele acrescentou à essa entrevista excepcional, trechos dos filmes de Bergman que fazem uma ponte com o que Liv conta e partes do livro dela, “Changings”.
Ficamos íntimos do casal, graças à generosidade com que Liv fala de sentimentos, descobertas e mudanças internas que experimentou na casa da ilha de Faro.
Ela, com 26 anos, apaixonou-se por ele, com 46 anos, durante a filmagem de “Persona” de1966. E, no desenrolar cronológico do documentário, Liv visita tópicos do seu relacionamento com Bergman. Amor é o primeiro:
“- Era como se eu estivesse vivendo entre paredes macias. Nenhum verão jamais foi igual a aquele...”
As cartas de Ingmar para ela são lidas por uma voz emocionada (Samuel Froler):
“-Por favor, fique comigo. Me abrace e me prenda em sua feminilidade e carinho.”
E Liv diz:
“- Eu precisava de carinho e ele de uma mãe que o amasse sem complicação. Sua fome de convivência era enorme.”
E ela conta do sonho que ele teve com ela, onde estavam “conectados dolorosamente”. E nesse lugar da ilha, onde ele contou o sonho para ela, foi construída a casa.
E outros sentimentos aparecem descrevendo essa história de amor: solidão, raiva, ciúmes, dor.
Tiveram uma filha mas se separaram:
“- O que eu levei embora comigo não foi a beleza da ilha. Parti com a solidão na minha mala e com o sentimento de que algo em mim mudara para sempre”.
Mas a palavra “longing”, traduzida por saudade, aparece na tela negra. E amizade é o tópico seguinte:
“- Durante um tempo estivemos conectados dolorosamente. Mas só quando terminou é que nos tornamos amigos de verdade”.
E quando a câmara mostra as cartas dele, com corações vermelhos, testemunhamos o lado macio da personalidade dele.
O “diário” dos dois, corações pintados na porta branca e que ele refazia até a sua morte em 2007, é o pano de fundo para Liv contar o que Ingmar lhe disse a respeito do sucesso dos filmes dele:
“- Tem a ver com você também. Você é o meu Stradivarius.”
E com os olhos brilhando confessa que foi o maior elogio que ouviu em sua vida.
E os olhos de Liv brilham porque uma história como a deles é para sempre.
Na plateia, estamos mudos e comovidos. Porque quanto mais íntimo, mais universal é o sentimento.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Outro Passo para o Oscar - indicações para o Globo de Ouro


Outro Passo para o Oscar –
as indicações para “O Globo de Ouro”


Ontem, em Los Angeles, saíram as indicações para os concorrentes ao prêmio Globo de Ouro, muito prestigiado, pela mesma razão da lista do “SAG Awards”. Figurar nessas listas aumenta a chance para ganhar o Oscar tão cobiçado porque o premiado com o Oscar muitas vezes coincide com os indicados para esses outros prêmios.
A 70ª edição do Globo de Ouro será dia 13 de janeiro. O prêmio é votado por cerca de 100 jornalistas estrangeiros que trabalham em Hollywood e tem a segunda maior audiência na TV dentre os programas dedicados aos prêmios do cinema.
Enquanto ao lista do sindicato dos atores, prêmio SAG, destacou “Argo” de Bem Affleck e “Lincoln” de Steve Spielberg, o Globo de Ouro deu maior número de indicações a “Lincon” e “Django Livre” de Quentin Tarantino, esquecido pelo sindicato.
Tido como o favorito, Steven Spielberg e seu filme “Lincoln” receberam um total de 13 indicações, um recorde, para outro prêmio, o “Critics’Coice Award”, outrobom sinalizador para o Oscar.
Dos filmes indicados para prêmios no Globo de Ouro, só passaram por enquanto no Brasil, “Argo”, “O Exótico Hotel Marigold” e “Amor Impossivel”. Tem estreias prometidas para o início do ano “Os Miseráveis”, dirigido por Tom Hooper e já em dezembro, “As Aventuras de Pi” de Ang Lee, que tem um trailler belíssimo passando nos cinemas de São Paulo.
Abaixo a lista completa:
Melhor filme (drama):
Argo (Ben Affleck) – Django Livre (Quentin Tarantino) – As Aventuras de Pi (Ang Lee) – Lincoln (Steven Spielberg) – A Hora Mais Escura (Kathryn Bigellow)
Melhor filme (comédia/musical):
O Exótico Hotel Marigold (John Madden)– Os Miseráveis (Tom Hooper) – Moonrise Kingdom (Wes Anderson) – Amor Impossivel (Lasse Hallstrom) – O Lado Bom da Vida (David O. Russell)
Melhor Ator (drama):
Daniel Day Lewis (Lincoln) – Richard Gere (A Negociação) – John Hawkes (As Sessões) – Joaquin Phoenix (O Mestre) – Denzel Washington (O Voo)
Melhor Atriz (drama):
Jessica Chastain (A Hora Mais Escura) – Marion Cotillard (Ferrugem e Ossos) – Helen Mirren (O Impossível) – Rachel Weisz (The Deep Blue Sea)
Melhor Ator (comédia/musical):
Jack Black (Bernie) – Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida) – Hugh Jackman (Os Miseráveis) – Ewan McGregor (Amor Impossivel) – Bill Murray (Um final de Semana em Hyde Park)
Melhor Atriz (comédia/musical):
Emily Blunt (Amor Impossivel) – Judi Dench (O Exótico Hotel Marigold) – Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida) – Maggie Smith (Quartet) – Meryl Streep (Um Divã para Dois)
Melhor Ator Coadjuvante:
Alan Arkin (Argo) – Leonardo DiCaprio (Django Livre) – Philip Seymour Hoffman (O Mestre) – Tommy Lee Jones (Lincoln) – Christoph Waltz ( Django Livre)
Melhor Atriz Coadjuvante:
Amy Adams (O Mestre) – Sally Field (Lincoln) – Anne Hathaway ( Os Miseráveis) – Helen Hunt (As Sessões) – Nicole Kidman (Paperboy)
Melhor Diretor:
Ben Affleck (Argo) – Kathryn Bigelow (A Hora Mais Escura) – Ang Lee (As aventuras de Pi) – Steven Spielberg (Lincoln) – Quentin Tarantino (Django Livre)
Melhor Roteiro:
Mark Boal (A Hora Mais Escura) – Tony Kushne (Lincoln) – David O. Russell (O Lado Bom da Vida) – Chris Terrio (Argo) – Quentin Tarantino (Django Livre)
Melhor Filme em Lingua Estrangeira:
Amour (Austria) – A Royal Affair (Dinamarca) – Intocáveis (França) – Kon-Tiki (Noruega, Reino Unido, Dinamarca) – Ferrugem e Ossos (França)
Melhor Longa de Animação:
Valente – A Origem dos Guardiões – Frankenweenie – Detona Ralph – Hotel Transilvania
Melhor Trilha Sonora Original:
Mychael Danna (As Aventuras de Pi) – Alexandre Desplat (Argo) – Dario Marianelli (Anna Karenina) – Tom Tikwer (A Viagem) – John Willians (Lincoln)
Melhor Canção Original:
“For You” (Ato de Coragem) – “Not Running anymore” (Stand Up Guys) – “Skyfall” (007- Operação Skyfall) – “Suddenly” (Os Miseráveis)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Primeiro Passo para o Oscar - são indicados os candidatos dos prêmios do "Actors Guild




Primeiro Passo para o Oscar-
São indicados os candidatos
aos prêmios do "Actors Guild"


O sindicato dos atores acaba de divulgar sua lista anual de vinte atores, indicados para ganhar os prêmios de 2013, o “SAG AWARDS”.
Por que é tão importante para o Oscar essa lista?
Para vocês terem uma ideia, há três anos atrás, dezenove dos vinte indicados, também apareceram na lista do Oscar. No ano passado, foram dezessete coincidências. Então, fica todo mundo de olho nesses atores indicados pelo sindicato, como se essa lista fosse um pré-Oscar.
E o mais importante dessas indicações é que, aqueles que votam, são os atores e atrizes de Hollywood, os mesmos que também votam em várias categorias no Oscar e não os jornalistas como acontece com “O Globo de Ouro”.
A cerimônia vai acontecer em Los Angeles no dia 27 de janeiro próximo.
Vamos então à lista.
Melhor elenco –
“Argo”, dirigido por Bem Affleck e que vimos aqui no Brasil, “Lincoln”, “O Lado Bom da Vida – Silver Linings Playbook”, “Os Miseráveis” que estreia por aqui no começo de fevereiro e o inglês “O Exótico Hotel Marigold” que também já passou em São Paulo.

Melhor Ator –
Daniel Day-Lewis aparece como o favorito nas apostas por “Lincoln”, Bradley Cooper aparece com “O Lado Bom da Vida – Silver Linings Playbook”, John Hawkes por “The Sessions”, Hugh Jackman por “Os Miseráveis”, que vai estrear no Brasil no começo de fevereiro e Denzel Washington por “Flight”.

Melhor Atriz –
Jessica Chastain, indicada ao Oscar o ano passado, por “Zero Dark Thyrty”, Marion Cotillard pelo maravilhoso “Rust and Bones”, Jennifer Lawrence por “O Lado Bom da Vida – Silver Linings Playbook”, Helen Mirren (Oscar por “A Rainha”) agora em “Hitchcock” e Naomi Watts por “The Impossible”.

Melhor Ator Coadjuvante –
Alan Arkin por sua interpretação brilhante em “Argo”, Javier Bardem pelo vilão imbatível que ele interpretou em “007- Operação Skyfall”, Robert de Niro por “O Lado Bom da Vida – Silver Linings Playbook”, Seymour Hoffman por “The Master”e Tommy Lee Jones também por “The Master”.

Melhor Atriz Coadjuvante –
Anne Hathaway é a favorita por sua Fantine em “Os Miseráveis”, Sally Field por “Lincoln”, Helen Hunt por “The Sessions”, Nicole Kidman por “Paperboy”e Maggie Smith pela deliciosa aposentada que vai para a India em “O Exótico Hotel Marigold”.
No Brasil vimos “Argo”, “007- Operação Skyfall” e “O Exótico Hotel Marigold”. Vamos torcer para que a distribuição de todos esses filmes aconteça antes da cerimônia do Oscar, que será em 24 de fevereiro em Los Angeles.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Infância Clandestina


“Infância Clandestina”- Idem, Argentina/ Brasil /Espanha, 2011
Direção:Benjamin Ávila

Um menino de onze anos volta a seu país, a Argentina, em 1979, pela mão de brasileiros. Vemos a travessia de um rio e a passagem por barreiras na fronteira Brasil- Argentina. Ele, que nasceu Juan, por causa de Perón, agora vai se chamar Ernesto, por causa de Che Guevara.
O pai desenha para ele todos os disfarces que o Che usou e diz, antes de fazê-lo passar pela fronteira, com um novo passaporte:
“- Agora são as suas aventuras. Você vai se chamar Ernesto.”
O casal de “montoneros”, idealistas políticos que querem acabar com a ditadura militar cruel que assola a Argentina (de 1976 a 1983), volta ao país natal na clandestinidade, depois de se exilar em Cuba e no Brasil. Horácio (Cesar Troncoso) e Cristina (a uruguaia Natalia Oreiro), mais a bebê Vicky e o menino de 11 anos, agora Ernesto (o maravilhoso ator mirim, Teo Gutiérrez), vão tentar viver uma vida dupla em um vilarejo, onde, com o irmão de Horácio, tio Beto, irão se refugiar atrás de uma fabriqueta de amendoim com chocolate, enquanto levam avante seu plano de derrubar a ditadura, junto a outros “montoneros”.
O diretor Benjamin Ávila, avisa, desde o início, que o filme é baseado em fatos reais. Mais que reais, autobiográficos, já que o diretor viveu, qual o menino do filme, situações de crianças que tem os pais na luta armada.
E “Infância Clandestina” é o ponto de vista infantil sobre o mundo dos adultos. A câmara chega muito perto. Íntima, focaliza olhos, boca e ouvidos de Juan/ Ernesto, que, aos 11 anos, está numa idade em que começa a se posicionar frente ao mundo à sua volta. Espreita, quer saber o que se passa.
O país e a bandeira amada azul e branca, sem o sol dos militares, da guerra, já significam muito para ele. Mas e o amor?
Ainda muito ligado à mãe, bonita e carinhosa, testemunha encantado o seu canto, acompanhado-se ao violão ( a atriz Natalia Oreiro é também cantora), com os companheiros num churrasco. E, no parque, faz a ela perguntas sobre o amor dela pelo pai, muito próximos e amando as brincadeiras que ela faz.
Mas é o tio Beto que vai entender que Ernesto estava vivendo seu primeiro amor, com uma coleguinha de escola, Maria, graciosa ginasta olímpica. Seus conselhos de como tratar as “minas”, meninas, tem para o menino o sabor de uma conversa que jamais poderia ter com o pai, tímido e intimidante, apesar de prezar muito a família.
“Infância Clandestina” tem uma posição política corajosa quando retrata o movimento que foi totalmente dizimado pelos militares que estavam no poder. Mas não esquece o que se passava no íntimo do menino que começava a vida de adolescente. E não faz vista grossa frente aos sofrimentos que esse tipo de criança passa.
O uso do recurso aos quadrinhos em algumas passagens mais violentas, é uma originalidade de “Infância Clandestina”, que remete ao que é vivido pela criança e que se torna depois uma lembrança afetiva indelével.
Benjamin Ávila escreveu o roteiro com o brasileiro Marcelo Muller e escolheu muito bem o elenco do filme, premiado já em alguns festivais por onde passou. Aliás, o filme foi indicado pela Argentina, para representar o país no Oscar de melhor filme estrangeiro, no ano que vem.
Intimista, delicado e corajoso, “Infância Clandestina” emociona e faz pensar em como os adultos fazem sofrer a crianças, com a vida egoísta que levam, sejam militantes políticos ou não.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Na Terra de Amor e Ódio




“Na Terra de Amor e Ódio”- “In the Land of Blood and Honey” Estados Unidos, 2011
Direção: Angelina Jolie


Angelina Jolie é daquelas raras mulheres que tem tudo. Boa atriz, linda, rica, bem amada e generosa, ela também é inteligente, sensível e tem espírito humanitário. Essa mulher invejada se compadece dos que sofrem.
Seu primeiro longa, escrito, dirigido e produzido por ela, “Na Terra de Amor e Ódio”, é surpreendente e corajoso. Conta a história de um romance que acontece no cenário de uma das mais terríveis guerras do século XX. A guerra da Bósnia, que começou em 1992 e foi até final de 1995, é considerada o mais mortal conflito na Europa desde a Segunda Guerra.
Os números dessa guerra são impressionantes. Entre 100.000 e 110.000 pessoas foram mortas. Mais de 2.5 milhões tornaram-se refugiados porque um em cada dois bósnios foi obrigado a abandonar a sua casa. Durante a guerra 50.000 mulheres bósnias foram violentadas, o que levou a violência sexual a ser considerada um crime contra a humanidade, pela primeira vez no direito internacional. O cerco a Sarajevo foi o mais longo da história moderna.
Por três anos e meio, a comunidade internacional deixou de intervir e acabar com a guerra. Havia uma discussão sobre se era uma guerra civil ou internacional.
E pensar que antes dessa guerra cruenta, a República da Bósnia- Herzegovinia fazia parte de um dos países mais diversificados do ponto de vista étnico e religioso de toda a Europa, a Iugoslávia. Lá, viviam em harmonia, muçulmanos, sérvios e croatas.
Mas a guerra, insuflada pelos países vizinhos da Bósnia, a Sérvia e a Croácia, depois da declaração de sua independência em 1992, fez aflorar os piores instintos nos homens. Depois da guerra, nas negociações de paz, a CIA considerou as forças do exército sérvio como responsável por 90% dos crimes cometidos durante o conflito.
Angelina Jolie começa a contar a história de seus personagens um pouco antes da guerra. Num bar, a bela morena muçulmana Ayla, que é pintora, se encontra com Danijel, filho de um general sérvio. Flertam, dançam e cantam alegres, até que o estrondo de uma bomba introduz o horror, a morte e o sangue na vida de todos.
A partir daí o romance deles vai enfrentar obstáculos insuportáveis. Ela é levada, com outras mulheres, como prisioneira, para servir de escrava sexual no quartel das forças sérvias. Danijel tenta protegê-la mas o ódio antigo dos sérvios aos muçulmanos vai selar o destino daquele amor.
Angelina Jolie filmou na Hungria e na Bósnia- Herzegovinia. “Na Terra de Amor e Ódio” é falado em servo-croata e os ótimos atores são todos nascidos na região, inclusive o par principal formado por Zana Marganovic e Goran Kostic.
A fotografia é austera e a música é usada de maneira sensível e comedida. Gabriel Yared, o compositor e pianista, pontua cenas com temas minimalistas.
A diretora e roteirista foi indicada ao Globo de Ouro no ano passado e apresentou seu filme no Festival de Berlim. Diz ela:
“- Esse filme poderia ser sobre qualquer guerra... mas escolhi esse conflito por ser muito recente e ainda não totalmente compreendido.”
“Na Terra de Amor e Ódio” é um alerta sobre o rancor e a vontade de dominar com crueldade aqueles que são considerados os inimigos que, de tempos em tempos, desperta no coração dos homens.
Sensível e dramático na medida certa.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Holy Motors





“Holy Motors”- Idem Alemanha/França 2012
Direção:Leos Carax

À falta de quem nos conte histórias, como nossas mães e avós fizeram na infância, vamos ao cinema, alimentar nossas mentes que precisam de relatos fantásticos e mesmo quotidianos, para funcionar e viver. O cinema é como um sonho que alimenta outros sonhos.
A primeira impressão de “Holy Motors”, na volta de Leos Carax à telona, é que ele confirma o que eu digo: o cinema é essencial para nós humanos. Podemos até ampliar a homenagem que ele faz ao cinema e incluir todas as artes cênicas, o “faz de conta” de que precisamos tanto.
Por isso, em “Holy Motors”, o ator Denis Lavant, o preferido do diretor, transforma o interior da limusine branca na qual se desloca por Paris, em camarim. Lá, como Oscar, ele se prepara e se caracteriza para os personagens que vai viver, seguindo roteiros que são fornecidos a ele pela motorista Céline.
Tudo começa com um homem que acorda e, com uma chave, abre uma porta numa floresta de árvores pintadas na parede de seu quarto. Ele entra numa sala de projeção e aí começam suas aventuras, sua loucura, seus sonhos, suas realizações de desejos infantis. Mas pouco importa o nome do que ele passa a viver. Estamos todos seguros naquele lusco-fusco da sala de cinema. Olhamos e participamos.
Assim, Oscar transforma-se primeiro no milionário da limusine e logo depois na velha mendiga que diz:
“- Ninguém gosta de mim... Mas continuo vivendo. Tenho medo de não morrer nunca...”
Depois vem o estranho mergulhador fosforecente que dança uma cópula sensual com uma mulher de vermelho (Eva Mendes) e longo rabo de cavalo. Parecem dois moluscos no fundo do mar.
Ao ler o terceiro dossiê, Oscar coloca barba postiça, um olho cego, unhas longas. Mas há uma pausa para ele comer com palitos chineses.
Sai da limo vestido de verde e entra num bueiro que vai dar no cemitério, onde os corvos grasnam e ele come as flores que recolhe nos túmulos, que convidam em suas lápides a visitar o site. Humor negro.
E assim vai o filme. Nonsense, surrealismo, caos, decadência, graça, morte, bizarrice, fantasia. Cenários construídos por uma mente que não se policia. E Paris iluminada nunca foi tão bela.
Às tantas, ele diz para a chofer da limusine, após cantarolar “My Way”:
“- Logo será meia noite.”
“- Nós precisamos rir antes”, responde ela.
E a piada mais conhecida do cinema é encenada:
“- Siga aquele táxi!”
Mas a vida é sempre curta para um desejar que nunca acaba.
Como entender “Holy Motors”?
O próprio Carax disse em uma entrevista no Rio que cada um precisa decodificar o filme com base em seu próprio repertório, com a sua imaginação.
Em tempos de espectadores preguiçosos que querem tudo mastigado, pronto para ser esquecido, o filme de Leos Carax pode causar indigestão.
Mas não para aqueles que gostam de sonhar de olhos abertos. Para esses, “Holy Motors” é um alimento raro e bem-vindo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

As Palavras

“As Palavras”- “The Words”, Estados Unidos 2012
Direção:Brian Klugman e Lee Sternthal

Se há algo que fascina no filme “As Palavras” é o fato de nos darmos conta de que a ficção e a realidade, na literatura, tem limites tênues. Quando um escritor escreve um livro, quanto de auto-biográfico ele é? Alguém consegue escrever sobre algo que não viveu?
No filme, um escritor (Dennis Quaid) prepara-se, nas primeiras cenas, para uma leitura de trechos escolhidos de seu novo livro “As Palavras”.
Ele começa a ler para uma plateia lotada de admiradores, como é costume nos Estados Unidos e na tela vemos os personagens vivendo os fatos da história que ele lê.
Assim, um jovem escritor, Rory Jansen (Bradley Cooper) e sua bela esposa (Zoe Saldana) entram em uma limusine. Ela feliz, mas percebe-se que algo o incomoda. E isso é estranho porque seus olhos estão longe de espelhar um orgulho natural por ter sido agraciado com um prêmio de literatura.
Súbitamente, um outro personagem entra na história. Um homem envelhecido (Jeremy Irons, como sempre soberbo), mal vestido, barba, chapéu que conheceu dias melhores e uma capa de chuva, com um semblante fechado, parece espreitar a saída do escritor Rory Jansen na limusine.
O escritor continua a leitura de seu livro em “off” e há uma frase intrigante que diz que aquele homem da capa de chuva antiquada chegava para mudar tudo na vida do escritor Rory Jansen.
A história que é lida para a plateia traz dois escritores, o jovem e o velho, e um romance perdido, e não publicado, entre eles.
E nós nos perguntamos coisas como de onde vem a inspiração para se escrever uma obra prima? A vida vale mais que as palavras que um escritor busca para descrevê-la? Vale mentir para se tornar um escritor famoso?
Talvez a melhor frase do filme e, claro, do livro que o escritor lê para sua plateia, seja a dita pelo velho senhor da capa de chuva:
“- Minha tragédia foi ter amado mais as palavras do que a mulher que as inspirou...”
Há três casais que se amam e enfrentam dificuldades em épocas diferentes. O soldado americano em Paris no pós-guerra e Célia, a francesa. O jovem escritor Rory Jansen e sua mulher Dora, em lua de mel em Paris, ganha de presente uma pasta antiga. E o escritor que leu seu livro para a plateia, Clay, que é seguido por Daniella, até seu apartamento chic e sem alma em Nova Iorque.
Quantos escritores de verdade existem nesse filme? São três, dois ou um só que imaginou tudo isso?
Ficamos com as nossas próprias conjecturas porque Clay, o leitor de seu livro, responde vagamente:
“- Talvez...Talvez...”, a todas as perguntas de Daniella que está curiosa.
Os roteiristas e diretores estreantes Brian Klugman e Lee Sternthal criaram uma história sobre escritores e literatura que, contada através do cinema, adquire um toque original. Afinal, ninguém vai poder ler o livro que está no livro que narra as aventuras de um original inédito, que é uma obra de arte...
Ficam as perguntas a ser respondidas por quem for ver o filme, principalmente aqueles que gostam de escrever.