segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Viagem de Fanny


“A Viagem de Fanny”- “Le Voyage de Fanny”,França, Bélgica, 2016
Direção: Lola Doillon

As crianças são sempre as que mais sofrem nas guerras. Perdem os pais ou se separam deles, encontram-se em mãos de estranhos e, mais que tudo, não entendem direito o que está acontecendo.
Em 1943, em meio à Segunda Guerra, na França sob ocupação alemã, famílias judias deixavam seus filhos em internatos, onde achavam que eles estavam mais protegidos. Acima de tudo, ninguém podia saber que eram crianças judias.
Essa é a história real de Fanny Ben-Ami que, quando tinha 12 anos, precisou deixar a escola em Megève, na França e seguir para a Suiça com outras crianças, inclusive suas duas irmãs menores. O país estava nas mãos dos nazistas e os judeus eram delatados e perseguidos.
Tudo era perigoso. Pessoas eram presas por desconfiarem que elas poderiam ser judias. Franceses colaboracionistas se aliavam aos alemães. O que pensar de crianças pequenas, com papéis falsos, que tinham que decorar seus novos nomes e, principalmente, negar que fossem judeus?
É comovente a ingenuidade da irmã menor de Fanny que pergunta a uma certa altura:
“- Mas se ser judeu é ruim por que somos judeus? ”
Uma criança pequena não consegue perceber a maldade e o preconceito por trás do racismo, da inveja ou da mera estupidez, que conduz homens a perseguir outros, seus semelhantes.
Por causa de uma série de contratempos, Fanny (na bela interpretação de Léonie Souchaud) torna-se a responsável pelo grupo, que passa os maiores perigos a caminho da fronteira suíça. Ela é obrigada a amadurecer para tomar decisões das quais dependia a vida de todos.
A originalidade desse filme é não apenas contar a história pelos olhos das crianças mas também deixar ver como elas precisavam ser crianças, mesmo em meio às maiores dificuldades.
Então os maiores, Fanny e Victor, tomam conta dos menores, chamam a atenção deles mas quando é proposta uma brincadeira, todos se deixam levar, na procura de um alívio, mesmo que momentâneo, à tensão que se instala. Uma cena num riacho mostra bem essa necessidade de esquecer por momentos a realidade dura que viviam.
A diretora Lola Doillon, em seu terceiro longa, ficou conhecendo o livro que conta a história de Fanny Bem-Ami, 86 anos e decidiu transformá-lo em um filme.
Claro que foram feitas algumas alterações, já que não se trata de um documentário, mas nada comprometeu a verdade da viagem que Fanny enfrentou, levando não apenas nove, como no filme, mas 28 crianças com ela.
Para ela, o mais importante é que o filme foi feito em memória de todas as outras crianças que também sobreviveram, pelas que não conseguiram e por aquelas que, ainda hoje são sacrificadas pelos conflitos dos adultos.
Lola Doillon conta que ficou chocada quando, durante as filmagens, começaram a aparecer na TV as imagens dos refugiados da guerra da Síria e as crianças inocentes que sofriam. Ninguém se esquece da imagem do menino morto na praia. Era um drama contemporâneo que ecoava o que aconteceu com milhares de crianças judias 70 anos atrás.
É algo que precisa ser pensado para que não se repita nunca mais.

sábado, 12 de agosto de 2017

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

 
“Valerian e a Cidade dos Mil Planetas”- “Valerian and The City of a Thousand Planets”, França, 2017
Direção: Luc Besson

Leve seu olhar para se encantar com o visual dessa fantasia de Luc Besson, 57 anos, diretor francês de “O Quinto Elemento” de 1997 e “Lucy” de 2014.
É o filme mais caro jamais produzido na Europa. Custou quase 180 milhões de dólares mas não foi sucesso de bilheteria nos Estados Unidos. Lá, os críticos não gostaram. Aqui, veem pontos positivos e alguns acham o roteiro muito pueril.
A cena inicial é em 2020 e David Bowie canta “Space Oddity” enquanto naves espaciais se acoplam formando uma estação, com americanos e russos trabalhando juntos. A eles se juntam representantes de todas as nações do nosso mundo e, ao longo dos anos, de outros mundos habitados em nossa galáxia, criaturas estranhas mas que concordam que a estação espacial Alpha irá levar uma mensagem de paz para cantos desconhecidos do universo.
Passam-se 400 anos e estamos num planeta que é praia branca, mar azul e céu também. Habitam esse paraíso seres branco-azulados, altos, magros e de feições suaves. Lá, pescam pérolas preciosas e, através de um bichinho meio lagarto, meio rato ou gato colorido, reproduzem as pérolas que retornam ao mar. É um planeta habitado por seres que acreditam em sustentabilidade, paz e harmonia.
Até que acontece o Apocalipse. Naves explodem tornando negro o céu azul e o planeta é destruído pela guerra dos humanos.
Em outra praia, um rapaz e uma mocinha tomam sol. São agentes da Federação, Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne). Ela está brava porque ele se esqueceu do aniversário dela.
Valerian tenta seduzir Laureline, prometendo até casamento mas ela não confia em sua fidelidade:
“- Não quero ser mais uma em sua lista de conquistas.”
Mas são interrompidos em sua briguinha por uma voz que avisa que a nave chegou no planeta Kyrian. Os dois se apressam a deixar a praia virtual e preparam-se para pousar.
A eles é confiada uma missão e começa uma aventura que passa pelo mercado mais bem abastecido de todas as galáxias, na Cidade dos Mil Planetas. Vão encontrar criaturas de sonho e pesadelo.
A mais interessante de todas elas é Bubble (Rihanna) que faz um extraordinário show para Valerian e ajuda o rapaz a avaliar melhor seus sentimentos por Laureline.
O filme é baseado nos quadrinhos lançados na França em 1967 por Pierre Christin e Jean-Claude Mézières e que encantavam Luc Besson aos 10 anos de idade. E levou 7 anos para ser produzido.
O diretor convocou artistas gráficos originais que criaram a beleza e a estranheza dos personagens. E aqui, não são todos os alienígenas que são maus. Ao contrário, os seres do planeta destruído conseguem conquistar Valerian e Laureline e há uma ajuda mútua, baseada em empatia.
Fica clara uma mensagem pacifista bem atual e um sonho de esperança para o futuro não só da humanidade mas de todo o universo.
Pode ser até algo bem distante da cabeça de muita gente. Mas a beleza visual impressionará a todos, certamente.
Talvez o filme pudesse ser mais curto, eliminando cenas desnecessárias para a compreensão da história e ganhando assim pessoas sem muita paciência para mais de duas horas de filme.
Quem quiser ver os frutos de uma imaginação prodigiosa, embarque no filme, sem pestanejar.



segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Os Meninos que Enganavam os Nazistas


“Os Meninos que Enganavam os Nazistas”- “Sac des Billes”, 2017
Direção: Christian Duguay

Uma bolinha de gude azul, escapa das mãos de um menino que redescobre Paris, depois de uma ausência forçada pela ocupação alemã, durante a Segunda Guerra.
O ano é 1944, o mês agosto, é verão e bandeiras francesas tremulam nas janelas da cidade. Paris foi libertada.
O menino adolescente relembra então o que aconteceu em 1942, quando ele e sua família judia tiveram que fugir do perigo nazista.
Joseph, o Jojo, tinha 10 anos (Dorian Le Clech, estreante talentoso), e era o caçula da família de quatro filhos. Maurice, seu irmão (Batyste Flurial) tinha 12 anos e os dois eram muito unidos.
Crianças alegres e levadas, filhos do barbeiro do bairro judeu (Patrick Bruel faz o pai, ótimo) e de uma doce mãe, violinista (Elza Zylberstein), eles não se davam conta do que acontecia. Aliás, é próprio da infância manter um clima de eterna brincadeira.
Mas logo o pai deles tem que mandá-los para o sul da França, onde já estavam seus dois irmãos maiores, em Nice.
O perigo era sério. Estrelas amarelas com a palavra “Judeu” tinham que ser costuradas em suas roupas. O antissemitismo era feroz e crescia.
Com o coração apertado vemos o pobre pai tendo que ser severo para que as crianças acreditassem no perigo:
“- Você é judeu? ”, pergunta o pai.
“- Não! ”, responde o menor e leva um tapa do pai, que renova a pergunta:
“- Eu sei que você é judeu! “
Assustado, depois de mais um tapa, ouve o pai explicar:
“- Melhor levar um tapa agora do que perder a vida por medo de levar um tapa. Não digam para ninguém que são judeus. Entenderam? É muito perigoso."
E lá se vão os dois irmãos para uma viagem até a zona livre. Caminho difícil, que iniciou os dois anos e meio que ficaram longe da família, enfrentando perigos, doenças e, principalmente, precisando crescer rápido. Amadurecer à força, para poder encarar decisões complicadas e salvar a própria vida.
O filme é uma adaptação da biografia “best-seller” de Joseph Joffo, que conta essa história real. É através dos olhos do menino que ele foi que vemos os acontecimentos.
Sabemos quão terríveis foram esses anos de guerra, especialmente para quem era judeu. A novidade é que há aqui sofrimento e dor, mas há também a amizade entre os dois irmãos, se apoiando frente ao medo e perigos pelos quais passaram.  E a coragem e perspicácia, além da sorte que tiveram, ao passar muito perto da morte certa.
O filme é comovente, nos fazendo temer pelas crianças o tempo todo e suspirar fundo quando conseguem se safar com êxito de situações aterrorizantes.
Impossível não sentir um nó na garganta quando Joseph, o Jojo, pode enfim, gritar a plenos pulmões para que todos ouçam:
“Eu sou judeu!”
Produção modesta, o mérito do filme, dirigido com acerto pela canadense Christian Duguay, é contar essa história que não pode ser esquecida por quem a conhece e ensinar uma lição para as novas gerações. Para que nunca mais se repita.


domingo, 6 de agosto de 2017

O Filme da Minha Vida


“O Filme da Minha Vida”, Brasil, 2016
Direção: Selton Mello

Embrulhado para presente, num dourado iluminado, o filme dirigido e roteirizado por Selton Mello, começa apresentando o jovem personagem principal, vivido por Johnny Massaro, num monólogo em “off”, enquanto imagens belíssimas de Walter Carvalho, mostram o caminho de terra e os trilhos do trem, nos anos 60, no sul do Brasil:
“No começo eu só via o início e o fim dos filmes, dizia meu pai...Depois eu entendi que o meio era tão importante quanto o fim. Meu pai é francês, minha mãe é brasileira (...)
Ele tinha bom coração e acreditava nas pessoas. Poucos amigos mas eram como da família. Era um homem simples e por isso fui estudar na capital. O dia da minha partida foi uma festa. No dia em que voltei com meu diploma de professor, meu pai partiu para a França. E o resto, eu não posso contar”, diz ele com um olhar enigmático.
E é justamente, o meio, o recheio, que vai ser visto em cenas que a memória de Tony guarda da infância com seu pai (Vincent Cassel, presença marcante e bela). O presente é um lugar de conflitos.
A fazendinha, o pomar, a névoa que encobre a paisagem, o campo, o cavalo, a vaca, o galpão onde Tony guardava a bicicleta, seu meio de transporte, ao lado da motocicleta que o pai deixou. Contrastando com a luminosidade idealizada dos dias felizes, o presente é enevoado, a chuva é cinza e a mãe tristonha (Ondina Clais).
Os afetos são tímidos e faz falta a presença do pai que tudo invade. Tony não entende porque ele foi embora sem dar explicações. Qual o caminho a tomar para descobrir por que ele os deixou? E assim se perguntando, vai palmilhar o passado em suas lembranças para libertar seus sentimentos amorosos presos a essa lacuna inexplicável.
Parece que sua vida não pode adquirir uma expressão mais sólida sem essa resposta. Paco (Selton Mello, também atuando), amigo do pai, sujeito rude e afetuoso, é o companheiro desses momentos em que Tony precisa encontrar algo que explique o misterioso comportamento do pai. Mas se Paco sabe algo mais, se fecha em copas.
Uma culpa inconsciente impede Tony de viver o amor por Luna (Bruna Linzmeyer, bela atriz), ela também experimentando sua própria crise de identidade, espelhada na vida da irmã Petra (Bia Arantes), antiga Rainha do Glamour, que não está feliz.
Mas é o trem, no seu ir e vir, dirigido por um inspirado Rolando Boldrin, que será o símbolo da busca que faz Tony finalmente amadurecer. Compreende que a pressa não leva a lugar nenhum. E que o ritmo da vida tem que ser vivido com calma. Sem impaciência.
Relembrar o trauma da rejeição parece começar a lançar luz sobre a escuridão. E depois da tempestade tudo fica mais claro e convidativo.
“O Filme da Minha Vida” é o terceiro longa de Selton Mello, que assinou “Feliz Natal” de 2008 e ”O Palhaço” de 2011. Belo e nostálgico, sua história (“Um Pai de Cinema”) vem do escritor chileno Antonio Skármeta (“O Carteiro e o Poeta”), que faz uma ponta como dono do bordel.
Bem acabado, com uma excelente reprodução de época, o filme nos transporta para um Brasil de afetos sinceros, embalados por uma trilha sonora perfeita que vai de Nina Simone a Aznavour, passando por Sergio Reis cantando “Meu Coração não é de Papel”.
O filme de Selton Mello é um momento de agridoces recordações que envolve a plateia com uma força inesperada. Adorável.


domingo, 30 de julho de 2017

Monsieur & Madame Adelman



“Monsieur & Madame Adelman”- Idem, França 2017
Direção: Nicolas Bedos

Alguém tecla rápido numa máquina de escrever. Uma casa de campo, um lago. Interiores de um gosto refinado. Triste, uma ainda bela mulher, marcada pelos anos, arruma-se diante do espelho. A filha chama:
“- Você não vem mãe?”
No funeral de um escritor de sucesso, ninguém menos que Jack Lang (ex Ministro da Cultura), faz o elogio fúnebre:
“- Estamos em luto por um poeta. Victor Adelman foi um dos homens mais engraçados e talentosos que eu conheci. Ele nos deixa Sarah, sua mulher da vida toda...”
Na recepção, depois de tudo, um jornalista (Antoine Gouy) se apresenta a Sarah. É um dos biógrafos do marido, vencedor do prêmio Goncourt, que quer saber mais sobre o escritor.
“- Você não acha que já são muitas biografias? Original seria você escrever a minha. Porque todos nessa casa estão pensando: Essa é a velha que matou o marido?”
E passa a recordar as quatro décadas e meia do casamento deles. Como fundo musical os The Platters cantam “Twilight Times” de 1971, seguida de várias outras canções como “You’re a Lady”de 1973. Quem, com mais de 60 anos, não se lembra?
E a pergunta que se quer fazer é: ela fala a verdade? Conta mesmo tudo que se passou? Ele era mesmo assim? E ela?
Claro que a resposta é uma só, já que a “verdade” é sempre subjetiva. O fato contado é uma lembrança trabalhada por um afeto.
E Sarah é inteligente, divertida, culta, narcisista na medida certa e adora seduzir e ser seduzida. Então, o retrato que ela faz do casal, é charmoso, romântico, diálogos na ponta da língua e de um humor juvenil e intelectual. Isso no início. Depois o humor ganha acidez e aparecem os lados escondidos dos personagens.
Ele (o próprio diretor e roteirista, Nicolas Bedos) é um homem com cara de menino bonito e temperamento rebelde, de uma família conservadora, pai autoritário e burguês (Pierre Arditi) e mãe refugiada na bebida. Frequenta há anos o divã de um psicanalista paciente (o formidável Denis Podalydès).
Ela (Doria Tillier, também roteirista e atriz estreando com  talento), alta e boa estrategista, belo corpo e presença marcante, de uma família judia pobretona, imigrantes mas com laços verdadeiros entre eles e um pai de inteligência brilhante e simpático.
Na versão de Sarah, ela teria sido a eminência parda e ele um homem que fazia tudo que sua musa queria. Pelo menos por um bom tempo. O casal teve, como todo mundo, altos e baixos.
De qualquer modo, o roteiro a quatro mãos, de um casal da vida real, é muito bom e nos leva a reviver nossos “anos dourados”, para quem viveu naquela época onde os tabus foram quebrados e um vento de liberdade soprava .
Se alguém quiser dizer que o filme é comercial, feito para o entretenimento das pessoas que ainda frequentam salas de cinema, eu diria que sim, por que não? Quanto mais que tudo é bem feito, bem escrito, bem interpretado. A maquiagem na velhice dos dois é um pouco estranha? Ora, estamos no cinema. O truque faz parte.
O importante é que Nicolas Bedos, em seu primeiro filme, acertou em quase tudo. Risos e lágrimas, humor e seriedade, sabedoria e loucura, são os ingredientes dessa comédia dramática que agrada ao público por onde passa.

Um ponto a mais para o cinema francês que sabe fazer sucesso sem ter a necessidade de ser vulgar.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dunkirk



“Dunkirk”- Idem, Estados Unidos, França, Reino Unido, Holanda
Direção: Chistopher Nolan

Desde a cena inicial, quando panfletos ameaçadores alemães caem do ar sobre os assustados soldados britânicos e franceses nas ruas de Dunquerque, uma cidadezinha francesa com longas praias frias e nenhum porto bastante profundo para abrigar navios de grande calado, você vai se sentir em pleno pesadelo.
Com os alemães levando vantagem no início da Segunda Guerra, final de maio de 1940, ganhando a batalha de Dunquerque, nada resta aos 400.000 homens do exército dos aliados, a não ser esperar.
Há uma luta sombria e melancólica contra o tempo. Só um milagre poderia salvar aqueles homens derrotados. Os alemães podem chegar a qualquer minuto e exterminar aquele exército que, ironicamente, vê ao longe as terras da Inglaterra, onde estariam a salvo, do outro lado do Canal da Mancha.
Miragem impossível.
Trata-se de uma espera terrível. O inimigo invisível ataca. Ouve-se o estrondo das bombas lançadas pelos aviões e submarinos afundando os navios ingleses. Na praia, o ricochetear das metralhadoras e explosões matam  homens anônimos.
Tudo é som e fúria. Medo, impotência, morte à espreita.
Jogando fora seu rifle e capacete, um soldado entra na água do mar, observado por seus companheiros que não se movem, petrificados. Todos hipnotizados, pensando se aquela não seria a melhor solução. Matar-se antes da morte certa, precedida de terror.
É o mago Chritopher Nolan que dirige esse filme de guerra sem sangue mas tão tenso e apavorante que chegamos a sentir na pele o que é estar numa guerra.
Também dele é a história contada em três palcos: terra, mar e ar.
Na terra, soldados jovens (Fionn Whitehead e Aneuris Barnard que se juntam depois a Harry Styles) fazem fila na praia, alvos sem defesa para as bombas lançadas dos aviões de nariz amarelo.
No mar, um pequeno barco de passeio, Mimosa, é requisitado, como muitos outros civis, para fazer a evacuação dos homens sitiados em Dunquerque.
Mr Dawson( Mark Rylance, ótimo), seu filho (Tom Glyn- Carney) e um amigo (Barry Keoghan) recolhem do mar um soldado enlouquecido (Cillian Murphy).
No ar, pilotos da RAF (Tom Hardy faz o principal) dançam uma coreografia mortal de perseguir e ser perseguido.
Em terra, a espera dramática durará sete dias, no mar levará um dia para atravessar o canal até a França e no ar, há uma hora para tentar abater os aviões inimigos.
A fotografia espetacular, fria e sinistra, de Hoyte Van Hoytema, alivia ou aumenta a tensão, conforme avança a dramática Operação Dynamo.
Filmado em câmaras IMAX, “Dunkirk” deve ser visto, de preferência, em salas que exibem o filme nesse formato. Nolan é um defensor da película, da granulação, das cores matizadas e como seu filme tem muito poucos diálogos, melhor não poderia ser. Porque o problema da filmagem em IMAX é que o diálogo tem que ser superposto à imagem, depois do filme pronto. Uma complicação a mais.
A trilha sonora de Hans Zimmer, com seus violinos estridentes, percussão que é como se um coração fosse explodir de tanto bater e o tique-taque de um relógio ouvido nessa corrida contra a morte, é a sonoridade ideal para completar a experiência sensorial que é “Dunkirk”.
O tema principal é o quanto a sobrevivência é importante para cada um dos indivíduos colocados nesse drama. Pacifista, como quase todos os filmes de guerra, há também uma lembrança sobre algo tão raro nos dias de hoje, a solidariedade.
Um grande filme.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

De Canção em Canção




“De Canção em Canção”- “Song to Song”, Estados Unidos, 2017
Direção: Terrence Malick

“- Pensei que a gente podia continuar se virando de canção em canção, de beijo em beijo...”, diz uma das personagens.
Aqui, tudo é um longo “flashback” de três: Faye (Rooney Mara) que diz a frase que dá título ao filme, é uma novata que quer ser cantora e compositora, mas que trabalha como corretora de imóveis; dois homens, Ryan Gosling, o BV, é compositor, bom caráter, que está próximo do sucesso e Cook (Michael Fassbender), um milionário produtor musical, mau caráter, exibicionista, que gosta de fazer pessoas sofrer. Os dois são amigos e se envolvem com Faye.
Outros personagens vão aparecer como Rhonda (uma comovente Natalie Portman), moça simples que confundiu casamento com felicidade, Amanda (a bela Cate Blanchett), caso de BV e Zoey (Bérénice Marlohe), que tem um namoro breve com Faye. Todos eles marcados por uma tristeza existencial. Belos e infelizes.
Como o filme se passa em Austin,Texas, lugar de grandes festivais ao ar livre de músicas de todas as tendências, astros de verdade aparecem em pontas como Iggy Pop, Val Kilmer e Patti Smith, que faz uma participação importante, cantando e funcionando como uma espécie de conselheira de Faye sobre o amor. Ela está fascinante, passando uma verdade singela em suas falas, com uma autoridade indiscutível.
Belas imagens de Emmanuel Lubensky, o mago da fotografia. A câmara se aproxima e se distancia dos atores que não param de se movimentar. Há uma coreografia de corpos que falam de uma excitação, enquanto a narração é em “off”. Cada um deles vai sendo conhecido por essas falas, que são confissões íntimas.
De um jeito ou de outro, cada um dos personagens acaba sofrendo em consequência de seus atos.
Mas há também uma desilusão saudável em Faye e BV, que são os únicos que conseguem conviver, finalmente, com a realidade da pessoa que o outro é. Isso inclue parceiro e familiares. E, para chegar aí, há que sofrer com a perda do sonho infantil de uma vida para sempre feliz, sem obstáculos nem conflitos. E aceitar-se como são.
O retorno a uma vida simples, encarando a verdade e compartilhando os momentos bons que fazem esquecer os maus, parece ser a saída da busca existencial vivida por todos os personagens.
E as poças de água lá no alto das pedras do deserto é o lugar de purificação, de misericórdia e perdão. O casal se une e encontra a paz.
“- Não quero parar de amar você.”
Diretor e roteirista, Terrence Malick não faz apenas um  cinema estético. Ele ensina lições sobre a natureza humana. E, dessa vez, de uma maneira menos filosófica e mais realista.
Tenha paciência, junte as imagens como se fossem peças de um quebra-cabeças e aproveite essa viagem.



quarta-feira, 19 de julho de 2017

Gatos


“Gatos”- “Kedi”, Turquia, 2016
Direção:Ceyda Torun

Istanbul, capital da Turquia, é uma cidade antiga e mágica. Debruçada sobre o mar, acolhe-o quando ele avança pelo estreito de Bósforo, que liga o Mar Negro ao de Marmara.
Já foi chamada Constantinopla e Bizâncio. Foi sede de vários impérios ao longo dos séculos. Gregos, romanos e venezianos estiveram por lá.
A cidade é dividida em duas e uma ponte movimentada liga a Europa à Ásia, nessa cidade que se estende em dois continentes.
A imagem inicial do documentário “Gatos” é uma bela visão panorâmica da cidade, vista do alto. Vemos o mar, os prédios antiguinhos, as ruas estreitas e as impressionantes Mesquita Azul e Hagia Sophia.
Mas a câmara desce e passa a se interessar por uma outra população: os gatos de rua de Istanbul.
E um dos amigos de felinos, resume numa frase o que  muitos dos habitantes da cidade acham sobre esses animais:
“- Os cachorros pensam que os humanos são Deus mas os gatos sabem que as pessoas são executoras da vontade de Deus.”
E, por essa e por outras, os gatos de rua de Istanbul não são seres abandonados. Eles andam com graça e majestade pelas ruas e telhados, no meio das pessoas. E vemos como são acariciados, mimados e bem-vindos pelos humanos que eles escolhem.
Ao longo das histórias de alguns gatos e seus guardadores, a câmara vai mostrando não só os bichanos e sua vidinha boa e livre, mas como são aqueles que dão voz a seus gatos.
A diretora Ceyda Torun, nascida em Istambul e vivendo agora nos Estados Unidos e o fotógrafo do documentário, Charlie Wuppermann, assumidos amantes de felinos, mostram um outro lado da cidade através dos gatos e das pessoas que os acolhem, alimentam, levam no veterinário, sem jamais deixar de respeitar sua privacidade. Ou seja, os gatos de Istanbul são livres para ir e vir e são recebidos com portas e janelas abertas.
“- Eles absorvem a energia negativa” diz uma dona de loja. “Me fazem bem”, acrescenta ela.
Outro, conta como se curou de uma crise de depressão quando começou a cuidar dos gatos que apareciam para ele:
“- São a minha terapia.”
Quem gosta de gatos vai adorar os “closes” dos focinhos e dos olhos sedutores e ternos, os pulos incríveis, as correrias e mesmo a braveza de alguns deles que não permitem invasões de seu território por outros gatos.
Para não falar dos gatinhos, acabados de nascer e mamando em suas mães pacientes e sempre atentas e, quando crescidinhos acompanhando a mãe nas explorações do ambiente onde vão viver.
Mesmo um pai gato aparece cuidando de uma ninhada.
Mas até quando? O documentário alerta para o perigo que ronda esses gatos, que passeiam hoje livres pelas ruas de Istambul e isso desde o Império Otomano. Istanbul cresce, as ruelas somem, prédios enormes são construídos no lugar onde existiam casas, seus velhos muros, quintais e telhados.
Feitos para a liberdade, talvez esses gatos desapareçam ou quem sabe, dada a sua esperteza, consigam sobreviver.
Porque onde os humanos não veem, existem os esconderijos secretos e os lugares impossíveis onde se acomodarão os enigmáticos felinos para meditar e velar pela sua bela cidade, como fazem desde há muito tempo.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Em Ritmo de Fuga



“Em Ritmo de Fuga”- “Baby Driver”, Inglaterra, Estados Unidos, 2017
Direção: Edgar Wright

Você vai ficar muito surpreso com esse filme.
De cara, uma perseguição em carros, perfeita e de tirar o fôlego.
E quem está com o volante na mão? É Baby, o “driver” mais incrível da história. Ansel Elgart de “A Culpa é das Estrelas” faz o garotão calado mas ligado. Uma mistura de Marlon Brando com Paul Newman, sem os olhos azuis mas carismático como foram esses dois.
De poucas palavras, ele tem um drama em sua vida. Perdeu a mãe num acidente de carro quando era menino, causada por uma briga. Mãe e padrasto, aliás, viviam brigando. Ele saiu vivo daquele carro mas ferido para sempre. Desde então, luta com um zumbido crônico no ouvido, sequela do acidente.
E logo percebe que a sua salvação é a música. Porque distrai a mente desse som que enlouquece. Fones de ouvido, adereço constante, óculos escuros (ele tem uma coleção), um andar de felino e agilidade tanto no carro quanto no solo. Um atleta bailarino.
Baby tem que trabalhar para Doc (Kevin Spacey), um chefão do crime para quem deve dinheiro. Tornou-se o piloto de fuga da quadrilha que tem Bats (Jamie Foxx), Buddy (Jon Hamm) e Darling (Eliza González) mas que pode variar de integrantes de acordo com o humor de Doc. O único que não pode faltar nunca é o talismã, Baby.
Mas quando ele entra naquela lanchonete e encontra a mulher de sua vida, Deborah (Lilly James, bela e charmosa), que via passar sempre cantando para logo desaparecer como um cometa, Baby sabe que sua vida vai mudar. Porque sente que é sério esse amor.
Mais um trabalho para Doc e depois vai viver com Deborah e a música, na estrada da vida.
Baby mora com seu pai adotivo Joseph (C.J. Jones), que ele cuida com carinho. Fala com ele pela linguagem de sinais, porque ele é surdo-mudo.
É lá que Baby guarda o dinheiro que ganha dos assaltos de Doc e, principalmente, esconde o seu tesouro, sua coleção de iPods, com as músicas de sua vida. Cada um deles serve para um estado de ânimo.
E o mais amado é o de sua mãe, que era cantora.  Ela estará para sempre no coração do filho.
Vindo de séries da TV, vídeos para músicas e cinco longas (“Shaun of The Dead”de 2004 e “Scott Pilgrim vs The World” de 2010) o britânico Edgar Wright é um prodígio como diretor, materializando com “Baby Driver” ou “Em Ritmo de Fuga” como foi traduzido o título do filme em português, uma ideia que ele teve há 20 anos atrás.
O filme não é só sobre carros e fantásticas perseguições. É também uma história de amor e um musical, não no sentido de “ La La Land” com músicas cantadas pelos atores, mas com ação e diálogos sincronizados com a música maravilhosa que vem do iPod de Baby e que vai de Simon & Garfunkel a Queen e Emicide. Tantos. Alguém contou 43 créditos na lista final.
A música é importante porque dá o clima. Tudo do ponto de vista de Baby, que é dado pelo que ele está escutando e nós também. Uma loucura de imagens e sons que hipnotizam a plateia.
Entretenimento de primeiríssima qualidade, o filme vai agradar a muita gente. E aposto que veremos prêmios merecidos no ano que vem para esse delicioso “Baby Driver”.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

O Estranho que Nós Amamos


“O Estranho que Nós Amamos”- “The Beguiled”, Estados Unidos, 2016
Direção: Sofia Coppola

A metáfora sobre o feminino da cena inicial mostra uma menina cantando e atravessando uma floresta de grandes árvores à procura de cogumelos. Ela é cuidadosa e sabe onde encontra-los. Mas, de repente, qual Chapeuzinho Vermelho, ela encara um soldado ianque, inimigo, ferido e precisando de ajuda.
Sem pensar no lobo e querendo fazer o bem, a menina (Oona Laurence) leva o homem para dentro do internato onde ela e suas quatro coleguinhas adolescentes (Elle Fanning, a mais velha e sexy, Emma Howard, Angourice Rice e Addison Rieche) moram com a professora de francês Edwina (Kirsten Dunst, maravilhosa) e a dona da escola (Nicole Kidman, perfeita).
Estamos em 1864 e a guerra civil americana, que opõe norte e sul, está chegando ao fim.
O soldado ferido, o irlandês cabo John McBorney (Colin Farrell, sedutor como nunca), é cuidado por Miss Martha, cristã devota e dona da casa. Encarado com severidade no início, já que era um desertor confesso e poderia ser perigoso, passa a ser o foco da atenção de todas as mulheres da casa.
Das gavetas saem broches e brincos, os vestidos mais bonitos são usados e os cabelos com tranças e fitas, cuidadosamente penteados. Uma a uma, elas procuram desculpas para visitar o soldado na sala de música em que Miss Martha o mantém trancado.
A sensualidade invade aquela casa.
“The Beguiled” é o título do livro de Thomas Cullinam de 1966, que foi filmado em 1971 por Don Siegel com Clint Eastwood no papel do soldado. Para alguns, o filme de Sofia Coppola é uma refilmagem.
Mas a diretora e roteirista não concorda. Ela diz que seu filme lança um novo olhar sobre a história do livro, sob um ponto de vista feminino, não feminista:
“...quis explorar aquela história sombria de tensão de forças e de poderes sob uma ótica feminina, buscando entender o lugar da mulher naquela América em guerra.”
O filme de Sofia Coppola passa-se num universo feminino, à parte daquela guerra da qual se ouvem as explosões longínquas. Esse mundo é invadido por um homem sedutor e enganador, que ilude a inocência e a fragilidade das meninas, enquanto estimula a rivalidade muda entre Martha e Edwina.
O casarão colonial que guarda vestígios da opulência do passado vai ser o cenário para envolvimentos perigosos e decisões difíceis.
Pode-se dizer que o poder feminino desafiado mostra sua força. E com uma pitada de humor negro.
Sofia Coppola, a diretora de sucessos como “As Virgens Suicidas”, “Encontros e Desencontros”, “Marie Antoinette”, já ganhou muitos prêmios, inclusive o Leão de Ouro de Veneza por “Um Lugar Qualquer”. Mas, ser considerada a melhor diretora de Cannes desse ano, é uma vitória. Em 70 anos do festival, só uma mulher havia sido honrada com esse prêmio: Jane Campion por “O Piano” de 1993.
O visual de “O Estranho que Nós Amamos”, de tons  esmaecidos, luz natural e velas, exibe o talento de Philippe Le Sourd na fotografia. A produção de arte se esmera nos pequenos detalhes e a quase ausência de trilha sonora faz o filme ganhar tons originais, com os sons da casa, o canto dos pássaros e os insetos do jardim.
“O Estranho que Nós Amamos” é um filme elegante e sóbrio. Um novo triunfo para Sofia Coppola.


sábado, 8 de julho de 2017

Homem-Aranha: De Volta ao Lar


“Homem-Aranha: De volta ao Lar”- “Spiderman: Homecoming”, Estados Unidos, 2017
Direção: John Watts

Quem viveu a adolescência nos anos 60, é íntimo do Homem-Aranha.  
Ele foi criado como personagem de gibi nessa época e a história de uma aranha de laboratório que pica o menino e dá a ele superpoderes, que ele descobre surpreso, tinha mais a ver com os adolescentes do que outros personagens adultos, como o Super Homem, identificados ao pai ou professores, mas distante da criançada mortal e normal.
A gente queria ser Peter Parker porque a vida dele era parecida com a nossa. Menos as teias.
E também porque a nossa fantasia infantil, alimentada pelos contos de fadas, já nos levara a imaginar que poderíamos voar como Peter Pan e ser como os abandonados João e Maria que enfrentavam ogros e bruxas do mal.
No filme “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”. Peter Parker já é o Homem-Aranha, pelo menos em edição jovem, mas não acredita demais nisso. Põe mais fé na roupa tecnológica, que ganhou de Stark, do que em si mesmo, como todo adolescente.
O Homem de Ferro é mentor de Peter e com um jeito até severo demais, manda ele voltar para o bairro onde mora em Nova York, o Queens. Por ora ele tem que voltar a ajudar as velhinhas a atravessar a rua, lidar com os ladrões locais e ser um bom menino.
“- Mas eu não sou nada sem a roupa que você me deu!”
“-Se é assim, não deveria mesmo estar usando”.
Na verdade, Tony Stark quer dizer para Peter Park ter paciência e esperar. Porque com o tempo virá a experiência necessária para ele ser do time dos “Avengers”. É muito cedo ainda para o Aranha.
Mas, como todo adolescente, apesar da insegurança, Peter quer mais e se aventura por caminhos perigosos, precisando até da intervenção de seu mentor para sair de enrascadas.
O vilão que ele enfrenta nesse filme é o Abutre, vestido numas asas impressionantes, magnífico, interpretado por Michael Keaton ( “Birdman”), que é um empresário falido, que se revolta contra os poderosos e entra num negócio de contrabando de armas ilegais poderosíssimas.
E, como toda donzela tem um pai que é uma fera, como já dizia o título de uma peça dos anos 60, todo garoto adolescente daquela época sabia que o pai da menina cobiçada tem que ser temido. É como se ele fosse o dragão que guarda a princesa na caverna, só para ele. O príncipe vai ter que vencer o dragão, num combate fatal.
No filme, o Aranha ama Liz (Laura Harrier), a menina mais charmosa e bela da sua classe na escola. Mas treme diante dela e muito mais ainda na frente do pai dela.
O encanto de Tom Holland ( “Z- A Cidade Perdida”), o novo Aranha, é que, apesar dos 21 anos que ele tem, é a cara do menino magrinho da história em quadrinhos.
E o filme acerta também no visual de gibi em movimento e pop-art explodindo na tela em cores e imagens.
As cenas de ação são muito boas apesar de às vezes o filme perder o ritmo porque se alonga demais.
O forte é quando mostra a vida de Peter Parker, com a tia remoçada (Marisa Tomei) e com o amigo Ned (Jacob Batalon), que descobre o segredo de Peter e quer fazer perguntas o tempo todo, quase expondo a verdadeira identidade do Aranha. Mas aqui também o filme acerta porque mostra como todos precisamos de um confidente na adolescência. Compartilhar segredos e confissões. Mesmo que sejam bobas.
E na hora do baile, como todo adolescente inseguro, ficar espremido entre a vontade de querer saber dançar com a bela e, inesperadamente sumir. No caso do Aranha, sempre por uma boa causa.
O roteiro escrito a dez mãos é ótimo e a escolha de Tom Holland para o Aranha é a melhor que poderia ser feita.

Ágil, leve, engraçado e movimentado, o novo filme do Aranha merece ser visto mesmo por aqueles adultos que não seguem os filmes da Marvel. Porque a gente entende tudo que está acontecendo com o Homem-Aranha já que também fomos adolescentes. Sem as teias, mas com os mesmos problemas.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Uma Famíla de Dois


“Uma Família de Dois”- “Demain Tout Commence”, França, 2016
Direção: Hugo Gélin

O que é uma família? A tradicional tem na receita pai, mãe e filhos. Mas, a cada dia que passa, vemos surgirem novas fórmulas que funcionam bem, porque se prestam ao que as crianças precisam. A família existe para proteger, alimentar e preparar os filhos para o futuro. É uma instituição a serviço da sobrevivência da espécie.
Bem, mas não é todo mundo que tem vontade de formar uma família. Samuel (Omar Sy), por exemplo, está muito tranquilo e confortável na vida de solteiro à beira-mar, na famosa “Côte d’Azur”.
Ele é o encarregado de divertir os hóspedes do “résort” onde trabalha e, para ele, tudo está perfeito. Leva uma vida sem responsabilidades, muitas namoradas e noitadas intermináveis até o sol nascer. E tudo recomeçar.
Até que...Pois é. A vida boa de Samuel termina de repente. Uma bebê de meses é colocada em seu colo, sem maiores explicações, por uma ex-namorada da qual já havia se esquecido, Kristin (Clémence Poésy), que afirma que ele é o pai da criança. E, assim como aparece, do nada, desaparece.
Atônito, Samuel tenta em vão chamar a fugitiva de volta. Ela sumiu. E Glória, a bebê, chora desesperada.
Há ocasiões em nossa vida que precisamos improvisar e Samuel, sem ter uma ideia melhor, larga a praia francesa e vai atrás da mãe de Glória, que parece que mora em Londres.
Mas, mesmo pai de primeira viagem e nada à vontade no papel, Samuel vai se ajeitando. Bebês precisam de atenção constante, alimento a horas certas e proteção carinhosa. Felizmente Samuel possui a ternura na medida certa para conquistar Glória e ser o pai-mãe dela.
Seu sorriso de dentes brancos brilhantes, estatura de gigante, carisma natural e cara de gente boa, atraem a atenção solidária de Bernie (Antoine Bertin), que simpatiza com o pai atrapalhado, que não fala inglês e acolhe a dupla perdida.
Até emprego de dublê no cinema ele arranja para Samuel. Torna-se o melhor amigo e protetor de pai e filha. O fato dele ser gay não interfere na relação com Samuel, que não é preconceituoso e sabe ser grato a quem lhe estende a mão.
É divertido ver o apartamento que Samuel inventou para a filha, um verdadeiro parque de diversões, que se torna o cenário do crescimento de Glória (Gloria Colston, um encanto de atriz). Os dois são “unha e carne”.
Samuel não desiste de procurar a mãe de sua filha na internet e inventa uma história maluca sobre a identidade da desaparecida, que convence a menina de não ter perdido a mãe para sempre.
Mas aos oito anos de convivência feliz, a mãe de Glória reaparece  novamente do nada e quer a filha. Assim como abriu mão dela sem explicações, reaparece exigindo exercer sua função de mãe. Isso mexe com a dupla e exige uma posição firme de Samuel.
O filme é uma refilmagem de um filme mexicano, “No se aceptam devoluciones” (2013) e parece que o diretor Hugo Gélin, em seu segundo longa, conseguiu melhorar a história e o clima do filme no qual se baseia. Levou milhões de franceses e alemães ao cinema.

Ternura, bom humor e uma lágrima vão conquistar também os brasileiros. E com razão. Só os mais implicantes vão torcer o nariz. Os outros vão sair do cinema emocionados.

sábado, 1 de julho de 2017

Um Instante de Amor


“Um Instante de Amor”- “Mal de Pierres”, França, 2016
Direção: Nicole Garcia

O passado volta vivo e pulsante no coração de Gabrielle (Marion Cotillard, atriz soberba) quando ela vê o nome de uma rua, por acaso, em Lyon, cidade que não conhecia. É onde mora André Sauvage (Louis Garrel), seu grande amor. Ele desapareceu do lugar onde ambos se tratavam de problemas renais e nunca respondera às suas milhares de cartas enviadas àquele endereço, devolvidas pelo Correio.
Num longo “flashback”, vamos conhecer os personagens dessa história de amor, passada nos anos 50.
Gabrielle, jovem, intensa e desmedida, se apaixona pelo professor de piano que lhe empresta o livro “O Morro dos Ventos Uivantes”, sem saber que estava mexendo num vulcão.
O romance de Emily Bronte, publicado com pseudônimo, em 1847, era alimento sob medida para as paixões que tumultuavam o espírito de Gabrielle. E ela faz uma cena de ciúme em frente da comunidade, num festejo da colheita da lavanda.
Vista como histérica pela própria mãe, por causa de seus estranhos ataques de câimbras, Gabrielle é ameaçada de internação, se não fizesse o que ela queria para a filha: um casamento para acalmar seu temperamento. E José, o pedreiro que trabalhava para seu pai, é o escolhido.
Estranhamente, Gabrielle aceita casar-se mas impõem uma interdição: sem sexo. Porém, quando o marido diz que vai visitar mulheres, ela se pinta, coloca uma lingerie provocante e manda ele colocar o dinheiro sobre a mesa. Sexo sem prazer nem carinhos.
Gabrielle é uma mulher complexa, cujo corpo fala de repressões impostas a si mesma, baixa auto-estima e falta de acolhimento.
Um medo de amar se transforma no “Mal des Pierres”, doença renal que substitui o prazer pela dor.
Gabrielle parece obedecer à regra que diz que só aceitamos o amor que achamos que merecemos.
Com direção de Nicole Garcia, 71 anos, o filme é belíssimo e comovente. O roteiro foi escrito a quatro mãos pela diretora e pela autora do romance que foi adaptado (“Mali di Pietre”), Milena Agus.
Mas a grande atração é o trio principal do elenco: Marion Cotillard, bela, confusa, atormentada e sem controle de seus impulsos, Louis Garrel, sedutor e sofrido e José, o marido interpretado com força e delicadeza por Alex Brendemuhl.
Quando passou em Cannes, “Um Instante de Amor” foi ovacionado mas não ganhou nenhum prêmio. A fotografia sensível de Christophe Beaucarne nos faz ter olhos para a Provence da colheita das lavandas e para perceber o olhar quente e machucado de Marion Cotillard.
A “Barcarola de junho” de Tchaikovsky é o  fundo musical inesquecível, que parece falar de romances tristes.
“Um Instante de Amor” vai agradar ao público feminino e interessar ao masculino.

Sensual, delicado e romântico.

terça-feira, 27 de junho de 2017

A Garota Ocidental - Entre o Coração e a Tradição


“A Garota Ocidental – Entre o Coração e a Tradição”- “Noces”, Bélgica, França, Luxemburgo
Direção: Stephen Streker

Será que é possível pertencer a duas culturas diferentes? Aconteceu com Zahira o que é consequência de uma situação dramática, que coloca dilemas de difícil solução. Aos 18 anos, ela vivia na fronteira, ou melhor, na terra de ninguém, aquele espaço que não tem dono, entre dois mundos.
A garota pertencia, em parte, ao mundo ocidental, já que morava na Bélgica, estudava numa escola na qual se falava o francês e seus amigos eram belgas.
Zahira (Lina El Arabi) era bonita, pele cor de mel, longos cabelos escuros, olhos de cílios espessos. Vestia-se como as outras meninas de sua idade mas com recato. Nada de decotes nem saias curtas.
E, quando saia à rua, seu primeiro gesto era o de cobrir a cabeça com um lenço. E isso significava que pertencia à tradição de onde viera sua família, o Paquistão, de religião muçulmana. Vemos cenas não só do pai e do irmão rezando em seus tapetes de oração, mas ela também.
Assim, Zahira obedecia às tradições seculares de seu país. Amava sua família, que também a amava. Mas era uma garota que queria viver como seus amigos.
À noite, vestindo jeans, top de paetês e tênis dourados, furtivamente saia da casa dos pais e ia dançar, com sua melhor amiga, Aurore (Alice de Lencquesaing). Queria a liberdade de namorar e sair com amigos.
Além dessa ambiguidade de conduta, um traço de personalidade de Zahira iria determinar o seu destino. Ela não conseguia tomar uma decisão importante, sem muito hesitar. Uma das causas disso era o amor à sua família. Não queria que sofressem.
Mas sabemos como a vida é feita de escolhas e suas consequências.
Ela sabe que a família prepara seu casamento com um paquistanês, porque assim reza a tradição. E seu irmão Amir (Sébastien Houbari) tem papel importante nessa tentativa de convencer Zahira a fazer o que o pai e a mãe decidiram. Eles casaram sem se conhecer e viveram felizes. A irmã mais velha também casou assim, depois de experimentar a vida à moda ocidental. E vem convencê-la a fazer o mesmo:
“- Mas não é justo”, reclama Zahira.
“- E o que você esperava? Somos mulheres.”
Ao que acrescenta com carinho:
“- Não há justiça nesse mundo. Pense nos velhos, nos doentes. Você tem que seguir as regras da tradição, senão a família será desonrada.”
Havia uma forte pressão social, além da religiosa. O pertencer à comunidade é um valor real para os paquistaneses vivendo na Bélgica.
O diretor e roteirista Stephen Streker baseou-se livremente num fato real para contar a história de Zahira. Em nenhum momento ele toma partido, apresentando os fatos, sem julgamento.
Cabe ao espectador refletir sobre o que vê na tela e colocar-se no lugar do outro, o que não é fácil.
O final é estarrecedor e pungente.

domingo, 25 de junho de 2017

Frantz



“Frantz” – Idem, França, Alemanha, 2016
Direção: François Ozon

Quem será que depositou flores no túmulo do noivo de Anna? Ela se pergunta isso intrigada. Desde que Frantz morreu na França é Anna (Paula Beer) que cuida do jazigo dele.
Mas logo ela descobre com o coveiro que o estranho era francês. Ele mostra para ela a moeda de dois francos que ganhara. Francês? Isso aumenta o mistério.
Estamos numa cidadezinha alemã em 1919, logo depois da derrota da Alemanha na Primeira Guerra, da qual os alemães saíram humilhados, inclusive por tratados que os prejudicavam.
Cada família alemã tinha um filho morto pelos franceses. O ódio ainda inundava os corações. As feridas estavam abertas.
Daí ser mais estranho ainda que um francês colocasse flores no túmulo de Frantz. A menos que fossem amigos de antes da guerra, quando ele estudava em Paris, lembra Magda, a mãe, ao marido, o médico Hoffmeister.
E quando Adrien Rivoire (Pierre Niney) toca a campainha na casa de Frantz, a mãe o apresenta à Anna, a noiva enlutada e ao marido que o olha com ódio.
Mas o francês, com lágrimas nos olhos, relembra para a mãe e a noiva de Frantz, a amizade entre os dois quando ambos eram estudantes, os bailes que frequentavam, as caminhadas por Paris e as visitas ao Louvre para admirar um certo quadro de Manet, que os dois amavam.
Adrian também toca violino e até dera lições a Frantz, em Paris. Ambos tinham a mesma idade e os mesmos gostos.
E, por um momento, era como se Frantz voltasse para aquela casa onde era adorado.
Aos poucos, Adrien conquista a família. Até o pai, que sentira ódio por ele, insiste que fique com o violino de Frantz, o que ele recusa, mas em troca tocando as músicas que sabia serem as preferidas dele, com Anna ao piano.
E passeia com Anna pelos lugares que Frantz adorava, onde pedira a mão dela em casamento. Os dois visitam o túmulo e conversam em francês, língua secreta dos noivos.
Apesar de ser hostilizado por onde passasse, levantando rumores contra o doutor Hoffmeister, que o acolhera em sua casa, Adrien parecia realmente mortificado pela perda do amigo. E isso o aproximava de Anna e dos pais de Frantz.
Até que, na última noite antes de partir para a França, convidado para jantar na casa dos Hoffmeister, Adrien não aparece e Anna sai à sua procura. Encontra o francês no túmulo de Frantz e, para sua surpresa, Adrien diz que tem uma confissão a fazer.
François Ozon, 49 anos, diretor de “Jovem e Bela” de 2013, “Uma nova Amiga” de 2014, ”Potiche”de 2010, para só citar alguns de seus filmes de sucesso, assina como diretor e roteirista seu novo filme, “Frantz”.
Ele adaptou para o cinema a peça de Maurice Rostand (1891-1968), que também foi levada para o cinema em 1932 por Ersnt Lubich, “Broken Lullaby”. Diz Ozon que resolveu mudar o ponto de vista do narrador, que no filme do alemão Lubitch era o soldado francês, para adotar o olhar de Anna, a noiva do soldado alemão.
Há algumas surpresas e reviravoltas na trama, filmada em magnífico preto e branco para as cenas em 1919 e outras coloridas quando os sentimentos são de alegria e amor e para o final, fantástico, por sinal.
O diretor, em entrevistas, ressaltou a contemporaneidade da história que tem como tema o nacionalismo exacerbado, gerador de guerras e ódio a estrangeiros, muito atual na Europa de hoje, por causa do problema dos imigrantes que também fogem de guerras.
“Frantz” é um filme elegante com a fotografia de Pascal Marti e a música inspirada de Phillippe Rombi, que acentua as emoções e enriquece o clima passado pelas imagens.
“Frantz” é um filme belíssimo.
  


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Kiki - Os segredos do desejo



“Kiki – Os segredos do desejo”- “Kiki, el Amor se Hace”, Espanha, 2016
Direção: Paco León

A abertura do filme ilustra, com belas imagens, que o sexo é natural porque os homens e mulheres fazem, leões e leoas também fazem, flores se abrem em frutos, onças procuram seus pares e lobos uivam.
Nelson Rodrigues, o grande autor de teatro brasileiro, dizia que, se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém se cumprimentaria. É uma frase de efeito que aponta para a tara. Mas ele também dizia que o tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.
O roteiro de “Kiki” traz mais nesse sentido, porque às vezes é difícil falar sobre o próprio desejo. Há uma censura interna que nos faz ter vergonha. Certos desejos são então, difíceis de satisfazer.
O filme se passa no quente verão de Madri mostrando histórias de casais que tem esse problema em comum: desejos secretos.
Assim, Ana (a argentina Ana Katz) e Paco (Paco León, o diretor e co-roteirista) vão parar na terapia de casais porque falta algo naquele casamento que eles não conseguem entender. Será que não seria o caso de explorar melhor a sexualidade? E Belén (Belén Cuesta), que é garçonete num bar, onde o sexo rola solto, vai ajudar o casal.
Já Natalia (Natalia de Molina) e Alex (Alex Garcia) namoram e pensam em casamento, até que ela é vítima de um assalto numa loja. A lâmina da faca em sua garganta, o ladrão segurando seu corpo e Natalia sente algo que nunca havia sentido na vida. O namorado fica preocupado.
E o cirurgião plástico (Luis Bermajo), que é rejeitado na cama pela mulher (Maria Paz Sayaso), numa cadeira de rodas depois de um acidente, que descobre um meio de satisfazer seus desejos frustrados usando gotas mágicas? A empregada deles ganha uns peitões para ficar calada.
Outro casal ainda, quer filhos, mas não consegue porque o orgasmo da mulher está intimamente ligado às lágrimas.
Para não falar na bela ruiva (Alexandra Jimenez) que tem uma atração irresistível por seda. O orgasmo dela na estação de trem depois de tocar uma certa camisa é bombástico.
Tudo isso, tratado com muito humor e situações divertidas que mostram que os espanhóis estão se soltando, porque o desejo se impõem. É mais forte que a censura.
Paco León que dirige e atua no filme, fez uma refilmagem de um filme australiano, “The Little Death”, de Josh Lawson, de 2014. Fernando Pérez e o próprio diretor escreveram o roteiro, passando a ação para o verão em Madri, onde personagens dos mais variados, tem desejos eróticos, os mais estranhos, com nomes pomposos: Dacrifilia, Elifilia, Somnofilia, Arpaxofilia, Herbofilia.
“Kiki – Os segredos do desejo” brinca com a dificuldade de realizar o prazer sexual e aponta certamente para a culpa que envolve a sexualidade em nossa cultura ocidental.
Assistindo ao filme, o riso contagia o público e liberta um pouco dos preconceitos as mentes menos abertas para o assunto.
Tolerância para com os desejos humanos que não fazem mal a ninguém, é o lema de “Kiki – Os segredos do desejo”.
Se você não se escandaliza muito facilmente, vá se divertir com essa boa comédia espanhola.