quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Extraordinário


“Extraordinário”- “Wonder”, Estados Unidos, 2017
Direção: Stephen Chbosky

Andamos tão cabisbaixos nos tempos em que vivemos, de notícias ruins, guerras, violência, fanatismos, que o nosso coração periga endurecer. Desacreditar da humanidade é o caminho perigoso que somos tentados a trilhar.
Mas filmes como esse “Extraordinário” vão na direção oposta e, por isso, fazem bem. Adultos e crianças precisam revigorar sua capacidade de identificar-se com a bondade. Quando “a gentileza é preferível a estar certo”, como ensina a escola do menino Auggie, nem tudo está perdido.
Quando ele aparece, vestido de astronauta, usando capacete, pulando na cama, num quarto pintado como um céu com estrelas, ele mesmo conta sua história:
“Não sou normal...meu nascimento foi hilário!”
Rindo de si mesmo, um menino de 10 anos.
Ele tem uma deformidade no rosto, a síndrome de Treacher Collins, que é genética. Depois de 27 cirurgias, ele ainda usa um capacete em público.
Educado em casa pela mãe, ele é mimado e é o centro de atenção da casa. Claro que isso afeta a irmã mais velha, a compreensiva Via (Izabela Vidovic), deixada de lado. Ainda bem que ela teve a avó (ótima Sonia Braga) que percebia a carência da neta e a amava muito. Lembrada numa cena em Coney Island, bem curtinha, é um dos pontos altos do filme.
Mas, como todo mundo tem problemas, como diz Via, talvez Auggie consiga enfrentar a escola e possa conviver com as outras crianças. Essa é a torcida da mãe (Julia Roberts) e o receio do pai (Owen Wilson):
“- É como mandar um cordeiro para o abate...”
Auggie mesmo diz:
“- Como nunca fui para a escola, estou apavorado...”
Mas ele tem o diretor da escola, Mr Tushman (Mandy Patinkin) e Mr Browne (Daveed Diggs), o professor da 5ª série, os dois de olho no que pode acontecer.
E Auggie é esperto, inteligente, simpático e bem humorado.
Adaptado do livro de Raquel Jaramillo, que usa o pseudônimo de R. J. Palacio, “Extraordinário”, defende a ideia de que antes de julgar, devemos conhecer. E quando Auggie se afasta dos outros, respeitando a estranheza que causa, por exemplo, ao comer, dadas suas dificuldades motoras, incentiva o bom garoto Jack Wills (Noah Jupe) a se aproximar e a descobrir um amigo.
O diretor Stephen Chbosky tem no currículo o livro “As Vantagens de ser Invisível”, que ele mesmo adaptou para o cinema e rendeu um filme de sucesso. Aqui, ele acertou na escolha do elenco e no ritmo do filme. Não são só dificuldades e lágrimas. Há risos e prêmios.
E tem o principal. O ator canadense Jacob Tremblay já encantara o público no filme “O Quarto de Jack” de 2015, fazendo o garoto de 5 anos que nasceu no cativeiro da mãe e não conhecia o mundo. Em “Extraordinário” ele é o  coração do filme.



domingo, 10 de dezembro de 2017

Verão 1993


“Verão 1993”- “Estiu 1993”, Espanha, 2017
Direção: Carla Simón

Uma menina olha o céu. Escutamos barulhos de fogo de artifício e gritaria de crianças. Mas Frida está mais distante que as estrelas e flores de luzes coloridas brilhantes que iluminam o céu e logo se apagam. No que pensa ela?
Frida (Laia Artigas) é pequena, tem 6 anos e seu rosto mostra uma indiferença a tudo que acontece a seu redor, como se não fosse com ela, como se ela não estivesse ali. E, no entanto, é a casa dela, onde morava com a mãe, que está sendo desmontada. Uma mudança a espera. De Barcelona, onde vivera até então, para o interior da Catalunha. Vai morar com os tios, Esteve, irmão de sua mãe (David Verdaguer) e Marga (Bruna Cusí) e com a sua priminha de 3 anos, Anna (Paula Robles).
Quando a avó dá a ela o santinho da Primeira Comunhão de sua mãe e ensina o Pai Nosso, pedindo que ela reze pela mãe, entendemos porque Frida está distante. É órfã. Perdeu seu pai e depois sua mãe.
Além da falta de expressão do rosto, Frida também não fala.
Quando chegam ao novo destino, ela, sempre com uma boneca no colo, não quer comer. Balança a cabeça tanto para o “não” quanto para o “sim”. Só quer água.
Acorda no dia seguinte com muito sol entrando pela janela, pios de pássaros e zumbido de insetos. A priminha canta enquanto sobe numa árvore e chama Frida para ver.
Na mesa do café da manhã, ela não quer o leite. A tia insiste e o tio, escondido, toma o leite dela. Um brilho aparece no olhar de Frida, no rosto um pequeno sorriso.
Foi esse o primeiro sinal de aceitação da nova realidade em sua vida.
A câmara acompanha Frida o tempo todo e, com isso, nos sentimos próximos da menina, aflitos com o que ela está passando.
Até das galinhas ela tem medo. Passa longe. Temos também medo por ela. Está muito frágil.
No açougue ouvimos a dona comentar com a tia Marga:
“- É a sobrinha de Esteve? Pobrezinha...Foi pneumonia? ”
Frida vai saber do acontecido com sua mãe em conversas de adultos que pensam que ela está longe ou que não entende o que falam.
Mas é nas brincadeiras com Anna que ela começa a lidar com tudo que está fechado dentro dela.
A imagem vestida de negro de Nossa Senhora, com o filho morto na cruz, que Frida encontrou no jardim, recebe presentes e preces. À noite, com uma lanterna, ela procura a mãe nas árvores e chama por ela. Em vão.
Nosso coração se aperta porque percebemos como está sendo difícil para Frida aceitar a morte da mãe. Ela nem mesmo sabe do que ela morreu, já que AIDS naquele tempo era tabu. E a priminha, com pai e mãe, é vista com um misto de ciúmes e raiva intensa.
Aceitar os tios como pais adotivos foi ainda mais difícil porque Frida os vê como inimigos:
“- Aqui ninguém gosta de mim”, diz para Anna.
Há sentimentos contraditórios que a fazem sentir-se confusa.
Carla Simón, 31 anos, diretora e roteirista, conta que se inspirou na própria vida dela para fazer o filme. E o talento da pequena atriz Laia Artigas, extraordinária, respondeu com extrema sintonia à direção de Carla Simón. Assim como todo o elenco.
No Festival de Berlim desse ano o filme ganhou o prêmio de Melhor filme de Cineasta Estreante e o Grande Prêmio do Júri da Mostra Generation Kplus. Foi também o escolhido para representar a Espanha no Oscar 2018.
“Verão 1993” é um filme delicado e comovente, que deixa ver que a dor de uma tragédia, aos poucos, pode ser vivida e compreendida.


Lágrimas no final são difíceis de reter.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente



“Assassinato no Expresso do Oriente”- “Murder on the Orient Express”, Estados Unidos, Malta, 2017
Direção: Kenneth Branagh

Jerusalém, uma cidade ensolarada, de pedras antigas e sagrada, recebe o mais célebre detetive do mundo, Hercule Poirot (Kenneth Branagh, excelente) que, com sua famosa mania de perfeição e simetria, implica com os ovos quentes que são servidos de manhã em seu quarto de hotel.
Mas ele está de bom humor, porque, finalmente, Poirot está de férias.
Antes, porém, tem que atuar para solucionar um problema, pois uma relíquia preciosa foi roubada. Ele resolve o caso magistralmente, a partir de um detalhe insignificante, como aliás é a sua marca. Extremamente bom observador e dono de uma inteligência brilhante, ele é imbatível.
Porém, confessa que está cansado e vai partir para Istambul onde, a bordo do Expresso do Oriente, pretende descansar uns dias até a chegada a Paris.
Istambul, com suas mesquitas brilhando ao pôr do sol, vê chegar na estação de trem os ilustres passageiros que farão a viagem através da Europa. Eles chegam com suas valises elegantes, bem vestidos e ansiosos. Afinal, é uma viagem no trem mais luxuoso do mundo e os que podem pagar a passagem são milionários, que trazem com eles seus empregados.
Poirot observa os doze passageiros que lhe farão companhia, europeus e americanos. Passa por ele a idosa princesa russa, solene, antipática e majestática, coberta de joias e peles (Judi Dench), acompanhada por sua humilde empregada Hildegarde Schmidt (Olivia Colman); há uma jovem e bela governanta, Mary Debenham (Daisy Ridley) que parece conhecer o doutor Arbuthnot (Leslie Odom Jr) esperado em Londres para uma operação num paciente importante; destoando do grupo de convivas alinhados, emerge o professor austríaco Gerhard Hardman (Willem Dafoe); outra também diferente dos outros é a opaca religiosa Pilar Estravados (Penélope Cruz); o que não é o caso do casal russo de bailarinos, Count Andrenyi (Sergei Polunin) e sua mulher, a Condessa Andrenyi (Lucy Boynton); há também uma bela americana que faz o tipo mulher fatal, caçadora de maridos, Mrs Hubbard (Michelle Pfeiffer, ótima); além de um empresário latino, Marquez (Manuel Garcia-Rulfo) e por fim, um americano mal encarado, que se diz comerciante de arte, Ratchett (Johnny Depp, sempre um ator camaleônico), que veio com seu mordomo, Masterman (Derek Jacobi) e seu assistente, Hector Mac Queen (Josh Gad).
Um, dentre eles, será assassinado. E Poirot, de férias, terá que se curvar à evidência de que ele é que terá que liderar os interrogatórios para descobrir o culpado.
O livro publicado em 1934, escrito pela inglesa Agatha Christie (1890-1973), faz parte de uma coleção de 33 que tem o detetive belga como personagem principal, sempre vítima de brincadeiras por causa de seu sotaque e principalmente por seu excêntrico bigode. Kenneth Branagh usa o mais extraordinário jamais visto na tela do cinema ou na televisão. Ele está maravilhoso no papel e mal conseguimos ver o ator, tão impregnado que ele está do seu personagem.
A direção do próprio Branagh é ágil porém o ritmo, um tanto acelerado, que faz com que o espectador não familiarizado com a história tenha dificuldade de seguir os acontecimentos.
Há cenas belíssimas do trem visto do alto das montanhas nevadas, lá embaixo no vale. E o Orient Express foi reconstruído com capricho, destacando-se sua bela decoração “art-déco” nas luminárias e painéis de madeiras preciosas. O encontro do corpo da vítima do assassinato é visto de cima, retirados os tetos das cabines, o que dá um toque original à cena.
O final é muito bem pensado e faz homenagem a um ilustre quadro de um importante artista.
E, resolvido o misterioso crime, ficamos sabendo que Poirot é chamado às pressas para o Egito, onde houve um assassinato no Nilo. Pelo visto vamos ver Kenneth Branagh numa nova produção de “Morte no Nilo”. A outra, de 1978 tinha direção de John Guillemin e Peter Ustinov como Poirot.

Veremos.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Com Amor, Van Gogh




“Com Amor, Van Gogh”- “Loving Vincent”, Reino Unido, Polônia, 2017
Direção: Dorota Kobiela e Hugh Wetchman

Um dos pintores mais importantes da história da arte ocidental, Vincent Van Gogh, nasceu na Holanda em 1853 e morreu na França em Auvers-sur-Oise em 1890, aos 37 anos.
“Starry Night- Noite Estrelada”, talvez sua tela mais conhecida, serve de fundo para os créditos da animação dirigida pelo casal Dorota Kobiela e Hugh Wetchman. As espirais azuis e amarelas e as pinceladas espessas, nos fazem lembrar da tela na qual uma noite estrelada aparece sobre a cidadezinha de Auvers-sur-Oise, na qual Van Gogh morou no fim de sua vida, seus anos mais brilhantes, nos quais produziu 400 telas inesquecíveis.
Mas não houve glórias para o pintor. Pobre e deprimido, Vincent mal tinha dinheiro para comer. Era seu irmão mais novo, Theo, que o sustentava e comprava tintas e telas para que Vincent pudesse pintar.
A animação tem o encanto de tornar vivas as figuras dos quadros que conhecemos nas paredes dos museus. Foram mais de 100 artistas que pintaram, a mão e à óleo, os 65.000 “frames” que compuseram o filme, no estilo de Van Gogh, durante 7 anos.
O filme foi feito normalmente, com artistas reais (Douglas Booth, o filho do carteiro, Jerome Flyn, doutor Gachet, Saoirse Ronan, a filha do médico, Marguerite e Chris O’Dowd, o carteiro, para citar alguns) e depois, os artistas pintaram a mão cada “frame” do filme, com o estilo de Van Gogh e as cores vivas tão características de seus quadros.
O roteiro inspirou-se nas cartas entre os irmãos e levantam uma dúvida: Van Gogh teria mesmo se suicidado?
Um ano após a morte do pintor, o filho do carteiro, Armand Roulin, tem em suas mãos uma última carta extraviada, de Vincent para  Theo, que morreu seis meses depois do acontecido com o irmão, em Arles. Não tendo a quem entregar a carta, Roulin, que está em Auvers-sur-Oise, passa a fazer um trabalho de detetive para descobrir mais detalhes sobre o que realmente aconteceu com Van Gogh.
Para isso, interroga as pessoas que conviveram com Vincent e que foram os personagens de seus quadros.
A história em si não é o melhor do filme. Porque a emoção está em vermos recriados seus quadros mais famosos.
E a ironia é trágica. Aquele que assinou telas que hoje são leiloadas por milhões de dólares, vendeu apenas um quadro enquanto estava vivo. Foi só muito depois de sua morte que ele foi reconhecido.
Vincent Van Gogh era um ser que habitava dimensões humanas muito distantes das pessoas de seu tempo de vida.

A animação “Com amor, Van Gogh” foi premiada pelo público da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo como melhor filme de ficção.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Thelma



“Thelma”- Idem, Noruega, Dinamarca, Suécia, 2017
Direção: Joachim Trier

Quando o filme começa, um homem e uma menina pequena caminham sobre um lago gelado. Veem peixes nadando nas águas através do gelo qual vidro transparente. A menina sorri mas o pai dela está sério.
E arrepiamos quando, na floresta branca de neve, ele aponta sua espingarda para um pequeno cervo e, logo, muda sua mira. É a menina que vai morrer?
Lembrei imediatamente do conto de fadas no qual a madrasta má ordena ao caçador que traga o coração da mais bela, depois de matá-la, bem longe na floresta. Há logo, de início, uma sugestão que a menina tem pai e mãe perigosos.
Mas como uma criança reage frente a pais perversos? Fatalmente assumirá sempre as culpas de tudo de errado que acontecer.
O diretor Joachim Trier, 43 anos, escreveu o intrigante roteiro com Eskil Vogt e a fotografia bela e sutil é de Jakob Ihre. Os closes e supercloses ajudam o espectador a entender que o que se passa com Thelma pertence a seu cenário interior.
Educada por pais religiosos fanáticos, em nenhum momento sentimos calor na relação de Thelma (a maravilhosa atriz Eili Harboe) com seus pais.
Mas sentimos um mal-estar desde a primeira vez que vemos Thelma com os pais. A mãe (Ellen Dorrit Petersen) liga várias vezes no primeiro dia da filha na universidade em Oslo e reclama dela não atender o celular. A menina é gentil e informa cada passo seu mas notamos que ela se sente sufocada com tanto controle. Isso se repete todo dia. Estressante.
Para Thelma, educada com rigor religioso no campo, não é fácil aproximar-se dos colegas. Quando bebe com eles num bar, logo fica culpada e confessa ao pai (Henrik Wilkins).
Mesmo assim, o mal-estar continua.
E quando Thelma encontra Anja (Kaya Wilkins) na sala de leitura e se sente atraída por ela, vemos o quanto ela se entrega à autopunição. Tem uma convulsão. Desejos proibidos.
No bar, onde as duas ficam mais íntimas, depois de fumar um baseado, Thelma tem uma alucinação. Engole uma cobra. Sexualidade como pecado.
Frente ao médico que a examina ficamos sabendo de um “ataque de nervos” aos 6 anos de idade, medicado com uma droga não indicada para crianças. Uma avó com problemas mentais é citada mas Thelma acha que ela morreu:
“- Meu pai é médico. Ele que cuida disso. Não me lembro de nada. ” Trauma de infância.
Diagnosticada como tendo epilepsia psicogênica ou seja, sem nada em seu cérebro que justifique as convulsões, Thelma é indicada a um psiquiatra.
“Thelma” é um filme que pode ser visto por parte do público como sendo sobre uma garota com poderes paranormais. Uma “Carrie, a estranha”. Para mim, Joachim Trier parece mais interessado em mostrar os efeitos da educação e do ambiente sobre a construção da nossa identidade. Ele disse numa entrevista:
“O verdadeiro horror é a ausência de auto aceitação. ”
“Thelma” é uma história contada do ponto de vista da garota que não entende que pensamentos não podem causar danos. Ela é como uma criança, interpretando o mundo com o pensamento mágico, que traz consigo o horror, a culpa e a vergonha.
Finalmente, “Thelma” é um drama sobre uma menina, que descobre a si mesma e ao mundo real, passando por experiências que a ajudam a superar seus pesadelos.



sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Um Contratempo


“Um Contratempo”- “Contratiempo”, Espanha, 2016
Direção Oriol Paulo

Quando você tem tudo que quer e a sorte lhe sorri, cuidado. Porque você pode entrar numa espécie de cegueira e aí sua onipotência torna-se má conselheira.
Foi isso talvez que aconteceu com o jovem e bem sucedido  dono de um empresa do ramo da tecnologia, eleito empresário do ano. Ele (Adrián Doria) tem uma mulher bonita e amorosa e uma filhinha adorável. Mas apesar de amá-las, não lhe bastavam.
Divertia-se com uma amante, a bela fotógrafa Laura (Barbara Lennie). Costumavam passar tempos juntos, mentindo para seus respectivos cônjuges que estavam a trabalho em algum lugar. Parecia a coisa certa já que nenhum dos dois queria uma separação.
Mas chegou um momento em que Adrián começou a sentir que essa relação estava pesada. Toda essa história de ter que inventar motivos falsos para estar com Laura... Não havia sentimentos profundos entre eles. Mais prático acabar com o caso.
E, quando voltavam de uma dessas escapadas num fim de semana, passando por uma estradinha que cortava uma floresta, ele resolve dizer a ela que estava tudo acabado.
Por uma dessas coincidências do acaso, nesse exato momento, um grande cervo pula à frente do carro de Adrián, que perde o controle da direção e bate em outro carro que vinha em sentido contrário.
Depois do susto, aliviados porque nada tinha acontecido com nenhum dos dois, resolvem ir até o outro carro, parado fora da estrada.
Um jovem está imóvel no assento do carro e parece ferido seriamente. Laura tenta acordá-lo. Nem um sinal de vida.
Assustada, Laura pensa em chamar a polícia mas como explicar Adrián e ela tão longe de casa? Nenhum dos dois quer um escândalo.
É aí que ela tem a ideia de livrarem-se do corpo e do carro do rapaz. Adrián aceita essa solução e vai conduzindo o carro do rapaz com o corpo no porta malas.
Mas quando ele sai, Laura não consegue fazer o carro dele pegar. E é por aí que a coisa vai complicar. Pessoas vão passar pela estrada e como ela vai fazer? Como irá encontrar-se com Adrián?
Toda mentira leva a outras. Sabemos disso. E esse filme que começa com um contratempo, vai complicar-se cada vez mais.
Preso por um crime que diz que não cometeu, Adrián Doria é considerado culpado pela morte de Laura, num quarto de hotel, onde ele diz que foram encontrar um chantagista.
Seu advogado sugere que contratem uma advogada experiente, Virginia Goodman (a excelente Ana Wagener), para prepará-lo para o julgamento.
Os dois se encontram e tem três horas para montar uma defesa imbatível. Para isso, ela vai interrogá-lo de forma agressiva e inteligente, pedindo que conte tudo em detalhes. Enquanto isso, o advogado de Adrián vai atrás de uma testemunha chave.
O diretor e roteirista  espanhol Oriol Paulo conseguiu escrever uma história fantasticamente bem contada, através de “flashbacks” do passado, inseridos com maestria numa ótima edição.
A plateia é convidada a pensar e tentar descobrir a verdade. Mas esse é um feito difícil pois, a cada passo, a trama se adensa mais e o que sabíamos antes, passa a ser uma mentira bem contada. E são muitas.
O final é surpreendente e original.
Mais não digo porque qualquer coisinha a mais pode estragar o prazer desse final.
“Um Contratempo” é um suspense que há muito tempo não se via no cinema.



segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Boneco de Neve



“Boneco de Neve”- “The Snowman”, Estados Unidos, Inglaterra,
Suécia, 2017
Direção: Tomas Alfredson

As primeiras cenas do filme, que mostram uma casa perdida nas montanhas cobertas de neve da Noruega, são da maior importância na trama. Nelas, um garoto vê sua mãe sofrer por causa de um homem brutal, que ele chama de “tio”. Depois de uma briga entre os dois, a mãe o acusa de ser pai do menino. Nervosa, ela dirige perigosamente o carro onde estão e o menino não consegue salvá-la depois de um acidente.
Há um salto no tempo e vemos o detetive Harry Hole (Michael Fassbender, sempre excelente ator) tentando voltar à boa forma, prejudicada pelo seu vício com a bebida, que fez com que perdesse sua mulher Rakel (Charlotte Gainsbourg). E a oportunidade de redimir-se aparece quando uma policial, Katrine Bratt (Rebecca Ferguson), vinda de Bergen, precisa de ajuda para seguir a pista de mulheres desaparecidas.
Na verdade, tais mulheres tidas como desaparecidas foram assassinadas de modo cruel por um “serial killer”, que tem como assinatura um boneco de neve, sempre encontrado no local do crime. Tem grãos de café na boca, qual dentes pretos e olhinhos cruéis. Outras mulheres terão o mesmo fim durante o filme.
A bela detetive companheira de Harry é corajosa e vai atrás de pistas que incriminariam homens poderosos de Oslo. Uma clínica médica e um empresário milionário estão em sua mira.
O diretor Tomas Alfredson se saiu muito bem no encantador “Deixa ela entrar” de 2008, com a história de uma menina vampira e assinou “O Espião Que Sabia Demais”. Nesse “Boneco de Neve”, adaptado do best-seller de Jo Nesbo, sentimos que falta continuidade à história que é contada, deixando o espectador às vezes perdido. A montagem de Thelma Schoonmaker faz cortes abruptos, o que agrega uma sensação de confusão.
Em entrevistas, o diretor responde às críticas negativas sobre o filme, dizendo:
“Nosso tempo de filmagem na Noruega foi muito curto e ainda não tínhamos a história toda e quando começamos a edição descobrimos que faltava filmar muita coisa. Foi como se tivéssemos feito um grande “puzzle” e algumas peças estivessem faltando, o que faz com que não se veja a figura inteira. ” Assim, cenas adicionais tiveram que ser filmadas na primavera em Oslo.
A explicação do diretor esclarece essa sensação de descontinuidade, que é uma pena, porque o resultado são personagens rasos que impedem a possibilidade do espectador entrar mais emocionalmente na história.
No entanto, “Boneco de Neve”, com todos os seus defeitos, é entretenimento de muito melhor qualidade quando pensamos nos roteiros pobrinhos dos filmes de super-heróis que atravancam os cinemas da cidade.



domingo, 26 de novembro de 2017

Barreiras


“Barreiras”- “Barrage”, Luxemburgo, Bélgica, França, 2017
Direção: Laura Schroeder

Estamos num cenário onde o feminino reina. Só elas tem direito ao jogo em curso. Uma disputa.
Tudo começa na tela com a figura de uma moça que se confunde com Isabelle Huppert. É ela? Não é? É a filha dela, Lolita Chammah, que se parece muito com a mãe.
Catherine, filha de Huppert na vida real, também é filha de Elizabeth, a personagem de Isabelle Huppert no filme “Barreiras”. Não descobriríamos logo esse detalhe importante se a semelhança não fosse tamanha. É quase como se víssemos Isabelle Huppert em duas fases da vida. É de propósito. Porque existe uma confusão na história. Quem é quem aqui?
Isabelle Huppert aparece depois que Catherine busca alguém numa escola de tênis. Uma partida entre duas meninas acontece na quadra, onde ela se senta na plateia.
Atrás da rede Elizabeth, que sempre foi professora de tênis, critica os erros e corrige os gestos de Alba (Themis Pauwells), uma garota de 11 anos, magrinha, olhos claros, cabelos presos numa trança. Mas quem é Elizabeth na vida de Alba?
Em outra cena, um senhor mais velho pergunta a Catherine se viu a mãe dela:
“- Ela não atende ao telefone...”
“- Mas ela não pode tratar você assim! Você tem direito! ”
E vemos quando Catherine encontra Alba no jardim da casa:
“- Sabe quem sou? ”
A menina quieta, baixa os olhos.
“- Da última vez que nos vimos, você era menor do que essa raquete. Vi você jogando lá no clube. Eu também jogava mas desisti... Acha que vou embora de novo? ”
“- Não sei... Mas você não tem nada a ver aqui ” e entra correndo na casa.
Vamos descobrir as relações entre as três quando Catherine vai atrás de Alba e encontra Elizabeth comandando exercícios  abdominais da menina. Quando Elizabeth vê Catherine, seu rosto mostra surpresa e cautela. E diz, depois de um silêncio:
“- Você usa vestido agora? Fica bem em você. Também gosto do seu cabelo. É um prazer ver você. Vem comigo”, diz levando Catherine para fora do quarto. E continua em outro tom, bem mais frio:
“- Você devia ter prevenido que vinha. Alba está se preparando para o campeonato. A viagem com você está fora de questão. “
Então as gerações estão em conflito. Compreendemos que Catherine, mãe de Alba, deixou a filha com a avó Elizabeth. Por que? Ela tinha problemas. Drogas? Mãe solteira? Imaturidade? Não sabemos. Só o que fica claro é a relação nada amistosa entre as duas.
A reaproximação entre mãe e filha será difícil.
Elas tem muito a se dizer? Não. Não viveram as experiências da vida juntas. E esse vazio entre elas Catherine preenche com músicas que ela canta para Alba. Como se fossem acalantos. E dançam, uma de frente para a outra.
Os vazios são também preenchidos com belas imagens da floresta e do lago da barragem. Um corredor para permitir a passagem dos peixes é metáfora para brechas nas barreiras entre Catherine e Alba.
Mas como pode ser mãe quem não foi filha? Um sonho de Catherine ilustra a distância e o estranhamento que ela viveu com a mãe.
Há no filme uma lentidão que pode irritar. A situação e a forma como foi tratada pela direção de Laura Schroeder agradará a pessoas mais maduras. Os mais jovens podem se entediar.

Mas agora só o tempo e paciência podem ajudar. Nada mais.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Un Plus Une


“Un Plus Une”, França, 2015
Direção: Claude Lelouch
Netflix

Estar na Índia é quase como viver um sonho, já que é um lugar completamente diferente do que conhecemos no Ocidente. A impressão é de que lá tudo pode acontecer.
Claude Lelouch, 80 anos, sempre soube contar histórias de amor como ninguém. Quem não se lembra ou pelo menos cantarolou a música de “Un Homme et Une Femme”? O mesmo Francis Lai compõe a música desse novo filme “Un Plus Une”, que nos envolve pelos sentidos, pelos personagens e pelos belos cenários de um país solar.
Há um filme dentro do filme, um charme a mais de Lelouch, com uma história de amor acontecida entre jovens indianos, um ladrão e uma bailarina, que vira filme e vai ser musicado por um famoso compositor francês, Antoine Abeilard (Jean Dujardin).
Ele viaja para Mumbai, deixando em Paris sua companheira, a pianista Alice (Alice Pol). Antoine é bonito e sabe disso, simpático, blasé, entediado, cheio de risos, colecionador de mulheres e não parece levar a vida a sério.
Na Embaixada da França, no jantar em sua homenagem, senta-se ao lado de Anna, a embaixatriz (Elza Zylberstein, linda e boa atriz), falante, sedutora, charmosa, imediatamente seduzida por Antoine. Conversam e riem muito, observados por um embaixador ciumento (Christophe Lambert).
Anna é atraente, apaixonada pela Índia e suas crenças e vai fazer uma viagem ao sul do país para purificar-se no Ganges e visitar uma líder espiritual conhecida em toda o país. Ela quer um filho e acredita que ser abraçada e abraçar Amma, Mata Amritanandamayi, realizará seu desejo. “Minha religião é o amor” está escrito no lugar onde Amma, uma pessoa da vida real, recebe milhares de peregrinos que ouve e abraça por horas a fio, com uma generosidade de Grande Mãe, como é venerada.
Aliás, a verdadeira Índia, que vemos o tempo todo, é uma atração à parte, com aquele colorido dos sáris e véus, a convivência com multidões pacíficas, trânsito louco, vacas sagradas e crenças em muitos deuses e muitas vidas.
Por um motivo pessoal, além do interesse que sente pela embaixatriz, Antoine resolve seguir Anna nessa viagem. Apesar das ótimas intenções, e das juras de amor aos respectivos companheiros, Anna e Antoine vivem uma breve e mal conduzida relação.
Mais tarde, o acaso vai interferir na vida desses dois e pode ser que dessa vez eles estejam mais maduros para o amor.
“Um Plus Une” mexe com a gente e essa é a grande qualidade do filme. Aliás um ótimo Lelouch, que está em plena forma.



sábado, 18 de novembro de 2017

Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha



“Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha”- “Victoria e Abdul”, Reino Unido, Estados Unidos, 2017
Direção: Stephen Frears

Esta é a segunda vez que Judi Dench, 82 anos, interpreta a Rainha Victoria no cinema. A primeira foi no filme “Sua Majestade, Mrs Brown” com o qual ganhou o Globo de Ouro 1998. E é a terceira vez que trabalha com o cineasta também inglês como ela, Stephen Frears, 76 anos.  Nessas duas ocasiões foi indicada ao Oscar de melhor atriz (“Sra Henderson apresenta” de 2006 e “Philomena” de 2013). Judi Dench já foi indicada ao Oscar de melhor atriz por cinco vezes mas só ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por “Shakespeare Apaixonado” em 1998 quando interpretava Elizabeth I.
A Rainha Victoria vai dar a ela o tão esperado Oscar de melhor atriz? Mereceria, pois está fantástica mais uma vez nos seus cenários reais. E o diretor Stephen Frears (“A Rainha” que deu o Oscar a Helen Mirren), consegue fazer um retrato íntimo da Rainha Victoria, como se entrasse na vida dela pela porta de sua condição humana e não como personagem da realeza.
Quando a vemos no filme pela primeira vez, ela está vestida de negro de viúva, brincos, colar, broche e tiara de diamantes. Mas as pedras brilham mais do que seus olhos, baixos, que só enxergam o prato que ela come vorazmente. A corte em volta da grande mesa do almoço que comemorava o Jubileu de Ouro, os 50 anos de seu reinado, tem que comer depressa, no ritmo da rainha.
Mas, quando se aproxima dela o garboso Abdul Karim (Al Fazal), um funcionário indiano escolhido para levar para a rainha uma moeda cerimonial, um “mohur”, seguido de outro indiano ambos em trajes de gala, o mais alto diz:
“- Um presente do Império da Índia. ”
E aquele jovem de 24 anos, dono de uma bela presença, comete o erro imperdoável, para o qual tinha sido avisado inúmeras vezes pelo cerimonial:
“- O mais importante é jamais olhar para a Rainha!”
Mas, voltando de costas como fora treinado, Abdul não somente olha mas sorri para aqueles olhos azuis penetrantes que o encaram.
E, no dia seguinte, na hora do café da manhã, o médico dr Reid (Paul Higgins) e os demais à volta da rainha, levam o primeiro susto:
“- Vossa Majestade gostou do “mohur”? ”
“ - Achei o mais alto tremendamente atraente !”
E convoca os dois indianos para sua criadagem particular durante todo o Jubileu.
Estamos em 1887 e a Rainha Victoria tinha 68 anos. Aquela troca de olhares durante o banquete fora o primeiro passo para uma relação íntima e duradoura que, por 14 anos, uniu a soberana com um simples indiano muçulmano, escrevente de uma prisão em Agra. Porque Abdul tinha tudo que a rainha precisava. Caloroso, doce e servil, falava bem e contava histórias que abriram um mundo para aquela senhora deprimida, gorda, cujos olhos não brilhavam há muito tempo. Ela o fez seu “munshi”, professor e guia espiritual.
E era tanta a intimidade dos dois que os ciúmes e a repulsa racista da corte interferiram cruelmente quando Victoria morreu em 1901. O filho Bertie (futuro Eduardo VII) e a família real fizeram desaparecer todos os indícios dessa relação, que ficou totalmente esquecida por 100 anos.
O roteiro do filme, escrito por Lee Hall, baseou-se no livro de 2010 do jornalista indiano Shrabani Basu que pesquisou e encontrou os diários de Abdul.
Aquela que foi a rainha com o mais longo reinado do Império Britânico, aparece aqui como uma inesperada figura nada politicamente correta, que ansiava por um pouco de calor humano, que era tudo que ela não tinha, rodeada que estava de pessoas frias que apenas exerciam suas funções bem remuneradas enquanto esperavam que ela morresse.

Comovente.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Depois Daquela Montanha



“Depois Daquela Montanha”- “The Mountain Between Us”, Estados Unidos, 2017
Direção: Hany Abu-Assad

Hoje em dia, raramente vemos um filme para adultos como os de antigamente. Parece que o cinema americano virou domínio dos jovens, com filmes de ação, violência e super-heróis.
“Depois Daquela Montanha”, portanto, é uma boa surpresa que vai agradar pessoas que gostam de filmes românticos com conteúdo. Bom entretenimento, conta com uma dupla de atores impecáveis (Kate Winslet e Idris Elba) e é dirigido pelo premiado diretor Hany Abu-Assad, 56 anos, que assinou “Paradise Now” e “Omar”, nascido de uma família palestina em Nazaré, Israel. Foi educado na Holanda e esse é seu primeiro filme em inglês.
Baseado no livro de Charles Martin, a trama é bem interessante, envolvendo um casal numa situação altamente perigosa. Por causa de uma tempestade, os voos de Salt Lake City para Nova York foram cancelados, para desespero do médico neurocirurgião Ben Bass, que tem uma cirurgia marcada para o dia seguinte. A fotojornalista Alex ouve o que o médico diz e, de casamento marcado para o dia seguinte, também não pode perder o voo.
Ela aborda o médico e sugere que aluguem um avião pequeno para a viagem. Assim fazem mas algo inesperado acontece. O piloto (Beau Bridges), que traz seu labrador a bordo e que tinha dispensado o plano de voo, tem um AVC em meio a uma terrível turbulência.
E acontece o pior. O avião se estatela na neve, no pico de uma alta montanha. O piloto morre e Alex fica desacordada e com a perna ferida depois do desastre.
Em meio a um frio mortal, Ben e Alex vão precisar de muita sorte para se salvar dessa tragédia.
A dupla de atores é o que mais atrai no filme. Personagens muito diferentes um do outro, já que Ben é reservado e Alex curiosa e falante, os dois tem uma química perfeita que a plateia percebe desde o início. O negro Idris Elba (ator excelente, convincente e atraente) alto, bem apessoado e gentil, conquista a atenção de Alex e dos espectadores. Sua presença calma e eficiente salva a fotógrafa da morte certa.
E, ao mesmo tempo, ela é a chave da sobrevivência de Ben, que faz tudo para proteger Alex mas vive um processo psicológico pesado com suas emoções trancadas. E precisa voltar à vida.
O labrador, terceiro personagem, enfeita o filme e com sua vitalidade natural traz uma qualidade de perseverança otimista a uma situação que poderia ter um final terrível.
O diretor soube manter um ritmo envolvente sem apelar para surpresas desagradáveis, os diálogos são ótimos e o cenário espetacular.
Com tudo isso, “Depois Daquela Montanha” vai agradar certamente a seu público.





segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Gabriel e a Montanha


“Gabriel e a Montanha” Brasil, 2017
Direção: Fellipe Barbosa

Na bela cena de abertura, com uma paisagem deslumbrante, ficamos sabendo o final da história trágica de Gabriel Buchmann, jovem economista que viajava por um ano pelo Oriente e África, em 2009, antes de começar seu doutorado sobre a pobreza no mundo, nos Estados Unidos.
Seu corpo é encontrado numa reentrância da rocha do Monte Mulanje no Malauí, 19 dias depois de seu desaparecimento, durante uma descida, sozinho, após atingir o cume. Morreu por hipotermia.
Ao longo do filme vamos percebendo que o que Gabriel (João Pedro Zappa, ótimo ator) tinha de simpatia e alegria de viver, tinha também de teimosia e arrogância. Apesar de avisado de que o lugar era perigoso, resolveu subir sozinho, mal trajado para o frio intenso e sem notar que a neblina poderia ser a sua pior inimiga, escondendo as sinalizações pintadas nas pedras.
Gabriel tinha pressa. Subiu assobiando e pulando de pedra em pedra, como se aquele fosse um lugar conhecido.
Por que? Foi descuido? Ignorância? Onipotência?
Essa pergunta ninguém pode responder. Inclusive porque poderia ter havido uma vontade inconsciente de não voltar.
Fellipe Barbosa (“Casa Grande”), colega de escola de Gabriel, resolveu fazer dele seu personagem, recriando seus últimos 70 dias. Refaz o trajeto dele por 4 países, que são os 4 capítulos do filme.
No capítulo 1, no Quênia, vemos Gabriel, o único “mzungu” (Branco) à vista, vestido como se fosse um habitante local, com o pano em volta do corpo e sandálias feitas de borracha de pneu. Recusa-se a ser visto como um turista. Mas fala inglês. Tem pouco dinheiro. Sua simpatia faz com que todos se aproximem dele, adultos e crianças. Divide a cama e comida com seus novos amigos. E está feliz.
“- É a viagem que eu idealizei fazer. Autossustentável.”
E no capítulo 2 o projeto é subir o Kilimandjaro, a mais alta montanha da África com quase 6.000 m, na Tanzânia, junto da fronteira com o Quênia. John Goodluck, o guia de Gabriel, diz que serão 5 dias mas Gabriel acha que dá para fazer em 4.
“- Por que tanta pressa?”
“- Tenho coisas para fazer. Semana que vem vou pegar minha namorada em Dar El Salom.”
À noite seu sono é agitado. Tosse muito.
Algum tempo depois, quase no topo, Gabriel sente cansaço e quer descer, Goodluck o ampara até o alto. Ele respira com dificuldade. Primeiro sinal que seu preparo físico não era bom, que a saúde fraquejava.
Mas Gabriel não presta atenção e lá vai ele fazer safári com a namorada Cristina (Carolina Abras, excelente) no jipe do guia Rashid. E uma briga entre eles, levanta outro ponto dessa história cruel:
“- Você veio se esconder na África quando todo mundo se desiludiu com você”, diz Cris, aludindo ao fato dele ter sido recusado em Harvard.
“- Não estou fugindo de ninguém. É a viagem dos meus sonhos”, retruca Gabriel.
Capítulo 3 na Zâmbia, as cataratas, Victoria Falls. Os dois curtem o lugar fotografando e namorando. E Gabriel perde tempo num café com internet e os dois perdem a hora de um passeio com elefantes e um “bung jump” no último dia de Cris na África.
O diretor usa só dois atores profissionais, os outros são pessoas que conviveram com Gabriel e que falam sobre ele em “off”.
Como é difícil aceitar que Gabriel executou um plano inconsciente de morrer na África. Mas tudo pode também ter sido um acaso. Acontece.
Aliás o que importa é que Gabriel realizou uma viagem de sonho em sua curta vida e estava feliz.
Curta ou longa a vida, a morte é sempre certa.






sábado, 11 de novembro de 2017

O Outro Lado da Esperança


“O Outro Lado Da Esperança”- “Toivon Tuola Puolen”, Finlândia, Alemanha, 2017
Direção: Aki Kaurismaki

É tão bom ver um filme que nos devolve a palavra “humanidade” num sentido caloroso. Sabemos o quanto podemos ser cruéis, principalmente com os mais fracos e isso também aparece aqui mas o tom é menos de pessimismo ou otimismo exagerados e mais de mostrar uma realidade possível, quando há boa vontade.
A Finlândia é um país distante da Europa mais próxima de nós. Faz muito frio e as pessoas não sorriem com facilidade.
Nem se abraçam com intimidade. E isso pode nos levar a pensar que não existe empatia e muito menos bom coração por lá.
Mas as aparências enganam. É o contrário desses preconceitos que vamos ver no novo filme de Aki Kaurismaki, 60 anos, roteirista, produtor e cineasta finlandês. Seu filme mais premiado foi “Um Homem sem Passado” de 2002 que ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O filme em questão, “O Outro Lado da Esperança” levou o Urso de Prata do Festival de Berlim desse ano.
O tema da imigração de gente que foge da guerra, da fome, da política e perseguição, procurando chegar na Europa, é bem atual. O artista chinês Ai WeiWei mostra em seu belo documentário de 2017, que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, “Human Flow – Não Existe Lar se Não Há Para Onde Ir”, que a situação dos refugiados é trágica.
Dentro desse tema, Aki Kaurismaki conta uma história que entrelaça pessoas que se cruzam por acaso. Khaled Hussein (Shervan Haji) foge de sua cidade natal Aleppo, Síria, depois que um míssil de origem desconhecida (podendo ser de qualquer um desses que se enfrentam por lá ou seja, tropas do governo da Síria, rebeldes, Estados Unidos, Rússia, Hezbolah ou Estado Islâmico) destruiu sua casa e matou pai, mãe, irmão caçula, tio, tia e filhos deles, que almoçavam em família.
Salvos ele e a irmã, porque Khaled estava voltando do trabalho e a irmã na fila do pão, fogem da Síria e chegam à Grécia de barco. Depois de uma caminhada longa atravessando a Macedônia e a Sérvia, alcançam a fronteira da Hungria. Um tumulto separa Khaled da irmã e ele vai preso. Surrado, é solto 4 dias depois.
Desesperado, por mais que procure pelos campos de refugiados na Hungria, Áustria, Eslovênia e Alemanha, não encontra sua irmã.
Em Gdansk, Polônia, é perseguido por neo-nazistas e consegue esconder-se em um navio. Um marinheiro o protege e assim, por puro acaso, ele chega à Finlândia, destino do navio.
Enquanto isso, na Finlândia, o comerciante Waldemar Wikstrom (Sakani Kuosmanem), cinquentão, separa-se de sua mulher alcoólatra, vende seu estoque de camisas e muda de ramo. Compra um restaurante que, ele não sabe, onde mais se bebe do que se come, herdando de quebra três funcionários com salários atrasados e uma cadelinha, a clandestina refugiada no restaurante.
Dois mundos tão distantes, o de Khaled e o de Wikstrom, aproximam-se porque os dois tem coisas em comum. Ambos procuram seu lugar no mundo porque perderam o que tinham.
Mais que isso, a solidariedade do finlandês encontrou um motivo para manifestar-se e aquele restaurante torna-se um lugar onde todos procuram acertar. O percurso é bem humorado e as cenas mais divertidas acontecem ali.
A música é uma constante e no filme desfilam roqueiros dos anos 70 cantando baladas em todos os lugares por onde passa Khaled.
Os diálogos são curtos, não há sorrisos fáceis mas existe calor humano e empatia com o sofrimento alheio.
“O Outro Lado da Esperança” é uma fábula sobre a procura de um lugar de paz, de um lar onde se possa viver sem maiores sobressaltos, longe do ódio e perto do calor humano. Um sonho cada vez mais impossível para muitos.



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Terra Selvagem





“Terra Selvagem” – “Wind River”, Estados Unidos, 2017
Direção: Taylor Sheridan

Numa noite de Lua cheia, um campo de neve brilha à luz do luar. Ali vai ser o palco de uma tragédia.
A garota que corre assustada, recitando com dificuldade palavras que parecem poesia, vai cair e a câmara mostra seus pés descalços. Do que ela está fugindo? Faz muito frio.
O corte abrupto para a luz de um dia brilhante mostra um rebanho de ovelhas e coiotes à espreita. Um tiro certeiro acaba com o predador e afugenta os outros. Um homem se levanta. Veste uma roupa camuflada e segura um rifle.
Cory (Jeremy Renner, excelente) trabalha para o serviço de Fauna e Flora da Reserva Indígena de Wind River, como caçador que protege rebanhos de ovelhas e gado.
Estamos em Lander, Wyoming, e Cory bate na porta de uma casa.
A mulher que o recebe pergunta irônica:
“- Tem sangue na sua camisa...Quem foi a vítima de hoje? ”
Cory veio buscar o filho pequeno na casa de sua ex-mulher. Ela é bonita e tem traços de uma nativa americana, que é como chamam agora os “índios” de antigamente.
A câmara mostra os olhos tristes dele que buscam o retrato de uma adolescente na prateleira da sala. Outras fotos mostram uma família feliz, ele e ela e os dois filhos. Mas essa família não existe mais.
O pai vai levar o filho para a casa dos avós maternos, onde vai ter que descobrir o animal que matou uma cabeça de gado:
“- Não tire os olhos dele... Você sabe por que...”diz a mãe friamente.
A beleza das montanhas e campos cobertos de uma neve virgem alivia um pouco um clima pesado que percebemos na fala das pessoas. Estamos na terra onde “cowboys” matavam os “índios” e os que se metiam com eles. Sem leis mas sempre armados, assim era e parece que ainda é.
Cory vai com o sogro ver o que aconteceu com o bezerro e ali vemos a experiência dele. Examinando os traços e pegadas na neve, diz:
“- É uma leoa da montanha. Teve dois filhotes no ano passado e está ensinando eles a caçar... E agora, toda a família vai morrer... ”
Mas algo mais terrível vai chamar a atenção do caçador. Com o seu “snowmobile”, ele vai ver o que é aquela mancha azul na neve branca, ao longe.
E outra caçada vai começar. Só que dessa vez não se trata de um predador que luta pela sobrevivência. É a crueldade humana que atacou. O médico legista afirma que a jovem morta foi estuprada várias vezes pelo mesmo homem ou vários deles.
Cory vai ter que ajudar a agente do FBI, Jane (Elizabeth Olsen), enviada para resolver o caso, porque ela está fora de seu elemento. E ele tem motivos pessoais para querer envolver-se com o drama acontecido.
Aliás todos ali naquela comunidade parecem padecer por perdas e luto.
Taylor Sheridan dirige pela primeira vez seu próprio roteiro. É o terceiro dele, que escreveu “Sicário” de 2015 e “A qualquer custo” de 2016. E mostra talento na direção da trama, levando o suspense palpitante até o fim e envolvendo o espectador sem truques e com um bom ritmo.
Seu objetivo, que Sheridan declarou em Cannes, onde foi premiado como o melhor diretor da Mostra “Um Certain Régard”: denunciar o pouco respeito com que os nativos americanos são tratados. Basta dizer que são a única comunidade sem recenseamento de pessoas desaparecidas.
Parece que o “Velho Oeste” ainda continua vivo e fazendo vítimas dentre esse povo sofrido...



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Os Meyerowitz: Família não se escolhe


“Os Meyerowitz: Família não se escolhe”- “ The Meyerowitz Stories”, Estados Unidos, 2017
Direção: Noah Baumbach

Infelizmente, a Netflix não prima pela qualidade dos filmes. A maioria é descartável, mero passatempo. Certo, há um público para um cinema-diversão em casa. Mas não é uma boa alternativa para os filmes em cartaz nos cinemas, a não ser para pessoas que não tem escolha.
Por isso, esse filme é uma exceção bem vinda.
“Os Meyerowitz” é dirigido por Noah Baumbach, 49 anos, responsável pelo delicioso “Frances Ha” de 2012 e “Enquanto Somos jovens” de 2015. Roteirista inteligente, com um humor fino e personagens nunca rasos, foi indicado ao Oscar por melhor roteiro original do seu filme “A Lula e a Baleia”de 2005.
Aqui ele conta a história de uma família que tem Dustin Hoffman, 80 anos, como um escultor que vive em Nova York e que não teve o sucesso que achava que merecia. Ele sempre se viu mais como artista do que como pai ou marido.
Professor aposentado, dono de uma única peça “lendária”, parece que adquirida e perdida no acervo do MoMA, seu ego enorme o protege da decepção no balanço de sua vida.
Já os três filhos, gerados em casamentos com mães diferentes, reclamam entre si da falta de atenção do pai deles, do egoísmo e da falta de acolhimento. São adultos, mas excetuando o mais moço (Ben Stiller), bem sucedido como empresário em Los Angeles, os outros dois (Adam Sandler e Elizabeth Marvel) sentem-se fracassados. São aquele tipo de flho que culpa o pai e a mãe por sua vida chata e não gloriosa, prato cheio para um bom terapeuta.
Os atores são todos de primeira linha, criando uma família disfuncional em torno ao pai, casado com uma Emma Thompson engraçada, sempre um trago a mais do que deveria, mas, em tese, recuperando-se do vício com uma versão própria dos Alcoólicos Anônimos.
Até Candice Bergen, numa ponta, faz lembrar a mulher belíssima e boa atriz que ela continua a ser.
Adam Sandler, em especial, está ótimo e convincente como Danny, o filho mais velho, que manca por causa de um quadril que ele evita tratar, preferindo chamar a atenção por esse defeito. É o que se considera mais injustiçado pelo pai que prefere o mais novo, à sua maneira distraida. Para compensar não ser o filho mais amado, acha que faz o melhor amigo e pai de sua filha Eliza (Grace Van Patten), uma mocinha que tem a maior paciência com os parentes e se dedica a fazer filminhos na faculdade de cinema, quase pornográficos, com personagens surreais.
No lançamento do filme no Festival de Cannes desse ano, Noah Baumbach disse que “Os Meyerowitz” não era para ser um produto Netflix mas que foi comprado na pós-produção e que ele tinha sido muito bem cuidado.
Bom sinal. Será que a Netflix está acordando para a qualidade de conteúdo de seus filmes? Tomara.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Manifesto



“Manifesto”- Idem, Alemanha, 2017
Direção: Julian Rosefeld

Não tenham medo das palavras. Elas não são o mais importante desse filme que tem Cate Blanchett como estrela única, brilhando em sua versatilidade, fazendo 13 personagens, cada um ligado a um “Manifesto”.
E o que é um Manifesto? Em “off” a voz da atriz explica que é ter ideias para arrasar com outras ideias, para provar que alguém é o dono da verdade, seja um indivíduo, um grupo ou um partido político.
“Tudo que é sólido desmancha no ar”, diz Cate e ela questiona: será que alguém conseguiu colocar ordem na natureza humana caótica e contraditória?
Certamente não e por isso vão desfilar na tela várias Cates, com roupas, sexo e sotaques diferentes, lendo ou apresentando os 13 Manifestos, que se consideram sempre a palavra final.
Começa com o “Manifesto Comunista” de Marx e Engels. E, em seguida os Manifestos sobre a arte. E a atriz vai defender cada um deles com um personagem ligado ao movimento que gerou o Manifesto: Situacionismo, Futurismo, Arquitetura, Suprematismo/ Construtivismo, Dadaísmo, Pop Art, Estridentismo/Creacionismo, Vorticismo/ Expressionismo Abstrato,Fluxus/Merz/Performance, Surrealismo/Espacialismo, Arte Conceitual/Minimalismo, Cinema/Dogma 95.
A verborragia faz com que seu ouvido atrapalhe a visão? Está ficando zonzo de tantas palavras que ela diz? Faça o contrário. Privilegie o olhar. E se encante com a porção camaleônica de Cate Blanchett, que consegue ser tantas.
Desde um mendigo, morador de rua, passando por uma mulher sofisticada fazendo um discurso no cemitério, uma corretora da Bolsa, uma mãe de família conservadora, uma operária numa usina de incineração de lixo, uma cientista, uma coreógrafa russa, uma mulher elegante recebendo colecionadores de arte numa bela casa, uma punk tatuada, uma artista que faz marionetes, uma professora de arte ensinando o Dogma 95 para crianças, uma âncora e uma repórter de um jornal de TV.
Portanto, não vá ver “Manifesto” por causa dos Manifestos. Tudo bem, talvez você aprenda alguma coisa. Mas, principalmente, não perca Cate Blanchett dando um show de interpretação e mostrando que ela é única. Vale a pena!



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Nossas Noites



“Nossas Noites”- “Our Souls at Night”, Estados Unidos, 2017
Direção: Ritesh Batra

Apesar de continuar achando que o melhor lugar para ver um bom filme é o cinema, tenho que admitir que os tempos mudaram e que as pessoas tem mais dificuldade de locomoção numa grande cidade. Ou mesmo que haja lugares no Brasil onde só passam “blockbusters”, de ação e violentos, mais para um público jovem.
E um bom filme é sempre uma alternativa para a mesmice dos programas de televisão.
Quando postei uma dica de filme da Netflix, “Nossas Noites”, na minha página do Face, surpreendeu-me o número de pessoas atingidas e os muitos comentários. E neles, vários pediam que eu continuasse a indicar os bons filmes da Netflix.
Curvo-me a esses pedidos e começo justamente com a resenha do filme que agradou a tantos. Vai para o meu blog.
Jane Fonda, 79 e Robert Redford, 81, causaram alvoroço no Festival de Veneza desse ano quando o filme foi lançado fora de competição. Não é de se admirar porque ambos são estrelas de primeiríssima grandeza, com vários Oscars cada um deles e fizeram sucesso como dupla em “Caçada Humana” de 1966, “Descalços no Parque” de 1967 e “O Cavaleiro Elétrico” de 1979 mas já não apareciam juntos há quase 40 anos.
E acertaram em cheio. A dupla foi elogiadíssima. Talvez porque há uma demanda especial, hoje em dia, para filmes charmosos com atores de mais idade. Tenho visto alguns no cinema, sempre com sucesso de público.
Pessoas mais velhas gostam de se ver retratadas não como velhinhos que as pessoas tratam como se fossem crianças, um hábito detestável, mas como alguém que pode ainda viver uma vida interessante.
Aliás o forte em “Nossas Noites” não é o romance. O ponto principal é a solidão e o quanto tudo muda quando se encontra alguém para conversar. E quando esse alguém é atraente como são Jane Fonda e Robert Redford, a coisa fica perfeita.
Vizinhos há muito tempo, numa cidade pequena, é só quando Addie e Louis chegam nos 80, ambos viúvos, é que a história acontece. Com toda a experiência de uma vida e um temperamento mais extrovertido, Addie sabe que o tempo voa. Então vai direto ao ponto. Convida Louis para dormir na casa dela, explicando que a noite é para ela a pior parte do dia. Quer conversar, trocar ideias, travesseiro com travesseiro.
Ele, mais tímido, parece meio escandalizado e é delicioso o momento em que atravessa a rua com um saco de papel que esconde um pijama e entra pela porta dos fundos da casa dela.
Tem gente que achou o filme fraco. Outros não gostaram do final. Mas a maioria gostou de tudo. Porque não podemos esquecer que o filme se dirige justamente a uma classe de pessoas que são mais conservadoras, que gosta de ver na tela pessoas como eles mesmos, que valorizam a boa companhia mas que também se preocupam com os filhos e netos, principalmente as mulheres, que sentem prazer em cuidar da família.
O livro que foi adaptado foi escrito por Kent Haruf e o filme é dirigido pelo indiano Ritesh Batra (“Lunchbox”2013), que fez um bom trabalho, delicado e leve.
Penso que “Nossas Vidas” será lembrado como o maior sucesso da dupla Jane Fonda e Robert Redford. Aliás, produzido por esse último, homem belo e inteligente.