domingo, 15 de outubro de 2017

Na Praia à Noite Sozinha



“Na Praia à Noite Sozinha”- “On the Beach at Night Alone”, Coréia do Sul, 2017
Direção: Hong Sang-soo

Talvez seja interessante que o espectador saiba, antes de ir ao cinema, de alguns detalhes que fazem desse filme uma obra extremamente pessoal. Porque tem tudo a ver com a vida do famoso diretor sul-coreano que tem participado de todos os festivais importantes.
O último filme dele que vimos por aqui foi “Certo Agora, Errado Antes” de 2015 (minha resenha foi publicada em 25 de maio de 2016). O filme ganhou o Leopardo de Ouro em Locarno, e deu o prêmio de melhor ator para Jung JaeYoung, que faz um diretor de cinema.
Em entrevistas nessa época, o diretor de 56 anos contou como gosta de trabalhar. Ele se inspira com pouca coisa no início da filmagem e vai construindo a história a cada dia que passa.
Bem, não deve ter sido assim em “Na Praia à Noite Sozinha”. Porque o que contaram os tabloides coreanos é que a jovem e famosa atriz Kim Min-hee (que fez a garota artista por quem o diretor casado se apaixona em “Certo Agora, Errado Antes”e estrela de “Handmaiden - A Criada” de outro famoso diretor sul-coreano Park Chan- Wook) seria o pivô de uma separação. O diretor e sua atriz teriam se apaixonado e a mulher dele negara o divórcio, esperando ele voltar para a casa.
O certo é que o par viajou pelos Estados Unidos fugindo dos “paparazzi” e só depois de algum tempo houve uma separação amigável dando fim ao caso.
Ora, quem for ver “Na Praia à Noite Sozinha”, exibido em Berlim e que deu o Urso de Prata de melhor atriz para Kim Min-hee, 35 anos, vai ver o que o diretor Hong San-soo fez com essa história de um amor que ele viveu com sua atriz.
Ela faz o papel dela mesmo, corajosamente, com outro nome, Young-hee e a vemos em Hamburgo para onde viajou para tentar esquecer um caso que estava vivendo com um homem casado.
A vemos conversando com sua amiga Jee-Young (Seo Younghwa, que também foi do elenco de “Certo Agora, Errado Antes”), que sabe de tudo mas é discreta. Notamos preocupação nela, que é mais velha e percebe o desespero da jovem. Elas passeiam por uma Hamburgo de ruas cinzentas, parques vazios e uma praia no inverno.
Uma grave depressão ronda a atriz famosa. Ao ver uma ponte que deve atravessar, ela para e ajoelha-se curvando até o chão, como se rezasse. E na praia prateada e gelada, vemos um homem levando embora a jovem inerte nas costas. Sem mais explicações.
O filme é dividido em duas partes, com elencos de apoio diferentes. Ela volta para seu país e a história vai ficando cada vez mais tensa. Num jantar com a equipe técnica de um filme que está sendo rodado ali, perto de Seul, numa outra praia de ondas verdes, há a esperada explosão.
A imagem da bela e angustiada atriz deitada na praia, adormecida, talvez mostre uma saída para sua depressão.
Ao vivenciar intimamente sua dor ela desperta. Agora, ao invés de ser levada como morta nas costas de um homem, como na primeira parte do filme, mais madura, ela não responde ao apelo mortal do homem cinzento no terraço do hotel e caminha com seus próprios pés.
Libertou-se daquilo que ela mesma chama de auto-destrutividade? Parece.
Um filme que começa na superfície e vai aprofundando para que o diretor possa nos mostrar o íntimo de sua personagem, que foi um dia sua bem amada.




quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Rock 'n Roll - Por trás da Fama


“Rock ‘n Roll – Por trás da Fama” - “Rock ‘n Roll”, França 2017
Direção: Guillaume Canet

Marion Cotillard é bem mais conhecida do que seu companheiro, o ator e diretor Guillaume Canet. Ela já ganhou o Oscar por “Piaf”e muitos Césars, o Oscar francês.
Pois bem, os dois resolveram fazer rir, atuando como um casal, com os nomes da vida real mas como personagens fictícios, ridicularizando temas ligados à vida de casal , como a mulher ser mais famosa do que o marido e o culto atual à juventude.
No filme, Canet tem 40 e poucos anos e acha que aparenta bem menos e assim começam o sofrimento e as trapalhadas. Ele contracena, em um filme dentro do filme, com uma garota (Camille Rowe) bem mais jovem, mas não se conforma em fazer o pai dela.
Preocupadíssimo com sua imagem, faz questão de maquiagem bem feita anes das cenas e fica fora de si quando a colega jovenzinha comenta que ele não é mais objeto do desejo das amigas dela, que preferem os atores mais jovens e bem mais “sexy” do que ele.
Pronto. O narcisismo de Canet está seriamente ferido e, guiado por uma auto-destruição feroz, ele vai começar a mudar de vida. Larga a equitação, que era o esporte que praticava e entrega-se à vida noturna, bebendo muito e fazendo papelão quando descobre a cocaína. Exagera em tudo e faz a festa dos “paparazzi”com as fotos dele dando vexame, que saem na internet.
Ao invés de detestar, ele adora esse tipo de publicidade porque acha que é muito mais “rock ‘n roll” e, portanto, melhor para sua imagem de playboy. E mais, vai se aconselhar com Johnny Halliday, ídolo do rock faz muito tempo atrás e conhecido por quebrar todos os tabús. Quem conhece o tipo pode achar graça na cena.
Pobre Guillaume. Além das risadas com as fotos e os vexames em público, ainda tem gente que o chama de Jerôme, trocando seu nome ou pior ainda, de Sr Cotillard.
De erro em erro, o marido de Marion vai se atrapalhando cada vez mais, até que trilha um caminho sem volta. Torna-se viciado em botox, preenchimento e que tais. Seu rosto espanta quem passa por ele. Mas, como acontece com muita gente, ele não se vê como monstruoso mas como espantosamente jovem e belo.
Sua auto-crítica foi para o espaço.
Claro que tudo isso mexe com seu casamento e mesmo com a relação com o filho (Tiffen MichelBorgey), que não quer mais que ele o leve na escola, com vergonha da cara do pai.
E Guillaume, que sempre sentiu muita inveja do sucesso de Marion, consegue o contrário do que queria. As pessoas se afastam dele e ele consegue chamar a atenção não pela beleza ou juventude, mas pelo rosto desfigurado por um médico inescrupuloso.
Despedido do estúdio, separado de Marion, ele ainda tenta um aprimoramento no corpo. E passa a dedicar-se à musculação e aos anabolizantes. É cômica a roupa de músculos que criaram para Canet parecer um halterofilista exagerado.
Há uma crítica mordaz no filme àquelas pessoas que se deixaram seduzir pela “fonte da juventude” prometida por procedimentos equivocados, que custam os olhos da cara e só pioram a pessoa que não sabe parar, obcecada por sempre melhores resultados.
Num mundo cada vez mais ridículo nessa fobia pelo envelhecimento, o filme de Guillaume Canet ensina uma lição com um humor ácido e até mesmo alguns toques de insanidade.



domingo, 8 de outubro de 2017

Churchill


“Churchill”- Idem, Reino Unido, 2017
Direção: Jonathan Teplitzky

Todo mundo sabe o importante papel desempenhado por Winston Churchill (1974-1965) na história da Inglaterra no século XX. Mas poucos se debruçaram sobre o significado de sua atuação nos dias que antecederam o dia D da Segunda Guerra.
Esse episódio foi o escolhido pelo diretor canadense Jonathan Teplitzky para seu filme “Churchill” que chamou para escrever o roteiro o historiador neo-zelandês, Alex von Tunzelmann.
Aos 70 anos de idade, a 96 horas da Operação Overlord, o Dia D, marcado para 6 e junho de 1944 e que seria a invasão da Normandia pelos Aliados, o grande homem se debate em dúvidas.
O vemos, na pessoa do ótimo ator escocês Brian Cox, numa praia, de sobretudo, chapéu e o inseparável charuto, olhando as águas do mar que se tornam vermelhas com o sangue derramado pelos soldados em Galipoli, Turquia. Churchill volta a pensar nessa campanha da Primeira Guerra, liderada por ele, em 1915, que provocara a morte de 50.000 britânicos e franceses.
Esse episódio volta à sua mente, como um fantasma macabro, para assombrar o grande homem. Ele tinha 41 anos de idade e ordenara o desembarque maciço, como Primeiro Lorde do Almirantado. E a vitória fora dos otomanos.
A Operação Overlord se assemelha em tudo a essa derrota sangrenta na mente de Churchill, agora aos 70 anos de idade. E ele hesita e vive em pesadelos.
A cena da praia termina em preto e branco, ele andando entre corpos de homens mortos e arame farpado.
Haveriam razões objetivas para que Churchill temesse o pior?
Era um plano arriscado, sem dúvida, e os ingleses tinham vivido a derrota em Dunquerque, duro golpe para Churchill. Mas o general americano Dwight Eisenhower (John Slatery) e o marechal britânico Bernard Montgomery (Julian Wadham) acreditavam que seria possível fazer a invasão e vencer as tropas nazistas, libertando assim a França da ocupação alemã.
De que outra ordem poderiam ser as angústias de Churchill? Talvez ele temesse sofrer em sua reputação com a derrota. Como acontecera depois de Galipoli. Poderíamos também pensar numa espécie de preconceito contra os americanos. E temor pela juventude inexperiente dos homens que teimavam em levar a cabo a Operação Overlord.
Mas qual seria o fator principal que sustentava sua teimosa resistência? Aquele era um momento crucial da Segunda Guerra que coincidiria com um momento também crucial na vida daquele homem. A preocupação com a morte dos soldados encobriria uma angústia de ordem pessoal. Tratava-se do momento em que se esbarra na própria fragilidade humana e mortalidade certa. Há sempre um momento assim na vida e todos nós.
A insensatez de Churchill querendo assistir pessoalmente à invasão do Dia D, depois de derrotado na mesa do alto comando, poderia indicar um movimento regido pela culpa que ronda e que aponta o castigo.
Felizmente, numa cena preciosa, o então rei George VI (James Purefoy, ótimo) proíbe com delicadeza real que o Primeiro Ministro da Inglaterra se exponha ao perigo com tanta temeridade.
E ele estava errado, como sabem todos. O dia D foi um sucesso que determinou o começo do fim da guerra.
Talvez só a própria mulher de Churchill, Clementine (Miranda Richardson), tenha percebido a origem daquela teimosia e das visões macabras do marido.
O certo é que ele não perdeu importância depois daqueles quatro dias de tortura e continuaria a ser o líder que a Inglaterra respeitava, reconhecendo nele um dos principais responsáveis pela vitória dos Aliados na Segunda Guerra.


Blade Runner 2049



“Blade Runner 2049”- Idem, Estados Unidos 2017
Direção: Denis Villeneuve

Faz mais de três décadas que “Blade Runner” de Ridley Scott surpreendeu muita gente. Baseado num conto de Philip K. Dick, “Do Androids Dream of Eletric Sheeps?”, não foi um imediato sucesso de público mas teve uma marcante influência nas cabeças que dominavam o mundo pop. Tornou-se “cult” com o tempo.
Quem for rever o “Final Cut” do diretor de 2007, sem o final feliz imposto pelo estúdio, vai se encantar de novo com a imaginação da direção de arte. Muito do que se vê no filme foi para as ruas ditando a moda dos anos 80 : muito néon, até nos colarzinhos, maquiagem negra nos olhos, paetês no corpo, ombros em destaque, matelassê no couro e casacos de nylon, plástico transparente nas roupas, golas altas e imensas, colants, só para citar alguns dos visuais marcantes do filme que foram adotados.
O futuro em “Blade Runner” era 2019 e o filme é noturno, azulado, com muita fumaça e chuva, mostrando uma Los Angeles congestionada, com gente andando nas calçadas vestidas com roupas criativas, em bicicletas, carros entupindo as ruas, veículos voadores, numa miscelânea de línguas e gente. Prédios altíssimos que eram imensos cortiços. Tudo muito glamuroso e novo para os olhos.
Harrison Ford era Rick Deckard o “Blade Runner” ou seja, “O Caçador de Andróides”. Policial, sua missão era exterminar androides que vieram clandestinamente para a Terra, onde eram proibidos, fugidos das colônias espaciais onde trabalhavam como escravos.
No meio disso tudo, ao som da música espiritual de Vangelis (“One More Kiss, Dear” e “Love Theme” para sax e orquestra), Deckard se envolve com uma bela replicante, Rachael (Sean Young).
É importante lembrar que em 1982 as TVs eram pequenas, nem se pensava em celulares, notebooks, nem toda a tecnologia a que hoje estamos acostumados. O futuro ainda não havia chegado à nossa vida diária.
Mas agora é outra história. O filme dirigido pelo franco- canadense Denis Villeneuve, ele mesmo um fã do primeiro “Blade Runner”, tem Ridley Scott como produtor, o delírio da crítica e passa-se em 2049. Bem, muitos de nós não estaremos aqui para conferir, mas podemos imaginar, graças ao filme de Villeneuve, como será. Ou como poderia ser.
Uma distopia. Um mundo esgotado, poluído e com lixões que ocupam mais espaço do que as cidades. Roger Deakins, responsável pela direção de fotografia, indicado uma dezena de vezes para o Oscar, deve levar o seu para casa dessa vez. Criou um impressionante mundo cor de âmbar, onde jorra a água incessante de chuvas torrenciais. Impera a falta de horizontes e o mar invade a terra. Os prédios altíssimos e colados, quase não deixam espaço para a gente opaca e molhada que lota as ruas de Los Angeles. Foi-se o glamuroso mundo de 2019.
Ryan Gosling, ator maravilhoso, é K, o novo “Blade Runner”, sendo ele mesmo um androide e sabe disso. Policial, “aposenta” replicantes antigos, responsáveis por rebeliões no passado e conspirações no presente. Depois de certas ocorrências, começa a desconfiar que algo milagroso aconteceu e pode mudar a vida dos replicantes. E vai em busca de Deckard (Harrison Ford, envelhecido, mas com o mesmo carisma de 1982), que poderá ter as respostas para suas indagações.
Denis Villeneuve, que pode ser considerado um dos maiores diretores da atualidade, mostrou com “A Chegada”, no ano passado, que é um mestre do cinema que faz pensar. Aqui ele nos lembra que o planeta não é inesgotável e que sempre haverá discórdia quando uns tiverem o que os outros não tem. Os desfavorecidos, que aqui são os androides explorados, lutarão sempre por aquilo que não possuem. Lutam para procriar. Como os humanos. Querem liberdade, igualdade e, se possível, fraternidade.
As mulheres brilham no elenco: Robin Wright é a chefe de Ryan Gosling; a cubana Ana de Armas é Joi, a moça holograma que cuida dele e inventa um delicioso jogo amoroso onde se mistura com Mackenzie Davis, uma bela replicante loura que lembra Darryl Hannah do primeiro filme, numa cena inesquecível; Sylvia Heks é Luv, uma androide sádica que trabalha para o “big boss” Wallace (Jared Leto) que imagina e fabrica novos replicantes. E tem até uma cena com Sean Young, a Rachael de Deckard, com a mesma roupa com que aparece no primeiro filme.
E a mensagem de “Blade Runner 2049” com suas duas horas e 45 minutos de duração, produzindo uma imersão num mundo que pode ser evitado, parece se dirigir às novas gerações e pedir para que abram os olhos, para que o mundo de 2049 nunca aconteça...

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Divórcio




“Divórcio”, Brasil, 2017
Direção: Pedro Amorim

Uma caminhonete vermelha voa pelas estradas de terra em Ribeirão Preto. Estamos em 1997.
Como é que é? O motorista está guiando com as duas mãos amarradas? Ele tira a corda com os dentes, sem diminuir a velocidade.
Corta para a cena de um casamento ao ar livre numa fazenda. A noiva caminha triste e lentamente para o altar, onde a espera um noivo de chapéu texano e terno com colete.
Mas eis que surge o rapaz da caminhonete à toda e arrebenta o enorme bolo, passando por cima, sem dó nem piedade.
“- Noeli? ”grita o moço (Murilo Benício).
“- Júlio! “ responde a noiva (Camila Morgado, ótima).
O pai da noiva está espumando de raiva e pergunta aos seus capangas:
“- Como é que ele escapou? Seu carioquinha de ...”e solta o palavrão.
E, enquanto os dois fogem na caminhonete, o pai amaldiçoa:
“- Noeli, você morreu para essa família! ”
Ela joga o véu pela janela.
Tudo isso ao som da canção sertaneja “Evidências”, que vira rock na voz de Paula Fernandes.
Esse é o início de um filme brasileiro que me fez dar boas risadas. Fato inédito. Porque não costumo ver muitas comédias, brasileiras principalmente. Não aguento as piadas escatológicas, nem o mau gosto do palavreado. Posso estar errada mas tem sido assim com raras exceções.
Resolvi ver “Divórcio” porque falaram bem do filme. E, realmente, posso dizer que é uma comédia divertida e bem realizada.
O diretor Pedro Amorim, 40 anos, formado em cinema pela New York University, acertou em cheio ao escolher a dupla de atores Camila Morgado e Murilo Benício para interpretar o casal caipira e pobrinho , que fica rico com um molho de tomate enlatado, receita secreta da família de Noeli, que vira o queridinho dos brasileiros. Noeli na lata.
Mas junto com a fortuna vieram também as reclamações e o tédio no casamento. Júlio reclama de Noeli, perguntando a toda hora “quanto custou? ”. Tem uma risada irritante e adora carros grandões. Noeli, além das duas filhas do casal, tem paixão por sua coleção de sapatos Loboutin caríssimos, lindamente expostos num “closet” tão grande quanto uma loja e também tem uma risada roncada que lhe valeu o apelido de “Porquinha”, desde a escola.
O casal acaba num divórcio litigioso com cenas hilárias, protagonizadas por eles e seus advogados famosos por suas causas milionárias, que só enriquecem a eles mesmos (André Mattos e Angela Dippe).
O elenco de apoio tem uma revelação no ator Gustavo Vaz que faz o ex colega de Noeli, apaixonado por ela desde a escola e que virou o cantor sertanejo Catanduva. Sem esquecer de Luciana Paes que faz a engraçada amiga de Noeli.
O filme tem ritmo e um roteiro bem bolado de Paulo Cursino que explora desde o novo-riquismo, passando pelas excentricidades do mundo brega sertanejo, indo parar até nas celas de uma prisão e seus absurdos.
“Divórcio” faz graça em cenas divertidas mas nunca debochadas. E esse é o acerto maior do filme, que não precisa ridicularizar ninguém, nem cair no mau gosto para conseguir fazer a plateia rir.



domingo, 1 de outubro de 2017

O Fantasma da Sicília


“O Fantasma da Sicília”- “Sicilia Ghost Story”, Itália, França, Suiça, 2017
Direção: Fabio Grassadonia e Antonio Piazza

Escuridão e o barulho de água pingando nas pedras de uma gruta. Mal adivinhamos o que vemos.
De repente, uma luz ilumina a água e vemos uma fonte jorrar à beira de uma estrada, onde estão adolescentes. O que bebe daquela água embrenha-se sozinho na floresta, sem notar que uma coleguinha o segue. Há uma névoa que traz mistério àquele lugar.
A menina vê o colega encantar-se com uma borboleta que pousa em sua mão e não percebe o furão curioso que cheira seus pés. Caminhando, logo chegam numa árvore centenária.
“- Giuseppe!”, grita assustada a menina que não viu o garoto aproximar-se por trás dela. “- Eu não estava te seguindo”, mente ela, envergonhada por ter sido descoberta.
Segue o caminho correndo mas um mastim negro, que comia um coelho, rosna e parece que vai atacar. Giuseppe aparece e grita com o cão e os dois fogem pela floresta.
Será que imaginamos coisas ou existem seres que espiam aqueles dois escondidos pela folhagem?
“O Fantasma da Sicília” é uma recriação fantasiosa de um caso triste da vida real. O menino é Giuseppe di Mateo (Gaetano Fernandes), sequestrado pela Máfia em 1993 e mantido em cativeiro por mais de dois anos, na esperança de que o pai dele, mafioso que se tornara informante da polícia, desistisse das delações.
Luna (Julia Jedlikowska, excelente), a colega de Giuseppe, é uma personagem fictícia no filme inspirado no conto “Un Cavalieri Bianco”, do livro de Marco Mancassola, “Non Seremo Confusi per Sempre”. Há uma denúncia sobre a atuação da Máfia na Sicília, onde mesmo quem não pertence a essa organização criminosa, fecha os olhos perante seus delitos.
A única que se desespera e procura incansavelmente por Giuseppe é Luna, apaixonada por ele.
A fotografia de Luca Bigazzi (“A Grande Beleza”) ajuda a criar um clima misterioso de um universo paralelo, já que a linguagem mitológica traduz melhor a relação do par de adolescentes, Romeu e Julieta nos domínios de Hades, o deus do mundo inferior e dos mortos.  Também Luna, a Lua e suas relações com a água e a coruja que habita o porão da casa de Luna, que tem a ver com a deusa Atena, símbolo da sabedoria, mas que também era vista como um arauto da morte nas culturas antigas. Todas essas referências criam o lado mágico e mítico dessa história de amor.
A imagem das ruinas do belo templo grego à beira mar, mostrado em tomadas aéreas, lembra sempre que estamos na terra dos antigos gregos que lá erigiram monumentos aos seus deuses nos séculos V e VI AC, no Vale dos Templos, próximo a Agrigento.
E o filme foi rodado em Troina, perto do Lago Pergusa, onde Hades sequestrou a bela Perséfone, filha de Deméter, deusa da terra, que não cansou de tentar resgatar a filha do reino dos mortos.
Luna, qual Deméter, quer resgatar Giuseppe para a vida e sonha com ele do mesmo modo que, no cativeiro, lendo a carta de amor de Luna, Giuseppe sonha com ela.
Nino (Andrea Falcone), amigo de Luna, faz lembrar que a Sicília, que foi um dia o lugar dos deuses, deveria ser deixada novamente para a Natureza. Os homens estariam desgostando os deuses, que responderiam se vingando.
Mas, na praia siciliana, no final do filme, Luna parece ter reencontrado seu lado solar e amoroso que a traz de novo para a vida. Há uma mensagem de esperança de convivência possível dos fantasmas dos mortos queridos com os vivos.
“O Fantasma da Sicília” é um filme que surpreende e fascina, envolvendo o espectador em seus mistérios.




domingo, 24 de setembro de 2017

Mãe!


“Mãe!” - “Mother!”, Estados Unidos, 2017
Direção: Darren Aronofsky

Quando tudo recomeça naquele dia, Mãe (Jennifer Lawrence, divina) acorda e procura Ele na cama:
“- Baby?”
Bela, jovem, longos cabelos louros numa trança, vestindo uma camisola branca, ela anda pela casa esperando encontrá-lo.
Abre a porta da frente e vemos uma natureza intocada. Só ouvimos o barulho do vento e o canto dos pássaros. A casa é isolada. Não há caminhos que levem a ela.
Quando ela se volta para entrar na casa, dá de cara com Ele:
“- Por que você não me acordou? ”pergunta Mãe.
“- Precisava clarear as ideias. Ficar só. ”
Ele tinha ido correr. É bem mais velho que ela. Sobe as escadas para tomar um banho e ela, que restaurou sozinha aquela casa depois de um incêndio, dedica-se a uma das paredes.
Estranhamente, um close em seus olhos fechados e em sua mão pousada na parede, leva à imagem de algo pulsando em seu interior. Vida.
Ele (Javier Bardem) é um escritor e está sofrendo um bloqueio criativo. A mãe cuida da casa e dele e se assusta quando, à noite, alguém bate à porta.
Ele vai abrir e um homem (Ed Harris) entra. Ele parece animar-se com essa presença. Mãe não entende por que Ele convida o estranho a ficar na casa.
Os dois conversam muito e o homem fuma e bebe sem parar. Mãe logo o ouve vomitando e vê Ele que o ampara. Ela vislumbra um estranho corte no corpo do homem na altura da costela.
Logo vão chegar outros. A mulher do homem (Michelle Pfeiffer, excelente), invasiva e desagradável com Mãe e os filhos deles (Damhnall e Brian Gleeson), que vão cometer o primeiro crime.
Eu não leio críticas antes de assistir um filme mas é quase impossível deixar de ver as frases nas manchetes. E há chamadas sobre o filme de Aronofsky que falam numa alegoria bíblica. Então, a essas alturas, quem tem instrução religiosa pensa logo em uma metáfora dos primórdios da história da humanidade, tirada do livro do Gênesis: Deus, a Natureza criada que chamamos Mãe, Adão, Eva saída de sua costela, Caim e Abel.
E essa leitura é um “abre-te Sésamo” para o que vem depois, nas imagens terríveis do fotógrafo Matthew Libatique, quase todas em closes. Muitos de Mãe.
Multidões ensandecidas invadem a casa. Todos querem estar com Ele. Mas, ao mesmo tempo, assustam Mãe e começam a destruir a casa. Fanáticos gritam, choram, lutam entre eles. Há medo e caos. E o fogo vai trazer novamente o apocalipse. Nos créditos finais, Patti Smith canta sobre o fim do mundo.
Darren Aronofsky, 48 anos, que além de diretor é também roteirista, produtor e ambientalista, passa sua mensagem ecológica e contra todos os fundamentalismos religiosos, com intensidade e paixão, em “Mãe!”.  Para isso ele utiliza histórias bíblicas, recicladas para o século XXI, com as quais teve contato durante sua educação como judeu nascido no Brooklyn.
“- O meu Deus é sempre o do Antigo Testamento”, diz ele.
O diretor de “Pi”1998, “Réquiem para um Sonho”2000, “Fonte da Vida”2006, “O Lutador”2008, “Cisne Negro”2010 , já tinha em mente mudanças climáticas na origem de catástrofes naturais quando fez “Noé” em 2014.
Em entrevista sobre “Mãe!” ele disse:
“Acho que é a coisa mais forte que já fiz. É a que tem o maior impacto. A ideia é, ao olhar dentro da escuridão, você revela a luz.”
E saber tudo isso de antemão estraga a visão do filme? Ele mesmo responde:
“Não acho que saber a alegoria, e saber onde estamos indo, vá, de alguma forma, afetar sua experiência ao assistir. Ainda será muito intensa.”
Sabendo que se trata de um filme artístico, com alegorias sobre a Bíblia e interpretações magníficas, você não sente vontade de conferir “Mãe!”?
Eu adorei.




sábado, 23 de setembro de 2017

As Duas Irenes



“As Duas Irenes”, Brasil, 2017
Direção: Fabio Meira

Aquela garota de costas para nós, magrinha, está com uma pedra na mão. Olha fixamente a janela de uma casa simples. Quando ela atira a pedra e quebra o vidro da janela, percebemos a raiva que não sabemos de onde vem.
Pedalando sua bicicleta ela parece mais leve.
Estamos numa cidadezinha de ruas de pedra, ladeiras, no interior do Brasil. A menina Irene (Priscila Bittencourt) é a segunda filha do casal que tem três filhas e mora numa casa maior e mais bonita que a da janela de vidro quebrado. Vemos a família almoçando. Mas Irene, calada, não está bem. Há um turbilhão dentro dela e quando coça a cabeça, irrita a mãe (Susana Ribeiro):
“- De novo com piolho, Irene?”
Ela é a filha “sanduiche” e sente-se rejeitada. A conversa na mesa é sobre o vestido de Solange, a mais velha, que vai debutar. E a menor é a gracinha do pai.
Irene, 13 anos, magrela, não gosta do que vê no espelho. E pior. Outra coisa a incomoda. Descobriu que o pai (Marco Ricca) tem outra família e outra filha de 13 anos. A outra Irene (Isabela Torres).
Daí a pedra na janela.
Mas não é tão simples. A raiva de Irene se mistura com uma curiosidade de saber como vive a outra, como ela é. Sente-se atraída pela outra casa do pai.
E ela segue em frente com seu plano de aproximação. Neusa (Inês Peixoto, ótima atriz), a mãe da outra Irene, é costureira e lá vai a nossa pedir que faça uma blusinha para ela.
“- Me chamo Madalena”, mente ela, usando o nome da boa empregada da casa dela.
E quando a outra Irene chega e conta que vai ao cinema, quem sabe levando o pai, Irene aparece por lá, como quem não quer nada:
“- Você não vinha com seu pai? ”, pergunta.
“- Ele não podia vir... Sabe que você é bonitinha? Poderia participar do concurso lá do meu bairro. ”
Irene já andara espiando escondida o tal concurso e vira o pai jogar beijos e levar flores para a outra Irene.
Mas o que parecia uma raiva invejosa daquela outra Irene, bonita, corpo desenvolvido e despachada, vai se transformando numa aliança. Uma amizade que traz para a nossa Irene aquilo que lhe faltava: um modelo a ser imitado.
A outra Irene é o espelho no qual a nossa Irene gosta de se ver. Vai ficando mais solta, mais risonha, mais livre.
A Dona Mirinha, arrogante e encantada com a filha mais velha, “a cara da mãe”, é o contrário do que Irene quer ser. É por causa dela que o pai arranjou outra. Na casa da outra, a mãe é mais simples, mais carinhosa e nada mandona. Lá há cantos e danças. Por isso Irene até entende o pai. Mas, assim mesmo, há mágoa.
Há uma sede de vingança mas mais dirigida contra a mãe do que ao pai. Este ofereceu o motivo e é por aí que a nossa Irene vai conseguir o quer: que a casa caia.
“Duas Irenes” é o primeiro filme do goiano Fabio Meira, que diz ter se inspirado numa história familiar para escrever o roteiro. O filme ganhou quatro Kikitos em Gramado: melhor ator coadjuvante (Marco Ricca), roteiro, direção de arte e melhor filme da crítica.
A fotografia de Daniela Cajías é elegante, criando quadros encantadores que emolduram o espaço feminino das duas meninas.
E o final do filme é surpreendente.



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Columbus



“Columbus”- Idem, Estados Unidos 2017
Direção: Kogonada

Só vai gostar de “Columbus” quem aprecia arquitetura?
Prefiro pensar que talvez, quem vai apaixonar-se pelo filme de estreia de Kogonada, será quem tem uma queda por experiências estéticas que sejam vividas através das emoções e não da razão.
Ou seja, olhos que conduzem ao coração. Não é coisa só de gente sofisticada e viajada. Não. “Columbus” é para os sensíveis à arte e à complexidade da natureza humana. Porque os personagens principais vivem, em meio à beleza da cidade, uma experiência simples e, ao mesmo tempo marcante, um com o outro.
Jin (John Cho) e Casey (Haley Lu Richardson) encontram-se por acaso em Columbus, cidade americana no estado de Indiana, que possui edifícios assinados por grandes arquitetos modernistas como o finlandês Eliel Saarinen (1873- 1950) e seu filho Eero Saarinen (1923- 1961) e I.M.Pei.
Casey trabalha como guia que leva os turistas a conhecer tais edifícios célebres. E Jin, que é tradutor na Coréia do Sul, teve que viajar para Columbus porque seu pai, famoso professor de Arquitetura, após um desmaio, entrou em coma e está no hospital em Columbus, sem poder viajar de avião de volta para Seul.
Os dois passeiam pela cidade, seus prédios, ruas, parques e jardins e conversam. Dessas trocas, tímidas a princípio, vai surgir uma amizade e um querer bem que irá ajudar aqueles dois a vencer obstáculos em suas vidas atuais.
Jin sempre achou que seu pai não se interessava por ele e que nunca conseguiram conversar. Casey, garota brilhante, passou por um período ruim em sua vida de adolescente quando sua mãe viciou-se em anfetaminas. Ela parou os estudos e trabalha agora como guia e também na biblioteca. Não pode pensar em sair da cidade para fazer uma faculdade de arquitetura, sua paixão, porque não tem dinheiro mas principalmente porque acha que precisa cuidar da mãe (Michelle Forbes).
Casey é quem traz para a conversa com Jin a ideia de que a arquitetura seria “curativa”. Para ela, desde os tempos de menina, a visão de uma certa obra de Saarinen pacificava suas angústias. Essa qualidade “curativa” da arquitetura se aliaria ao abrigo e acolhimento aos seres humanos que as obras modernistas ofereceriam em seus interiores, sejam casa, banco, igreja, ponte, escola ou hospital.
“- Meu pai iria te adorar”, diz Jin que desenvolveu uma defesa afetiva contra a paixão do pai, que parece ir diminuindo com os passeios com Casey.
Cada um deles tem outro amigo mais antigo. Casey gosta da companhia de Gabe (Rory Culkin) que é um aluno com mestrado e é colega dela na biblioteca. Enquanto que Jin tem a antiga aluna e companheira do pai dele, Eleanor (Parker Posey), por quem teve uma paixonite aos 18 anos.
Rogonada, que nasceu na Coréia do Sul mas foi criado nos Estados Unidos, dirigiu, escreveu o roteiro e montou seu primeiro longa. Ele, que era crítico de cinema, estreia como cineasta assinando esse filme independente, belo e original.
A fotografia de Elisha Christian convida à contemplação da beleza dos edifícios e seus ângulos mais inusitados, a descansar a vista nos jardins de gramados manicurados, salgueiros melancólicos e composição de árvores, tanto como interiores com objetos escolhidos a dedo e um surpreendente rio cor de chá.
Mas captura também o instante que vivem os personagens, na pele dos atores, em seus “closes” emoldurados de luzes, refletidos em espelhos e até mesmo desaparecidos na tela e presentes no som de suas vozes. Há sempre uma imagem com detalhes interessantes que nosso olhar quer descobrir.
Aventure-se e vá viver no cinema momentos de emoção e pura contemplação com esse singelo e extraordinário “Columbus”.





domingo, 17 de setembro de 2017

O Jantar


“O Jantar”- “The Dinner”, Estados Unidos, 2017
Direção: Oren Moverman

Numa miscelânea de imagens, que mais tarde vamos entender, pratos sofisticados são preparados, uma bola voa, um saguão de mármore é iluminado por castiçais com velas, um antigo cemitério é mostrado, estátuas remetem a personagens heroicos.
Depois, um rap invade nossos ouvidos e jovens estão numa festa, se divertindo com bebida, drogas e risadas. Três deles saem pela noite e o negro vomita.
Paul Lohman (Steve Coogan) quarenta e tantos, faz um monólogo que ouvimos em “off” sobre gregos antigos e romanos, a idade de ouro de nossa civilização para ele, que é professor de História do ensino médio e fala sozinho para jovens entediados. Personagem com uma forte misantropia, em seu discurso não esconde uma depressão raivosa. Soa como se tivesse perdido todas as batalhas de sua vida.
“- Não vou. Não quero ver essas pessoas. Esses vermes, macacos. Vamos cancelar ”, diz ele para sua mulher (Laura Linney) que continua a se maquiar e não o leva em consideração.
Toda essa negatividade é dirigida ao irmão de Paul, o bonitão e bem sucedido Stan (Richard Gere), que é deputado, em plena campanha para governador. Ele é casado com Kately (Rebecca Hall), sua segunda mulher, uma esposa troféu, nas próprias palavras dela.
Os dois casais vão jantar num restaurante cinco estrelas, caríssimo e pomposo. Numa casa enorme, várias salas recebem clientes elegantes com um batalhão de garçons e um “maitre” que discorre sobre a comida com um linguajar pedante que exulta os produtos diminutos nos pratos, onde quase tudo é decorativo.
Paul e Claire são os primeiros a chegar e, em meio às reclamações do irmão menos dotado, que a mulher trata como se fosse uma criança, chega Stan, o mais velho. Kate senta-se mas o marido dela cumprimenta várias pessoas, em ritmo de campanha política.
“- Irmão, pensei que não ia conseguir atravessar a sala. Pronto. Pode parar de sorrir. Somos só nós aqui ”, diz Paul irônico, quando Stan chega finalmente à mesa.
Em vários “flashbacks” vamos entendendo o relacionamento entre esses dois irmãos, diferentes em tudo, até no carinho da mãe quando eram crianças. Paul parece ter herdado um traço de instabilidade mental, presente na família. Está sempre armado e raivoso. Stan tenta conciliar os ânimos exaltados mas levanta muitas vezes da mesa para atender o telefone e confabular com sua assistente (Adepero Oduye). Esse vai e vem deixa todos nervosos.
Mas por que tinham ido jantar juntos?
O casal Claire/Paul tem um filho adolescente Mike (Jesse Dean Peterson) e Stan/Kate tem Ricky (Seamus Davey-Fitzpatrick) e Beau (Miles J. Harvey), uma criança negra, que tinha sido adotado pela primeira mulher de Stan, Barbara (Chloe Sevigny), que se mudara para a Índia.
Os primos de 16 anos eram aqueles que vimos saindo da festa e eles vão se meter numa encrenca trágica, que é o motivo daquele jantar. Mas demora para que os pais tenham espaço para falar sobre os filhos.
O diretor e roteirista israelense, radicado nos Estados Unidos, Oren Moverman, adaptou o livro best-seller do holandês Herman Kock, mostrando que gosta de deslindar a complexidade da natureza humana. A fotografia caprichada é de Bobby Bukowski que usa o cenário do restaurante para aludir às sombras da mente que vamos ver surgir durante aquela noite.
O elenco é de estrelas e as interpretações são preciosas. O texto tem diálogos inteligentes que mostram claramente que cada adulto naquele jantar só pensa em si mesmo.
Narcisismo, famílias disfuncionais, racismo, poder do dinheiro, horror ao diferente, maldade, educação baseada em superproteção, tudo isso virá à tona.
E como não há julgamento nenhum no roteiro, a reflexão é do espectador. Que vai para casa tendo que pensar sobre o lado podre da nossa civilização.
“O Jantar” é um filme que não tem medo de ser indigesto.
De vez em quando é salutar pensar em ética. Concordam?


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Uma Mulher Fantástica



“Uma Mulher Fantástica”- “Uma Mujer Fantástica”, Chile, Espanha, Alemanha, Estados Unidos, 2017
Direção: Sebástian Lelio

O que as Cataratas do Iguaçu tem a ver com aquele homem na sauna, beirando os 60 anos, cabelos grisalhos e óculos? Ele é charmoso (Francisco Reyes).
O vemos num bar, onde canta uma moça atraente, de vestido preto de bolinhas brancas, cinto e colar vermelhos. Parece que ela canta para ele. Ela é bem mais jovem.
Depois vemos o casal num restaurante chinês. É o aniversário dela e os garçons chineses cantam frente a um bolo com velas. Ele passa um envelope para ela abrir.
“- Vale duas passagens para as Cataratas. O que é isso?”
E ela se levanta e vem beijá-lo. Ele retribui o carinho e explica que não sabe onde perdeu as passagens, por isso o vale. Partem em 10 dias. É o presente de aniversário dela.
A comemoração continua na boate onde dançam agarradinhos. E depois a transa apaixonada em casa.
Mas ele passa mal no meio da noite e ela corre com ele para um hospital. Onde tudo acaba. Um aneurisma.
Assim termina o romance de Orlando Onetto e Marina Vidal, que chora escondida no banheiro.
E há algo estranho no jeito do médico que deu a notícia e pede o documento dela, olhando-a de alto a baixo.
Ela liga para o irmão de Orlando e dá a notícia. Alguém tem que vir ao hospital. E ela sai correndo pelas ruas desertas de Santiago, até que um carro de polícia a leva de volta ao hospital. Do que ela tem medo?
Outro policial pede novamente seus documentos no hospital e diz:
“- Enquanto não mudar, seu nome é esse ”, diz severo.
“- Esta situação está em trânsito...”, responde ela sem jeito.
Chega o irmão do morto que a olha com curiosidade:
“- Você é Marina? Sou Gabo, irmão do Orlando. Cuido de tudo. ”
O policial devolve o documento dela e pede o telefone. Há um desconforto geral.
Sebástian Lelio, 43 anos, chileno, diretor do premiado “Gloria”, faz o espectador se intrigar, se surpreender e, por fim, sentir na própria pele o que Marina Vidal, uma mulher transgênero, tem que passar por querer viver o luto e participar dos rituais fúnebres de seu companheiro.
Abrindo um parênteses, lembro que uma pessoa transgênero é alguém que nasceu com um gênero (masculino ou feminino) com o qual não se identifica e então passa a se vestir como prefere ser e busca hormônios e cirurgia. É uma questão que se refere à identidade da pessoa.
Preconceitos contra Marina Vidal? De todos os lados.
A família de Orlando não entende por que ele se separou da mulher (Aline Kuppeheim) para ficar com Marina. A ex dirige-se a ela como se fosse uma prostituta e uma “anormal”:
“- Quando te vejo não sei o que você é. Aliás você é uma Quimera”, referindo-se ao ser mitológico feito de partes de vários animais.
O roteiro do próprio diretor e Gonzalo Maza, ganhou o Urso de Prata em Berlim. Faz uso de cenas da vida real para explicar como se sente Marina, ora duplicada nos espelhos e vidros de vitrines, ora usando de metáforas, como quando ela luta contra um vento tão forte que ela não consegue sair do mesmo lugar, ora vendo seu amado Orlando, parecendo que ele a espera para o adeus final, o que lhe é negado pela família dele.
O fotógrafo Benjamin Echazarreta faz muitos “closes” de Marina, que algumas vezes olha direto para a câmara, para expressar diretamente para a plateia toda a determinação que a move, apesar das humilhações pelas quais passa.
Daniela Veja é uma atriz excepcional e passa uma verdade, que ela mesma deve ter vivido, sendo ela também trangênero, à sua personagem: feminina, gostando de ser mulher, apesar de todos os pesares.
Ao final, de veludo negro, com a bela voz da atriz, Marina Vidal canta no palco de um teatro “Sposa son disprezzata -Sou esposa e desprezada”, ária atribuída a Vivaldi mas que na verdade foi composta por outro músico barroco, Giacomelli. Outro equívoco aproveitado com ironia. E, finalmente, o rosto de Marina mostra toda sua beleza e verdade.

“Uma Mulher Fantástica” é um filme delicado e sofisticado que trata com empatia um assunto contemporâneo, sem vulgaridade.


domingo, 10 de setembro de 2017

Bingo - O Rei das Manhãs


“Bingo - O Rei das Manhãs”, Brasil, 2017
Direção: Daniel Rezende

Nos anos 80, o apresentador do jornal da TV pergunta:
“- Quem é o homem por trás da máscara? ”
Referia-se ao famoso palhaço Bingo (o nome Bozo não foi usado no filme por problemas de marca), que dominava a audiência das manhãs com seu programa infantil. Por contrato, o palhaço não podia revelar sua identidade.
E esse foi o problema central na vida de Augusto (Arlindo Barreto na vida real) que conseguira o lugar do famoso palhaço da TV americana. Porque atrás da maquiagem e peruca de cabelos azuis, existia um ex ator de pornochanchadas que queria ter sucesso também como ele mesmo. Os holofotes iluminavam o palhaço e feriam cada vez mais o narcisismo de Augusto, levando-o a extremos no uso de drogas, bebida e frequentação da mulherada.
Pior. Isso também ocorria a poucos passos das câmaras de TV, nos intervalos do programa.
E foi o descontrole que empurrou o pobre Augusto de volta ao lugar de onde tinha vindo, o anonimato. Um dia, chegou no estúdio e foi avisado pela diretora do programa (a ótima Leandra Leal), que um outro já vestia a fantasia. Estava despedido.
Por causa da fama que lhe subira à cabeça, tanto que queria mais, sempre mais, numa compulsão poderosa, afastara-se do filho pequeno (Cauã Martins) e da mãe (Ana Lúcia Torre, que faz o papel de Marcia de Windsor, atriz que acabou decadente, como jurada na TV).
Essa compulsão por fama e falta de crítica, fez Augusto inserir piadas e falas fora do roteiro e mais, até convidar Gretchen (a única que aparece com seu nome real, interpretada por Emanuelle Araújo), uma de suas namoradas, a rebolar e cantar “Conga, Conga, Conga” para as crianças.
Vladimir Brichta faz muito bem o homem ávido por fama e reconhecimento. Em sua atuação, transparece claramente a complexidade da personalidade de Augusto. Aparecem as camadas infantis que facilitavam sua comunicação com as crianças e um outro lado perverso, que também passava através das palhaçadas e que acabaram produzindo uma atitude onipotente que foi a sua ruina.
Uma nota de tristeza é a presença de Domingos Montagner que faz a plateia sentir saudades desse ótimo ator que nos deixou de forma trágica e a quem o filme é dedicado.
Daniel Rezende, em seu primeiro longa, mostra sua familiaridade com o cinema, montador que foi de diretores famosos como Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”, montagem indicada ao Oscar), Walter Salles (“Diários de Motocicleta”2004), José Padilha (“Tropa de Elite”1 e 2, 2007 e 2010) e mesmo o diretor americano “cult”, Terrence Malick (“Árvore da Vida”2011).
Auxiliado por Lula Carvalho e sua fotografia talentosa, uma reconstituição de época excepcional e o roteiro do excelente Luiz Bolognesi, o filme de Rezende se destaca na filmografia nacional porque mostra que, para agradar às plateias mais diversas, não precisa apelar para a vulgaridade.
Excelente trabalho.



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Atômica


“Atômica”- “Atomic Blond”, Estados Unidos, 2017
Direção: David Leitch

Mesmo quem não gosta de filme de ação, poderia se render e apreciar esse aqui. Porque ninguém fica alheio quando a sul-africana Charlize Theron está na tela. Em “Atômica” ela interpreta uma heroína de quadrinhos em uma história que se passa em 1989, no fim da Guerra Fria, “The Coldest City”.
O filme é um “flashback” contado por Lorraine Broughton, uma agente inglesa enviada a Berlim na semana em que o Muro caiu, para resgatar uma lista com o nome de todos os agentes ocidentais, que está nas mãos de um espião russo. Encontra David Percival (James McAvoy), agente inglês que deveria ajudá-la na missão e se envolve com uma agente francesa (Sofia Boutella), em cenas quentes, nunca vulgares.
Como em todo filme de espionagem, há reviravoltas. Ninguém sabe ao certo quem é quem. Agentes duplos podem estar agindo e atuando para atrapalhar os dois lados.
E Charlize Theron é fera. Quando aparece nua naquela banheira com gelo, seu belo corpo hipnotiza a plateia. Loura, alta, linda, músculos delineados e olhar sedutor, sabendo que é tudo isso, segura de si, assusta qualquer um que se mete com ela. Agressiva como uma leoa, o balé da força dela desaba sobre o agressor como um raio.
As cenas de luta, coreografadas para parecer extremamente violentas, são muito bem dirigidas por David Leitch, um ex dublê que entende do assunto. Destaque para a cena na escada, no prédio vazio, seguida de uma perseguição em carros que é de tirar o fôlego, aparentemente filmada em uma tomada só da câmara.
Charlize bate e apanha. E o ritual da banheira de gelo ajuda na recuperação de seu corpo. No dia seguinte, ela caminha soberana, com passos elásticos, para enfrentar outra meia dúzia de homens que também vão se dar mal. E as marcas deixadas em seu rosto aparecem na tela. Ela não esconde.
Sempre muito bem vestida, elegante e sexy, muito sexy, ela está deslumbrante tanto nos vestidos de noite, decotados, quanto na saia curta, botas longas e o “trench coat” branco.
Instintos à flor da pele, ninguém brinca com ela. Lorraine não descansa enquanto não consegue o que quer. Não veio a Berlim a passeio. Ela está sempre em prontidão para a luta e não importa quantos são. Ela dá conta.
“Atômica” tem ação contínua e variada. Luzes coloridas e ruas molhadas são usados com competência e estilo, Se há dublês não dá para notar. Aliás, contam que Charlize Theron quebrou dois dentes durante o filme. E ela está quase todo o tempo em cena, gostando de exibir sua força e graça felina.
Ela já foi a “serial killer” gorda e patética de “Monster – Desejo Assassino” e ganhou o Oscar. Em “Mad Max – Estrada da Fúria”, seu visual de mulherona, dentes à mostra, arrepiava.
Charlize Theron também produziu “Atômica” e dá o sangue para tudo sair na perfeição. E conseguiu. Maravilhosa.


domingo, 3 de setembro de 2017

Como Nossos Pais


“Como Nossos Pais”, Brasil, 2017
Direção: Laís Bodansky

Naquele almoço de domingo, uma família de classe média senta-se à mesa. A mãe traz direto do fogão a panela com a moqueca cheirosa, alvoroçando a filha Rosa, seu marido Dado, a duas netas e o filho com a nora dela.
“- Você caprichou ein? ” comenta a filha.
“- Para homenagear seu marido que voltou de uma longa viagem de trabalho! ”
“- E você poderia cuidar mais de nossas filhas... vive viajando. Eu não dou conta de tudo! ”, diz Rosa acidamente, voltando-se para o marido.
E o ambiente, naquele agradável pátio florido, começa a descambar para o azedume.
“- Você prefere que ele fique tomando conta de suas filhas? Ele tem um projeto ambiental maravilhoso! Quanto egoísmo...Fique esperta! “ declara a mãe.
E parecia que as coisas não iam acabar bem, quando cai aquele aguaceiro para esfriar os ânimos.
Depois da sobremesa, Rosa avisa que vai embora mas as filhas querem ficar. Ela não deixa.
“- Você é dura com elas...” reclama a avó.
“- E por que será? “ responde Rosa ironicamente. Meu pai nunca foi duro comigo. Ele era um pai maravilhoso!”
E, das duas histórias que a mãe (Clarisse Abujamra) tinha para contar para os filhos naquele domingo, ela só fala a primeira, que vai ao mesmo tempo esclarecer e perturbar ainda mais a relação dela com a filha Rosa (Maria Ribeiro).
Laís Bodansky, 47 anos, dirige e escreve o roteiro com seu ex-marido Luiz Bolognesi e faz um filme brilhante sobre as relações familiares na classe média brasileira urbana. Centra o foco na mãe e na filha e vai explorar um panorama de conflitos femininos, muitos deles geracionais, ou seja, passam de mãe para filha.
No filme, Clarice, a mãe, está doente e, claramente, numa fase em que a boa saúde da filha a incomoda porque ela vive outra sorte de infortúnio e os problemas de Rosa com o marido e as filhas parecem a ela banais e egoístas.
A inveja que permeia a relação mãe/filha foi muito bem explicada num artigo de Contardo Calligaris (Folha de 31 de agosto de 2017) que comentou “Como Nossos Pais” por esse ângulo.
Aliás, pelos contos de fadas, sabemos bem, desde crianças, das relações de inveja mortal das madrastas, mães más que invejam a juventude de Branca de Neve e Cinderela.
Além disso, no filme, Rosa, alheia aos motivos da mãe que enfrenta a morte de perto, não consegue refrear sua hostilidade e faz da mãe a razão de muitos de seus problemas. Existe aqui uma relação complicada que emerge para ser vivida à luz dos acontecimentos da vida das duas.
E Rosa não percebe que padece do mesmo mal que muitas de nós conhecemos: apesar de tudo, somos nossas mães com nossos filhos, seja no avesso, fazendo o que elas não fizeram, seja repetindo a história delas.
No filme, mãe e filha trabalham para sustentar os filhos, já que os maridos de ambas (Paulo Vilhena e Jorge Mautner) se dão ao luxo de realizar seus sonhos, o que não inclui alimentar a família.
No Brasil, quantos lares tem as mulheres como chefe de família? Em classes sociais menos aquinhoadas, o pai já partiu faz tempo. E a mãe arca com tudo. Para essas mulheres, o feminismo não ajudou em nada. Aliás, o feminismo, novo ou velho, engatinha por aqui. Somos um país machista e tristemente, muitas mulheres se comportam como tal.
Mas, voltando a “Como Nossos Pais”, há uma reflexão sobre realização profissional e no casamento, levada a sério por Rosa, que muitas de nós já viveram ou estão vivendo.
Na verdade, há mais perguntas do que respostas prontas nesse campo dos conflitos femininos.
“Como Nossos Pais” foi contemplado com seis Kikitos no Festival de Gramado como melhor filme, direção, roteiro, montagem e interpretações de Maria Ribeiro (Rosa), Paulo Vilhena (Dado) e Clarisse Abujamra (a mãe magnífica).
Laís Bodansky, que assinou a direção de “Bicho de Sete Cabeças” e “As Melhores Coisas do Mundo”, escolhe falar outra vez com sensibilidade sobre os conflitos do ser humano. O que ela faz sempre muito bem.



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Castelo de Vidro



“O Castelo de Vidro”- “The Glass Castel”, Estados Unidos, 2017
Direção: Destin Daniel Cretton

Já dizia Tolstoi, o grande escritor russo, na abertura de seu livro “Anna Karenina”: “Todas as famílias felizes são parecidas, as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. ”
A família de Jeanette era tão diferente das outras que as memórias dela viraram best-seller em 2005 e agora, filme de cinema, dirigido por Destin Daniel Cretton, do elogiado “Short Term 12” de 2013.
Brie Larson (que ganhou o Oscar por “O Quarto de Jack”) interpreta Jeanette Walls, a jornalista de fofocas sofisticada e elegante, que vemos sair de um jantar com o noivo (Max Greenfield) e convidados dele, num restaurante de Nova York no fim dos anos 80. No banco de trás do taxi, vê um homem bêbado e uma mulher revirando o lixo na calçada. Seu olhar se transforma e vemos nele horror e mágoa.
Quando o filme faz um “flashback” começamos a entender melhor aquele olhar da jornalista no “New York Times Magazine”.
Tudo que ela conheceu na infância foi uma vida de nômades com os pais boêmios e educação precária em casa, ministrada por Rex (Woody Harrelson, ótimo) um pai alcoólatra e sonhador, por vezes violento, que ela idolatrava. A mãe negligente com os quatro filhos, a pintora Rose May (Naomi Watts), era desligada da realidade e tão doente quanto o marido, com o qual vivia numa “folie à deux” ou seja, uma loucura compartilhada.
Ambos até percebiam o sofrimento dos filhos, mas não sabiam viver de outro modo. Havia sempre uma felicidade possível nos sonhos que o pai alimentava de construir uma casa linda, um castelo de vidro, onde a luz do sol reinaria e traria a vida tranquila e a paz desejadas.
Era grande a frustração das crianças quando, em nome desses delírios do pai deles, muitas vezes iam para a cama com fome. O sonho alternava com o pesadelo.
Mas as crianças são tão dependentes de pai e mãe que, mesmo quando essa relação deixa a desejar, se apegam àquilo que podem ter, porque é melhor que nada. E, quando há uma reversão de papéis, cuidam como podem do pai, como a pequena Jeanette fazia até a adolescência quando saiu de casa. Aliás as atrizes mirins Chandler Head e principalmente Ella Anderson, que interpretam Jeanette na infância, estão brilhantes no papel.
A palavra “aceitação” é usada por Jeanette Walls para falar dos pais. Apesar dos sofrimentos, ela diz que sempre se sentiu “amada e valorizada”.
“O Castelo de Vidro” não descamba para o dramalhão, embora a história beire o inacreditável. E mostra que, quando a realidade afinal pode ser vista cara a cara, aquelas crianças cresceram e se tornaram aquilo que queriam ou podiam, conforme seus talentos, ser na vida.
Ou seja, uma família infeliz ou disfuncional, não é desculpa para o fracasso. Cada um precisa lidar com a própria infância para tornar-se uma pessoa madura que, finalmente, depende de si mesma e de suas escolhas.



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Lady Macbeth


“Lady Macbeth”- Idem, Inglaterra, 2016
Direção: William Oldroyd

Quando a vemos pela primeira vez, Katherine porta um véu branco de noiva e ouvem-se cânticos de igreja. Mas algo nada romântico cerca aquela mocinha. Está em seus olhos.
E logo a vemos ser vestida com uma camisola pela empregada negra, que pergunta:
“- Está nervosa?”
Ela responde que não e senta-se na cama, à espera do marido.
Quando ele chega, muito tempo depois, é para dizer que ela deve ficar dentro de casa e para ordenar com rudeza que tire a camisola. Nua, ela espera mas o marido joga-se na cama, sem um olhar para ela.
Na cena seguinte a câmara mostra a paisagem de colinas crestadas pelo frio. Ouvem-se trovões.
Aos poucos, o ritual quotidiano se repete, com Katherine num vestido azul-pavão brilhante que contrasta com a falta de cores da casa e dos tons escuros da paisagem. Sentada ereta no sofá com a saia armada pela anágua dura e o corpo apertado num corpete, o longo cabelo preso em tranças num coque, ela espera. E a espera é sempre longa e entediante. Nada acontece.
Mas Katherine, debaixo de sua aparente natureza dócil, esconde algo que vai surgir e florescer nesse ambiente de servidão onde vive.
À noite, nua e olhando para a parede, ouve o marido perpetrar sua rotina de masturbação, sem permitir que ela o encare.
Katherine (a excelente Florence Pugh, de apenas 19 anos) foi comprada como mercadoria pelo pai de seu marido (Paul Hilton), muito mais velho do que ela, sendo o sogro um brutal dono de minas de carvão (Christopher Fairbanks) que só quer que ela dê um herdeiro à família. Ele faz com que ela se lembre desse dever o tempo todo e a trata tão mal quanto trata a empregada negra, Anna (Naomie Ackie, uma atriz que fala com os olhos).
Mas Katherine, debaixo de sua aparente natureza dócil, esconde algo que vai surgir e florescer nesse ambiente de servidão onde vive. A rebeldia começa pela procura de ar puro, algo que a livre do clima claustrofóbico da casa. Agasalhada com seu xale, cabelos ruivos ao vento, ela visita as colinas terrosas de Northumberland, norte da Inglaterra.
O marido mais viaja do que fica em casa, o que faz com que Katherine descubra o alojamento dos empregados e lá encontre Sebastian (Cosmo Jarvis), para quem a sexualidade de Katherine se abre e ele a torna mulher.
Vemos no rosto expressivo da atriz Florence Pugh a transformação ocorrida quando ela se instala no território feminino e exerce livremente seus poderes de sedução.
E é aqui que Lady Macbeth encontra Lady Katherine, pois ambas buscam o poder. O que o marido lhe nega, ela busca por si mesma e começa uma escalada de tomada do poder na casa dos Leicester. Katherine quer sempre mais. E, por isso, vai precisar eliminar aqueles que se interpõem entre ela e seu alucinado desejo de liberdade.
O roteiro foi escrito por Alice Birch que adaptou a novela do russo Nikolai Leskov de 1865, “Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk”. A ação foi deslocada para a Inglaterra vitoriana do século XIX e bem sabemos que não era fácil ser mulher nessa época. E o final foi mudado para se adaptar com mais clareza à psicose desenvolvida por Lady Katherine.
O diretor estreante, William Oldroyd, veio do teatro e conta a história de maneira seca, quase sem música que, quando aparece, faz pesar ainda mais o clima naquela casa dos Lester.
E os personagens secundários e servos são negros, outra mudança na história russa, numa alusão direta ao racismo e classe social, assunto tão candente nos dias de hoje.
Exemplar é a transformação do agredido em agressor, com todas as consequências que isso trouxe para Lady Katherine.
Não é a natureza humana livre que se expressa nela mas o peso da explosão de seus limites.