quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Extraordinário


“Extraordinário”- “Wonder”, Estados Unidos, 2017
Direção: Stephen Chbosky

Andamos tão cabisbaixos nos tempos em que vivemos, de notícias ruins, guerras, violência, fanatismos, que o nosso coração periga endurecer. Desacreditar da humanidade é o caminho perigoso que somos tentados a trilhar.
Mas filmes como esse “Extraordinário” vão na direção oposta e, por isso, fazem bem. Adultos e crianças precisam revigorar sua capacidade de identificar-se com a bondade. Quando “a gentileza é preferível a estar certo”, como ensina a escola do menino Auggie, nem tudo está perdido.
Quando ele aparece, vestido de astronauta, usando capacete, pulando na cama, num quarto pintado como um céu com estrelas, ele mesmo conta sua história:
“Não sou normal...meu nascimento foi hilário!”
Rindo de si mesmo, um menino de 10 anos.
Ele tem uma deformidade no rosto, a síndrome de Treacher Collins, que é genética. Depois de 27 cirurgias, ele ainda usa um capacete em público.
Educado em casa pela mãe, ele é mimado e é o centro de atenção da casa. Claro que isso afeta a irmã mais velha, a compreensiva Via (Izabela Vidovic), deixada de lado. Ainda bem que ela teve a avó (ótima Sonia Braga) que percebia a carência da neta e a amava muito. Lembrada numa cena em Coney Island, bem curtinha, é um dos pontos altos do filme.
Mas, como todo mundo tem problemas, como diz Via, talvez Auggie consiga enfrentar a escola e possa conviver com as outras crianças. Essa é a torcida da mãe (Julia Roberts) e o receio do pai (Owen Wilson):
“- É como mandar um cordeiro para o abate...”
Auggie mesmo diz:
“- Como nunca fui para a escola, estou apavorado...”
Mas ele tem o diretor da escola, Mr Tushman (Mandy Patinkin) e Mr Browne (Daveed Diggs), o professor da 5ª série, os dois de olho no que pode acontecer.
E Auggie é esperto, inteligente, simpático e bem humorado.
Adaptado do livro de Raquel Jaramillo, que usa o pseudônimo de R. J. Palacio, “Extraordinário”, defende a ideia de que antes de julgar, devemos conhecer. E quando Auggie se afasta dos outros, respeitando a estranheza que causa, por exemplo, ao comer, dadas suas dificuldades motoras, incentiva o bom garoto Jack Wills (Noah Jupe) a se aproximar e a descobrir um amigo.
O diretor Stephen Chbosky tem no currículo o livro “As Vantagens de ser Invisível”, que ele mesmo adaptou para o cinema e rendeu um filme de sucesso. Aqui, ele acertou na escolha do elenco e no ritmo do filme. Não são só dificuldades e lágrimas. Há risos e prêmios.
E tem o principal. O ator canadense Jacob Tremblay já encantara o público no filme “O Quarto de Jack” de 2015, fazendo o garoto de 5 anos que nasceu no cativeiro da mãe e não conhecia o mundo. Em “Extraordinário” ele é o  coração do filme.



domingo, 10 de dezembro de 2017

Verão 1993


“Verão 1993”- “Estiu 1993”, Espanha, 2017
Direção: Carla Simón

Uma menina olha o céu. Escutamos barulhos de fogo de artifício e gritaria de crianças. Mas Frida está mais distante que as estrelas e flores de luzes coloridas brilhantes que iluminam o céu e logo se apagam. No que pensa ela?
Frida (Laia Artigas) é pequena, tem 6 anos e seu rosto mostra uma indiferença a tudo que acontece a seu redor, como se não fosse com ela, como se ela não estivesse ali. E, no entanto, é a casa dela, onde morava com a mãe, que está sendo desmontada. Uma mudança a espera. De Barcelona, onde vivera até então, para o interior da Catalunha. Vai morar com os tios, Esteve, irmão de sua mãe (David Verdaguer) e Marga (Bruna Cusí) e com a sua priminha de 3 anos, Anna (Paula Robles).
Quando a avó dá a ela o santinho da Primeira Comunhão de sua mãe e ensina o Pai Nosso, pedindo que ela reze pela mãe, entendemos porque Frida está distante. É órfã. Perdeu seu pai e depois sua mãe.
Além da falta de expressão do rosto, Frida também não fala.
Quando chegam ao novo destino, ela, sempre com uma boneca no colo, não quer comer. Balança a cabeça tanto para o “não” quanto para o “sim”. Só quer água.
Acorda no dia seguinte com muito sol entrando pela janela, pios de pássaros e zumbido de insetos. A priminha canta enquanto sobe numa árvore e chama Frida para ver.
Na mesa do café da manhã, ela não quer o leite. A tia insiste e o tio, escondido, toma o leite dela. Um brilho aparece no olhar de Frida, no rosto um pequeno sorriso.
Foi esse o primeiro sinal de aceitação da nova realidade em sua vida.
A câmara acompanha Frida o tempo todo e, com isso, nos sentimos próximos da menina, aflitos com o que ela está passando.
Até das galinhas ela tem medo. Passa longe. Temos também medo por ela. Está muito frágil.
No açougue ouvimos a dona comentar com a tia Marga:
“- É a sobrinha de Esteve? Pobrezinha...Foi pneumonia? ”
Frida vai saber do acontecido com sua mãe em conversas de adultos que pensam que ela está longe ou que não entende o que falam.
Mas é nas brincadeiras com Anna que ela começa a lidar com tudo que está fechado dentro dela.
A imagem vestida de negro de Nossa Senhora, com o filho morto na cruz, que Frida encontrou no jardim, recebe presentes e preces. À noite, com uma lanterna, ela procura a mãe nas árvores e chama por ela. Em vão.
Nosso coração se aperta porque percebemos como está sendo difícil para Frida aceitar a morte da mãe. Ela nem mesmo sabe do que ela morreu, já que AIDS naquele tempo era tabu. E a priminha, com pai e mãe, é vista com um misto de ciúmes e raiva intensa.
Aceitar os tios como pais adotivos foi ainda mais difícil porque Frida os vê como inimigos:
“- Aqui ninguém gosta de mim”, diz para Anna.
Há sentimentos contraditórios que a fazem sentir-se confusa.
Carla Simón, 31 anos, diretora e roteirista, conta que se inspirou na própria vida dela para fazer o filme. E o talento da pequena atriz Laia Artigas, extraordinária, respondeu com extrema sintonia à direção de Carla Simón. Assim como todo o elenco.
No Festival de Berlim desse ano o filme ganhou o prêmio de Melhor filme de Cineasta Estreante e o Grande Prêmio do Júri da Mostra Generation Kplus. Foi também o escolhido para representar a Espanha no Oscar 2018.
“Verão 1993” é um filme delicado e comovente, que deixa ver que a dor de uma tragédia, aos poucos, pode ser vivida e compreendida.


Lágrimas no final são difíceis de reter.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente



“Assassinato no Expresso do Oriente”- “Murder on the Orient Express”, Estados Unidos, Malta, 2017
Direção: Kenneth Branagh

Jerusalém, uma cidade ensolarada, de pedras antigas e sagrada, recebe o mais célebre detetive do mundo, Hercule Poirot (Kenneth Branagh, excelente) que, com sua famosa mania de perfeição e simetria, implica com os ovos quentes que são servidos de manhã em seu quarto de hotel.
Mas ele está de bom humor, porque, finalmente, Poirot está de férias.
Antes, porém, tem que atuar para solucionar um problema, pois uma relíquia preciosa foi roubada. Ele resolve o caso magistralmente, a partir de um detalhe insignificante, como aliás é a sua marca. Extremamente bom observador e dono de uma inteligência brilhante, ele é imbatível.
Porém, confessa que está cansado e vai partir para Istambul onde, a bordo do Expresso do Oriente, pretende descansar uns dias até a chegada a Paris.
Istambul, com suas mesquitas brilhando ao pôr do sol, vê chegar na estação de trem os ilustres passageiros que farão a viagem através da Europa. Eles chegam com suas valises elegantes, bem vestidos e ansiosos. Afinal, é uma viagem no trem mais luxuoso do mundo e os que podem pagar a passagem são milionários, que trazem com eles seus empregados.
Poirot observa os doze passageiros que lhe farão companhia, europeus e americanos. Passa por ele a idosa princesa russa, solene, antipática e majestática, coberta de joias e peles (Judi Dench), acompanhada por sua humilde empregada Hildegarde Schmidt (Olivia Colman); há uma jovem e bela governanta, Mary Debenham (Daisy Ridley) que parece conhecer o doutor Arbuthnot (Leslie Odom Jr) esperado em Londres para uma operação num paciente importante; destoando do grupo de convivas alinhados, emerge o professor austríaco Gerhard Hardman (Willem Dafoe); outra também diferente dos outros é a opaca religiosa Pilar Estravados (Penélope Cruz); o que não é o caso do casal russo de bailarinos, Count Andrenyi (Sergei Polunin) e sua mulher, a Condessa Andrenyi (Lucy Boynton); há também uma bela americana que faz o tipo mulher fatal, caçadora de maridos, Mrs Hubbard (Michelle Pfeiffer, ótima); além de um empresário latino, Marquez (Manuel Garcia-Rulfo) e por fim, um americano mal encarado, que se diz comerciante de arte, Ratchett (Johnny Depp, sempre um ator camaleônico), que veio com seu mordomo, Masterman (Derek Jacobi) e seu assistente, Hector Mac Queen (Josh Gad).
Um, dentre eles, será assassinado. E Poirot, de férias, terá que se curvar à evidência de que ele é que terá que liderar os interrogatórios para descobrir o culpado.
O livro publicado em 1934, escrito pela inglesa Agatha Christie (1890-1973), faz parte de uma coleção de 33 que tem o detetive belga como personagem principal, sempre vítima de brincadeiras por causa de seu sotaque e principalmente por seu excêntrico bigode. Kenneth Branagh usa o mais extraordinário jamais visto na tela do cinema ou na televisão. Ele está maravilhoso no papel e mal conseguimos ver o ator, tão impregnado que ele está do seu personagem.
A direção do próprio Branagh é ágil porém o ritmo, um tanto acelerado, que faz com que o espectador não familiarizado com a história tenha dificuldade de seguir os acontecimentos.
Há cenas belíssimas do trem visto do alto das montanhas nevadas, lá embaixo no vale. E o Orient Express foi reconstruído com capricho, destacando-se sua bela decoração “art-déco” nas luminárias e painéis de madeiras preciosas. O encontro do corpo da vítima do assassinato é visto de cima, retirados os tetos das cabines, o que dá um toque original à cena.
O final é muito bem pensado e faz homenagem a um ilustre quadro de um importante artista.
E, resolvido o misterioso crime, ficamos sabendo que Poirot é chamado às pressas para o Egito, onde houve um assassinato no Nilo. Pelo visto vamos ver Kenneth Branagh numa nova produção de “Morte no Nilo”. A outra, de 1978 tinha direção de John Guillemin e Peter Ustinov como Poirot.

Veremos.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Com Amor, Van Gogh




“Com Amor, Van Gogh”- “Loving Vincent”, Reino Unido, Polônia, 2017
Direção: Dorota Kobiela e Hugh Wetchman

Um dos pintores mais importantes da história da arte ocidental, Vincent Van Gogh, nasceu na Holanda em 1853 e morreu na França em Auvers-sur-Oise em 1890, aos 37 anos.
“Starry Night- Noite Estrelada”, talvez sua tela mais conhecida, serve de fundo para os créditos da animação dirigida pelo casal Dorota Kobiela e Hugh Wetchman. As espirais azuis e amarelas e as pinceladas espessas, nos fazem lembrar da tela na qual uma noite estrelada aparece sobre a cidadezinha de Auvers-sur-Oise, na qual Van Gogh morou no fim de sua vida, seus anos mais brilhantes, nos quais produziu 400 telas inesquecíveis.
Mas não houve glórias para o pintor. Pobre e deprimido, Vincent mal tinha dinheiro para comer. Era seu irmão mais novo, Theo, que o sustentava e comprava tintas e telas para que Vincent pudesse pintar.
A animação tem o encanto de tornar vivas as figuras dos quadros que conhecemos nas paredes dos museus. Foram mais de 100 artistas que pintaram, a mão e à óleo, os 65.000 “frames” que compuseram o filme, no estilo de Van Gogh, durante 7 anos.
O filme foi feito normalmente, com artistas reais (Douglas Booth, o filho do carteiro, Jerome Flyn, doutor Gachet, Saoirse Ronan, a filha do médico, Marguerite e Chris O’Dowd, o carteiro, para citar alguns) e depois, os artistas pintaram a mão cada “frame” do filme, com o estilo de Van Gogh e as cores vivas tão características de seus quadros.
O roteiro inspirou-se nas cartas entre os irmãos e levantam uma dúvida: Van Gogh teria mesmo se suicidado?
Um ano após a morte do pintor, o filho do carteiro, Armand Roulin, tem em suas mãos uma última carta extraviada, de Vincent para  Theo, que morreu seis meses depois do acontecido com o irmão, em Arles. Não tendo a quem entregar a carta, Roulin, que está em Auvers-sur-Oise, passa a fazer um trabalho de detetive para descobrir mais detalhes sobre o que realmente aconteceu com Van Gogh.
Para isso, interroga as pessoas que conviveram com Vincent e que foram os personagens de seus quadros.
A história em si não é o melhor do filme. Porque a emoção está em vermos recriados seus quadros mais famosos.
E a ironia é trágica. Aquele que assinou telas que hoje são leiloadas por milhões de dólares, vendeu apenas um quadro enquanto estava vivo. Foi só muito depois de sua morte que ele foi reconhecido.
Vincent Van Gogh era um ser que habitava dimensões humanas muito distantes das pessoas de seu tempo de vida.

A animação “Com amor, Van Gogh” foi premiada pelo público da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo como melhor filme de ficção.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Thelma



“Thelma”- Idem, Noruega, Dinamarca, Suécia, 2017
Direção: Joachim Trier

Quando o filme começa, um homem e uma menina pequena caminham sobre um lago gelado. Veem peixes nadando nas águas através do gelo qual vidro transparente. A menina sorri mas o pai dela está sério.
E arrepiamos quando, na floresta branca de neve, ele aponta sua espingarda para um pequeno cervo e, logo, muda sua mira. É a menina que vai morrer?
Lembrei imediatamente do conto de fadas no qual a madrasta má ordena ao caçador que traga o coração da mais bela, depois de matá-la, bem longe na floresta. Há logo, de início, uma sugestão que a menina tem pai e mãe perigosos.
Mas como uma criança reage frente a pais perversos? Fatalmente assumirá sempre as culpas de tudo de errado que acontecer.
O diretor Joachim Trier, 43 anos, escreveu o intrigante roteiro com Eskil Vogt e a fotografia bela e sutil é de Jakob Ihre. Os closes e supercloses ajudam o espectador a entender que o que se passa com Thelma pertence a seu cenário interior.
Educada por pais religiosos fanáticos, em nenhum momento sentimos calor na relação de Thelma (a maravilhosa atriz Eili Harboe) com seus pais.
Mas sentimos um mal-estar desde a primeira vez que vemos Thelma com os pais. A mãe (Ellen Dorrit Petersen) liga várias vezes no primeiro dia da filha na universidade em Oslo e reclama dela não atender o celular. A menina é gentil e informa cada passo seu mas notamos que ela se sente sufocada com tanto controle. Isso se repete todo dia. Estressante.
Para Thelma, educada com rigor religioso no campo, não é fácil aproximar-se dos colegas. Quando bebe com eles num bar, logo fica culpada e confessa ao pai (Henrik Wilkins).
Mesmo assim, o mal-estar continua.
E quando Thelma encontra Anja (Kaya Wilkins) na sala de leitura e se sente atraída por ela, vemos o quanto ela se entrega à autopunição. Tem uma convulsão. Desejos proibidos.
No bar, onde as duas ficam mais íntimas, depois de fumar um baseado, Thelma tem uma alucinação. Engole uma cobra. Sexualidade como pecado.
Frente ao médico que a examina ficamos sabendo de um “ataque de nervos” aos 6 anos de idade, medicado com uma droga não indicada para crianças. Uma avó com problemas mentais é citada mas Thelma acha que ela morreu:
“- Meu pai é médico. Ele que cuida disso. Não me lembro de nada. ” Trauma de infância.
Diagnosticada como tendo epilepsia psicogênica ou seja, sem nada em seu cérebro que justifique as convulsões, Thelma é indicada a um psiquiatra.
“Thelma” é um filme que pode ser visto por parte do público como sendo sobre uma garota com poderes paranormais. Uma “Carrie, a estranha”. Para mim, Joachim Trier parece mais interessado em mostrar os efeitos da educação e do ambiente sobre a construção da nossa identidade. Ele disse numa entrevista:
“O verdadeiro horror é a ausência de auto aceitação. ”
“Thelma” é uma história contada do ponto de vista da garota que não entende que pensamentos não podem causar danos. Ela é como uma criança, interpretando o mundo com o pensamento mágico, que traz consigo o horror, a culpa e a vergonha.
Finalmente, “Thelma” é um drama sobre uma menina, que descobre a si mesma e ao mundo real, passando por experiências que a ajudam a superar seus pesadelos.



sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Um Contratempo


“Um Contratempo”- “Contratiempo”, Espanha, 2016
Direção Oriol Paulo

Quando você tem tudo que quer e a sorte lhe sorri, cuidado. Porque você pode entrar numa espécie de cegueira e aí sua onipotência torna-se má conselheira.
Foi isso talvez que aconteceu com o jovem e bem sucedido  dono de um empresa do ramo da tecnologia, eleito empresário do ano. Ele (Adrián Doria) tem uma mulher bonita e amorosa e uma filhinha adorável. Mas apesar de amá-las, não lhe bastavam.
Divertia-se com uma amante, a bela fotógrafa Laura (Barbara Lennie). Costumavam passar tempos juntos, mentindo para seus respectivos cônjuges que estavam a trabalho em algum lugar. Parecia a coisa certa já que nenhum dos dois queria uma separação.
Mas chegou um momento em que Adrián começou a sentir que essa relação estava pesada. Toda essa história de ter que inventar motivos falsos para estar com Laura... Não havia sentimentos profundos entre eles. Mais prático acabar com o caso.
E, quando voltavam de uma dessas escapadas num fim de semana, passando por uma estradinha que cortava uma floresta, ele resolve dizer a ela que estava tudo acabado.
Por uma dessas coincidências do acaso, nesse exato momento, um grande cervo pula à frente do carro de Adrián, que perde o controle da direção e bate em outro carro que vinha em sentido contrário.
Depois do susto, aliviados porque nada tinha acontecido com nenhum dos dois, resolvem ir até o outro carro, parado fora da estrada.
Um jovem está imóvel no assento do carro e parece ferido seriamente. Laura tenta acordá-lo. Nem um sinal de vida.
Assustada, Laura pensa em chamar a polícia mas como explicar Adrián e ela tão longe de casa? Nenhum dos dois quer um escândalo.
É aí que ela tem a ideia de livrarem-se do corpo e do carro do rapaz. Adrián aceita essa solução e vai conduzindo o carro do rapaz com o corpo no porta malas.
Mas quando ele sai, Laura não consegue fazer o carro dele pegar. E é por aí que a coisa vai complicar. Pessoas vão passar pela estrada e como ela vai fazer? Como irá encontrar-se com Adrián?
Toda mentira leva a outras. Sabemos disso. E esse filme que começa com um contratempo, vai complicar-se cada vez mais.
Preso por um crime que diz que não cometeu, Adrián Doria é considerado culpado pela morte de Laura, num quarto de hotel, onde ele diz que foram encontrar um chantagista.
Seu advogado sugere que contratem uma advogada experiente, Virginia Goodman (a excelente Ana Wagener), para prepará-lo para o julgamento.
Os dois se encontram e tem três horas para montar uma defesa imbatível. Para isso, ela vai interrogá-lo de forma agressiva e inteligente, pedindo que conte tudo em detalhes. Enquanto isso, o advogado de Adrián vai atrás de uma testemunha chave.
O diretor e roteirista  espanhol Oriol Paulo conseguiu escrever uma história fantasticamente bem contada, através de “flashbacks” do passado, inseridos com maestria numa ótima edição.
A plateia é convidada a pensar e tentar descobrir a verdade. Mas esse é um feito difícil pois, a cada passo, a trama se adensa mais e o que sabíamos antes, passa a ser uma mentira bem contada. E são muitas.
O final é surpreendente e original.
Mais não digo porque qualquer coisinha a mais pode estragar o prazer desse final.
“Um Contratempo” é um suspense que há muito tempo não se via no cinema.



segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Boneco de Neve



“Boneco de Neve”- “The Snowman”, Estados Unidos, Inglaterra,
Suécia, 2017
Direção: Tomas Alfredson

As primeiras cenas do filme, que mostram uma casa perdida nas montanhas cobertas de neve da Noruega, são da maior importância na trama. Nelas, um garoto vê sua mãe sofrer por causa de um homem brutal, que ele chama de “tio”. Depois de uma briga entre os dois, a mãe o acusa de ser pai do menino. Nervosa, ela dirige perigosamente o carro onde estão e o menino não consegue salvá-la depois de um acidente.
Há um salto no tempo e vemos o detetive Harry Hole (Michael Fassbender, sempre excelente ator) tentando voltar à boa forma, prejudicada pelo seu vício com a bebida, que fez com que perdesse sua mulher Rakel (Charlotte Gainsbourg). E a oportunidade de redimir-se aparece quando uma policial, Katrine Bratt (Rebecca Ferguson), vinda de Bergen, precisa de ajuda para seguir a pista de mulheres desaparecidas.
Na verdade, tais mulheres tidas como desaparecidas foram assassinadas de modo cruel por um “serial killer”, que tem como assinatura um boneco de neve, sempre encontrado no local do crime. Tem grãos de café na boca, qual dentes pretos e olhinhos cruéis. Outras mulheres terão o mesmo fim durante o filme.
A bela detetive companheira de Harry é corajosa e vai atrás de pistas que incriminariam homens poderosos de Oslo. Uma clínica médica e um empresário milionário estão em sua mira.
O diretor Tomas Alfredson se saiu muito bem no encantador “Deixa ela entrar” de 2008, com a história de uma menina vampira e assinou “O Espião Que Sabia Demais”. Nesse “Boneco de Neve”, adaptado do best-seller de Jo Nesbo, sentimos que falta continuidade à história que é contada, deixando o espectador às vezes perdido. A montagem de Thelma Schoonmaker faz cortes abruptos, o que agrega uma sensação de confusão.
Em entrevistas, o diretor responde às críticas negativas sobre o filme, dizendo:
“Nosso tempo de filmagem na Noruega foi muito curto e ainda não tínhamos a história toda e quando começamos a edição descobrimos que faltava filmar muita coisa. Foi como se tivéssemos feito um grande “puzzle” e algumas peças estivessem faltando, o que faz com que não se veja a figura inteira. ” Assim, cenas adicionais tiveram que ser filmadas na primavera em Oslo.
A explicação do diretor esclarece essa sensação de descontinuidade, que é uma pena, porque o resultado são personagens rasos que impedem a possibilidade do espectador entrar mais emocionalmente na história.
No entanto, “Boneco de Neve”, com todos os seus defeitos, é entretenimento de muito melhor qualidade quando pensamos nos roteiros pobrinhos dos filmes de super-heróis que atravancam os cinemas da cidade.