domingo, 22 de abril de 2018

O Terceiro Assassinato



“O Terceiro Assassinato”- “Sandome No Satsujin”, Japão, 2017
Direção: Hirokasu Kore- Eda

A cena abre com dois homens andando na noite num campo deserto, à beira de um rio. De repente, um deles ataca o outro com golpes na cabeça. Depois, joga gasolina no corpo e põe fogo. Essa cena vai aparecer outras vezes durante o filme, inclusive com um outro autor.
Mas Misumi (o extraordinário ator Yakusho Koji) confessa o crime. Matou o patrão, dono da fábrica onde trabalhara e fora demitido. Acontece que esse é o terceiro assassinato que o homem assume. Já tinha cumprido 30 anos de prisão por causa da morte de dois agiotas.
No Japão, a pena de morte é aplicada, apesar do protesto popular. Talvez o grande cineasta Kore-Eda, 56 anos, famoso por seus filmes sobre a família (“Pais e Filhos”2013, “Nossa Irmã mais Nova”2014), mudou de assunto em “O Terceiro Assassinato” para ajudar o clamor contra a pena de morte.
No filme, o advogado de defesa, jovem, filho de um juiz aposentado que julgara o mesmo réu nos crimes anteriores e o livrara da pena capital, Shigemori (Fukuyama Masaharu), foca sua estratégia de atuação em entrevistas com pessoas que conheceram a vítima e o réu, para poder livrá-lo da pena de morte e transformá-la em prisão perpétua.
Acontece que o réu, Misumi, surpreendentemente, muda sua versão dos fatos a cada entrevista que tem com o advogado no parlatório da prisão, que separa os dois homens por um vidro. Às vezes, os rostos se sobrepõem, o que aproxima os dois homens, aparentemente tão distantes.
Mas por que Misumi altera suas versões sobre o que acontecera? Ninguém sabe. Só ele. O fato é que somente sua própria confissão o condena, já que não há testemunhas do crime. E se ele muda constantemente a história, como defendê-lo?
O filme é longo, com muitas falas. Entramos num labirinto de depoimentos que aponta cada um para um lado diferente. Mas o advogado de defesa decide levar adiante essas conversas, apesar de sua estratégia inicial não ter nada a ver com conhecer a verdade, mas sim com o objetivo de livrar Misumi da morte certa.
Kore-Eda volta a seu tema preferido, a família, para orientar as investigações do advogado. Assim, ele vai até a casa da viúva da vítima, que ainda não recebeu o seguro pela morte do marido. Ali fica conhecendo a filha do industrial morto, Sakie (Hirose Suzu, de “Nossa Irmã mais Nova”) e descobre que, estranhamente, ela conhece bem o réu.
Visita também a proprietária da casa que Misumi alugava e fica sabendo de mais coisas sobre ele. Os operários que trabalhavam com Misumi na fábrica também são ouvidos.
Enquanto isso, o juiz, pai do advogado de defesa que livrara Misumi da pena de morte no passado, muda de opinião e acha que ele merecia a pena naquela época, o que teria evitado o terceiro assassinato.
Ou seja, a verdade se esconde e cada depoimento aumenta a desconfiança do advogado de que o réu é inocente. Mas ele parece não se importar com sua própria sorte. Será que ele está confundindo a justiça para encobrir outra pessoa?
O filme é humanista e se interessa mais pelas pessoas do que com a verdade, sempre relativa. Assim, acusa a justiça dos tribunais de não se importar com o destino dos réus, levanta a cortina que esconde relações familiares incestuosas, denuncia práticas comerciais indecorosas e interesses financeiros escusos.
Um filme para poucos. Requer muita atenção nos diálogos. Interessará aqueles que gostam de percorrer os labirintos da mente humana e que se fazem a pergunta: temos o direito de julgar os outros?


7 Dias em Entebbe



“7 Dias em Entebbe”- “Entebbe”, Estados Unidos, Reino Unido, 2018
Direção: José Padilha

Quando um fato histórico, acontecido no século XX, ocupa um espaço enorme nos meios de comunicação da época, espera-se que se torne um bom filme. Foi o que aconteceu. Um ano depois, três estavam prontos. “Resgate Fantástico” tinha Peter Finch como Primeiro Ministro de Israel, “Vitória em Entebbe” era estrelado por Kirk Douglas e Elizabeth Taylor e “Operação Thunderbolt” mostrava atores israelenses e Klaus Kinski como um dos sequestradores.
Após 42 anos do sequestro do avião da Air France que faria Tel Aviv-Paris em 4 de julho de 1976, José Padilha, 50 anos, diretor brasileiro em Hollywood, escolhe contar novamente essa história famosa com um viés diferente.
Ele, que se notabilizou por filmes de ação, principalmente “Tropa de Elite” de 2007, que ganhou o Urso de Ouro em Berlim, começou sua carreira de sucesso com “Ônibus 174” de 2002, documentário sensível e premiado, que contava a história de um jovem delinquente que sequestra um ônibus com passageiros no Rio de Janeiro. O diretor mostra como o contexto social de pobreza e violência determinou o destino trágico do sequestrador, bem como a ação escandalosa da TV e a incompetência da polícia.
Parece que ele usa esse mesmo olhar em seu filme para pensarmos sobre os bastidores políticos e psicológicos desse sequestro do avião. Porque todo mundo sabe como tudo termina. Não faria sentido fazer apenas mais um filme de ação. Talvez memórias do seu documentário pressionaram para que Padilha olhasse os acontecimentos com um olhar humanizado.
O grupo dos quatro sequestradores era composto por dois guerrilheiros da Frente Popular para a Libertação da Palestina e dois revolucionários alemães simpatizantes do grupo Baader-Meinhof (Daniel Bruhl e Rosamund Pike, excelentes). Exigiam a libertação de todos os presos políticos de Israel, ameaçando matar todos os sequestrados.
O filme se passa em três cenários: no avião sequestrado, no aeroporto de Entebbe, Uganda, com a conivência do ditador Idi Amin e em Israel, onde o Primeiro Ministro Yitzhak Rabin (Lior Ashkenazi) e o Ministro da Defesa Shimon Peres ( Eddie Marsan) discutem estratégias.
Tanto entre os alemães revolucionários mas burgueses e os palestinos que defendiam suas ideias, dispostos a morrer por elas, quanto no cenário do governo israelense, haviam disputas e dúvidas.
Essas diferenças entre os membros do sequestro e as posições distintas dos líderes israelenses são o diferencial do filme, adaptado do livro “Thunderbolt Operation” de 2015, escrito pelo historiador britânico Saul David. Padilha também teve uma consultoria do antigo membro da Força de Defesa Israelense, Amin Ofer.
Desde as primeira cenas, o diretor amarra a movimentação do sequestro com o ensaio de um espetáculo do grupo Batsheva. Esse grupo de balé, o mais importante de Israel, tem como diretor e coreógrafo Ohad Naharin, que culmina seu espetáculo mostrando em imagens a tragédia que separa israelenses e palestinos. São metáforas em movimentos corporais de grande intensidade emocional, acompanhadas da canção da tradição judaica “Echad mi Yodea”. Um grande acerto.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Aos Teus Olhos




Aos Teus Olhos”, Brasil, 2017
Direção: Carolina Jabor

Aquele menino quieto, uns sete anos, sentado no banco de trás do carro do pai está com algum problema. Acabaram de sair do apartamento da mãe (Stella Rabello) e quando o pai puxa conversa, ele se agarra ainda mais no joguinho do celular. Os pais são separados e parece que não se entendem bem.
Chegando ao clube, o carro dá uma batida leve no carro do professor de natação, que simpático, vai até o menino e seu pai e diz:
“- Alex! Você conta para seu pai quem sou eu? ” E acrescenta que não houve nada no carro dele. “- Uma batidinha leve. ”
Na piscina os meninos e meninas treinam e o pai de Alex (Marco Ricca, sempre convincente)) é o único que corre de lá para cá, gritando instruções.
No dia da competição a mãe bate palmas para o filho que chegou em segundo lugar mas o pai não parece satisfeito.
Quando o professor (o ótimo Daniel de Oliveira) vai por a medalha de prata em seu pescoço, Alex foge para o vestiário.
Lá um outro menino zomba dele:
“- Está de mau humor porque não ganhou a prova! ”
Alex voa sobre ele. O professor separa os dois e faz darem um aperto de mão:
“- O que foi que eu ensinei? Tem que saber ganhar e perder!“
E dá um beijo na cabeça de cada um. O professor Rubens é carinhoso com os seus alunos. É também o xodó das meninas que mandam fotos para o celular dele.
Se Rubens soubesse o que está para acontecer...
O pai de Alex está na sala da diretora (Malu Galli) no dia seguinte e comunica que o filho não quer vir mais às aulas de natação. O motivo? Alex tinha dito para a mãe que o professor Rubens tinha dado um beijo na boca dele. Louca da vida, a mãe passa um e-mail coletivo para todos os pais e mães dos coleguinhas de Alex contando o acontecido. Quase todos exigem denúncia e demissão do professor. Escândalo na internet. O caso vai parar na delegacia.
A frase da diretora é exemplar:
“- Daqui a pouco a gente não vai poder tocar mais nas crianças...”
O linchamento moral já foi feito. E a pecha de pedófilo já determina que ele deve ser demitido. Prisão é pouco, dizem alguns que atacam Rubens na rua.
Essa mentalidade de julgar antes de conhecer os fatos, infelizmente já é regra no nosso país. Agora, o inocente é que tem que provar que não é culpado. A presunção de inocência já era.
Carolina Jabor fez um filme necessário que chama a atenção para posições extremistas e sobre a fúria que se abate sobre o suspeito. Ninguém tem calma, nem bom senso. Ninguém ouve os dois lados.
Onde fica o respeito ao direito de defesa?

domingo, 15 de abril de 2018

Baseado em Fatos Reais



“Baseado em Fatos Reais”- “D’Après Une Histoire Vraie”, França, Polônia, Bélgica, 2017
Direção: Roman Polanski

Tudo começa numa sessão de autógrafos. Delphine (Emmanuelle Seigner, mulher do diretor) e seu último livro são um sucesso. Pessoas se apertam na fila e, quando chegam nela, são só elogios e admiração.
Mas algo errado acontece com a escritora. Parece que se sente mal e pede para interromper os autógrafos.
Longe da multidão, uma moça sedutora (Eva Green) dirige-se à autora:
“- Só um último autógrafo para a sua maior fã? Vim de tão longe...”
Começa ali um jogo misterioso que prende o espectador.
Vamos ver Elle, a fã e Delphine, a escritora, enredadas num relacionamento sutilmente sadomasoquista, desde o princípio.
Delphine está estressada porque o livro difícil que escreveu sobre a mãe incomoda também alguém que começa a enviar cartas anônimas, acusando-a de denegrir a família, de não ser boa mãe, de ser interesseira e ganhar dinheiro às custas dos outros. Essas cartas são a gota d’água e jogam Delphine numa depressão séria.
Por causa disso, não dorme bem e está com um bloqueio criativo. A página em branco do computador torna-se um campo minado que ela não ousa tocar. Chega a tal ponto que vemos ela sufocar, abrir a porta do terraço e debruçar-se perigosamente. Tememos por sua vida.
Além de tudo isso, seu companheiro (Vincent Perez), que tem um programa de televisão, onde entrevista autores literários, foi viajar por três semanas. Ela está sozinha. Frágil e vulnerável.
Presa fácil para Elle? O que quer aquela mulher? De boa ouvinte simpática, passa a cobrar que a autora escreva seu “livro escondido”. Por que não escreve sobre si mesma?
E quando Delphine pergunta a mesma coisa para Elle, que é escritora-fantasma de celebridades, ela diz que sua vida é desinteressante, sem marido, filhos, nem família.
Quando Elle invade o apartamento da outra, a coisa fica ainda mais fascinante e perigosa porque ela passa a comandar a vida de Delphine, como se fosse a parte dela que toma as decisões.
O roteiro, escrito por Olivier Assayas e Polanski, adaptação do livro de Delphine de Vigan, de mesmo título que o filme, é esperto e sabe fazer crer no que vemos, enquanto esconde a verdadeira situação entre as duas mulheres. Aliás, o filme é delas. Atrizes soberbas, elas facilmente capturam o espectador na armadilha psicológica da história.
A música de suspense do grande Alexandre Desplat, recém oscarizado por “A Forma da Água”, ajuda a criar um clima denso, perigoso e assustador. Um pesadelo? Mais. Um surto.
Um filme inteligente que sabe prender o espectador.

domingo, 8 de abril de 2018

Ella & John




“Ella & John”- “The Leisure Seeker”, Itália, França, 2017
Direção: Paolo Virzi

Welesley, Massachusetts, é um lugar de casas graciosas, gramados bem cuidados, bicicletas e pessoas passeando cachorros. Nenhuma agitação.
Mas quando Will (Christian McKey) entra na casa dos pais chamando a mãe e não tem ninguém em casa, ele estranha. Pior, o velho trailer da família não está na garagem. Mau sinal. Ele liga para a irmã Jane (Janel Moloney), alarmado:
“- Jane? Papai e Mamãe sumiram! ”
Na cena seguinte vemos o casal desaparecido, contente da vida, no trailer e na estrada. Ella (Helen Mirren) diz para o marido (Donald Sutherland):
“- Você poderia ter colocado algo mais confortável para viajar! “
John, de terno e gravata azul, combinando com seus olhos, só sorri. Ele está dirigindo o grande trailer e parece encantado. Ella fala o tempo todo relembrando as viagens com os filhos naquele mesmo trailer que tinham apelidado de “Leisure Seeker” (O que procura o prazer).
Na verdade, vemos algo de preocupação em seus olhos. E quando John consegue se safar de um caminhão perigoso, ela olha para ele surpresa.
“- Ainda sei guiar isso aqui! “, exclama John, para logo repetir muitas vezes “Eu quero um burguer...”
Compreendemos então o alarme do filho. Seu pai sofre de uma forma de demência, com graves problemas de memória. E a mãe, que toma pílulas durante o trajeto, está usando peruca. Parece que também está doente.
Quando o celular toca no restaurante onde pararam para o hambúrguer, ela atende e fala baixo e escondido para a filha:
“- Estamos fazendo uma viagenzinha, um presente para seu pai. ” E desliga, sem maiores explicações.
E lá se vão eles, rumo à casa de Hemingway, em Key West. John, que foi professor de literatura, sabe de cor trechos do “Velho e o Mar”, que recita para desconhecidos, sempre que pode.
Todas as noites, nos campings onde param, Ella produz o ritual de ver juntos os slides de toda uma vida. John mal sabe do que se trata, mas às vezes acerta o nome de uma pessoa que aparece na foto. Ella, amorosa mas também cansada, repete mil vezes a mesma história. Ela tinha imaginado o ritual dos slides para mantê-lo ligado à realidade mas não é bem isso que acontece.
Bem, assim será a velhice de alguns de nós. É muito raro chegar numa certa idade sem nenhuma doença. O importante para Ella e John é que estão fazendo a viagem juntos. E com o amor de 48 anos ainda vivo entre os dois.
Ella é bem consciente de tudo que a espera. E vai conduzir a vida deles da melhor maneira possível. John conta com ela.
“Ella & John” é um filme do diretor italiano Paolo Virzi (“A Primeira Coisa Bela” e “Loucas de Alegria”), o primeiro falado em inglês. Ele conduz com delicadeza essa história baseada no best-seller de Michael Zadoorian.
É um filme pequeno, para os atores brilharem e para nós, na plateia, pensarmos um pouco no futuro. Sem tragédia mas também sem negação. É a vida.


sábado, 7 de abril de 2018

Jogador No 1





“Jogador No 1”- “Ready Player One”, Estados Unidos, 2018
Direção: Steven Spielberg

Estamos no futuro, 2045. A realidade da humanidade, se julgarmos por aquilo que vemos, é pobre e suja. Estruturas metálicas enferrujadas servem para empilhar “trailers” onde as pessoas moram.
“Drones” entregam comida. E, dentro das moradias acanhadas, vemos quase todo mundo usando óculos e mesmo roupas especiais, que criam uma realidade virtual.
Um garoto, Wade Watts (Tye Sheridan) nos conta que nasceu em 2027, época dura, onde todos lutavam pela sobrevivência. Seus pais morreram e ele foi morar com tia Alice. E acrescenta:
“- A realidade que vivemos é deprimente. Por isso todo mundo quer fugir para a realidade virtual. ”
Ele também nos conta que James Halliday (Mark Rylance) inventou um mundo virtual, o Oasis, onde todos podem fazer o que quiser e, melhor, ser quem quiser ou seja, os avatares. Mas tudo tem um preço e as moedas vem dos games, quando se ganha.
“- Ele era como um deus “diz Wade.
Ficamos também sabendo que, antes de morrer, Halliday, dono da Oasis, escondeu um “Eastern Egg - Ovo da Páscoa” em seu mundo virtual. Para chegar a ele será preciso encontrar três chaves, cada uma com um pergaminho que traz indicações enigmáticas. Quem chegar primeiro ao Ovo herdará a enorme fortuna de Halliday e o próprio Oasis.
O mau caráter é Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn) de uma multinacional que quer ficar dono da Oasis e persegue Wade e seus amigos Aech (Lena Waite) e Art3mis (Olivia Cooke), uma garota corajosa que vai mexer com o coração de Wade.
Steven Spielberg, 71 anos, baseou-se no livro de ficção científica de Ernest Cline de 2011 e recriou em imagens fantásticas o mundo virtual onde a humanidade prefere viver. Fogem todos assim de seus problemas reais,  divertindo-se com tudo que o mundo surreal de Oásis fornece. Em especial, muita adrenalina.
A cultura pop dos anos 80 é o material para a criação desse mundo fantástico dos games, que tem alusões ao cinema de Stanley Kubrick (“O Iluminado”1980), Robert Zemeckis (“Volta para o Futuro”, a trilogia de 1985, 1989 e 1990), “Saturday Night Fever- Os Embalos de Sábado à Noite”, personagens como o King Kong, Godzilla, Tiranossauro e Chucky e músicas de Van Hallen, George Michael e Blondie. E muito mais, claro. Não dá para perceber tudo porque o clima do filme é estonteante.
Há também alusões a personagens de antigas lendas e mitos: o nome do avatar de Wade é Parzifal, que com a mudança de uma letra é o nome do Cavaleiro da Távola Redonda que encontrou o Santo Graal e Art3mis, avatar de Samantha, amiga de Wade, soa como Ártemis, outro nome da deusa Diana, a caçadora.
Confesso que nunca joguei um vídeo game. Não sou dessa geração. Nos anos 80 a gente se divertia com a realidade que nós mesmos criávamos ou fugia também, mas através de drogas.
Spielberg, nesse filme barulhento, que deixa a mente zoando de tanta ação e cheio de surpresas, tem o grande mérito de chamar a atenção da moçada ligada em games o tempo todo, que viciam como uma droga, para o fato de que a vida acontece na realidade real, único lugar onde se consegue fazer mudanças consistentes que levam a progressos.
Incrível mesmo é o talento e a imaginação desse grande cineasta que assinou “The Post” no ano passado, um filme histórico importante que entrou na lista dos melhores do ano e agora nos brinda com essa fantasia extraordinária.
Parece normal para quem fez “Tubarão” em 1975 e “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” em 1977, “Parque dos Dinossauros” e “Lista de Schindler”, ambos em 1993 e ainda “Resgate do Soldado Ryan” em 1998, “Cavalo de Guerra” em 2011, “Lincoln” em 2012 e “Ponte dos Espiões” em 2015, para só citar alguns da premiada e admirada filmografia dele.
Grande Steven Spielberg.


terça-feira, 3 de abril de 2018

Zama




“Zama”- Idem, Argentina, França, Estados Unidos, Holanda, Brasil, Portugal, México, 2017
Direção: Lucrécia Martel

Aquela praia de rio mostra um homem em primeiro plano, com chapéu, bota e espada. Ele olha a outra margem. Um grupo de índios está mais ao fundo. As águas são plácidas e toda a cena é como um quadro banhado em luz amarela.
Subindo a falésia, o homem ouve risos de mulher e se esgueira pelo capim alto para espiar. Elas estão tomando banho na lama do rio. Estão nuas e uma delas denuncia:
“-Curioso! ”
O homem corre mas a mulher, que parece uma índia, o alcança. Nesse momento ele a esbofeteia. Ela se paralisa.
“Zama” não é um filme fácil. A trama quase inexistente centra-se na espera por sua transferência, único objetivo de Zama, aquele homem que acabamos de ver. Em “off” ouvimos a leitura de uma carta de sua esposa, Marta, que o aguarda e pede notícias. E que venha logo.
Estamos no século XVIII, numa pequena aldeia onde moram espanhóis como Dom Diego Zama (Daniel Gimenez Cacho), que é funcionário da Coroa Espanhola.
Mas tudo ali são farrapos. As perucas europeias cobrem cabeças que coçam, as roupas são grosseiras, os índios e escravos negros andam praticamente nus, quase não falam e fazem os trabalhos necessários. Animais domésticos, cavalos e até uma lhama convivem com os homens nesses espaços acanhados.
As casas são toscas, os cômodos pequenos tem mobília desconjuntada. Parece que tudo se consome.
Um homem preso, de quem não vemos o rosto, é motivo de conversa entre os espanhóis:
“- Temos que fazer ele confessar. ”
“- Ele não abre a boca. ”
Alguém decide:
“- Soltem. Pode ir embora. Não haverá castigo. ”
Assim que o soltam, o homem se joga de cabeça contra a parede, balbuciando, com o olhar turvo:
”- Há um peixe que passa a vida num vai e vem, lutando com a água que não o quer. Nunca são encontrados na parte central do rio. Só nas margens. Lutam com todas as suas forças para ficar na água. “
Esse estranho discurso sobre “marginalizados” parece ser a descrição dos que estão ali. Sufocados pelo calor, ameaçados pela peste, vestem-se num arremedo da corte e mostram autoridade sobre pobres serviçais. Perseguem um bandido que assusta a aldeia e prometem recompensas por sua captura.
Zama, obcecado por sua transferência, enlouquece aos poucos.
Em “Zama” reconhecemos muito da angústia de um “Esperando Godot”, de Beckett, “Coração nas Trevas” de Conrad, Kafka e os labirintos de “O Processo”. Lucrécia Martel, 51 anos, respeitada diretora argentina, em seu quarto longa, não escreveu o roteiro como sempre fez mas baseou seu filme num romance de1956, de Antonio de Benedetto.
Parece que o filme fala de uma alienação crescente e de um mal que se enraíza na alma do homem quando não há nada mais a perder. Tudo isso num clima de um inferno vermelho, cruel, embalado por “guaranias” paraguaias , boleros e um terrível zumbido.
“Zama” faz pensar, mais do que num destino individual, no destino da humanidade mas só é recomendado para quem aceita a lentidão e o non-sense e não se assusta com convites para um mergulho em águas profundas.