quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Depois Daquela Montanha



“Depois Daquela Montanha”- “The Mountain Between Us”, Estados Unidos, 2017
Direção: Hany Abu-Assad

Hoje em dia, raramente vemos um filme para adultos como os de antigamente. Parece que o cinema americano virou domínio dos jovens, com filmes de ação, violência e super-heróis.
“Depois Daquela Montanha”, portanto, é uma boa surpresa que vai agradar pessoas que gostam de filmes românticos com conteúdo. Bom entretenimento, conta com uma dupla de atores impecáveis (Kate Winslet e Idris Elba) e é dirigido pelo premiado diretor Hany Abu-Assad, 56 anos, que assinou “Paradise Now” e “Omar”, nascido de uma família palestina em Nazaré, Israel. Foi educado na Holanda e esse é seu primeiro filme em inglês.
Baseado no livro de Charles Martin, a trama é bem interessante, envolvendo um casal numa situação altamente perigosa. Por causa de uma tempestade, os voos de Salt Lake City para Nova York foram cancelados, para desespero do médico neurocirurgião Ben Bass, que tem uma cirurgia marcada para o dia seguinte. A fotojornalista Alex ouve o que o médico diz e, de casamento marcado para o dia seguinte, também não pode perder o voo.
Ela aborda o médico e sugere que aluguem um avião pequeno para a viagem. Assim fazem mas algo inesperado acontece. O piloto (Beau Bridges), que traz seu labrador a bordo e que tinha dispensado o plano de voo, tem um AVC em meio a uma terrível turbulência.
E acontece o pior. O avião se estatela na neve, no pico de uma alta montanha. O piloto morre e Alex fica desacordada e com a perna ferida depois do desastre.
Em meio a um frio mortal, Ben e Alex vão precisar de muita sorte para se salvar dessa tragédia.
A dupla de atores é o que mais atrai no filme. Personagens muito diferentes um do outro, já que Ben é reservado e Alex curiosa e falante, os dois tem uma química perfeita que a plateia percebe desde o início. O negro Idris Elba (ator excelente, convincente e atraente) alto, bem apessoado e gentil, conquista a atenção de Alex e dos espectadores. Sua presença calma e eficiente salva a fotógrafa da morte certa.
E, ao mesmo tempo, ela é a chave da sobrevivência de Ben, que faz tudo para proteger Alex mas vive um processo psicológico pesado com suas emoções trancadas. E precisa voltar à vida.
O labrador, terceiro personagem, enfeita o filme e com sua vitalidade natural traz uma qualidade de perseverança otimista a uma situação que poderia ter um final terrível.
O diretor soube manter um ritmo envolvente sem apelar para surpresas desagradáveis, os diálogos são ótimos e o cenário espetacular.
Com tudo isso, “Depois Daquela Montanha” vai agradar certamente a seu público.





segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Gabriel e a Montanha


“Gabriel e a Montanha” Brasil, 2017
Direção: Fellipe Barbosa

Na bela cena de abertura, com uma paisagem deslumbrante, ficamos sabendo o final da história trágica de Gabriel Buchmann, jovem economista que viajava por um ano pelo Oriente e África, em 2009, antes de começar seu doutorado sobre a pobreza no mundo, nos Estados Unidos.
Seu corpo é encontrado numa reentrância da rocha do Monte Mulanje no Malauí, 19 dias depois de seu desaparecimento, durante uma descida, sozinho, após atingir o cume. Morreu por hipotermia.
Ao longo do filme vamos percebendo que o que Gabriel (João Pedro Zappa, ótimo ator) tinha de simpatia e alegria de viver, tinha também de teimosia e arrogância. Apesar de avisado de que o lugar era perigoso, resolveu subir sozinho, mal trajado para o frio intenso e sem notar que a neblina poderia ser a sua pior inimiga, escondendo as sinalizações pintadas nas pedras.
Gabriel tinha pressa. Subiu assobiando e pulando de pedra em pedra, como se aquele fosse um lugar conhecido.
Por que? Foi descuido? Ignorância? Onipotência?
Essa pergunta ninguém pode responder. Inclusive porque poderia ter havido uma vontade inconsciente de não voltar.
Fellipe Barbosa (“Casa Grande”), colega de escola de Gabriel, resolveu fazer dele seu personagem, recriando seus últimos 70 dias. Refaz o trajeto dele por 4 países, que são os 4 capítulos do filme.
No capítulo 1, no Quênia, vemos Gabriel, o único “mzungu” (Branco) à vista, vestido como se fosse um habitante local, com o pano em volta do corpo e sandálias feitas de borracha de pneu. Recusa-se a ser visto como um turista. Mas fala inglês. Tem pouco dinheiro. Sua simpatia faz com que todos se aproximem dele, adultos e crianças. Divide a cama e comida com seus novos amigos. E está feliz.
“- É a viagem que eu idealizei fazer. Autossustentável.”
E no capítulo 2 o projeto é subir o Kilimandjaro, a mais alta montanha da África com quase 6.000 m, na Tanzânia, junto da fronteira com o Quênia. John Goodluck, o guia de Gabriel, diz que serão 5 dias mas Gabriel acha que dá para fazer em 4.
“- Por que tanta pressa?”
“- Tenho coisas para fazer. Semana que vem vou pegar minha namorada em Dar El Salom.”
À noite seu sono é agitado. Tosse muito.
Algum tempo depois, quase no topo, Gabriel sente cansaço e quer descer, Goodluck o ampara até o alto. Ele respira com dificuldade. Primeiro sinal que seu preparo físico não era bom, que a saúde fraquejava.
Mas Gabriel não presta atenção e lá vai ele fazer safári com a namorada Cristina (Carolina Abras, excelente) no jipe do guia Rashid. E uma briga entre eles, levanta outro ponto dessa história cruel:
“- Você veio se esconder na África quando todo mundo se desiludiu com você”, diz Cris, aludindo ao fato dele ter sido recusado em Harvard.
“- Não estou fugindo de ninguém. É a viagem dos meus sonhos”, retruca Gabriel.
Capítulo 3 na Zâmbia, as cataratas, Victoria Falls. Os dois curtem o lugar fotografando e namorando. E Gabriel perde tempo num café com internet e os dois perdem a hora de um passeio com elefantes e um “bung jump” no último dia de Cris na África.
O diretor usa só dois atores profissionais, os outros são pessoas que conviveram com Gabriel e que falam sobre ele em “off”.
Como é difícil aceitar que Gabriel executou um plano inconsciente de morrer na África. Mas tudo pode também ter sido um acaso. Acontece.
Aliás o que importa é que Gabriel realizou uma viagem de sonho em sua curta vida e estava feliz.
Curta ou longa a vida, a morte é sempre certa.






sábado, 11 de novembro de 2017

O Outro Lado da Esperança


“O Outro Lado Da Esperança”- “Toivon Tuola Puolen”, Finlândia, Alemanha, 2017
Direção: Aki Kaurismaki

É tão bom ver um filme que nos devolve a palavra “humanidade” num sentido caloroso. Sabemos o quanto podemos ser cruéis, principalmente com os mais fracos e isso também aparece aqui mas o tom é menos de pessimismo ou otimismo exagerados e mais de mostrar uma realidade possível, quando há boa vontade.
A Finlândia é um país distante da Europa mais próxima de nós. Faz muito frio e as pessoas não sorriem com facilidade.
Nem se abraçam com intimidade. E isso pode nos levar a pensar que não existe empatia e muito menos bom coração por lá.
Mas as aparências enganam. É o contrário desses preconceitos que vamos ver no novo filme de Aki Kaurismaki, 60 anos, roteirista, produtor e cineasta finlandês. Seu filme mais premiado foi “Um Homem sem Passado” de 2002 que ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O filme em questão, “O Outro Lado da Esperança” levou o Urso de Prata do Festival de Berlim desse ano.
O tema da imigração de gente que foge da guerra, da fome, da política e perseguição, procurando chegar na Europa, é bem atual. O artista chinês Ai WeiWei mostra em seu belo documentário de 2017, que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, “Human Flow – Não Existe Lar se Não Há Para Onde Ir”, que a situação dos refugiados é trágica.
Dentro desse tema, Aki Kaurismaki conta uma história que entrelaça pessoas que se cruzam por acaso. Khaled Hussein (Shervan Haji) foge de sua cidade natal Aleppo, Síria, depois que um míssil de origem desconhecida (podendo ser de qualquer um desses que se enfrentam por lá ou seja, tropas do governo da Síria, rebeldes, Estados Unidos, Rússia, Hezbolah ou Estado Islâmico) destruiu sua casa e matou pai, mãe, irmão caçula, tio, tia e filhos deles, que almoçavam em família.
Salvos ele e a irmã, porque Khaled estava voltando do trabalho e a irmã na fila do pão, fogem da Síria e chegam à Grécia de barco. Depois de uma caminhada longa atravessando a Macedônia e a Sérvia, alcançam a fronteira da Hungria. Um tumulto separa Khaled da irmã e ele vai preso. Surrado, é solto 4 dias depois.
Desesperado, por mais que procure pelos campos de refugiados na Hungria, Áustria, Eslovênia e Alemanha, não encontra sua irmã.
Em Gdansk, Polônia, é perseguido por neo-nazistas e consegue esconder-se em um navio. Um marinheiro o protege e assim, por puro acaso, ele chega à Finlândia, destino do navio.
Enquanto isso, na Finlândia, o comerciante Waldemar Wikstrom (Sakani Kuosmanem), cinquentão, separa-se de sua mulher alcoólatra, vende seu estoque de camisas e muda de ramo. Compra um restaurante que, ele não sabe, onde mais se bebe do que se come, herdando de quebra três funcionários com salários atrasados e uma cadelinha, a clandestina refugiada no restaurante.
Dois mundos tão distantes, o de Khaled e o de Wikstrom, aproximam-se porque os dois tem coisas em comum. Ambos procuram seu lugar no mundo porque perderam o que tinham.
Mais que isso, a solidariedade do finlandês encontrou um motivo para manifestar-se e aquele restaurante torna-se um lugar onde todos procuram acertar. O percurso é bem humorado e as cenas mais divertidas acontecem ali.
A música é uma constante e no filme desfilam roqueiros dos anos 70 cantando baladas em todos os lugares por onde passa Khaled.
Os diálogos são curtos, não há sorrisos fáceis mas existe calor humano e empatia com o sofrimento alheio.
“O Outro Lado da Esperança” é uma fábula sobre a procura de um lugar de paz, de um lar onde se possa viver sem maiores sobressaltos, longe do ódio e perto do calor humano. Um sonho cada vez mais impossível para muitos.



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Terra Selvagem





“Terra Selvagem” – “Wind River”, Estados Unidos, 2017
Direção: Taylor Sheridan

Numa noite de Lua cheia, um campo de neve brilha à luz do luar. Ali vai ser o palco de uma tragédia.
A garota que corre assustada, recitando com dificuldade palavras que parecem poesia, vai cair e a câmara mostra seus pés descalços. Do que ela está fugindo? Faz muito frio.
O corte abrupto para a luz de um dia brilhante mostra um rebanho de ovelhas e coiotes à espreita. Um tiro certeiro acaba com o predador e afugenta os outros. Um homem se levanta. Veste uma roupa camuflada e segura um rifle.
Cory (Jeremy Renner, excelente) trabalha para o serviço de Fauna e Flora da Reserva Indígena de Wind River, como caçador que protege rebanhos de ovelhas e gado.
Estamos em Lander, Wyoming, e Cory bate na porta de uma casa.
A mulher que o recebe pergunta irônica:
“- Tem sangue na sua camisa...Quem foi a vítima de hoje? ”
Cory veio buscar o filho pequeno na casa de sua ex-mulher. Ela é bonita e tem traços de uma nativa americana, que é como chamam agora os “índios” de antigamente.
A câmara mostra os olhos tristes dele que buscam o retrato de uma adolescente na prateleira da sala. Outras fotos mostram uma família feliz, ele e ela e os dois filhos. Mas essa família não existe mais.
O pai vai levar o filho para a casa dos avós maternos, onde vai ter que descobrir o animal que matou uma cabeça de gado:
“- Não tire os olhos dele... Você sabe por que...”diz a mãe friamente.
A beleza das montanhas e campos cobertos de uma neve virgem alivia um pouco um clima pesado que percebemos na fala das pessoas. Estamos na terra onde “cowboys” matavam os “índios” e os que se metiam com eles. Sem leis mas sempre armados, assim era e parece que ainda é.
Cory vai com o sogro ver o que aconteceu com o bezerro e ali vemos a experiência dele. Examinando os traços e pegadas na neve, diz:
“- É uma leoa da montanha. Teve dois filhotes no ano passado e está ensinando eles a caçar... E agora, toda a família vai morrer... ”
Mas algo mais terrível vai chamar a atenção do caçador. Com o seu “snowmobile”, ele vai ver o que é aquela mancha azul na neve branca, ao longe.
E outra caçada vai começar. Só que dessa vez não se trata de um predador que luta pela sobrevivência. É a crueldade humana que atacou. O médico legista afirma que a jovem morta foi estuprada várias vezes pelo mesmo homem ou vários deles.
Cory vai ter que ajudar a agente do FBI, Jane (Elizabeth Olsen), enviada para resolver o caso, porque ela está fora de seu elemento. E ele tem motivos pessoais para querer envolver-se com o drama acontecido.
Aliás todos ali naquela comunidade parecem padecer por perdas e luto.
Taylor Sheridan dirige pela primeira vez seu próprio roteiro. É o terceiro dele, que escreveu “Sicário” de 2015 e “A qualquer custo” de 2016. E mostra talento na direção da trama, levando o suspense palpitante até o fim e envolvendo o espectador sem truques e com um bom ritmo.
Seu objetivo, que Sheridan declarou em Cannes, onde foi premiado como o melhor diretor da Mostra “Um Certain Régard”: denunciar o pouco respeito com que os nativos americanos são tratados. Basta dizer que são a única comunidade sem recenseamento de pessoas desaparecidas.
Parece que o “Velho Oeste” ainda continua vivo e fazendo vítimas dentre esse povo sofrido...



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Os Meyerowitz: Família não se escolhe


“Os Meyerowitz: Família não se escolhe”- “ The Meyerowitz Stories”, Estados Unidos, 2017
Direção: Noah Baumbach

Infelizmente, a Netflix não prima pela qualidade dos filmes. A maioria é descartável, mero passatempo. Certo, há um público para um cinema-diversão em casa. Mas não é uma boa alternativa para os filmes em cartaz nos cinemas, a não ser para pessoas que não tem escolha.
Por isso, esse filme é uma exceção bem vinda.
“Os Meyerowitz” é dirigido por Noah Baumbach, 49 anos, responsável pelo delicioso “Frances Ha” de 2012 e “Enquanto Somos jovens” de 2015. Roteirista inteligente, com um humor fino e personagens nunca rasos, foi indicado ao Oscar por melhor roteiro original do seu filme “A Lula e a Baleia”de 2005.
Aqui ele conta a história de uma família que tem Dustin Hoffman, 80 anos, como um escultor que vive em Nova York e que não teve o sucesso que achava que merecia. Ele sempre se viu mais como artista do que como pai ou marido.
Professor aposentado, dono de uma única peça “lendária”, parece que adquirida e perdida no acervo do MoMA, seu ego enorme o protege da decepção no balanço de sua vida.
Já os três filhos, gerados em casamentos com mães diferentes, reclamam entre si da falta de atenção do pai deles, do egoísmo e da falta de acolhimento. São adultos, mas excetuando o mais moço (Ben Stiller), bem sucedido como empresário em Los Angeles, os outros dois (Adam Sandler e Elizabeth Marvel) sentem-se fracassados. São aquele tipo de flho que culpa o pai e a mãe por sua vida chata e não gloriosa, prato cheio para um bom terapeuta.
Os atores são todos de primeira linha, criando uma família disfuncional em torno ao pai, casado com uma Emma Thompson engraçada, sempre um trago a mais do que deveria, mas, em tese, recuperando-se do vício com uma versão própria dos Alcoólicos Anônimos.
Até Candice Bergen, numa ponta, faz lembrar a mulher belíssima e boa atriz que ela continua a ser.
Adam Sandler, em especial, está ótimo e convincente como Danny, o filho mais velho, que manca por causa de um quadril que ele evita tratar, preferindo chamar a atenção por esse defeito. É o que se considera mais injustiçado pelo pai que prefere o mais novo, à sua maneira distraida. Para compensar não ser o filho mais amado, acha que faz o melhor amigo e pai de sua filha Eliza (Grace Van Patten), uma mocinha que tem a maior paciência com os parentes e se dedica a fazer filminhos na faculdade de cinema, quase pornográficos, com personagens surreais.
No lançamento do filme no Festival de Cannes desse ano, Noah Baumbach disse que “Os Meyerowitz” não era para ser um produto Netflix mas que foi comprado na pós-produção e que ele tinha sido muito bem cuidado.
Bom sinal. Será que a Netflix está acordando para a qualidade de conteúdo de seus filmes? Tomara.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Manifesto



“Manifesto”- Idem, Alemanha, 2017
Direção: Julian Rosefeld

Não tenham medo das palavras. Elas não são o mais importante desse filme que tem Cate Blanchett como estrela única, brilhando em sua versatilidade, fazendo 13 personagens, cada um ligado a um “Manifesto”.
E o que é um Manifesto? Em “off” a voz da atriz explica que é ter ideias para arrasar com outras ideias, para provar que alguém é o dono da verdade, seja um indivíduo, um grupo ou um partido político.
“Tudo que é sólido desmancha no ar”, diz Cate e ela questiona: será que alguém conseguiu colocar ordem na natureza humana caótica e contraditória?
Certamente não e por isso vão desfilar na tela várias Cates, com roupas, sexo e sotaques diferentes, lendo ou apresentando os 13 Manifestos, que se consideram sempre a palavra final.
Começa com o “Manifesto Comunista” de Marx e Engels. E, em seguida os Manifestos sobre a arte. E a atriz vai defender cada um deles com um personagem ligado ao movimento que gerou o Manifesto: Situacionismo, Futurismo, Arquitetura, Suprematismo/ Construtivismo, Dadaísmo, Pop Art, Estridentismo/Creacionismo, Vorticismo/ Expressionismo Abstrato,Fluxus/Merz/Performance, Surrealismo/Espacialismo, Arte Conceitual/Minimalismo, Cinema/Dogma 95.
A verborragia faz com que seu ouvido atrapalhe a visão? Está ficando zonzo de tantas palavras que ela diz? Faça o contrário. Privilegie o olhar. E se encante com a porção camaleônica de Cate Blanchett, que consegue ser tantas.
Desde um mendigo, morador de rua, passando por uma mulher sofisticada fazendo um discurso no cemitério, uma corretora da Bolsa, uma mãe de família conservadora, uma operária numa usina de incineração de lixo, uma cientista, uma coreógrafa russa, uma mulher elegante recebendo colecionadores de arte numa bela casa, uma punk tatuada, uma artista que faz marionetes, uma professora de arte ensinando o Dogma 95 para crianças, uma âncora e uma repórter de um jornal de TV.
Portanto, não vá ver “Manifesto” por causa dos Manifestos. Tudo bem, talvez você aprenda alguma coisa. Mas, principalmente, não perca Cate Blanchett dando um show de interpretação e mostrando que ela é única. Vale a pena!



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Nossas Noites



“Nossas Noites”- “Our Souls at Night”, Estados Unidos, 2017
Direção: Ritesh Batra

Apesar de continuar achando que o melhor lugar para ver um bom filme é o cinema, tenho que admitir que os tempos mudaram e que as pessoas tem mais dificuldade de locomoção numa grande cidade. Ou mesmo que haja lugares no Brasil onde só passam “blockbusters”, de ação e violentos, mais para um público jovem.
E um bom filme é sempre uma alternativa para a mesmice dos programas de televisão.
Quando postei uma dica de filme da Netflix, “Nossas Noites”, na minha página do Face, surpreendeu-me o número de pessoas atingidas e os muitos comentários. E neles, vários pediam que eu continuasse a indicar os bons filmes da Netflix.
Curvo-me a esses pedidos e começo justamente com a resenha do filme que agradou a tantos. Vai para o meu blog.
Jane Fonda, 79 e Robert Redford, 81, causaram alvoroço no Festival de Veneza desse ano quando o filme foi lançado fora de competição. Não é de se admirar porque ambos são estrelas de primeiríssima grandeza, com vários Oscars cada um deles e fizeram sucesso como dupla em “Caçada Humana” de 1966, “Descalços no Parque” de 1967 e “O Cavaleiro Elétrico” de 1979 mas já não apareciam juntos há quase 40 anos.
E acertaram em cheio. A dupla foi elogiadíssima. Talvez porque há uma demanda especial, hoje em dia, para filmes charmosos com atores de mais idade. Tenho visto alguns no cinema, sempre com sucesso de público.
Pessoas mais velhas gostam de se ver retratadas não como velhinhos que as pessoas tratam como se fossem crianças, um hábito detestável, mas como alguém que pode ainda viver uma vida interessante.
Aliás o forte em “Nossas Noites” não é o romance. O ponto principal é a solidão e o quanto tudo muda quando se encontra alguém para conversar. E quando esse alguém é atraente como são Jane Fonda e Robert Redford, a coisa fica perfeita.
Vizinhos há muito tempo, numa cidade pequena, é só quando Addie e Louis chegam nos 80, ambos viúvos, é que a história acontece. Com toda a experiência de uma vida e um temperamento mais extrovertido, Addie sabe que o tempo voa. Então vai direto ao ponto. Convida Louis para dormir na casa dela, explicando que a noite é para ela a pior parte do dia. Quer conversar, trocar ideias, travesseiro com travesseiro.
Ele, mais tímido, parece meio escandalizado e é delicioso o momento em que atravessa a rua com um saco de papel que esconde um pijama e entra pela porta dos fundos da casa dela.
Tem gente que achou o filme fraco. Outros não gostaram do final. Mas a maioria gostou de tudo. Porque não podemos esquecer que o filme se dirige justamente a uma classe de pessoas que são mais conservadoras, que gosta de ver na tela pessoas como eles mesmos, que valorizam a boa companhia mas que também se preocupam com os filhos e netos, principalmente as mulheres, que sentem prazer em cuidar da família.
O livro que foi adaptado foi escrito por Kent Haruf e o filme é dirigido pelo indiano Ritesh Batra (“Lunchbox”2013), que fez um bom trabalho, delicado e leve.
Penso que “Nossas Vidas” será lembrado como o maior sucesso da dupla Jane Fonda e Robert Redford. Aliás, produzido por esse último, homem belo e inteligente.