segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Aqueles que ficaram



“Aqueles que Ficaram”- “Akik maradtak”, Hungria, 2019
Direção: Barnabás Toth

Sabemos do sofrimento nos campos de concentração na Segunda Guerra. O extermínio dos judeus nas câmaras de gás horrorizou o mundo. As fotos das vítimas nas valas comuns, corpos maltratados, expressões vazias, nos enchem de dor.
Mas “Aqueles que Ficaram” conta a história dos que escaparam desse destino. O diretor Barnabás Toth, 42 anos, em seu primeiro filme, quer passar algo que ele não viveu pessoalmente mas encontrou no romance de F. Zsuzsa. Aqueles que ficaram não estavam bem.
A culpa pela sobrevivência é um sentimento estranho e forte que abate quem poderia estar de luto mas aliviado porque foi poupado.
Em 1948, Aldo, médico ginecologista e obstetra (Károly Hajuk), 42 anos, que tinha conseguido sair vivo dos campos onde perdera a mulher e dois filhos, voltara a trabalhar em seu consultório no hospital de Budapeste. Seu semblante liso e calmo não deixa ver seu interior onde ele sufoca uma solidão melancólica.
Klara (Abigél Szoke) era menina ainda aos 16 anos e não menstruava quando foi levada pela tia Olgi (Mari Nagy) para uma consulta com o médico. Reclama que a sobrinha não ia bem na escola, estava sempre de mal humor e revoltada. Negava a morte dos pais escrevendo longas cartas para eles.

“- É a entrada na puberdade. Os hormônios estão provocando tudo isso. Volte daqui a 6 meses. ”
De tranças na primeira consulta, ela agora tem os cabelos soltos, o mesmo rosto de anjo e olhos muito claros, quando volta só ao consultório de Aldo. Desembaraçada e falante, acabam indo juntos para o apartamento dele. No caminho, critica as colegas da escola, muito chatas, a tia que não a entendia e o casaco dele que ela achava horrível. O chá oferecido ele quase recusa mas resolve provar.
“- Você não deveria estar na sua casa? ”
“- Minha tia gostaria que eu nunca mais voltasse...”
Aldo que sabe o que Klara sente mas que não expressa, não se surpreende com o abraço dela na cozinha da casa dele. Não se retrai e fica em silêncio.
Esses dois vão desenvolver um relacionamento que vai uni-los na mesma necessidade de ternura, carência explícita e cuidados mútuos. Quando Klara vem dormir na cama dele, Aldo não faz nenhum gesto para tirar ela dali. Compreende o que é o medo e a solidão que a menina sente.  Ela tem uma enorme necessidade de calor humano e silêncio.
Até a tia vai entender que Klara precisa da companhia de Aldo que ocupa o lugar de um pai provisório.
“- Seu pai também era médico? ”pergunta um dia a ela.
“- Era não. É. Está preso mas vai voltar. ”
Tal era a postura de Klara em perene negação ao acontecido. Foi preciso muita compreensão para que ela pudesse finalmente fazer o luto.
Enquanto durou, a relação paternal amorosa foi salutar e terapêutica para os dois envolvidos.
“Aqueles que Ficaram” é um filme sutil e delicado, mais de sentimentos interpretados em silêncio do que de falas dos protagonistas.
Representante da Hungria para o Oscar de melhor filme internacional, já está na primeira lista dos 10 indicados.


sábado, 28 de dezembro de 2019

Uma Mulher Alta





“Uma Mulher Alta”-“Dylda”, Rússia, 2019
Direção: Kantemir Balagov

Quando aconteceu o fim do cerco de Leningrad (antes e hoje em dia, São Petersburgo) que durou de agosto de 1941 a janeiro de 1944, contavam-se um milhão e quinhentos mil mortos na cidade que, quando começara o cerco pelas tropas alemãs, tinha dois milhões e meio de habitantes.
Além da fome, havia medo, doenças e crimes. A distinção entre o bem e mal estava borrada. Todos lutavam pela sobrevivência como podiam.
É no cenário do fim do cerco da cidade que o diretor Balagov, 27 anos, situa seu segundo filme, inspirado pelo livro “A Guerra não tem Rosto de Mulher”, escrito pela vencedora do Nobel de Literatura, Svetlana Aleksiévitch. É então através do olhar e dos acontecimentos que envolvem duas mulheres jovens que o diretor, discípulo de Alexei Sakurov, vai contar sua história.
Iya (Viktoria Miroshnichenko) é a “mulher alta” do título do filme, a “varapau”, a “grandona” como a chamavam. Ela é enfermeira no hospital da cidade que recebe os restos de soldados que sobreviveram no front. Homens sofridos. Muitos esperam a morte como um alívio aos traumas pelos quais passaram.
Iya sofre de crises de ausência, devido a uma concussão cerebral. Ela fica estática, olhos de cílios brancos mirando o vazio. Todos se acostumaram a vê-la assim no hospital. Ela é muito loura, quieta, mas doce e paciente com os soldados de quem cuida.
Pashka, um menino de uns 5 anos está sempre com Iya. Ela cuida e brinca com ele no quarto da casa de cômodos onde moram. Ele a chama “Mamãe”. Para a grande infelicidade de Yia, durante uma dessas brincadeiras, aconteceu uma tragédia.
E, quando Iya vê a mala vermelha de Masha (Vasilisa Prelygina) em sua porta quando volta do hospital, fica muito aflita porque não sabe como contar o que acontecera para a amiga, que estava no front e confiara a ela o filho pequeno.
Mas não há como não dizer a verdade, mesmo que não inteiramente. A partir daí Masha vai querer que Iya lhe dê um filho, já que ela ficara impossibilitada de ter filhos por coisas que aconteceram no front.
Para aquela geração traumatizada pela guerra e o cerco infernal, tudo estava perdido e não haveria recuperação possível. Era preciso mais do que reconstruir a cidade. Era preciso curar as feridas nas almas das pessoas desumanizadas.
É essa geração de uma vida nova, que Masha tanto insiste que quer e crê que vai ser o que salvará as duas mulheres do vazio em que vivem. Com uma criança entre elas haveria a esperança de um futuro a ser construído.
A direção de arte e os figurinos do filme usam tonalidades de verde e vermelho nas paredes, decoração e nas roupas das personagens femininas. Um toque de beleza em meio a tanta miséria humana.
O diretor Kantemir Balagov foi premiado como melhor diretor no Festival de Cannes na Mostra “Un Certain Régard”. Seu filme é o representante da Rússia no Oscar de melhor filme internacional e está entre os 10 selecionados na primeira lista.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Uma Segunda Chance para Amar



“Uma Segunda Chance para Amar”- “Last Christmas”, Inglaterra, Estados Unidos, 2019
Direção: Paul Feig

Essa é a história de Katarina, uma menina nascida na Iugoslávia. Ela está cantando no coro de uma igreja e como um anjo, canta solo para grande emoção de sua mãe Petra (Emma Thompson), que enxuga lágrimas. Estamos em 1998, antes da guerra que assolou essa região e fez a família fugir para a Inglaterra.
Anos mais tarde, em 2017, estamos em Londres, na época do Natal. Kate (Emilia Clarke), como gosta de ser chamada, está vivendo fora da casa dos pais, não se alimenta direito, bebendo e transando com homens que ela conhece em bares. Uma vida atrapalhada. Não tem pouso certo. O último é no apartamento de uma amiga grávida, onde ela chega fora de hora, estraga coisas sem querer e deixa a amiga brava.
O que será que aconteceu com Kate? Parece que a mãe liga mil vezes no celular dela mas a filha não atende, o que aborrece também a irmã Marta, que se irrita com o comportamento caótico dela.
E lá vai Kate pelas ruas de Londres com sua mala de rodinhas e casaco de onça “fake”. Ela trabalha numa loja que vende decoração de Natal o ano inteiro. É um elfo, um ajudante de Papai Noel, vendedora na loja de “Santa”, uma bela oriental.
Pois até ela reclama de como Kate mudou. No início prestativa e simpática, agora desatenta e desastrada:
“- Você precisa se cuidar, menina! Senão vai morrer na frente dos clientes! ”
Também a irmã aparece e chama Kate na rua:
“- Liga para a Mamãe! Você perdeu 5 consultas...”
Kate deve ter tido um problema de saúde grave. O jeito dela de fazer de conta que não liga para nada, pode ser explicado como uma depressão. Ela nega a doença e não se cuida.
Mas o aparecimento do misterioso Tom (Henry Golding) um rapaz alto e bonito na vida dela, como que caído do céu, começa aos poucos a mudar o estado de Kate.
Sempre com a sua bicicleta e sem celular, ele a leva para conhecer lugares em Londres, onde ela nunca tinha ido. O beco mais estreito, o ring de patinação e o jardim secreto dele. “Look up” dizia ele sempre. Levante os olhos, procure.
E fez ela conhecer o lugar onde os sem-teto faziam fila para ganhar uma refeição e onde ele trabalhava como voluntário.
Tom apareceu na vida de Kate de uma maneira mágica e na hora certa. Ela voltou a ser a garota alegre e pronta a ajudar quem dela precisasse.
O filme é quase um conto de fadas, com roteiro de Emma Thompson e Briony Kimmings. E tem a música de George Michael (1963-2016) que combina tão bem com a história de Katarina.
Vá ver e se deixe levar pela emoção.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Dois Papas




“Dois Papas”- “Two Popes”, Reino Unido, Itália, Argentina, Estados Unidos, 2018
Direção: Fernando Meirelles

Ao ouvir no telefone que o nome da pessoa que queria comprar uma passagem aérea era Jorge Bergoglio, a atendente pergunta:
“- Como o Papa? ”
A voz masculina murmura algo e quando é questionado sobre o endereço e responde meio sem jeito, “Cidade do Vaticano ”, a atendente irritada desliga na cara dele, certa de que era uma brincadeira de um desocupado.
Ninguém imaginaria que um Papa faria reservas em seu próprio nome. Mas o Papa Francisco não aceita as regras estipuladas e costuma fazer tudo do seu jeito.
O filme volta no tempo a 2005 e o vemos num bairro pobre de Buenos Aires falando para o povo numa linguagem simples e ajudando a preparar refeições para uma festa popular.
É então que ele fica sabendo que o Papa João Paulo II morreu. O cardeal Bergoglio tem que ir para Roma e participar do conclave que vai eleger o próximo Papa.
Da simplicidade colorida da periferia de Buenos Aires, passamos para a majestade do Vaticano. Mármores preciosos e afrescos magníficos, vestes de seda e veludo, correntes de ouro e chapéus vermelhos.
A praça está repleta para ver passar o esquife do Papa polonês sendo levado para a cripta da Basílica de São Pedro, depois de um pontificado de 26 anos.
Quando começa o conclave, as imagens são belas e tudo é organizado nos mínimos detalhes. O povo na praça espera o sinal da fumaça. A cada votação, os votos incinerados soltam fumaça negra enquanto não é conseguida a maioria necessária para a eleição do novo Papa, que é a mensagem da fumaça branca. “Habemus Papam”.
O cardeal alemão Joseph Ratzinger, agora Bento XVI, assoma ao balcão e saúda o povo. Bergoglio suspira aliviado. Fora o segundo colocado mas nas conversas entre os cardeais, dizia sempre que não queria ser Papa.
Na volta a Buenos Aires ele reassume suas funções e cada vez mais é visto como um homem de grande simpatia, que sabe falar com o povo, que entende como são os problemas que vivemos e que acredita que a Igreja deve estar presente não só no campo religioso, mas na vida das pessoas e proteger os mais pobres e frágeis.
Decidido a aposentar-se mais cedo, antes dos 75 anos exigidos, escreve ao Papa. Precisa da anuência papal. Mas como não recebe resposta, compra uma passagem para Roma. Estranhamente, ele recebe uma carta pedindo que venha a um encontro com Bento XVI.
Tudo isso é fato real. E o encontro dos dois também aconteceu. Mas o que falaram, ninguém ouviu.
Anthony McCarten (“A Hora Mais Escura”, “Bohemian Rhapsody”), que escreveu o roteiro e Fernando Meirelles, diretor (“Cidade de Deus”), conseguiram criar conversações que combinam com o que sabemos sobre os dois. São o ponto alto do filme porque através delas ficamos conhecendo as posições que os separam. Um é muito diferente do outro.
Bergoglio convencido que nada é estático e confessando que suas opiniões sobre a vida e a Igreja mudaram com o passar dos anos. Bento XVI austero, intelectual, conservador, diz que não gosta de nada do que o outro diz e faz. Mas não assina a aposentadoria que o outro tanto quer.
Uma frase do Papa Bento XVI é interessante e talvez explique o encontro imaginado por ele:
“- Dizem que o novo Papa vem para consertar os erros do anterior...”
E Bento XVI vivendo um período extremamente difícil, com acusações sérias que talvez o envolvam, aos 85 anos, diz que vai renunciar ao cargo de sucessor de São Pedro, para grande espanto e horror de Bergoglio.
Os dois atores estão fantásticos. Anthony Hopkins sempre convence nos papéis que representa. Mas é incrível como seu olhar se parece com o de Bento XVI. Já Jonathan Pryce tem aparecido pouco na tela. Aqui ele está assustadoramente perfeito. Emociona. E nunca é demais naquilo que aponta para Bento XVI. Convincente e oportuno.
Confissões de atos que pedem perdão e misericórdia vão acontecer ente os dois e ensinar que ninguém é perfeito, que todos somos humanos e sujeitos a erros.
Esta é a grande mensagem do filme de Meirelles. Os diferentes podem e devem se entender pelo bem maior.
“Dois Papas” recebeu quatro indicações para o Globo de Ouro: melhor filme (drama), melhor ator Jonathan Pryce (drama), melhor ator coadjuvante Anthony Hopkins, melhor roteiro Anthony McCarten.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

As Golpistas



“As Golpistas” – “Hustlers”, Estados Unidos, 2019
Direção: Lorene Scafaria

Publicada na revista “New York Magazine” em 2015, uma reportagem escrita por Jessica Presley fez sucesso e foi adaptada por Lorene Scafaria para o filme que ela produziu e dirigiu e que conta uma história incrível.
”As Golpistas” vai ser o relato em flashback à repórter (Julia Stiles) das memórias de Destiny (Constance Wu). Ela consegue ser escolhida para dançar e entreter homens num Clube especializado. Só que ela é novata, inexperiente e inibida. E fica fascinada quando vê a belíssima Ramona (Jennifer Lopez) fazer a “pole dance” mostrando seu corpo perfeito. O palco fica forrado de dólares que os homens à volta jogam sobre ela. Os mais afoitos introduzem as notas no string que a despe mais que veste.
Dorothy, o nome real de Destiny, uma bonita garota asiática, pequena e muito jovem, vive com a avó e precisa de dinheiro para pagar a casa dela. O que ela ganha é pouco depois dos descontos que o Clube cobra. Ela decide então, naquela noite, ir atrás de Ramona que estava no terraço no alto do prédio. Vai pedir que ela ensine como fazer o que ela faz com tanto carisma.
E essa cena, na noite fria, com Ramona fumando, vestindo um belo casaco de lince, sela o destino de Dorothy. A mais velha acolhe a jovem, aconchegando a garota dentro das peles que veste. Mais maternal que sensual, esse sentimento é a tônica entre as duas que se tornam melhores amigas.
Ramona ensina os movimentos da “pole dance” e também como fazer a “lap dance” quando a garota senta no colo do homem e o estimula com movimentos lentos e corpo arqueado. As duas também enlouquecem os homens atrás da cortina do íntimo “champagne room”.
Mas, em 2008, um ano depois, explode a crise econômica e o Clube sente as consequências. Os ricos corretores de Wall Street começam a desaparecer. O Clube está sem clientes.
É nesse momento que Ramona tem a ideia do golpe que vão aplicar nos seus clientes ricos que sobraram. Reúne Destiny e duas outras garotas para que juntas, armem uma vingança contra esses homens em bares diferentes. Cada uma delas leva o cliente para beber e quando as “irmãs” chegam, colocam droga na bebida dele fingindo que bebem também. Então “limpam” o cartão de crédito dos desavisados corretores.
Claro que era ilegal e criminoso o que faziam mas, como aqueles homens também haviam enganado as pessoas para tirar o dinheiro delas e não tinham sido punidos, essa vingança era até merecida. Ladrão que rouba ladrão...
As roupas ultra sexies que as moças usam no palco, uma iluminação que realça a beleza de seus corpos e depois, elas chegando no bar para dar o golpe em saltos altíssimos, vestidas para “matar”, tudo isso cria um clima de fascínio em torno a essas mulheres. São cenas atraentes e bem filmadas.
Assim, o filme “As Golpistas” é totalmente feminino e mostra mulheres poderosas e seduzidas não por sexo, casamento ou mesmo maternidade, mas em primeiro lugar pelo dinheiro.
“Somos uma família”, diz Ramona, “mas com dinheiro. ” E acrescenta: “O país todo é um clube de strippers. Uns tem o dinheiro e os outros dançam”, diz Ramona.
Jennifer Lopez foi indicada a melhor atriz coadjuvante no Globo de Ouro.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Simplesmente Amor



“Simplesmente Amor”- “Love Actually”, Reino Unido, França, Estados Unidos, Irlanda, 2003
Direção: Richard Curtis

Tudo começa num aeroporto com pessoas chegando e sendo abraçadas e beijadas. Casais, pais e filhos, amigos, todos contentes abrindo os braços para quem chega. O narrador comenta a cena e diz que vamos ver o amor em toda parte. É quase Natal.
E as 8 histórias do filme falam de amor. Seja o início ou o fim de um amor, a traição, a perda e o luto, a timidez que dificulta, o sexo que facilita e o amor pelo amigo.
O neozelandês Richard Curtis escreveu o roteiro com o mesmo talento que usou em “Quatro Casamentos e um  Funeral”, “Um Lugar Chamado Notting Hill” e “O Diário de Bridget Jones”. Aqui, além do roteiro, ele dirige pela primeira vez. E faz isso com graça, leveza e não deixando que a gente se perca, seguindo os casais, de alguma forma entrelaçados por uma história de amor.
Londres está enfeitada para o Natal que está chegando. E o roqueiro que já foi mais moço (Bill Nighy) quer aproveitar o espírito natalino para vender seus discos. O empresário ajuda a reciclar uma canção. E ele faz uma promessa hilária.
E uma surpresa vem com o primeiro casal que aparece. Ela está traindo o marido (Colin Firth) com o irmão dele. Deprimido, ele resolve se trancar em sua casa na Provence para escrever. Não estava no programa que a moça da limpeza (Lucia Moniz) fosse uma bela portuguesa.
Numa grande agência, o rapaz dos sanduiches (Kris Marshall) não faz sucesso com as garotas britânicas e vai tentar a sorte na América. Sarah (Laura Linney) também trabalha na agência e está apaixonada pelo desenhista bonitão (o nosso Rodrigo Santoro) que não dá bola para ela.
O dono da agência (Alain Rickman), casado com Karen (a maravilhosa Emma Thompson) sofre com a tentação do assédio da secretária.
John e Judy (Martin Freeman e Joanna Page) são os substitutos dos atores de um filme pornô para o teste de luzes no estúdio. Nus,conversam banalidades para disfarçar o que começa a acontecer entre eles.
Enquanto a linda noiva (Keira Knightley) entra na igreja, o noivo (Chivetel Ejiofor) e seu melhor amigo param de conversar para que Mark (Andrew Lincoln) pudesse filmar tudo o que acontece. E a dúvida é: ele se atrai pelo noivo ou pela noiva?
Liam Neeson faz o viúvo recente que tem que ser o bom padrasto para Sam (Thomas Sangster) que está deprimido com a morte da mãe e vivendo seu primeiro amor não correspondido.
E Hugh Grant é o Primeiro Ministro inglês, com aquele jeito meio inseguro e sexy que chega a 10, Downing Street, e se encanta por Natalie (Martine McCutchen) sua atraente secretária.
O elenco é muito bom mas Hugh Grant e Emma Thompson se destacam.
“Simplesmente Amor” é um filme com um roteiro divertido e inteligente. Vai fazer você sorrir quando acabar de assistir na NETFLIX.

sábado, 14 de dezembro de 2019

Synonymes




“Synonymes”- Idem, França, Israel, Alemanha, 2019
Direção: Nadav Lapid

Ele buscava um lugar para ser, existir como pensava que seria melhor.
A França é escolhida por Yoav (Tom Mercier ) como uma espécie de paraíso sonhado, bem diferente de sua terra natal, Israel. Troca Tel-Aviv por Paris, mochila nas costas.
Mas, já na primeira noite lá, num apartamento emprestado, é confrontado por algo que não esperava. Roubam tudo que ele tem. E é tão pouco. Deixam Yoav nu e quase congelado de frio.
Na manhã, é encontrado pelos vizinhos, Émile (Quentin Dolmaire) e Caroline (Louise Chevillotte), que vão ser seus pontos de referência, “pai e mãe” que dão conforto e compreensão. Eles o salvam da morte, aquecem e alimentam.
Refeito, Yoav parte para sua nova vida com roupas de Émile, dinheiro, celular e um dicionário roubado numa livraria. Recusa-se a falar hebraico. Mas seu francês não é tão bom quanto gostaria que fosse. Claro, ele leu mais do que ouviu falar francês. E isso vale também para o estilo de vida que experimenta em Paris. Pouco sabe sobre isso.
Frente ao Sena com Émile, despeja uma porção de palavras detestáveis para qualificar Israel. O amigo, surpreso, responde:
“- É melhor você escolher uma só dessas palavras. Nenhum país é tudo isso que você falou! ”
Logo virá a decepção. Yoav se engana mas não é fácil admitir.
Anda de cabeça baixa frente ao Sena e à Notre Dame, para não se deixar levar pela beleza e perder a rota para o coração de Paris, que ele procura. E não acha. Talvez porque está diante dele mas ele não vê. Assim como é difícil aceitar sua própria identidade colada à sua pele da qual não pode fugir.
Nadav Lapid, 44 anos, o diretor israelense, viveu o que encena em “Synonymes”, quando tinha 20 anos e foi morar na França. Como Yoav, levava tudo a ferro e fogo, sem nuances. Não conseguia tirar de dentro de si aquilo que tentava negar. Projetava no mundo que abandonara algo que o perseguia onde quer que fosse.
Hoje, distanciou-se desse radicalismo da juventude. Amadureceu. Mas diz que seu filme não é para ser “palatável” para o público. Lapid quer chocar, envolver e tirar o espectador da zona de conforto habitual.
E consegue.
“Synonymes” ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim desse ano.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Entre Facas e Segredos




“Entre Facas e Segredos”- “Knives Out”, Estados Unidos, 2019
Direção: Rian Johnson

Quando vemos o casarão com tintas de mal assombrado e os cães negros correndo em primeiro plano, percebemos que há ali uma intenção de fazer humor pelo exagero.
E quando entramos na casa, os objetos de gosto duvidoso, necessários à trama, confirmam o tom caricaturesco de “Entre Facas e Segredos”. A casa do escritor de livros de mistério, Harlan Trombley (Christopher Plummer) é quase um personagem da história. Escura, com escadas e janelas secretas, é o perfeito cenário para um crime.
Mas, quem leva uma caneca de café da manhã com os dizeres “Minha casa! Minhas Regras! ” para o dono dela, é uma mocinha bonita e prestativa. Vai encontrar um cenário assustador. O escritor, que acabara de fazer 85 anos, jazia ensanguentado no sofá.
Uma semana depois, nos damos conta de que vimos um suicídio. Será mesmo?
A mocinha (Ana de Armas) que encontrou o morto, está na sala com a família do escritor de quem era a enfermeira.
“- Marta, qualquer coisa que você precise, é só falar. Você é parte dessa família ” diz alguém num tom falsamente solícito.
Os membros da família e Marta vão ser interrogados pela polícia, presente na casa.
Aos poucos vamos acompanhando os relatos de cada um e ficamos sabendo o que cada um deles conta sobre a festa dos 85 anos do escritor, na véspera de sua morte.
Numa poltrona ao fundo da sala, um homem observa o que se passa. Ele é o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), famoso por trabalhar para celebridades.
Mas quem o contratou? Nem ele sabe. Um envelope com dinheiro foi mandado, convocando-o para a reunião da família do escritor morto.
Os dois filhos (Michael Shannon e Jamie Lee Curtis) e a viúva do terceiro (Toni Colette) não parecem entristecidos ou chocados. Todos respondem às perguntas do policial com um ar arrogante. Na sala estão também os netos (Chris Evans, Katherine Langford e Jarden Martell).
Todos são suspeitos mas se dizem inocentes, aproveitando o interrogatório para lançar as suspeitas sobre os outros. São egoístas e sempre viveram explorando o morto, que era o dono do dinheiro, vindo da venda de seus livros best-sellers.
Marta, a enfermeira latina, é a única que parece sentir a perda do patrão para quem trabalhava desde muito jovem. Ficaram amigos e ele se preocupava porque a mãe dela era uma imigrante ilegal.
Rian Johnson diz que levou 10 anos escrevendo o roteiro e os acontecimentos no país relacionados a imigrantes só vieram reforçar o que ele já havia escrito. Os muito ricos e seus serviçais latinos que são “como se fossem da família” são um clichê americano.
“Entre Facas e Segredos” torna-se um filme crítico dessa postura quando Marta, a latina, ora uruguaia, ora brasileira, fica no centro do palco, como a suspeita ideal.
O filme foi sucesso de bilheteria nos Estados Unidos e por onde passou. É entretenimento bem feito, com boas cenas para cada um dos atores do grande elenco poder brilhar. Até mesmo quando muito breves como a da bisavó (K. Callan).
Daniel Craig e a cubana Ana de Armas foram indicados como melhores ator e atriz de comédia no Globo de Ouro e “Entre Facas e Segredos” obteve indicação de melhor filme de comédia.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

História de um casamento



“História de um casamento”- “Marriage Story”, Estados Unidos, 2019
Direção: Noah Baumbach

Nicole e Charlie estão vivendo um momento difícil do casamento. Na terapia de casal, os dois tem que escrever uma lista daquilo que gostam no outro. O terapeuta acha que é bom começar com uma nota positiva, para ambos não esquecerem que amaram a outra pessoa e o porquê.
Entendemos pela lista dela que Nicole (Scarlett Johansson) mudou de Los Angeles para Nova York para ser a estrela das peças de teatro de Charlie. E que ela acha que ele não deixa que opiniões contrárias o façam desistir de suas ideias. Além disso, ela pensa que ele é muito competitivo e que quase nunca se dá por vencido. Sabe que ele adora ser pai, que veio do nada e que a violência e o álcool estiveram presentes na infância dele.
Enquanto que Charlie (Adam Driver) entende que ela deixou a mãe e a irmã em Los Angeles para ser a atriz dele em Nova York e que ela é sua atriz preferida. Depois escreve que ela é uma boa ouvinte, que dá presentes incríveis, que é uma mãe que brinca e que corta o cabelo do filho e o dele. E que adora tentar entender suas ideias malucas.
Nicole sai da sessão de terapia brava. Longe dos olhos de Charlie, ela chora.
E se muda para a casa da mãe em Los Angeles. É estranho mas parece que ela não está de todo convencida que a separação é o melhor caminho.
Mas aí começa a bola de neve que vem ribanceira abaixo e vai virar uma avalanche.
Entra em cena a advogada famosa e competente (Laura Dern), que escreveu um livro, assistiu as peças de Charlie em Nova York e viu Nicole na série da TV. Pergunta se ela que viver em Los Angeles ou Nova York. E a resposta chorosa é a de que ela quer continuar a ser amiga do marido.
E, quando ele chega e conta que ganhou uma bolsa importante, ela o abraça com sinceridade. Mas logo dá um passo para trás quando vê a mãe afetuosa e efusiva com Charlie e ele gostando.
E cada um de nós pensa em como é difícil essa fase do divórcio quando ainda existem sentimentos contraditórios. O diretor e roteirista Noah Baumbach diz que o filme tem conteúdos autobiográficos, o que faz com que tudo tenha uma verdade indiscutível.
Mas o maior acerto foi a escolha dos atores. A Nicole de Scarlett Johansson é simpática, atraente e é ótima mãe para Henry de 8 anos. E tudo parece ser mais fácil para ela porque volta para a casa onde sempre viveu, para a cidade na qual casou com Charlie e onde o filho nasceu.
E Charlie, que parece não conseguir sobreviver sozinho, passa uma dor e um desamparo terríveis. Faz um Charlie inesquecível. A cena onde ele canta “Being Alive” de Stephen Sondheim é especialmente tocante.
E tudo termina numa troca de argumentos e farpas entre os advogados, a dela e o dele (Ray Liotta), e o juiz mandando uma observadora hilária para verificar as relações entre o filho e o pai e o menino e a mãe. Entrevistas tragicômicas.
“História de um Casamento” é comovente e tem atuações extraordinárias, além de um roteiro com diálogos sinceros.
Um dos melhores filmes do ano.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Indicados ao Globo de Ouro - Cinema


Hoje foram anunciados os indicados ao Globo de Ouro, que serão entregues dia 5 de Janeiro. Abaixo a lista dos indicados no cinema:

Melhor filme – Drama
“O Irlandês” (Netflix)
“História de um Casamento” (Netflix)
“1917” (Universal)
“Coringa” (Warner Bros.)
“Os Dois Papas” (Netflix)

Melhor Atriz – Drama
Cynthia Erivo (“Harriet”)
Scarlett Johansson (“História de um Casamento”)
Saoirse Ronan (“Little Women”)
Charlize Theron (“Bombshell”)
Renée Zellweger (“Judy”)

Melhor Ator – Drama
Christian Bale (“Ford vs Ferrari”)
Antonio Banderas (“Dor e Glória”)
Adam Driver (“História de um Casamento”)
Joaquin Phoenix (“Coringa”)
Jonathan Pryce (“Os Dois Papas”)

Melhor filme– Musical ou Comedia
“Dolemite Is My Name” (Netflix)
“Jojo Rabbit” (Fox Searchlight)
“Knives Out” (Lionsgate)
“Era Uma Vez em...Hollywood” (Sony)
“Rocketman” (Paramount)

Melhor Atriz– Musical ou Comedia
Ana de Armas (“Knives Out”)
Awkwafina (“The Farewell”)
Cate Blanchett (“Cadê Você Bernadette”)
Beanie Feldstein (“Booksmart”)
Emma Thompson (“Late Night”)

Melhor Ator – Musical ou Comedia
Daniel Craig (“Knives Out”)
Roman Griffin Davis (“Jojo Rabbit”)
Leonardo DiCaprio (“Era Uma Vez em…Hollywood”)
Taron Egerton (“Rocketman”)
Eddie Murphy (“Dolemite Is My Name”)

Melhor Animação
“Frozen 2” (Disney)
“How to Train Your Dragon: The Hidden World” (Universal)
“The Lion King” (Disney)
“Missing Link” (United Artists Releasing)
“Toy Story 4” (Disney)

Melhor Filme Internacional
“The Farewell” (A24)
“Les Misérables” (Amazon)
“Dor e Glória” (Sony Pictures Classics)
“Parasita” (Neon)
“Portrait of a Lady on Fire” (Neon)

Melhor Atriz Coadjuvante
Kathy Bates (“Richard Jewell”)
Annette Bening (“The Report”)
Laura Dern (“História de um Casamento”)
Jennifer Lopez (“Hustlers”)
Margot Robbie (“Bombshell”)

Melhor Ator Coadjuvante
Tom Hanks (“A Beautiful Day in the Neighborhood”)
Anthony Hopkins (“Os Dois Papas”)
Al Pacino (“O Irlandês”)
Joe Pesci (“O Irlandês”)
Brad Pitt (“Era Uma Vez em... Hollywood”)

Melhor Diretor
Bong Joon-ho (“Parasita”)
Sam Mendes (“1917”)
Todd Phillips (“Coringa”)
Martin Scorsese (“O Irlandês”)
Quentin Tarantino (“Era Uma Vez em...
Hollywood”)

Melhor Roteiro
Noah Baumbach (“História de um Casamento”)
Bong Joon-ho and Han Jin-won (“Parasita”)
Anthony McCarten (“Os Dois Papas”)
Quentin Tarantino (“Era Uma Vez em... Hollywood”)
Steven Zaillian (“O Irlandês”)

Melhor música
Alexandre Desplat (“Little Women”)
Hildur Guðnadóttir (“Coringa”)
Randy Newman (“História de um Casamento”)
Thomas Newman (“1917”)
Daniel Pemberton (“Motherless Brooklyn”)

Melhor Canção Original
“Beautiful Ghosts” (“Cats”)
“I’m Gonna Love Me Again” (“Rocketman”)
“Into the Unknown” (“Frozen 2”)
“Spirit” (“The Lion King”)
“Stand Up” (“Harriet”)

domingo, 8 de dezembro de 2019

Feliz Aniversário





“Feliz Aniversário” – “Fête de Famille”, França, Bélgica, 2019
Direção: Cédric Kahn

“Famílias felizes são todas parecidas”, diz a primeira frase do livro “Anna Karenina” de Leon Tolstoy. E prossegue, “cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira. ” O filme de Cédric Kahn vai mostrar momentos felizes e infelizes de uma família francesa que comemora uma data especial.
A propriedade da matriarca da família, Andrea (Catherine Deneuve, bela e majestática) tem um bonito parque cercando o casarão branco com trepadeiras na fachada. Tudo parece idílico. Ouvem-se as crianças brincando no jardim ao sol.
Na cozinha, Andrea conversa sobre o tempo. Vai chover? Faz pizzas para o almoço. Alguém sugere substituir o coentro pelo gengibre, já que falta o primeiro ingrediente. E todos concordam. Não há receitas a seguir mas muita improvisação naquela cozinha.
É o aniversário da mãe e os filhos estão com ela. O primeiro que vamos conhecer está na cozinha, é fotógrafo e quer fazer um documentário sobre aquele dia de festa. Ele trouxe com ele Rosita (Izabel Aimé Gonzales-Sola), uma argentina alta, morena, de olhos azuis, que faz sucesso entre os membros da família.
A câmera passa por outra garota, a neta Emma, que ensaia uma peça com os outros dois netos, para ser apresentada à noite. Ela explica os personagens para as crianças e diz que é tudo ficção, apesar do assunto ser a família.
O filho mais velho (Cédric Kahn, o também diretor) é o mais tímido, casado, pai dos dois meninos. Ajudado por Romain, o documentarista, eles arrumam a mesa do almoço no jardim, improvisando uma cortina como toalha.
Ninguém esperava. Mas Claire (Emmanuelle Bercot), a filha mais velha, que não via a família há anos, aparece. Diz querer se aproximar da filha que está lá com um namorado negro.
A chegada de Claire vai ser a gota d’água que faltava para surgirem desacordos, enquanto uma chuvarada faz todo mundo voltar correndo para dentro de casa.
Para piorar os desentendimentos, Romain insiste em filmar tudo que acontece, aborrecendo todo mundo e impedindo que os embaraços se resolvam sem testemunhas.
Claire, a filha desequilibrada, volta à família para brigar, reivindicar direitos não respeitados. Não foi exatamente para fazer as pazes com a filha que não vê há três anos e que foi acolhida pela avó e seu marido Julien, que ela voltou.
“- Hoje é o dia do meu aniversário e eu gostaria que só falássemos de coisas agradáveis, ” diz Andrea, mostrando que a mãe e avó daquela família não concorda com o ambiente pesado que se criou em torno a Claire e sua loucura.
Mas, apesar do diretor incluir no filme uma dança muito simpática, o clima é de irritação com tudo que desandou naquele dia que era para ser de festa.
Parente é serpente. Lembrei desse filme italiano do saudoso Mario Monicelli, que também tem um desencontro familiar em torno a uma mesa de jantar. Com muito mais humor negro, é verdade.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A Resistência de Inga




“A Resistência de Inga”- The County”, Islândia, Dinamarca, França, Alemanha
Direção: Grimur Hákonarson

Em um dos países mais isolados do mundo, a Islândia, terra do gelo e do fogo, onde se fala uma língua só conhecida por lá, a religião é a luterana e os habitantes são pouco mais de 300.000, passa-se a história de Inga, baseada em fatos reais.
Inga tem meia idade, é forte, robusta e seus cabelos são de um tom louro avermelhado. Ela (Arndis Hronn Egilsdottir, atriz excepcional) e o marido trabalham de sol a sol na fazenda de vacas leiteiras, sem ajuda humana. Só máquinas fazem o trabalho pesado. Por causa da necessidade de investimento, a fazenda herdada exigiu muito dinheiro para ser equipada. E o marido de Inga se endividou por causa disso.
Estamos numa comunidade de fazendeiros, num lugar deserto, uma paisagem que parece a Lua, amarela e branca com a neve.
O lugar é gelado e as vacas só saem do estábulo no verão. A ordenha é feita por máquinas, o estábulo é limpo por um robô mas, quando chega a hora de uma vaca dar à luz, é Inga que tem o jeito de tirar o bezerrinho que estava difícil de sair.
Ela parece preocupada com as dívidas e com o marido que chega tarde, acabrunhado.
Quando o telefone toca e ela é chamada para reconhecer o corpo do marido que se acidentara com o caminhão, vemos que ela não entende quando dizem que foi suicídio.
Não há marcas de freios na estrada. Ele se deixou levar ribanceira abaixo.
Inga, pensativa e triste, segue os rituais da morte. Chora muito e a filha fica preocupada:
“- Não quer vir ficar conosco? ”
Inga não quer. Algo a martiriza. Pergunta-se:
“Por que ele não deixou um bilhete, uma carta? ”
Mas ela sabia a resposta. Fazia tempo que eles dois reclamavam do monopólio instaurado pela cooperativa. Só podiam vender o leite para eles. E o supermercado, com preços altos, era obrigatório para os sócios da cooperativa.
Ela adivinha o que acontecera. O marido tinha sido acuado. Para não perder a fazenda, delatava quem comprasse produtos necessários com outros, com preço mais barato.
Pois bem. Ela vai se levantar e lutar contra a injustiça que domina a comunidade. Ninguém tem coragem de denunciar a máfia? Temem prejuízos? Acham que ninguém vai comprar o leite deles?
“Veremos” diz Inga para si mesma. Segue-se uma divertida cena com o leite da fazenda dela.
A luta de Inga é a de uma mulher contra a empresa poderosa. Davi e Golias. Mas a arma dela é sua convicção de que tudo tem que mudar ali, nem que perder a fazenda seja o preço da liberdade.
Uma história de coragem contra a corrupção. Inerente ao ser humano. Mas que pode ser combatida na raiz para que não cresça e faça mais vítimas.
A história de Inga, contada de uma maneira bem humorada, é exemplar.


sábado, 30 de novembro de 2019

O Irlandês




“O Irlandês”- The Irishman”, Estados Unidos, 2019
Direção: Martin Scorsese

Ao som de uma canção famosa, sucesso na voz dos “Five Satins”, nos anos 50, “In The Still of the Night”, começa e termina o novo filme do gênio do cinema, Martin Scorsese, 77 anos.
“O Irlandês” vai contar a história de Frank Sheeran (Robert De Niro), que já velho, vivendo numa casa de repouso, está na cadeira de rodas. Ele vai ser o narrador de sua vida e, em suas lembranças esgarçadas vai contar a história do crime organizado nos Estados Unidos e sua ligação com os sindicatos.
O irlandês não obedece a uma cronologia. Vai e vem no tempo de sua memória.
No começo foi caminhoneiro, quando voltou da Itália onde foi soldado na Segunda Guerra. Lá ele sentiu que matar era fácil.
“Eu Soube Que Você Pinta Casas”, aparece então em letras garrafais na tela. É o título do livro no qual se baseou o roteiro. E a cena que ilustra a frase é uma parede vermelha de sangue.
Sheeran é o último “gangster” que sobreviveu a essa história real que durou cinco décadas. E começa quando ele conhece Russell Bufalino (Joe Pesci), um chefe da máfia para quem faz trabalhos encomendados e que vai levá-lo até Jimmy Hoffa (Al Pacino), um figurão, presidente do sindicato dos caminhoneiros, o mais poderoso do país no fim dos anos 50.
Hoffa e Frank Sheeran tornam-se amigos, as famílias se frequentam nos batizados, casamentos e festas. Por fim, Sheeran vira o braço direito de Hoffa.
Famoso e dono de um temperamento difícil, Hoffa desapareceu em 1975. Nunca ninguém conseguiu resolver essa charada até os nossos dias. Martin Scorsese conta sua versão sobre esse segredo, baseado em depoimentos de Sheeran no final da vida. Mas a lenda diz que ele ainda vive.
O diretor interessou-se pelas cenas de ação do filme, mostrando a truculência, a violência mas também a presteza de Sheeran em executar o que lhe é pedido sem perguntar. E ele confessa, em certo momento, que tirou muitas vidas e não tinha remorsos. Mas o homem que tinha filhas, dois casamentos, sempre rodeado de família, perdeu o carinho da preferida, a única que entendeu o que o pai fazia. Peggy parou de falar com o pai no dia 3 de agosto de 1975, dia em que Hoffa desapareceu.
Lealdade, fraternidade e traição são os elementos das relações humanas que Martin Scorsese quis mostrar através desse trio de atores fabulosos, num cenário de ópera trágica. E inclui o trabalho do tempo, sempre implacável, que apaga nossas pegadas no mundo, mesmo as mais sublimes e até as mais terríveis.
De Niro, Pesci e Al Pacino estão inspiradíssimos e nos fazem mergulhar nessa história fascinante e amedrontadora que é contada em 3 horas e meia.
O filme que custou mais de 160 milhões de dólares, usou a tecnologia CGI para rejuvenescer o trio principal de atores. Funcionou bem e mostrou que não precisamos mais de um ator para interpretar o personagem na juventude e outro na velhice. É o futuro do cinema, diz Scorsese.
Não seria possível fazer “O Irlandês” no sistema atual de Hollywood. Muito caro e sem o apelo para o grande público, a Netflix bancou Martin Scorsese. O filme passou em algumas salas de cinema em alguns países, inclusive o Brasil, para poder concorrer ao Oscar e agora está disponível na sua casa.
Experimente ver o filme seguindo o conselho do diretor, no escuro e sem parar, para você conseguir entrar completamente dentro do clima da história. A recompensa virá. Você vai ver uma obra prima.



quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Estaremos Sempre Juntos




“Estaremos sempre juntos”- “Nous Finirons Ensemble”, França, Bélgica, 2019
Direção: Guillaume Canet

Em 2010, o filme “Les petits mouchoirs – Até a Eternidade”, fez muito sucesso na França. O diretor Guillaume Canet, reuniu novamente os mesmos atores e fez uma sequência. Mas não é necessário ter visto o primeiro para entender o segundo.
O grupo de amigos que perdera um deles naquelas últimas férias, ainda se lembra com saudades de Ludo (Jean Dujardin). Tudo no primeiro filme gira em torno ao fato de que ele está no hospital morrendo e os amigos na praia se culpando por não estarem em Paris com ele.
E Ludo aparece como um relâmpago no fim desse segundo filme. Não como um fantasma mas uma imagem sorridente. É como os amigos vão se lembrar sempre dele. Uma ausência sentida.
Mas a vida segue e o ambiente mudou. Max (François Cluzet), dono da gostosa casa de praia em Cap Ferret, faz três anos que não vê os amigos. Nem pensa neles. Vemos ele chegar de taxi na casa da praia, semblante preocupado.
Abre as persianas, areja um pouco a casa e se deita. Para acordar, suando, de um terrível pesadelo. Ele está vivendo uma grave crise e logo vamos saber do que se trata.
Em poucos dias será seu aniversário de 60 anos, mas ele não está nem um pouco preocupado com isso. A crise não é por causa da idade. É financeira. Perdeu tudo. Até já vendeu seu restaurante.
Para seu horror, ouve um barulho lá fora e lá estão os amigos para uma festa surpresa. Desastre. Entre eles está Sabine, sua atual namorada, que leva uma bronca:
“- Como você faz isso comigo? ”
“- Não fui eu! Nem sei como eles me acharam. Pensei que você iria ficar alegre...”
E Max fica ainda mais estressado quando aparece o corretor de imóveis querendo colocar placas e agendar visitas de interessados pela casa.
Max vai ter que se abrir com os amigos. Terão que sair da casa.
É encontrada uma solução, já que Eric (Gilles Lellouche) é ator famoso e consegue alugar uma outra para eles.
Depois das distribuições de quartos, eles bebem muito, riem alto, dançam. Querem assustar o peso da situação. A babá da bebê, filha de Eric, está escandalizada. Toda hora diz que vai embora.
Marie (Marion Cotillard, mulher do diretor na vida real), a que mais sente a falta de Ludo, trouxe seu filho com ela, mas não parece muito ocupada com o papel de mãe.
Vincent (Benoit Magimel), o único gay do grupo, veio com seu namorado novo, o coreógrafo Alex (Mikael Wattincourt), mas dá em cima da ex, Isabelle (Pascale Arbilot).
Max está se divorciando de Vero (Valérie Bonneton) mas ela também não sabia da venda da casa e fica furiosa, quando chega com uma amiga.
Assim, entre tapas e beijos, saltos de paraquedas e um susto de Marie com o filho, além de uma tentativa de suicídio, a semana de férias vai terminando.
Ninguém falou de política, imigrantes, greves ou “gilets jaunes”. Mas apesar do luto, o clima estava mais leve no primeiro filme.
São certamente culpados os novos e incertos tempos.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Diário de uma Paixão



“Diário de Uma Paixão”- “The Notebook”, Estados Unidos, 2004
Direção: Nick Cassavetes

Resisti durante algum tempo. Mas por fim venceu o filme que estava na Netflix. Revi “Diário de Uma Paixão” e não me arrependi. Fiquei ainda mais encantada com a atuação do quatro atores principais: Ryan Gosling, Rachel McAdams, James Garner e Gena Rowlands. Até os papéis secundários estão a cargo de atores excelentes como Sam Shepard e Joan Allen.
A história é simples mas é contada com emoção e há, principalmente, muito amor na tela.  Amor/Paixão na juventude de Noah e Allie e Amor/Companheirismo no fim da vida.
Dirigido por Nick Cassavettes, filho de Gena Rowlands, a grande atriz que faz Allie na velhice e do já falecido e grande cineasta e ator John Cassavetes(1929-1989), o filme tem uma abertura memorável. Vemos um rio vermelho ao sol que se põe, uma silhueta de homem remando ao som de um piano e todos aqueles gansos selvagens voando em direção a uma casa colonial branca, que tem na janela uma senhora loura, ainda bela mas triste.
E vamos conhecer o homem que a ama e que acha que isso foi a coisa mais importante da vida dele.
Adaptado do primeiro romance publicado de Nicholas Spark, vamos ver um casal jovem, loucamente apaixonado num verão dos anos 40, nos Estados Unidos. Ambos belos, impulsivos, com uma química extraordinária nas cenas românticas. E como encaixam bem. Dá prazer ver os beijos dos dois, os arroubos no carro dele, a cena da dança na rua deserta e o passeio de barco entre os gansos brancos com a chuva e risos na volta.
Ryan Gosling com aquele jeito calmo mas decidido está ótimo como o garoto que só tem olhos para Allie.
Tanto ele quanto ela, ambos canadenses e com a mesma idade, eram novatos e fizeram belas carreiras no cinema com prêmios e indicações ao Oscar.
É isso. O par convence e o amor de verão vai ser um amor para toda a vida. Seguimos ambos enfrentando dificuldades e mal entendidos e torcemos para que fiquem juntos.
Não é de todo óbvio o que faz aquela senhora na clínica com aquele senhor sempre a seu lado, lendo uma história de amor para ela.
Mas não tem importância e é claro que torcemos para que aquela Allie reconheça o seu Noah. Porque como ela sofre de demência senil, tem poucos momentos de lucidez.
Ele tem problemas de coração mas na verdade só se importa com ela. Aquela casa em que estão agora é a que ele reconstruiu quando era jovem e foi impedido de ficar com Allie por causa da mãe dela (Joan Allen) que quer outra vida para a filha, já que Noah não tem o mesmo status social que ela.
“Love conquers all” ou o amor tudo vence é o lema de “Diário de Uma Paixão”. Se já viu, reveja, especialmente se você for do tipo romântico mas mesmo se não for, dê esse presente ao seu coração.

Euforia



“Euforia”- Idem, Itália, 2019
Direção: Valeria Golino

O dono do apartamento em Roma, requintado e contemporâneo, é um sucesso. Dois andares, terraço e jardins, sempre bem frequentados por uma turma “fashion”. Riem muito e gostam de beber e cheirar cocaína.
Matteo (Riccardo Scamarcio), vende suas ideias brilhantes a peso de ouro. “A beleza protege a beleza” é a última delas, que pretende trazer cosméticos japoneses para financiar a restauração de um quadro famoso, “Madona das Hárpias”, que pertence à Igreja Católica.
Mas um telefonema de um médico amigo tira Matteo do ar. Ele ouve que Ettore (Valerio Mastrandea), seu irmão mais velho, tem uma doença maligna, um melanoma inoperável no cérebro.
Matteo decide que não vai contar nada para o irmão e vai trazê-lo para seu apartamento. Aliás, o plano é não contar para ninguém. Nem para a mãe deles, nem para a mulher do irmão, nem para o sobrinho adolescente. Quem ele está protegendo com tanto segredo?
São dois irmãos muito diferentes, que não se entendem, nem são próximos e que tem estilos de vida onde não há nada em comum. Enquanto Matteo tem os luxos de uma vida de gay rico, Ettore é professor, leva uma vida modesta, é uma pessoa fechada e agora mora com a mãe, já que está se separando da mulher Michela (Isabella Ferrari).
Matteo vai bancar todo o tratamento do irmão. Está assustado. Mas vai demorar para que ele se conscientize de que a euforia de sua vida com os amigos é uma maneira de não cair em desespero. Ele evita uma depressão antiga. A situação do irmão vai jogá-lo num terreno que ele não quer pisar.
O segundo filme da atriz Valeria Golino (o primeiro foi “Honey”) é considerado por alguns como sendo brilhante. Mas com o brilho de um diamante falso, acrescentam. Outros, menos severos, reconhecem o valor do roteiro e da direção.
O que aqueles veem como um filme chic sobre a angústia de gente mimada, é para outros uma obra que emociona pelas interpretações de todo o elenco.
Ettore não quer morrer, nem Matteo. Mas ele não pode evitar o que vai acontecer como sendo um assunto desagradável. Dessa vez vai ser diferente.
O amor incondicional da mãe de ambos sempre foi para Ettore. Ser gay tirou de Matteo o primeiro e com ele todo o amor de sua vida. O rapaz que vive com ele é sua “dama de companhia”. Parceiros são muitos e o sexo é sempre ocasional. Ele faz que não precisa do que não tem, mas é verdade?
“Euforia” atrai pelo visual belo de uma Roma sempre fotogênica e o gosto artístico inegável dos italianos. E certamente pela interpretação emocionante dos dois atores principais, que não cai nunca no dramalhão.