terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Pais e Filhos


“Pais e Filhos”- “Soshite Chichi Ni Naru”, Japão, 2012
Direção: Hirokazu Kore-Eda

Tudo parecia tão perfeitamente em ordem naquela jovem família de classe média alta vivendo numa cidade japonesa, que não se espera o que virá.
O pai Ryota (Masaharu Fukuyama), arquiteto de sucesso, trabalha em um escritório famoso, onde fez uma carreira rápida e brilhante. Ganha muito bem, é dedicado e muito ambicioso.
Por causa disso, o tempo para a família é escasso. Chega sempre tarde em casa e já está na hora de seu único filho, Keita (Keita Ninomiya) de 6 anos, estar na cama. Estranhamente, essa falta de convivência não parece incomodar nenhum dos dois.
A mãe, Midori (Machiko Ono), adora o filho que ela cerca de carinho. Keita é um menino bonzinho, afetuoso e não dá trabalho nem em casa, nem na escola.
Se há alguma nota dissonante, pode-se dizer que o fato da criança ser tão comportada, parece desagradar um pouco o pai, que acha que os mimos da mãe não o preparam para uma vida competitiva no futuro.
O diretor Kore-Eda, que assinou o sensível “Ninguém Pode Saber” 2004, vai mexer aqui com uma situação delicada e vai trazer à tona sentimentos em conflito.
Eis que um exame de sangue de rotina, quando da admissão de Keita numa escola tradicional, revela algo que não se esperava.
A notícia chega como uma bomba: houvera uma troca de bebês. Keita não é filho de Ryota e Midori.
E o hospital onde o menino nascera, no interior, perto da casa da mãe dela, porque Midori precisava de alguém para ajudá-la, não podendo contar com o marido, reconhece o erro.
Depois do choque inicial, vemos a consternação dos pais e a complicada questão da culpa.
Mas, providências precisam ser tomadas.
Encontros com os representantes do hospital, médicos e psicólogos, levam as duas famílias a fazer contato.
E uma frase do pai de Keita espanta Midori:
“- Agora está tudo explicado!”
“Pais e Filhos” é um filme bem feito, com um roteiro envolvente e ótimos atores que conquistam a plateia com o drama dos meninos trocados.
A questão central e que não tem uma resposta simples, ao contrário, coloca ainda mais perguntas, é o dilema do sangue versus a convivência.
Ou seja, o que é mais importante para uma criança?
Estar com aqueles que a criaram e amaram desde o nascimento ou mudar para a família que tem o mesmo sangue que o seu?
O que é mais importante para os pais?
Trazer para casa o sangue de seu sangue e perder para sempre aquele que era o filho amado?
“Pais e Filhos” traz para a nossa reflexão um dilema difícil de ser resolvido.
Quando o filme passou em Cannes e ganhou o Grande Prêmio do Júri, Steven Spielberg, que era o presidente, comprou os direitos do filme para uma refilmagem.
Vai ser interessante comparar as duas versões.



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A Grande Beleza



“A Grande Beleza”- “La Grande Bellezza”, Itália/França, 2013
Direção: Paolo Sorrentino

Frases pessimistas de Céline na tela. Um coro canta “a capella” numa das belas fontes de Roma. Turistas tiram fotos e... um japonês cai, sem vida.
De chofre, o filme de Paolo Sorrentino, 43 anos, introduz sua temática: a vida e a morte. A arte e a beleza como criações do homem que dão sentido à vida? O que buscamos?
Corte para cenas da festa de 65 anos de Jep Gambardella (Toni Servillo, perfeito no papel), escritor de um só livro, mas de sucesso e jornalista bisonho. Ele é principalmente o rei das colunas sociais romanas. Chic e esnobe. Em seu rosto, sempre um sorriso irônico. Olhando bem de perto, a melancolia paira sobre sua figura, companheira do sarcasmo.
Sua festa, no enorme terraço do apartamento deslumbrante com vista para o Coliseu, reúne a fauna local. A mistura de tipos é a regra. Seus convidados, entre eles ex-atrizes fora de forma e representantes da aristocracia romana decadente, bebem muito e dançam ao estilo dos anos 70. Ridículos, simulam juventude e alegria.
No meio de todo esse cenário humano inóspito, Jep confidencia para a plateia:
“- Desde cedo eu estava destinado à sensibilidade.”
Desfilando com uma elegância que não combina com a cafonice ao redor, ele busca algo que não sabe ainda o que é mas se distrai no sexo com uma desconhecida.
A beleza e a arte cercam a todos em Roma. Praças, pontes, fontes, igrejas, castelos, monumentos, esculturas e pinturas estão em toda a parte. Para não falar da luz sem igual e da natureza. Esse exagero de beleza faz com que os romanos se esqueçam dela.
A certa altura, Jep sentencia:
“- As melhores pessoas de Roma são os turistas.”
A eles a contemplação da cidade.
Mas parece que Jep vai sair de seu entorpecimento. Numa noite cruza com Fanny Ardant, interpretando a si mesma, vislumbre da beleza esquecida para Jep.
Volta para casa, como sempre já de manhã, com algo e conversa com a empregada na cozinha e vai para a cama.
Olha o teto e vê o mar. Mergulha no azul e começa a lembrar-se de momentos do seu passado. O “voyeur”, viciado em olhar para fora, descobre em sonhos e devaneios, os encontros com a grande beleza, que dá sentido à vida.
Pouco a pouco, Jep revive, às custas das epifanias esquecidas que, relembradas, revigoram. Compreende que a beleza, assim como a felicidade são fugidias, fugazes, mas são tudo que vale nessa vida.
Para nós, espectadores, é oferecida uma travessia do Tibre, ao por do sol dourado. E saímos do cinema levando um pouco de “grande beleza” conosco. Apaziguados.

Ela Vai




“Ela Vai”- “Elle S’en Va”, França, 2012
Direção: Emmanuelle Bercot

Vemos ao longe uma mulher que caminha ao longo do mar, sob um sol talvez não de inverno mas de outono. A câmera se aproxima dela porém não vemos seu rosto, ela está de costas para nós. O cabelo louro brilha e balança com o vento.
Surge uma foto em preto e branco de uma bela jovem, depois dos títulos em vermelho, enormes.
“Ela Vai” parece gritar na tela e reconhecemos Catherine Deneuve na foto, mocinha.
Ela é Bettie, 60 anos, dona de um pequeno restaurante que dá muito trabalho e pouco retorno, numa cidadezinha da Bretanha, no norte da França. Mora com a mãe e as duas se dão bem.
Mas Bettie, que foi Miss Bretanha, passou por tristezas em sua vida. Percebe-se isso na expressão de seu belo rosto que não sorri e o ar de enfado.
É viúva e tem um amante. A gota d’água que vai entornar o copo dela vai ser a notícia de que Etiènne, o amante, largou da mulher por uma moça e 25 anos e nem deu explicações para ela:
“- Você teve tantas oportunidades de refazer sua vida, mas foi se grudar no Etiènne...”, lamenta a mãe ao dar a notícia.
Entre desesperada e furiosa, Bettie procura um cigarro escondido e vai fumar na cozinha.
A mãe não dá trégua:
“- Voltou a fumar? Estou sentindo o cheiro.”
Infeliz, Bettie fuma com a janela do quarto aberta.
Dia seguinte, olhos inchados, cara amassada (mas bela porque é sempre Catherine Deneuve de quem se trata), Bettie diz que já volta, pega o carro e sai sem rumo. Chora, esbraveja, desabafa, no carro, aquele espaço só dela.
Precisa comprar cigarros mas não acha nada aberto e vai em frente pela estrada.
Quando vê, está muito longe de casa e já é noite.
Bettie vai encontrar gente pelo caminho, vai beber, fumar, dançar, amar.
Mas quando o celular toca e é a filha, com quem mal se dá, e que precisa dela para cuidar do neto que ela também mal conhece, Bettie vai enveredar por um outro caminho e vai ter a chance de refazer laços e experimentar novas oportunidades na vida.
A diretora Emmanuelle Bercot centra seu filme em Catherine Deneuve, o ícone francês que tem 70 anos e continua bela, sem querer parecer ser jovem. Ela tem aquele porte elegante que sempre teve, um cabelo cobiçado e um rosto inesquecível.
O roteiro é leve e mistura doses e alegria e tristeza.
Uma menção especial para Nemo Schiffman, que faz o neto. Ele combina bem com a Deneuve. Mas quem não se encantaria em trabalhar com ela? 

 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A Vida Secreta de Walter Mitty




“A Vida Secreta de Walter Mitty”- “The Secret Life of Walter Mitty”, Estados Unidos, 2013
Direção: Ben Stiller

O personagem Walter Mitty nasceu em 1939, criação do cartunista James Thurber (1894-1961). Virou filme, “O Homem de Oito Vidas” e é conhecido entre os americanos como o protótipo do sonhador, daquele que vive com a cabeça na Lua e não realiza nada na vida.
Ben Stiller, que dirige e atua no filme, “A Vida Secreta de Walter Mitty”, pensou em reabilitar esse anti-heroi. E o fez de forma imaginativa e divertida.
Tudo começa porque a revista “Life” (paródia da que realmente existiu e ficou famosa por suas capas com fotos incríveis) vai terminar. Não mais será impressa em papel e só vai existir on-line. Uma triste tendência atual que varre do mapa a banca de jornal da esquina. E claro, leva ao desemprego todos os profissionais que não se adaptam ao novo modelo.
Walter Mitty, há 16 anos trabalhando na revista, cuida dos negativos das famosas fotos.
O último número da “Life” vai ter que sair com uma capa espetacular. Mas aí está o problema. O negativo da foto sumiu. Obra-prima do fotógrafo estrela, interpretado com suavidade e carisma por Sean Penn, a foto única e rara desapareceu do filme, que está com Mitty.
É aí que entra a mudança na personalidade do personagem. Seus devaneios, que incluem uma colega de trabalho (Kristen Wig) ou o novo chefe que não vai com a cara dele, transformam-se. Não podemos dizer nem que tudo é verdade, nem que tudo são sonhos, quando Walter resolve viajar pelo mundo seguindo a pista do fotógrafo, na esperança de recuperar a foto que iria sair na capa do último número da “Life”.
O ator Ben Stiller, interpreta Walter como sendo, ao mesmo tempo, um tonto e um gênio. Mas é, principalmente, super esforçado na tarefa de encontrar o fugidio fotógrafo.
As cenas são muito bem feitas e envolvem um turbilhão de imagens em Nova York, Groenlândia e Islândia, quedas de edifícios altíssimos, romance no Ártico, voos de helicóptero com um piloto bêbado, tubarões, corridas em skates, lindas imagens na neve em montanhas altas e um vislumbre do raríssimo leopardo-das-neves, conhecido como o gato-fantasma.
Shirley McLaine faz a mãe de Walter e sua presença maternal na vida dele é vital para a história. Que, aliás, tem um final surpreendente.
Leve, divertido e cheio de imaginação, o filme “A Vida Secreta de Walter Mitty”, surpreende agradavelmente.

Um Estranho no Lago


“Um Estranho no Lago”- “L’Inconnu du Lac”, França, 2013
Direção: Alain Giraudie

 Sol de verão. Ouvimos o rumor de água e o som do vento nas folhas das árvores. Um carro estaciona num lugar onde vemos outros carros e o rapaz que desce vai até a praia de pedras, passando por um bosque.
Ele entra na água e o vemos nadando no lago azul. Olha a praia e vê um homem sentado perto de uma árvore. Sai da água e senta-se ao lado dele. O homem é gordo, meia idade e o rapaz é jovem e bonito.
“- Você não tem medo dos bagres de 10 metros que tem nesse lago?”
“- Mas isso não existe!”
Henri, o gordo, responde que já viu um de 4 metros e por isso não entra na água.
E continuam a conversar. Franck fica sabendo que o outro costumava ir a uma outra parte do lago com a namorada mas que brigaram.
“- Gosto de olhar a água. Me faz bem ficar aqui sozinho. Mas não digo isso para você ir embora. Agrada-me conversar com você.”
Franck conta que está desempregado e Henri diz que é lenhador.
“- Que maravilha trabalhar ao ar livre!”
“- Não é tão bom assim...”, responde o gordo que parece deprimido.
A câmera mostra que só há homens na praia, um pouco além do lugar onde estão os dois estão sentados. Muitos estão nús.
Um cara sai da água e Franck levanta-se, despede-se e vai atrás do homem que entrou no bosque.
Alain Giraudie ganhou o prêmio de melhor diretor na mostra “Um Certain Regard” em Cannes 2013 e o “Queer Palm”, prêmio para o filme com a melhor temática gay.
Além disso, o “Cahiers du Cinéma”, revista que é a bíblia do cinema francês, apontou o filme como o melhor do ano. Tudo isso pode ser um pouco de exagero mas o filme ganhou visibilidade e está sendo exibido na Europa, Estados Unidos e América Latina, fora dos guetos onde geralmente passam os filmes gays.
“Um Estranho no Lago” não é para todo tipo de público, claro. Mesmo os menos preconceituosos vão precisar de um tempo para se acostumar. Há cenas de sexo explícito mostradas sem nenhum pudor.
Naquele bosque, os casais de homens fazem sexo à vontade. Todos que lá vão, estão à procura de parceiros. O lago, a praia e o bosque são como que um paraíso gay natural.
Mas o filme de Giraudie vai começando a mostrar um clima tenso. Pequenos nadas vão se somando e vamos sentindo um mal estar.
O desejo sexual, independente do sexo, esconde perigos,  se precauções não são tomadas. Todos sabemos disso. Preservativos são usados por quase todos os homens alí.
Mas como se preservar da perversão, da maldade, presente e ativa em alguns seres humanos?
Franck (Pierre Deladonchamps) vai se aproximar de Michel (Christophe Paou), corpo bonito e olhar sedutor, por cima de um bigode.
Vemos, com apreensão crescente, que mesmo depois de ver de longe do que Michel é capaz, Franck vai procurá-lo todo dia na praia. Está apaixonado por ele. Sonha com uma relação mais estreita. É Michel que não quer saber de intimidades. Não quer perder sua liberdade.
A amizade que Henri, o gordo melancólico, tem por Franck, também o leva a procurar por um caminho perigoso mas desejado por seu lado ambíguo.
E o clima de tensão vai num crescendo até a cena final. O público do cinema se envolve mesmo sem querer.
Com poucos elementos, sem trilha sonora, só com o vento nas folhas e o rumor das águas, o diretor nos prende à trama.
A cada dia que passa, o perigo aumenta e parece que o tesão de Franck, acossado pelo elemento perturbador na personalidade de Michel, também se  intensifica. O que quer aquele rapaz, antes calmo e razoável?
Há um fascínio com o sexo que pode levar à morte.
A cena final, em plena escuridão, arrepia.
Um ótimo suspense.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Eu e Você



“Eu e Você”- “Io e Te”, Itália, 2012
Direção: Bernardo Bertolucci

O que foi que aconteceu com aquele garoto, sentado incômodo, frente ao terapeuta? Este, que já não é jovem, usa uma cadeira de rodas e pergunta com paciência sobre o acontecimento traumático que envolveu seu paciente e um amigo.
Nada feito. Lorenzo (Jacopo Antinori) , de 14 anos, a tudo responde com uma frase lacônica:
“- Normal. Ele teria feito o mesmo.”
E o terapeuta diz:
“- Mas o que é “normal” para você? “
O garoto olha o relógio e dá por terminada sua hora.
Parece que Lorenzo nada contra a corrente.
No restaurante com a mãe (Sonia Bergamasco), superprotetora, separada do pai dele,  ele encena um complexo de Édipo exagerado, quase certamente para irritá-la. E ela explode:
“- Você parece um menino de 6 anos!”
Adolescente, cheio de espinhas e com os olhos azuis encobertos por uma sombra, Lorenzo não está bem.  Construiu uma carapaça para onde se retrai quando alguém chega perto demais.
A expedição de ski do colégio serve como o momento certo para ele atuar esse estado de alma que é psicológico, tranformando-o em um evento concreto. O porão de sua casa vai ser seu “habitat” por uma semana. Finge que foi com os colegas e refugia-se lá embaixo, levando seus discos e comida, para ter paz.
Mas algo inusitado vem quebrar seu isolamento.
Olivia (Tea Falco), sua bela meia-irmã, mais velha do que ele, aparece de repente, procurando coisas dela naquele porão.
Os primeiros movimentos de Lorenzo são de retraimento e raiva. O que faz ali aquela estranha? Mas, aos poucos, vamos observando sinais de curiosidade entre ambos.
Houve uma entrega total dos jovens atores aos seus personagens, sob a batuta do maestro Bertolucci.
E eu me pergunto se o diretor, que adaptou o livro “Eu e Você” de Nicolò Ammariti, editado no Brasil pela Ed. Bertrand Brasil, e que passou por um periodo difícil, tetraplégico e sem filmar, desde “Os Sonhadores” de 2003, não se identifica com Lorenzo, que passou por algo terrível e não consegue mais viver no mundo. Certamente ele também teve que lutar para poder chegar na cadeira de rodas e voltar a dirigir um filme. Bertolucci disse numa entrevista:
“- Acho que a maioria dos meus filmes fala sobre o universo jovem, de seus medos, suas vontades, seus desafios. Talvez seja porque me interessa muito a energia que o jovem tem, que tem muitas vêzes de aprender a usar para poder viver num mundo que não o compreende.”
Voltar a filmar depois de 9 anos afastado, numa cama, cheio de dores e depressivo, como confessa num documentário imperdível, “Bertolucci por Bertolucci” de Luca Guadagnino e Walter Fasano, foi muito difícil e “Io e Te” é sua retomada cinematográfica.
A lista de obras-primas do cinema assinadas por ele é imensa. Mas é só lembrar de “La Luna” 1978, “O Último Tango em Paris”1972, “O Último Imperador”1987, “Novecento”1976, “O Céu que nos Protege”1990, para entender que ele ainda tem muito a dizer.
“Eu e Você” é um filme intimista que desvela com delicadeza as dificuldades de seres humanos. Ultrapassar as próprias, faz do filme um depoimento concreto e valioso de Bernardo Bertolucci, mestre do cinema.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Indicações para o Golden Globe 2014


Indicações para o Globo de Ouro 2014

Acaba de sair uma lista importante. O Globo de Ouro é o prêmio que antecipa o Oscar. Nem sempre os ganhadores são os mesmos, mas as listas de ambos os prêmios costumam incluir quase sempre os mesmos nomes.
Agora, uma coisa é ser indicado, outra é ser um ganhador. Nem sempre o favorito nas apostas vence. E essa é a graça de assistirmos ansiosos à cerimônia de premiação. A do Golden Globe vai ser na noite do dia 16 de janeiro em Los Angeles, apresentada pela mesma dupla do ano passado: Tina Fey e Amy Poehler.
A lista tem 25 categorias tanto no cinema como na TV. E claro que para nós, brasileiros, a lista do cinema é a que interessa.
Diferente do Oscar, o Golden Globe separa prêmios para drama e comédia ou musical. Nas categorias de melhor filme, atriz, ator e coadjuvantes sempre vamos ter dois representantes dos dois gêneros e não um só vencedor como no Oscar.
Dois filmes, que ainda não passaram no Brasil, dividem o maior número de indicações: “12 Years a Slave””, dirigido por Steve McQueen e “American Hustle – Trapaça” dirigido por David O. Russell. Cada um deles com 13 indicações.
O filme que tem mais indicações depois desses dois é “Gravidade”, dirigido por Alfonso Cuarón, que conseguiu 10, entre elas a de melhor atriz para Sandra Bullock.
Com o atraso dos filmes aqui no Brasil, ainda não dá para ter um palpite. Tom Hanks (“Capitão Phillips”), indicado a melhor ator, Sandra Bullock (“Gravidade”) e Cate Blanchett (“Blue Jasmine”), para melhores atrizes/drama e Julie Delpy (“Antes da Meia Noite”), Greta Gerwig  (“Frances Ha”) e Julia Louis-Dreyfus ( “À Procura do Amor”) para melhores atrizes comédia/musical é o que vimos até agora.
“Azul é a Cor Mais Quente” da França e “A Caça”da Dinamarca foram os filmes indicadosa melhor filme estrageiro que já vimos.
Falta ainda muita coisa. Haja correria ao cinema para conseguir ver tudo antes das premiações!
Abaixo vocês podem ver a lista completa, tanto para o cinema como para a TV:
— Cinema

Melhor filme – Drama

"12 years a slave"
"Capitão Phillips"
"Gravidade"
"Philomena"
"Rush: No limite da emoção"
Melhor filme – Comédia ou musical
"Trapaça"
"Her"
"Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum"
"Nebraska"
"O lobo de Wall Street"
Melhor ator – Drama
Chiwetel Ejiofor, de "12 years a slave"
Idris Elba, de "Mandela"
Tom Hanks, de "Capitão Phillips"
Matthew McConaughey, de "Dallas Buyers Club"
Robert Redford, de "All is lost"
Melhor atriz – Drama
Cate Blanchett, de "Blue Jasmine"
Sandra Bullock, de "Gravidade"
Judy Dench, de "Philomena"
Emma Thompson, de "Walt nos bastidores de Mary Poppins"
Kate Winslet, de "Refém da paixão"
Melhor atriz – Comédia ou musical
Amy Adams, de "Trapaça"
Julie Delpy, de "Antes da meia-noite"
Greta Gerwig, de "Frances Ha"
Julia Louis-Dreyfus, de "À procura do amor"
Meryl Streep, de "Álbum de família"
Melhor ator – Comédia ou musical
Christian Bale, de "Trapaça"
Bruce Dern, de "Nebraska"
Oscar Isaac, de "Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum"
Joaquin Phoenix, de "Her"
Leonardo DiCaprio, de "O lobo de Wall Street"
Melhor ator coadjuvante
Barkhad Abdi, de "Capitão Phillips"
Daniel Bruhl, de "Rush"
Bradley Cooper, de "Trapaça"
Michael Fassbender, de "12 years a slave"
Jared Leto, de "Dallas Buyers Club"

Melhor atriz coadjuvante
Sally Hawkins, de "Blue Jasmine"
Jennifer Lawrence, de "Trapaça"
Lupita Nyong'o, de "12 years a slave"
Julia Roberts, de "Álbum de família"
June Squibb, de "Nebraska"
Melhor diretor
Alfonso Cuaron, de "Gravidade"
Paul Greengrass, de "Capitão Phillips"
Steve McQueen, de "12 years a slave"
Alexander Payne, de "Nebraska"
David O. Russell, de "Trapaça"
Melhor roteiro
Spike Jonze, de "Her"
Bob Nelson, de "Nebraska"
Jeff Pope Steve, de "Philomena"
John Ridley, de "12 years a slave"
David O. Russell, de "Trapaça"
Melhor filme estrangeiro
“Azul é a cor mais quente”, da França
“A grande beleza”, da Itália
“A caça”, da Dinamarca
“O passado”, do Irã
“Vidas ao vento”, do Japão
Melhor canção original
"Atlas", de Chris Martin ("Jogos vorazes: Em chamas")
"Let it go", de Kristen Anderson Lopez e Robert Lopez ("Frozen: Uma aventura congelante")
"Ordinary love", do U2 ("Mandela: Long walk to freedom")
"Please Mr. Kennedy", de Ed Rush, George Cromarty, T Bone Burnett, Justin Timberlake, Joel Coen e Ethan Coen ("Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum")
"Sweeter Than Fiction", de Taylor Swift ("One chance")
Melhor trilha original
"All is lost"
"Mandela: Long walk to freedom"
"Gravidade"
"A menina que roubava livros"
"12 years a slave"
Melhor animação
“Os Croods”
“Frozen: Uma aventura congelante”
“Meu malvado favorito 2”
— TV
Melhor série de TV – Drama
"Breaking bad"
"Downton Abbey"
"The good wife"
"House of cards"
"Masters of sex"
Melhor ator em série de TV – Drama
Bryan Cranston, de "Breaking bad"
Liev Schreiber, de "Ray Donovan"
Michael Sheen, de "Masters of sex"
Kevin Spacey, de "House of cards"
James Spader, de "The blacklist"
Melhor atriz em série de TV – Drama
Julianna Margulies, de "The good wife"
Tatiana Maslany, de "Orphan black"
Taylor Schilling, de "Orange is the new black"
Kerry Washington, de "Scandal"
Robin Wright, de "House of cards"
Melhor série de TV – Musical ou comédia
"The big bang theory"
"Brooklyn Nine-Nine"
"Girls"
"Modern family"
"Parks and recreation"

Melhor ator em série TV – Comédia ou musical
Jason Bateman, de "Arrested development"
Don Cheadle, de "House of lies"
Michael J. Fox, de "The Michael J. Fox Show"
Jim Parsons, de "The big bang theory"
Andy Samberg, de "Brooklyn Nine-Nine"
Melhor atriz em série de TV – Comédia ou musical
Zooey Deschanel, de "New girl"
Edie Falco, de "Nurse Jackie"
Lena Dunham, de "Girls"
Julia Louis Dreyfus, de "Veep"
Amy Poehler, de "Parks and recreation"
Melhor minissérie ou filme para TV
"American horror story: Coven"
"Behind the candelabra"
"Dancing on the edge"
"Top of the lake"
"White queen"
Melhor ator em minissérie ou filme para a TV
Matt Damon, de "Behind the candelabra"
Michael Douglas, de "Behind the candelabra"
Chiwetel Ejiofor, de "Dancing on the edge"
Idris Elba, de "Luther"
Al Pacino, de "Phil Spector"
Melhor atriz em minissérie ou filme para a TV
Helena Bonham Carter, de "Burton and Taylor"
Rebecca Ferguson, de "White queen"
Jessica Lange, de "American horror story: Coven"
Helen Mirren, de "Phil Spector"
Elisabeth Moss, de "Top of the lake"
Melhor atriz coadjuvante em série, minissérie ou filme para TV
Jacqueline Bisset, de "Dancing on the edge"
Janet McTeer, de "White queen"
Hayden Panattiere, de "Nashville"
Monica Potter, de "Parenthood"
Sofia Vergara, de "Modern family"
Melhor ator coadjuvante em série, minissérie ou filme para a TV
Josh Charles, de "The good wife"
Rob Lowe, de "Behind the candelabra"
Aaron Paul, de "Breaking bad"
Corey Stoll, de "House of cards"
John Voight, de "Ray Donovan"

domingo, 15 de dezembro de 2013

Como Não Perder Essa Mulher


“Como não Perder essa Mulher”- “Don Jon”, Estados Unidos 2013
Direção: Joseph Gordon-Levitt

As imagens que aparecem na tela são atropeladas e os sons atordoantes. Programas de TV, desenhos animados, lutas, garotas com pouca roupa. O título original, “Don Jon”, aparece pulsando. Nem precisa dizer que a tradução para o português, que não tem nada a ver com o filme, foi escolhida para trazer público para o cinema.
Mas, mesmo assim, cuidado. O tema, pode assustar pessoas conservadoras. O protagonista, interpretado pelo próprio diretor e também roteirista de seu primeiro filme, Joseph Gordon-Levitt, começa dizendo:
“- Sim, não vou mentir. Nessa hora, a única coisa que existe no mundo é aquele peito, aquela bunda...”
Ele olha a tela do computador, onde passa um filme pornô, que vemos de relance. Pega um lenço de papel da caixa e depois joga no lixo.
“- Me interesso pelo meu corpo, meu ap, minha família, minha igreja, minhas garotas e meus pornôs. Estou sendo sincero. Por que me chamam de Don Jon?”
Ele parece que não sabe, mas vive em função da pornografia.
Toda noite vai a um clube pegar garotas. Entre amigos (Rob Brown, o Bobby e Jeremy Luke, o Danny), dão notas de 1 a 10 para as meninas e Don Jon, invariavelmente, dança com a de melhor nota, se esfrega, leva para o sofá, para o táxi e para a cama. Só que, depois da transa, sente um apelo irresistível e vai se satisfazer vendo um pornô.
Para tudo recomeçar metódicamente no dia seguinte. Aliás, ele tem mania de limpeza. Faxina o ap como ninguém.
Sua rotina não seria completa sem a macarronada aos domingos com o pai, machista mal-educado, a mãe, que sonha com netos (Tony Danza e Glenne Headly, ótimos) e a irmã, muda, sempre navegando no celular e a TV no futebol aos berros. Tudo isso precedido de uma ida à igreja com toda a família, para confessar seus pecados. Sempre os mesmos, variando as quantidades.
No trânsito ele é irritadíssimo.
Até que surge ela, Barbara Sugarman (Scarlett Johansson) num vestido vermelho provocante e com aquela boca, emoldurada por longos cabelos louros.
“- É a mulher mais linda do mundo”, exclama Jon de queixo caído. E vai para cima dela. Só que na hora do táxi, ela vai embora sózinha, fazendo beicinho de um jeito que deixa Jon mais encantado ainda.
Apresenta a bela à família e ela conquista a todos. Netos à vista!
Tudo estaria no melhor dos mundos, se o inesperado não acontecesse. Não consegue dispensar o ritual pós-transa e Barbara fica ultrajada.
Por que será que a pornografia tem um apelo irresistível para Jon? Não seria porque ali ele controla tudo e é dono de seu gozo do jeito que ele quer? E, mais importante, não corre o risco de se fragilizar com sentimentos?
Nada contra a pornografia, se isso não estimulasse seu medo de se envolver com mulheres reais.
O que ele parece não saber é que o sexo depende muito mais do cérebro e da imaginação. Para não falar da auto-estima.
Para Jon não adianta ter na cama a mulher nota 10, a mais atraente no visual e depois se deparar com uma manipuladora que usa o sexo para controlar e mandar nele.
Nos dois vemos o mesmo problema. Superficialidade. Não há tranquilidade em lidar com gente real, nem vontade de aprofundar a intimidade. Teriam que sair desse cenário de acrobacias, corpos perfeitos e egos avantajados.
Julianne Moore, como Esther, vai ensinar uma ou duas coisas para Jon.
O filme é engraçado, bem editado e com ótimos personagens vividos por bons atores. Mas não é para todo mundo porque os mais conservadores e puritanos vão só condenar as imagens do filme, sem pensar na mensagem. Uma pena.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Um Toque de Pecado



“Um Toque de Pecado”- “A Touch of Sin”, China 2013
Direção: Jia Zhang – ke

O olhar duro e realista de um diretor chinês, que mostra através de quatro histórias, baseadas em fatos reais, como anda a China hoje, assusta e por isso, parece confortável pensar que tudo é muito distante de nós.
Essa violência, esse sangue que jorra em “Um Toque de Pecado”, esses homens e mulheres em um estado de tensão tal que explodem em agressividade contra outros seres humanos, animais ou eles mesmos, são o retrato da civilização do século XXI, infelizmente.
Jia Zhang-ke, em pouco mais de duas horas, foca sua câmera em personagens comuns. Vai do mais velho ao mais moço, fechando o circulo e trazendo o espectador, que pensava que o filme retratava talvez outra época mais primitiva, ao desconforto de perceber que tudo se passa nos dias de hoje.
“Um Toque de Pecado” fala de um desenraizamento, da perda de valores, desmantelamento dos laços familiares, sobrevivência difícil, corrupção, desumanidade no trato com os animais, grandes disparidades sócio-econômicas, valor exagerado do dinheiro na vida das pessoas, perda de referências e brutalidade.
O filme conta quatro histórias, enlaçando-as de maneira inteligente, por detalhes. O roteiro, que foi premiado em Cannes, traz por exemplo, o titulo do filme no mesmo papel de parede que vamos visitar na terceira história. O primeiro ato de violência apresenta o protagonista da segunda história que está de motocicleta na mesma estrada que o protagonista da primeira. Há encontros em trens e ônibus e um dos personagens da terceira história vai voltar à aldeia da primeira história, fechando o circulo.
Dahai, da primeira história, é um trabalhador de uma mina que se revolta contra a corrupção local. Tenta discutir, argumentar, reclamar pelos direitos do povo da aldeia, mas em vão. O rifle enrolado em um tigre de pano vai encher a tela de sangue.
A segunda, leva a roubo e assassinato um trabalhador deslocado de sua região natal, que perde o contato afetivo com a mulher, o filho e a família.
O terceiro caso traz a bela Zhao Tao, a mulher do diretor, que faz uma moça que trabalha como recepcionista de uma sauna e não consegue que seu amante largue a mulher. Por acaso, ele deixa um canivete com ela, que não vai servir para descascar maçãs.
E a comovente quarta história, envolve um jovem que tenta ajudar a família mas não consegue e é pressionado até seu limite, tragicamente.
Frente ao que restou de um passado milenar, um pagode e muralhas cercando uma cidade desaparecida, a cantora de ópera chinesa pergunta para uma plateia silenciosa:
“Você entendeu o seu pecado?”
A universalidade de “Um Toque de Pecado” fala da grandeza desse mestre do cinema, de 43 anos, que, falando da China, fala também de toda a humanidade.