terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Carol

 
“Carol”- Idem, Reino Unido, 2015
Direção: Todd Haynes

Tudo começa num bar, uma cena que vamos ver de novo perto do fim do filme. Logo, um longo “flashback” vai contar a história de Carol (Cate Blanchett) e Thérese (Rooney Mara).
Em tudo diferentes, a loira e a morena se conheceram numa loja de departamentos de Nova York, anos 50, onde Thérese trabalha na seção de brinquedos. Miúda, rosto de boneca, cabelos semi longos numa fita e franjinha, ela usa um gorro de Papai Noel, como todos os funcionários da loja, na semana do Natal. Veste-se em preto e branco e não está maquiada.
Carol é alta, loira, sofisticada e extremamente sedutora. Seu casaco é um “golden sable” que nela, combina com tudo. Até com sua natureza selvagem. Nos cabelos, traz um aplique gracioso, da cor da blusa presa com um broche precioso, bem diferente do gorro de Thérese, o que sublinha ainda mais a diferença social entre as duas. Bem cuidada no mais ínfimos detalhes, Carol é a imagem da perfeição burguesa.
Ela procura uma boneca para sua filha mas o brinquedo está esgotado. Pergunta então a Thérese o que sugeriria em troca:
“- Um trenzinho. Sempre quis um quando pequena.”
É o primeiro sinal de uma possível intimidade entre as duas, sinalizada pela pergunta da mais velha e pela resposta sonhadora da mulher mais jovem. E então, Carol esquece” suas luvas sobre o balcão.
Nada é por acaso nesta cena imaginada por Patricia Highsmith
(1921-1995), escritora americana, autora do livro “The Price of Salt” de 1953, no qual o filme de Todd Haynes se baseou. E, no entanto, a história entre as duas começa por acaso.
Na troca de olhares intensos de Carol e os mais tímidos e enviesados de Thérese, adivinhamos que há uma grande atração entre aquelas duas. Algo muito forte vai acontecer. Todos os elementos principais foram apresentados.
E, na plateia, sentimos aquele desconforto que aparece nas pessoas sensíveis quando adivinham sofrimentos. Tanto nos anos 50 do século passado como agora, pessoas que são como Carol e Thérese não podem viver sem sobressaltos. A homossexualidade ainda é um tabu. Principalmente quando se trata de mulheres. Tanto que Patricia Highsmith, uma autora respeitada, teve que adotar um pseudônimo, Claire Mogan, para escrever a história do romance entre duas mulheres.
Até quando as pessoas vão se incomodar com o fato de que existem mulheres como Carol e Thérese?
Mas até por isso, “Carol” é um filme bem-vindo. Ajuda a chacoalhar a mentalidade tacanha de alguns e talvez abra caminho para um sentimento de compaixão para com todos aqueles que precisam viver amores proibidos e, portanto, mais complicados e sofridos.
O diretor californiano Todd Haynes, 54 anos, fez um filme de uma beleza invulgar e soube dosar todos os elementos para que a plateia possa perceber o nascimento de uma história de amor, suas dificuldades e sua força.
Tecnicamente falando, o filme é bem trabalhado nos detalhes com o cuidado de não cair no puro esteticismo. Há uma magnífica recriação de época pela designer de produção Judy Becker, a fotografia de Edward Lachman encontra ângulos, closes e cores perfeitas na tradução dos estados de alma das personagens, os figurinos de Sandy Powell mostram a evolução psíquica das duas mulheres e a troca entre elas: Thérese amadurece e desabrocha e Carol abandona uma frivolidade defensiva, que já não lhe serve.
As duas atrizes estão esplêndidas. Percebe-se que viveram suas personagens com entrega total. Cate Blanchett também foi produtora do filme e faz Carol com paixão. Rooney Mara revela-se um talento à altura do que é solicitado. Ela é a mais equilibrada das duas personagens e, mesmo assim, quanta vibração ela empresta à sua Thérese.
Muitos prêmios virão. Merecidos.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Labirinto de Mentiras

 
“Labirinto de Mentiras”- “Im Labyrinth des Schweigens”, Alemanha, 2015
Direção: Giulio Ricciarelli

Nosso personagem herdou do pai o lema “Veritas” e tornou-o seu. Lutou contra forças extraordinárias, tudo em nome de descobrir uma verdade que quase todos queriam esconder.
O jovem promotor Johann Radmann (o único personagem fictício do filme, um composto de três promotores que lideraram a história que vai ser contada), começa sua carreira em Frankfurt em 1958, em plena reconstrução da Alemanha, que, dividida em duas, quer se esquecer da guerra da qual saiu derrotada e olhar para o futuro.
Ele está no início de sua carreira, e tem que se ocupar com pequenas questões burocráticas, como infrações de trânsito, mas sonha com grandes causas.
Quase sem querer, depara-se com Auschwitz:
“- A maior catástrofe da humanidade, esquecida e silenciada!”
No corredor da promotoria, grita um jornalista, indignado pelo fato de um professor ter sido reconhecido como um dos nazistas que trabalharam no campo de concentração.
Todos os que escutam seus protestos violentos ficam constrangidos mas desinteressados. Só Johann Radmann se sensibiliza pelo caso.
Na verdade, o jovem promotor vai se deparar com um muro de silêncio em torno ao assunto dos nazistas e os crimes cometidos durante a Segunda Guerra. Todos haviam prescrito, menos o de homicídio. Mas como conseguir provas?
Os próprios americanos não estavam nem de longe preocupados com isso. E tentavam tirar a ideia da cabeça do promotor:
“- Mas já houve o Julgamento de Nuremberg...”, diziam para ele.
“- Foi um julgamento conduzido pelos Aliados. Eu quero que a justiça alemã condene os criminosos que trabalharam em Auschwitz”, repete Radmann, incansável.
E tinham sido 8.000 alemães, todos suspeitos de executar ou mandar executar centenas de milhares de judeus no campo na Polonia.
Radmann tem o apoio do Procurador-geral Fritz Bauer, judeu, que o encarrega do caso. Esse personagem-chave é interpretado com talento por Gert Voss, que morreu antes da estreia do filme, a quem ele é dedicado.
Vemos o promotor enfrentar a tudo e a todos, na esperança até de capturar, em Buenos Aires e trazer para ser julgado na Alemanha, o próprio Josef Mengele, o “Anjo da Morte”, médico que praticara atrocidades em Auschwitz, especialmente com gêmeos que ele levava para seu laboratório de experiências perversas.
Essa história real, contada em “Labirinto de Mentiras”, que mexe com a consciência de culpa e o uso coletivo de um mecanismo de negação da realidade vivido por uma nação, foi o filme escolhido para representar a Alemanha no Oscar 2016.
Primeiro longa do italiano Giulio Ricciarelli, o filme busca a sobriedade e foge do sensacionalismo. Num acerto, os depoimentos das vítimas de Auschwitz, em 1963, não são ouvidos mas uma música de timbre judaico, com violinos tristes, nos sensibiliza para o que adivinhamos que está sendo dito.
“- Senhores, hoje estamos fazendo História”, diz o Procurador-geral ao promotor Radmann e a todos que o cercam, pouco antes de entrarem no tribunal.
O Julgamento de Frankfurt marcou uma virada na justiça alemã, que julgou e condenou os criminosos nazistas culpados de homicídios em Auschwitz.
Um filme que, sem ser uma mega produção, chama a atenção para algo importante que não pode ser esquecido pela humanidade: cuidado, porque o homem é o lobo do homem.
Nunca deve ser esquecido que todos somos iguais e temos os mesmos direitos à vida. Isso é sagrado.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força

 
“Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força”- “Star Wars -The Force Awakens”, Estados Unidos, 2015
Direção: J.J. Abrams

Levou um tempinho, mas aquela antiga emoção conseguiu ser recuperada. Confesso que foi quando vi Harrison Ford que meu coração se aqueceu e pude voltar às imagens do filme como se reencontrasse um velho amigo.  Afinal, 38 anos é muito tempo.
Mas acho que esta sensação de precisar dos velhos e bons personagens como Han Solo (Harrison Ford), a princesa Leia (Carrie Fsher) e Chewbacca, não fui só eu que senti. Sou fã da trilogia e para me interessar por esse novo episódio, passado tanto tempo na minha vida e na deles, algo tem que servir de âncora para as memórias e para que seja criado um espaço para o novo.
Dos personagens de agora, a que mais me seduziu e atraiu minha emoção foi, sem dúvida, a Rey (Daisy Ridley, 23 anos, estreante em longas). Mocinha bonita, valente, bem informada, atlética e inteligente, ela encarna o ideal feminino contemporâneo. Com seu jeitinho competente, autossuficiente mas também simpático, apesar de um pouco tristinha, principalmente no começo do filme, é ela que nos leva para os novos cenários.  É com ela que conhecemos os novos personagens. Ela é a nossa guia, nesse mundo antigo e novo.
Um dos novos personagens que faz par com Rey é Finn (John Boyega), um soldado da Ordem que passa para o outro lado. Como Rey, ele também não conheceu seus pais porque foi roubado de sua família e treinado para ser um Stormtrooper.
Um achado é o personagem do novo dróide que também nos cativa, BB-8, duas bolinhas, a cabeça e o corpo rolando, falando uma língua que só Rey entende e que é disputado por todos, já que leva em si um segredo da Resistência.
Mas o R2-D2 também aparece para fazer uma parceria inusitada. E o velho C3PO, todo dourado e com corpo e cara de gente, está de braço vermelho, não sabemos nem lembramos o porquê. Mas é bom revê-lo.
O vilão pertence à agora chamada Primeira Ordem, antigo Império, chama-se Kylo Ren (Adam Driver), é moço bonito mas corta o nosso coração com a cena mais triste do filme.
“O Despertar da Força” não tem exagero de cenas feitas por computador, o que é muito bom, porque nos devolve o clima original da história, contada de uma forma diferente das artificialidades atuais. É claro que há voos espetaculares, fugas e perseguições assombrosas mas o forte continua sendo a boa e velha simpatia e torcida pelos nossos heróis. E a emoção e o nó na garganta não passarão de moda nunca.
Por essas e por outras, não me arrependi de ter ido ver o filme dublado, porque não consegui as entradas que eu queria para o primeiro fim de semana de estreia em São Paulo. Cinemas lotados em todas as sessões.
Valeu.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Macbeth - Ambição e Guerra



“Macbeth – Ambição e Guerra”- “Macbeth”, Reino Unido, França, Estados Unidos, 2015
Direção: Justin Kurzel

Uma história como a de “Macbeth”, tão conhecida, encenada e filmada por gênios, parecia não guardar nada de novo. E, no entanto, quanta coisa interessante a natureza humana dos personagens de Shakespeare tem ainda para mostrar, a quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, nessa versão de Justin Kurzel, que se lê nas entrelinhas, nos sussurros, nos olhares encobertos e dissimulados.
Tudo começa com a morte do filho ainda criança do casal. Os rituais fúnebres e do luto, o pesar, o silêncio em torno ao pequeno cadáver. Fogo consome o corpinho mas não aquece o frio dos corações enlutados.
E a canção macabra das feiticeiras, a velha, a de meia idade com o bebê no colo e a menina:
“- O belo é feio, o feio é belo...”
Tudo ali vai mudar. A inversão do que seria esperado. A surpresa vai acontecer. A perda e a raiva vão superar o bom senso.
Paisagens vastas dão lugar a campos de neblina onde só se veem os vultos dos homens. Rostos pintados de negro, preparam-se para a batalha. Quando soa a hora, correm para o corpo a corpo com o inimigo. Enfrentam-se com ferocidade. O sangue jorra junto à lama.
E o guerreiro Macbeth vê as feiticeiras:
“- Serás rei...”
Elas estão fora ou são projeções de sua mente, já tomada pela loucura? O que dizem são profecias ou desejos loucos?
Vencida a batalha, o rei recebe seus nobres e dignifica Macbeth.
Pobre rei que não sabe o que o espera. Pobre reino da Escócia que irá presenciar tantos horrores. Pobre Macbeth que, quanto mais consegue o poder, mais perde a sanidade, a possibilidade de viver bem com sua Lady, que, também infeliz, porque guiada por seus próprios demônios interiores, vai visitar o inferno.
Marion Cotillard, com sua coroa de pérolas, vestido de linho e pérolas em cascata sobre o peito, é a imagem da desolação, quando percebe que o rei seu marido, um Michael Fassbender ferido na alma, não está mais lá. Habita outro reino já. A loucura tomou conta dele. Nada restou.
Há quem diga que esse “Macbeth” do australiano Justin Kurzel está muito longe do original. Querem ver mãos sendo lavadas de um sangue imaginário, querem ouvir gritos ensandecidos.
Sem dúvida, o conceito estético do Macbeth apresentado aqui é original e sofisticado. A beleza terrível dos campos, águas e montanhas tingidos de sangue talvez sejam outra tradução do som e fúria. Os puristas podem não gostar. Eu, que sou fã das imagens que dizem mais que mil discursos, fiquei fascinada.

O Sabor da Vida

 
“O Sabor da Vida”- “An”, Japão, 2015
Direção: Naomi Kawaze

As cerejeiras estão em flor mas Sentaro (Nagase Masatoshi) não presta atenção nelas, já que seu olhos baixos só olham para o chão, seus ombros estão caídos e ele arrasta os pés quando anda, apesar de ser jovem.
Semblante vazio, recolhe os ingredientes para a loja de “dorayakis”, um doce feito de mini panquecas recheadas com pasta de feijão “azuki”. Ele é o gerente e o cozinheiro dessa pequena loja frequentada por estudantes faladeiras que não prestam atenção no que comem.
Porém, eis que ele coloca um anúncio de emprego para conseguir ajuda na cozinha e surge uma senhora já idosa, com um casaco “pied-de-poule” de lã e uma boina, que se oferece para o trabalho, com um sorriso doce.
Apesar de pedir bem pouco como salário, o gerente não vê com bons olhos a idade dela e o mais educadamente que pode, diz que não consegue empregá-la.
Mas a sra Tokue (Kirin Kiki, uma atriz comovente), não desiste facilmente e, no dia seguinte, aparece com sua pasta de feijão, fruto de uma receita secreta, para Sentaro provar.
E, claro, o doce que ela faz tem sabor de comida dos deuses, o que o próprio Sentaro, aquele que não gosta de doces, tem que admitir. A única estudante a quem o rapaz dá atenção, Wakana (Kyara Uchida), concorda e ambos se deliciam com os “dorayakis” recheados com a pasta de Tokue.
Como era de se esperar, a clientela aumenta muito e filas se formam frente ao pequeno balcão de Sentaro.
E é uma delicia seguir os passos de Tokue fazendo a pasta de feijão. É todo um ritual que ela segue, começando muito cedo e respeitando cada fase religiosamente. Na cozinha, ela observa a transformação mágica dos elementos. Qual feiticeira, conversa com o caldeirão de feijões, de onde emanam cheiros que falam de sabores únicos.
Mas Tokue tem uma doença que é um tabu milenar. A lepra sempre assustou a humanidade e, embora hoje haja cura para a hanseníase, nossa cozinheira não podia continuar a deliciar os clientes da lojinha, que passaram a ter medo dela.
O filme de Naomi Kawase (de “O Segredo das Águas”) abriu a Mostra “Un Certain Régard” do Festival de Cannes desse ano e ganhou o prêmio de melhor filme do público na Mostra Internacional de Cinema de SP. O filme foi adaptado pela própria diretora do livro de Durian Sukegawa, “An”, nome que se dá à pasta de feijão vermelho.
A mensagem simples de “O Sabor da Vida” não diminui
 seu valor. Parece que, quando uma pessoa tem uma dificuldade na vida, como Tokue tem a sua doença, ou ela se torna amarga e revoltada ou, como acontece na nossa história, cada instante da vida é saboreado como uma dádiva.
Assim como apreciava a beleza das cerejeiras, Tokue também criava beleza com sua cozinha meticulosa e paciente.
A senhorinha teve uma vida melhor que muita gente que vende saúde. Ela confidenciou às estudantes que comiam, agora com prazer, os seus doces, que gostaria de ter sido professora. E ela foi, já que ensinava a viver o lado bom da vida, que sempre existe.
Uma lição a ser aprendida, esse “O Sabor da Vida”.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Olhos da Justiça


 
“Olhos da Justiça”- “Secret in their eyes”, Estados Unidos, 2015
Direção: Billy Ray

Tudo aconteceu por causa de Julia Roberts, 48 anos, Oscar em 2001 por “Erin Brockovich”. Ela leu o roteiro do diretor Billy Ray de “Olhos da Justiça” e palpitou muito. Queria um papel que a fizesse desaparecer. Usou lentes de contato que tornaram seus olhos opacos, prendeu o cabelo e a boca abandonou o sorriso e contorceu-se para baixo.
Roberts chamou o marido Danny Moder para ser o diretor de fotografia e deve ter pedido um salário à altura. Não foi ela a primeira mulher a receber 20 milhões de dólares pelo papel em “Erin Brockovich”? Faz ela muito bem. Equiparação salarial com os homens, é ainda algo pelo que se tem que brigar não só em Hollywood.
Sua personagem era para ser lésbica no roteiro original e perder a mulher num assassinato. A Jess de Julia Roberts, ao invés disso, perde a filha de 20 anos, a única coisa boa da vida dela, que é policial de um esquadrão anti-terrorismo.
Em Los Angeles, 2002, a paranoia do ataque às Torres Gêmeas em Nova York, um ano antes, faz todo mundo ver terrorista por toda a parte.
Ray (Chiwetel Ejiofor) e Jess (Julia Roberts) trabalham  bem junto e os dois se abalam profundamente com o estupro e o assassinato da filha de Jess. Ray sente-se culpado por não conseguir provar nada contra o suspeito, um rapaz que frequenta uma mesquita, próxima de onde encontraram o corpo da vítima e que pode estar envolvido em terrorismo.
Numa foto de um piquenique, ele olha para a garota com olhos de cobiça.
No segundo tempo do filme, em 2015, Ray está aposentado mas não conseguiu se esquecer um só minuto do caso da filha de Jess. Volta a Los Angeles e também revê uma paixão não correspondida, que era de Homicídios e agora é promotora (Nicole Kidman, que não mudou nem um fio de cabelo desde 2002).
Já Jess dá um susto em Ray:
“- Nossa! Você parece que envelheceu um milhão de anos...”
Por acaso você viu “O Segredo dos Seus Olhos”, filme argentino de 2009, dirigido por Juan José Campanella, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010? Se viu, vai ficar decepcionado, porque o roteiro desse thriller, uma adaptação do filme argentino, não tem nada a ver nem com o clima emocional, nem com a atuação intimista e divertida de Ricardo Darín e Guillermo Francella (o estupendo Arquimedes Puccio de “O Clã”). Nem muito menos com o charme e o romance contido entre Darín e Irene Menéndez Hastings, que só tem em comum com Nicole Kidman, o fato de ser a chefe de Darín, como Kidman era chefe de Ray quando aconteceu a tragédia.
O clímax do final vira uma coisa chocha e a substituição do personagem de Pablo Rago, cuja bela mulher é estuprada e assassinada, nos anos 70, pela Jess de Julia Roberts e a filha, não acrescenta nada ao filme, ao contrário, diminuiu o suspense e o apelo.
Pena. Parece que a presença do diretor do filme argentino, Juan José Campanella como diretor executivo, não ajudou ou até atrapalhou Billy Ray, que fez tudo ficar tão diferente, que o encanto da história misteriosa e romântica, naquele prédio antigo e imponente em Buenos Aires, atulhado de processos, se perdeu.
Fui correndo rever “O Segredo dos Seus Olhos” e recuperei o que “Olhos da Justiça” quase roubou de mim. Nada como o original.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Mia Madre


“Mia Madre”- Idem, Itália, França, 2015
Direção: Nanni Moretti

Certos momentos na vida são difíceis de ser vividos. Nunca é fácil lidar com perdas. E, portanto, o luto é um trabalho pesado e longo. E nem sempre começa depois
da morte do ente querido. Algumas vezes, ele antecede à morte, que já é esperada, mas custa a acontecer.
Margherita (Margherita Buy, excelente), diretora conhecida por seus filmes que não são escapistas e que enfrentam a realidade, está no meio das filmagens. As cenas iniciais são desse filme, dentro do filme de Nanni Moretti. Ele disse, no Festival de Cannes, que o filme “Mia Madre” nasceu da experiência da morte da mãe dele, há alguns anos.
O fato de Magherita estar fazendo um filme, ao mesmo tempo em que sua mente se ocupa com a mãe hospitalizada, interfere fortemente na maneira quase rude com que trata os artistas e os técnicos.
Ela não consegue escapar da dura realidade em que vive. Por isso, a raiva e a culpa, elementos onipresentes quando se trata da morte, a acompanham onde quer que ela vá.
Controladora, Margherita vê tudo lhe escapar por entre os dedos, como areia fina. E, quanto mais avançam os filmes, o que estamos vendo e o que a diretora está filmando, parece que tudo se atrapalha, que os nervos estão à flor da pele.
A presença de um ator americano, Barry Huggins (o maravilhoso John Turturro),esquecido no aeroporto por um assistente, faz Margherita ir apanhá-lo pessoalmente. Ela quer interferir em tudo. E ele é falastrão e irrita mais ainda a diretora porque, ao contrário dela, ele não se inibe, faz do descontrole uma arte e, mesmo assim, angaria simpatias entre a trupe do filme, enquanto que Margherita mal consegue disfarçar o tumulto interno que vive, a duras penas.
E como seria diferente? O irmão, vivido por Nanni Moretti comporta-se de maneira mais sensata. Pediu licença do seu trabalho e ocupa-se da mãe no hospital e de si mesmo.
Um sonho de Margherita ilustra seu desejo de que tudo fosse diferente. Na frente de um cinema, o anjo de “Asas do Desejo”, de Wim Wenders, recebe as pessoas que vão ver o filme. Mas não há nenhum nome no cartaz. Todos ali vieram ver o filme dela. A mãe, o irmão que tenta dizer a ela para ser mais livre, mais criativa, ela mesma, muito jovem discutindo a relação com quem imaginamos ser o pai da filha dela, que diz:
“- Você não imagina o quanto faz sofrer aqueles que te amam?”
Em outro, ela fica brava porque a mãe está guiando o carro dela sem a carteira de motorista em dia, assume a direção e destroça o carro, batendo repetidas vezes no muro.
Ainda outro sonho e nesse, ela descobre o corpo morto da mãe, debaixo das cobertas do hospital.
Tudo pesa. O desejo é de escapar, fugir, não viver o que se sabe que vai acontecer.
Dentre todos os envolvidos, a mãe (Giulia Lazzarini) é quem mostra maior serenidade, muito próxima da neta. Uma professora que foi amada e respeitada pelos ex-alunos que ainda a visitam.
Um olhar de Margherita no hospital, seguindo outra filha que, carinhosa, passa creme e massageia as mãos da mãe, também doente como a dela, sugere que ela gostaria de demonstrar melhor o amor que sente pela mãe.
E, uma última visão sonhada/alucinada nos mostra a mãe de Magherita no espelho e ela pergunta:
“- Mama, no que você está pensando?”
“- No amanhã.”
Claro, naquele que virá para todos nós.
Comovente. Inspirado. Enriquecedor.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O Clã



“O Clã”- “El Clan”, Argentina, Espanha, 2015
Direção: Pablo Trapero

Aquele dono de uma rotisseria em Buenos Aires, que varre a calçada todas as manhãs, parece um cidadão pacato, pai de família, cumpridor de seus deveres.
Interpretado com eficiência assustadora por Guillermo Francella, Arquimedes Puccio passa desapercebido na vizinhança.
Dos cinco filhos, dois garotos e duas mocinhas moram com o pai e a mãe Epifania (Lili Popovich) e o filho mais velho vive na Nova Zelândia. O pai orgulha-se de Alejandro (Peter Lanzani), jogador de rúgbi na seleção nacional da Argentina.
Quem não sabe do que se trata o filme, fica confuso porque não entende as rápidas cenas iniciais de pessoas entrando com violência na casa da família Puccio em 1985, no final de tudo.
Voltamos no tempo para 1982 e, durante a comemoração da vitória dos Pumas, time de rúgbi argentino, Ricardo Manoukian é apresentado a Alejandro Puccio. Todos ali parecem pessoas de classe média alta, vestem-se bem e brindam à vitória.
O susto portanto é enorme, quando vemos o pai de Alex, cúmplices e o próprio Alex, sequestrarem Ricardo Manoukian, arrastando-o para o porta-malas do carro.
E o mais terrível. O rapaz está encapuzado e amarrado com correntes no banheiro do piso superior da casa, gritando por socorro, quando Arquimedes leva um prato de comida para ele, preparado pela mulher.
Casa modesta, paredes finas, impossível que os outros não escutassem o que se passava de horror, colado à vida que levavam.
Arquimedes, que fizera parte do serviço secreto da ditadura militar argentina (1976-1983), não queria abrir mão dos serviços que prestara aos militares, sequestrando e eliminando os inimigos do regime. Continuava frequentando reuniões, achava que a democracia do governo Alfonsín não iria durar e mudara o foco. Passou a sequestrar pessoas ricas.
Frieza e eficiência, aliadas à certeza da impunidade, já que era protegido dos militares, faziam com que Puccio não hesitasse em torturar suas vítimas, para obter cartas que emocionavam as famílias e incentivavam o pagamento do resgate.
Com pavor, assistimos à execução sumária dos reféns, antes mesmo de Puccio entrar na posse do dinheiro extorquido.
Quanto ao filho Alex, vemos ele dobrar-se à uma obediência cega ao pai, que exercia domínio completo sobre a família. Claro que também entra no cenário do filho, a ganância pelos dólares que o pai fornecia como recompensa.
O que mais choca é a contaminação que um regime de exceção exerce sobre os participantes e, muito pior, sobre todos os que se prestam à corrupção. A psicopatia dos Puccio é um fato. A situação de impunidade, o incentivo a exercê-la plenamente.
A trilha sonora de música pop dos anos 80 é o toque de ironia final do diretor Pablo Trapero (“Abutres”2010, “Elefante Branco”2012)
Produzido pelos irmãos Agustín e Pedro Almodóvar, “O Clã” fez a segunda maior bilheteria do cinema argentino com quase 2 milhões de espectadores. Trapero ganhou o prêmio de melhor direção no festival de Veneza, o Leão de Prata e seu filme foi pré-indicado ao Oscar pela Argentina.
É com espanto que ficamos sabendo dessa história verídica dos Puccio e de outra mais recente. Porque em 1991, o atual presidente da Argentina, filho de uma das famílias mais ricas do país, Macri, foi sequestrado pela “gangue dos policiais” e ficou 12 dias no cativeiro, libertado após um resgate de U$6 milhões. Assustador. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Pecados Antigos, Longas Sombras


“Pecados Antigos, Longas Sombras”- “La Isla Mínima”, Espanha 2014
Direção: Alberto Rodriguez

Lindas imagens de Hector Garrido ilustram os créditos iniciais. Parecem quadros abstratos, com verdes, azuis, cinzas e tons terrosos. Só aos poucos, percebemos que as imagens são do solo, tomadas de muito alto. Vamos nos aproximando e bandos de pássaros voam, cruzando os ares, barcos estão nos braços do rio, que nos seus meandros recorta as ilhas e se parece com um cérebro ou intestino humanos agigantados.
Esse olhar que vai do longe para o perto é um dos movimentos que vamos ver nessa história policial, acontecida na Espanha, numa região distante das grandes cidades, onde ainda reina a tradição espanhola de uma cultura conservadora e machista, com regras não escritas que sempre favorecem os poderosos.
Não podemos nos esquecer que o franquismo imperou na Espanha de 1939 a 1976, com o Generalíssimo Francisco Franco governando com punho de ferro. E a Espanha das aldeias é ainda franquista quando o filme começa, em 20 de setembro de 1980, apesar do ditador ter morrido há já cinco anos.
Uma dupla de policiais chega à pequena vila andaluz onde desapareceram duas jovens irmãs, de 15 e 17 anos.
Quando perguntam sobre elas, ficam sabendo que gostam de se divertir mas que sempre voltam para casa. Mas, dessa vez, não foi isso que aconteceu.
Visitam a casa das garotas e o pai os recebe muito mal. A mãe, escondida do marido, passa para os policiais algo que encontrara no braseiro do fogão: um pedaço de negativo de um filme meio queimado, que mostra as jovens seminuas, em uma cama, com um homem que tem um triângulo tatuado na mão. Parece haver outra pessoa, que fotografa as cenas.
A dupla de policiais se mostra bem diferente no modo de agir e ser. Enquanto Juan (Javier Gutiérrez) é mais truculento, gosta de beber e se misturar à noite com as pessoas que frequentam o bar, Pedro (Raul Arévalo) telefona para casa em Madri para saber da mulher grávida.
Politicamente, vamos ouvir, ao longo do filme, que os dois não são partidários das mesmas ideias políticas:
“- Você não deveria ter escrito aquela carta contra o General, Pedro. Os militares ainda tem muito poder. Por isso te tiraram de Madri.”
Juan, o mais velho, é bruto e às tantas, um jornalista o acusa de ter participado da polícia secreta de Franco e matado muita gente.
As coisas parecem diversas do esperado quando se investiga de perto. É difícil fazer as pessoas falarem. Há muitos segredos bem guardados na cidadezinha.
O fato é que as moças são encontradas mortas, com marcas de tortura e estupro. Os corpos, largados num dos canais do rio, foram assassinados longe dali. Não há traços de sangue no local.
Pior, desde 1977 desapareceram moças das famílias que habitam a região. Sempre na época das feiras, talvez porque a movimentação é maior e fica mais difícil rastrear o paradeiro delas.
Há um moço bonito, Quini, “El Guapo”(Jesus Castro), que namora uma amiga das assassinadas e os policiais desconfiam que há algo errado numa casa alugada para caçadores, onde ele leva a namorada.
“La Isla Mínima”, nome original do filme dirigido por Alberto Rodriguez, ganhou 10 dos 17 Goyas, o Oscar espanhol, inclusive melhor filme e melhor diretor. E é mais do que uma história de uma investigação policial. Parece dizer que há algo doentio entranhado na sociedade espanhola que mantém a impunidade, sustentando muita coisa errada, guardada em segredo.
A lição a se tirar talvez seja a de que quanto mais uma sociedade acoberta os seus culpados, quem mais sofre são os mais fracos, as vítimas com que ninguém se importa.
Um filme diferente.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Pegando fogo


“Pegando Fogo”- “Burnt”, Estados Unidos, 2015
Direção: John Wells

Ele tinha sido um ótimo “chef” de cozinha. É o próprio Adam Jones (Bradley Cooper) quem conta isso para o público, em “off”:
“- Jean Luc foi o meu mentor. O cara que me ensinou tudo. Como um jovem “chef”, eu tentei... Eu era bom. Certas noites eu fui tão bom quanto eu mesmo achava que eu era... Pelo menos é o que dizem. Daí, destruí tudo.”
Ele tinha conseguido duas estrelas no Michelin, em Paris. Mas seu passado conturbado, que se adivinha aqui e ali, o levava a um comportamento auto-destrutivo. Drogas, envolvimento com traficantes e álcool.
A penitência foi abrir um milhão de ostras.
Ele vai para Londres e tem a intenção de tentar outra vez. Diz que não se lembra do que aprontou durante os surtos com as drogas. Parece que tem muita coisa que precisa ser esquecida ou perdoada. E muito dinheiro que ele deve para o pessoal das drogas.
Remonta sua equipe de Paris (Omar Sy). Até na cadeia vai buscar um deles (Riccardo Scamarcio). E convida Hélène, uma sub-chefe de um restaurante chic para trabalhar com ele.
Para um outro, ele pergunta:
“- Quanto você me pagaria para trabalhar comigo?”
Ele é assim. Arrogante, malcriado mas tem um charme irresistível, olhos muito claros e sabe cozinhar com criatividade.
Quando marca um encontro com Hélène no BurgerKing, ela estranha e ele diz:
“- Esqueceu de quem ganha salário mínimo? A comida aqui é para a classe trabalhadora. São camponeses fazendo comida para camponeses”, aponta irônico e mordaz.
Ele marcou um ponto e sabe disso mas ela também é dura na queda e responde:
“- Sr Jones, estou feliz no meu emprego. Boa sorte.”
Esses dois são teimosos mas ela acaba cedendo e ele sonha com a terceira estrela para o restaurante de Jean Luc, que ele está comandando e onde Tony (Daniel Bruhl), o maitre, é apaixonado por ele.
O “chef” é temperamental como uma diva de ópera e joga fora tudo que ele acha que não está à altura. É o jeito dele. Comanda a cozinha aos berros e atira coisas nas pessoas.
Mas filmes com “chefs” e comida, são geralmente agradáveis de se ver. E esse filme é um deles.
O roteiro é previsível mas o ponto forte é a cozinha do restaurante. Impressionante como Cooper lida bem com tudo aquilo. Ele contou numa entrevista que foi aprendiz de cozinheiro aos 18 anos:
“- Eu me sinto muito confortável numa cozinha, o que foi uma grande coisa. Acho que ajudou porque não tínhamos dublês para cozinhar. Fazíamos tudo.”
A cor dos ingredientes, a montagem dos pratos, o ritmo de preparo de tudo com cuidado, carinho, arte. É fascinante. E a fotografia do brasileiro Adriano Goldman foi fundamental nessa parte.
Depois de “O Lado Bom da Vida”, “Trapaça” e “Sniper Americano” será que Bradley Cooper pode conseguir outra indicação para o Oscar com esse filme?

O Presente


“O Presente”- “The Gift”, Austrália, Estados Unidos, 2015 
Direção: Joel Edgerton

Sentimentos rancorosos há tempo enterrados, quando emergem, podem causar estragos inimagináveis, porque cresceram na sombra, esquecidos, sem a supervisão do bom senso.
Simon (Jason Bateman) está feliz com a mudança de Chicago para a sua Califórnia natal. A proposta do novo emprego é irrecusável e ele vai tentar fazer uma carreira fulminante. Ele é ambicioso e egoísta mas acha que é assim mesmo que se tem que ser, para enfrentar o mercado dos muito jovens concorrentes.
Já sua mulher Robyn (Rebecca Hall) não esconde um ar tristinho. Ela é paciente e tolerante. Mas a recente perda do bebê mexeu profundamente com ela e, além disso, teve que fechar sua promissora empresa de design, para acompanhar o marido na nova vida.
Ela tenta se adaptar sem reclamar e Simon acha que ela está feliz. O cão Bojangles, que ganhou de seu pai, é o companheiro de Robyn, que fica sozinha durante o dia na nova casa, toda cercada de janelas de vidro, enquanto Simon vai para o escritório.
Certo fim de tarde, numa loja para uma compra rápida, Simon é abordado por um rapaz que parece conhecê-lo.O contrário não é verdade, mas o outro diz que estudou com ele e, de repente, Simon lembra-se do apelido, Gordo.
O ex-colega é alto, usa um cavanhaque e há algo estranho nele. Ou seria timidez?
Robyn é rapidamente apresentada e pega seu telefone, enquanto Simon dá ao vendedor o endereço para a entrega.
Qual não é a surpresa do casal quando encontra uma garrafa de vinho na frente da porta da casa, com um bilhete num envelope vermelho, de Gordon Mosley. Robyn fala em agradecer mas Simon não parece entusiasmado com a gentileza.
E Gordo aparece de surpresa no dia seguinte, quando Simon não está, levando uma lista de endereços úteis para Robyn. Convidado a visitar a casa, conversando, acaba descobrindo sobre o bebê que Robyn perdeu.
E Gordon vai ficando e acaba sendo convidado para jantar, durante o qual insiste em contar histórias sobre os tempos da escola:
“- Robyn, sabia que Simon era presidente da classe? Sempre foi muito convincente. Tinha até aquela famosa frase “Simon says”, (“Simon disse”), lembra?”
Gordon já estava um pouco “alto” e Simon diz, discretamente, para Robyn não servir mais vinho.
Quando ele vai, Simon desabafa a irritação:
“- Esse sujeito vai ser sempre desagradável. Sabe como o chamavam? “Weirdo”(Esquisito). Crianças são sinceras. Ele me deixou bem desconfortável com aquelas histórias...”
“- Crianças são cruéis... Vai ver ele era apenas um incompreendido”, retruca Robyn.
Quando voltam de um jantar no dia seguinte, outra surpresa aguarda o casal. Peixes ornamentais para o espelho d’água da casa. Gordo, claro.
“- Temos que agradecer”, diz Robin.
“- Entrando na nossa casa sem convite?Esse cara está passando dos limites”, estranha Simon.
E, de novo, lá está Gordo na janela acenando para Robyn, no dia seguinte. Ela o convida para o chá e ele instala a TV. Mas quando procura o lixo, passa por seu número de telefone na geladeira e vê seu nome riscado e o apelido infantil, “Equisito”, escrito em cima.
Robyn fica sem graça mas Gordo revida com um convite para jantar na casa dele. Eles hesitam mas vão.
E serão muitas as surpresas que o Gordo reserva até o fim do filme.
Em seu primeiro longa, Joel Edgerton dirige, escreve o roteiro, muito bom por sinal e faz o ex-colega estranho. Consegue criar um suspense psicológico, sem sustos baratos.
Estreia promissora do australiano, como diretor e roteirista. Bom ator, já sabíamos que ele era. Atua com talento ao lado de Johnny Depp em “Aliança do Crime”.
“O Presente” é um filme pequeno mas bem envolvente.

sábado, 5 de dezembro de 2015

À Beira Mar


“À Beira Mar”- “By the Sea”, Estados Unidos, 2015
Direção: Angelina Jolie Pitt

O Citroen conversível vai pelas estradinhas e leva um casal glamuroso. A ilha de Malta, com seu mar azul e falésias altas de pedra clara, parece um destino romântico para aquela dupla bonita e bem vestida.
São os anos 70 e ela usa um chapéu com estampa de onça e enormes cílios postiços. Chegam numa prainha branca, com uma baía quase que se fechando em círculo.
Passam pelo bar do local e o dono, Michel (Niels Arestrup), os leva a uma antiga mansão sobre os rochedos, o hotel.
“- Eu sou Roland (Brad Pitt) e essa é minha mulher Vanessa (Angelina Jolie Pitt), apresenta ele ao francês.
O casal entra no quarto com suas malas Vuitton e , imediatamente, mudam a posição dos móveis. A escrivaninha vai para a frente da porta-janela que abre para um terraço. De uma valise de couro sai uma máquina de escrever vermelha.
Roland senta-se à escrivaninha, enquanto Vanessa o observa, deitada na cama, fingindo ler uma revista.
Nenhuma palavra. O clima entre os dois parece tenso.
Dia seguinte, ela de camisola e robe de seda e rendas negras, parece pior do que no dia anterior.
“- Vá escrever, eu fico bem”.
Roland manda um beijo falado, pega o chapéu e sai.
Para quem ela telefona? O número toca, toca mas ninguém atende.
Roland passa seus dias mais bebendo do que escrevendo no bar, sempre sózinho. Conversa com o dono e fica sabendo que ele ficou viúvo há um ano e ainda não se conformou. Vive olhando o retrato da falecida. E , surpreso porque ele está sempre só, pergunta ao escritor:
“- Onde está sua mulher?”
“- No hotel.”
“- Estão casados há quanto tempo?”
“- 14 anos.”
“- Ela parece agradável...Vou lhe dar um conselho que você não me pediu. Ame-a.”
“- Ah! Ela não é assim tão fácil de amar...É adorável mas pode ser bem dura.”
Todas as noites ele volta tarde para o quarto e ela já está dormindo.
Muitas vezes vemos Vanessa chorando, expressando uma angústia difícil de suportar. Toma muitas pílulas. Quase não sai do quarto. Vai raramente ao terraço de onde observa um barqueiro.
Ficamos intrigados. O que será que aconteceu com ela? O marido parece preocupado. Nas poucas vezes em que ela se aproxima do mar, tememos por ela. Não parece apegada à vida.
Chega um casal de recém-casados no hotel (Mélanie Laurent e Melvil Poupard), felizes e apaixonados. Isso vai mexer profundamente com Vanessa.
Os acontecimentos se precipitam quando ela encontra, por acaso, um buraco na parede que dá para o quarto do casal. E começa a observá-los. Torna-se uma obsessão.
Quando o marido descobre, a história entra num novo patamar, onde os conflitos serão mais claros e vai acontecer uma catarse.
Somos nós agora os “voyeurs” que olhamos a intimidade do casal que observa o casal feliz.
Angelina Jolie Pitt dirige o filme e escreve o roteiro. Ela já havia dirigido “Na Terra de Amor e Ódio”2011 e “Invencível”2014. Mas “À Beira Mar”é um filme muito diferente dos anteriores. Passa para o espectador a estranha sensação de estar observando algo tão íntimo, que sentimos desconforto.
Jolie Pitt disse em Cannes que seu filme era sobre o luto e que ela estava sob o impacto da morte de sua mãe.
O filme é bonito, bem fotografado por Christian Berger, colaborador de Michael Haneke, mas o roteiro peca pela circularidade e diálogos fracos.
Imagens falam mais alto do que qualquer discurso. E o tempo passa para todos nós. Só o mar continuará impecavelmente azul na ilha de Malta, quando todo mundo já não estiver mais aqui. C’est la vie...