segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O Clã



“O Clã”- “El Clan”, Argentina, Espanha, 2015
Direção: Pablo Trapero

Aquele dono de uma rotisseria em Buenos Aires, que varre a calçada todas as manhãs, parece um cidadão pacato, pai de família, cumpridor de seus deveres.
Interpretado com eficiência assustadora por Guillermo Francella, Arquimedes Puccio passa desapercebido na vizinhança.
Dos cinco filhos, dois garotos e duas mocinhas moram com o pai e a mãe Epifania (Lili Popovich) e o filho mais velho vive na Nova Zelândia. O pai orgulha-se de Alejandro (Peter Lanzani), jogador de rúgbi na seleção nacional da Argentina.
Quem não sabe do que se trata o filme, fica confuso porque não entende as rápidas cenas iniciais de pessoas entrando com violência na casa da família Puccio em 1985, no final de tudo.
Voltamos no tempo para 1982 e, durante a comemoração da vitória dos Pumas, time de rúgbi argentino, Ricardo Manoukian é apresentado a Alejandro Puccio. Todos ali parecem pessoas de classe média alta, vestem-se bem e brindam à vitória.
O susto portanto é enorme, quando vemos o pai de Alex, cúmplices e o próprio Alex, sequestrarem Ricardo Manoukian, arrastando-o para o porta-malas do carro.
E o mais terrível. O rapaz está encapuzado e amarrado com correntes no banheiro do piso superior da casa, gritando por socorro, quando Arquimedes leva um prato de comida para ele, preparado pela mulher.
Casa modesta, paredes finas, impossível que os outros não escutassem o que se passava de horror, colado à vida que levavam.
Arquimedes, que fizera parte do serviço secreto da ditadura militar argentina (1976-1983), não queria abrir mão dos serviços que prestara aos militares, sequestrando e eliminando os inimigos do regime. Continuava frequentando reuniões, achava que a democracia do governo Alfonsín não iria durar e mudara o foco. Passou a sequestrar pessoas ricas.
Frieza e eficiência, aliadas à certeza da impunidade, já que era protegido dos militares, faziam com que Puccio não hesitasse em torturar suas vítimas, para obter cartas que emocionavam as famílias e incentivavam o pagamento do resgate.
Com pavor, assistimos à execução sumária dos reféns, antes mesmo de Puccio entrar na posse do dinheiro extorquido.
Quanto ao filho Alex, vemos ele dobrar-se à uma obediência cega ao pai, que exercia domínio completo sobre a família. Claro que também entra no cenário do filho, a ganância pelos dólares que o pai fornecia como recompensa.
O que mais choca é a contaminação que um regime de exceção exerce sobre os participantes e, muito pior, sobre todos os que se prestam à corrupção. A psicopatia dos Puccio é um fato. A situação de impunidade, o incentivo a exercê-la plenamente.
A trilha sonora de música pop dos anos 80 é o toque de ironia final do diretor Pablo Trapero (“Abutres”2010, “Elefante Branco”2012)
Produzido pelos irmãos Agustín e Pedro Almodóvar, “O Clã” fez a segunda maior bilheteria do cinema argentino com quase 2 milhões de espectadores. Trapero ganhou o prêmio de melhor direção no festival de Veneza, o Leão de Prata e seu filme foi pré-indicado ao Oscar pela Argentina.
É com espanto que ficamos sabendo dessa história verídica dos Puccio e de outra mais recente. Porque em 1991, o atual presidente da Argentina, filho de uma das famílias mais ricas do país, Macri, foi sequestrado pela “gangue dos policiais” e ficou 12 dias no cativeiro, libertado após um resgate de U$6 milhões. Assustador. 

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