domingo, 31 de maio de 2020

Mulher Solteira Procura



“Mulher Solteira Procura”- “Single White Female”, Estados Unidos, 1992
Direção: Barbet Schroeder

Aquelas meninas gêmeas se maquiando na frente do espelho, experimentando brincos e colares são uma lembrança que toda garota tem. Com a irmã ou amiguinha, a exploração do feminino começa assim. E precisa ser em dupla para uma se ver na outra. Quem é a mais bonita?
Barbet Schroeder, 78 anos, filmou “Mulher Solteira Procura” em 1992. Tinha 50 anos. Dois anos antes assinara “Reverso da Fortuna” quando Jeremy Irons ganhou seu Ocar interpretando o marido que assassina sua mulher rica da alta sociedade (Glenn Close). O cineasta também foi indicado ao Oscar por esse filme, sucesso de crítica e público.
Se observarmos os dois filmes veremos, em ambos, referências à dissimulação, inveja e maldade, tendo como objetivo roubar riquezas (o ter) e algo muito mais perverso, querer para si a identidade do outro e sua existência como pessoa (o ser).
Pena que o roteiro de Don Ross, que é uma adaptação do livro de John Lutz, não aprofunda a vertente psicológica em “Mulher Solteira Procura” porque é aí que está o ponto nevrálgico, o que fala sobre a natureza humana e a inveja do mal contra o bem, que une os dois filmes aparentemente diferentes.
Escondida no fundo do poço do humano há sempre essa face do mal que, quando descontrolada, sobe à superfície e faz estragos.
Não basta roubar o que o outro tem de bom, não basta imitar, não basta se aproximar. A sedução do mal é a do vampiro. Disfarçada de ajuda e amizade, até de amor, prepara o momento em que o pescoço do outro se oferece à mordida fatal. A dupla tem tudo a ver. Não há carrasco sem vítima.
É o que vemos nesse filme que conta a história de uma bela e estilosa ruiva, Allison Jones (Bridget Fonda), que trabalha com moda e tem um namorado atraente mas volúvel, Sam (Steven Weber). Quando ela descobre que ele transou com a ex, fica muito brava e rompe o relacionamento.
Mas Allison é insegura e não gosta de ficar sozinha. Anuncia então num jornal que procura uma moça solteira que não fume, para repartir moradia. Muitas entrevistas depois, ela escolhe Herdra Carlson (Jennifer Jason Lee), que parece tímida, boazinha e carente.
Allison e Hedy se dão muito bem nos primeiros dias. Ambas gostam das mesmas coisas e adotam um cachorrinho. Até que começam a aparecer os sinais que a outra não é o que Allison pensava que ela era. Uma escada revela uma outra Hedy.
As jovens atrizes estão perfeitas e o clima do filme só piora quando fica muito parecido com outros que já vimos.
Mas, mesmo assim, vale apena ver esse suspense.
A estética dos anos 90 é manejada com talento, tanto nos figurinos quanto na produção de arte, pela famosa italiana Milena Canonero, 74 anos agora, que teve duas indicações ao Oscar.
Atuações excelentes, clima bem criado e um bom suspense fazem desse filme uma sugestão certa para aqueles que não se apavoram com um pouco de sangue.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Elizabeth: A Era do Ouro



“Elizabeth: A Era do Ouro”- “Elizabeth: The Golden Age”, França, Reino Unido, 2007
Direção Shekar Kapur

As mais conhecidas histórias da Inglaterra contadas em filmes devem-se ao rei Henrique VIII (1491-1547), por causa de seus inúmeros casamentos e da briga com a Igreja Católica.
O primeiro com a espanhola Catarina de Aragão, viúva de seu irmão, muito católica, deu-lhe cinco filhos, dos quais sobreviveu apenas Maria, depois Maria I.
Não conseguindo que o Papa anulasse esse casamento que não lhe dera herdeiro homem, o rei decretou uma separação da Igreja Católica, fundando a Igreja Anglicana, baseada na Reforma de Lutero, da qual era o chefe.
E casou-se com a nobre inglesa Ana Bolena, com quem teve uma filha, Elizabeth (1533-1603). Podemos imaginar o sofrimento dessa pobre criança que tem sua mãe decapitada por um não provado crime de traição e incesto. Seus direitos ao trono foram retirados. A corte lhe é hostil.
Esse começo de vida atribulado vai influenciar a personalidade da menina que se retira da corte e passa a infância e a adolescência estudando em Cambridge. Voltou só em 1544 quando seus direitos ao trono foram novamente reconhecidos.
Morto Henrique VIII em 1547, foi sucedido por Eduardo VI, filho do terceiro casamento do rei com Jane Seymour, que morreu jovem e Mary I, filha de Catarina de Aragão, que fez o catolicismo voltar à Inglaterra. Seu reinado foi sangrento.
Foi destronada por Elizabeth I em 1558, que instaura a volta ao anglicanismo e será odiada pelos católicos.
Nas primeiras cenas do filme vemos uma menina vestida de rainha ser apresentada à multidão. É Mary, rainha da Escócia, prima de Elizabeth I, apresentada ao povo por Felipe II, rei do maior império da Europa, a Espanha.
A história de Elizabeth volta a ser contada pelo filme. Ela tem 25 anos e um temperamento de líder. E se sente ameaçada por Mary Stuart, rainha da Escócia e viúva do rei da França, François II, que nunca havia renunciado a seu direito ao trono inglês e que estava voltando para a Inglaterra.
Mary Stuart é filha do falecido rei da Escócia Jaime V e da irmã de Henrique VIII, Marie de Guise. Ela considerava a filha de Ana Bolena como bastarda, já que o casamento de seus pais não fora realizado com a benção da Igreja Católica.
Durou vinte anos o embate entre a bela Mary Stuart e a Rainha Virgem, como era conhecida Elizabeth I. A história das duas primas foi longa e terminou de maneira cruel. Trocaram cartas mas nunca se viram.
Cruel também foi Elizabeth para si mesma ao renunciar à paixão que sentia por Sir Walter Raleigh, optando pela felicidade de sua dama de companhia Bess, sua preferida e confidente.
E Elizabeth obrigou-se a renunciar ao amor de um homem e de um filho porque se sentia insegura e perseguida. Não queria ter dono. Queria ser ela mesma. Dedicou-se a servir seu povo e governar.
Elizabeth I, a rainha que trouxe para a Inglaterra um período de paz, prosperidade e riqueza, foi seu próprio mestre.
Cate Blanchet interpreta com uma sinceridade comovente o papel dessa rainha que tinha o poder e só lá no fundo sabia da dor da solidão que a acompanhava.
Esteticamente bem elaborado tanto nas locações, quanto nas cenas de batalhas em terra e no mar, o filme é suntuoso. E os figurinos são um show à parte. A escolha das cores e dos toques de contemporaneidade dos trajes da corte, tanto masculinos quanto femininos, demonstram competência e criatividade.
Uma história real contada com brilho e beleza.


domingo, 24 de maio de 2020

White Lines



“White Lines”- Reino Unido, Espanha, 2020
Direção: Álex Pina, Nick Hamm, Luis Prieto, Ashley Way

“White Lines”, alusão a duas carreiras de cocaína, do criador de “Casa de Papel”, Álex Pina e Andy Harries de “The Crown”, séries de sucesso na Netflix, são os autores dessa nova história que nos envolve com um clima de suspense erótico.
A locação é esplêndida. Ibiza é uma ilha no mar Mediterrâneo que pertence à Espanha, famosa por suas águas turquesa, praias de areia, uma cidade antiga, Eivissa e casas brancas dos novos habitantes que se instalaram na ilha nos últimos anos do século passado.
É Patrimônio Mundial da Unesco por suas ruinas preservadas desde a época dos fenícios, cartagineses e romanos. Tem até arquitetura da Renascença.
Mas a maior fama de Ibiza é a vida noturna, a “vida loca”. Que começa desde que as pessoas acordam. Bem tarde. Foram ver o sol nascer, antes de algumas horas de sono, porque as drogas correm soltas e são todas indicadas para quem não quer dormir e dançar a noite inteira.
Tem festas na praia em torno a fogueiras, nos clubes à beira mar, nas casas particulares e nas discotecas onde o cenário é de carnaval, com homens e mulheres fantasiados com pouca ou nenhuma roupa, muita maquiagem, bronzeados e sedutores.
Os melhores produtores de música e DJs vão todo verão europeu para Ibiza.
Nossa história gira em torno à morte de um jovem DJ inglês, Álex, que chega na ilha com amigos no fim dos anos 90. Ele tem um visual atraente, cabelos louros, muito magro e sempre muito excitado. É um líder perfeito para aqueles que querem deixar-se levar pelo “carpe diem”.
Sua irmã Zoe, que o adorava, não pode segui-lo para Ibiza porque era muito jovem. E entra em profunda depressão. Houve até uma tentativa frustrada de suicídio. A mãe dos dois morrera quando eram muito crianças e o apego entre os irmãos baseou-se na carência afetiva mútua. O pai, apaixonado pela mulher, não tinha espaço em seu luto para os filhos.
Sendo assim, Zoe vai para um internato e Álex para Ibiza. A história do filme vai começar 20 anos depois, quando um esqueleto, identificado como sendo Álex, é encontrado em terras da ilha. A lenda que corria sobre sua estranha desaparição é que teria ido para a Índia e lá ficado.
Quando a bela Zoe (Laura Haddock) fica sabendo que acharam os restos mortais do irmão em Ibiza, corre para lá, com o marido e uma filha de 14 anos. Há sinais evidentes de que a morte de Álex (Tom Rhys) não foi natural. Zoe fica enredada no mistério que ela quer resolver. Quem matou Álex? E por que? Nessa procura ela também vai conhecer melhor quem ela é.
Os 10 capítulos da série vão contar os detalhes e as reviravoltas da história de Álex. Todos os personagens estão envolvidos de alguma maneira nos acontecimentos que levaram à morte do irmão de Zoe. Talvez isso prejudique por vezes a compreensão do que está sendo contado. São muitas pistas, muitas delas acabando em becos sem saída.
Relações afetivas conturbadas, sexo desenfreado, ciúmes, traições, incesto, descontrole dos impulsos mais primitivos e muita droga contribuíram para que essa história fosse trágica. Mas com bela fotografia e trilha sonora bem escolhida.
Num clima de auto destruição, confundido com coragem para enfrentar o perigo, os personagens vivem a “vida loca” intensamente e sem volta. Quando se dão conta talvez seja tarde demais.

domingo, 17 de maio de 2020

18 Presentes



“18 Presentes”- “18 Regali”, Itália, 2020
Direção: Francesco Amato

Naquele bairro bem cuidado, de casas parecidas, cercadas de gramados, tudo parece correr bem.
Elisa (Vittoria Puccini), sentada na mesa de sua cozinha escreve uma lista. Está ensimesmada e a caneta por vezes permanece no ar enquanto ela pensa.
Quando o marido Alessio (Edoardo Leo) a chama para falar sobre um torneio de futebol e da viagem que terá que fazer, Elisa aproveita e reclama que ele não tirou as coisas dele daquele quarto que vai ser o do bebê que estão esperando. Ele reluta um pouco mas dá razão à mulher.
Os dois parecem felizes e apaixonados.
Elisa estava em sua agência de empregos quando percebe que está tendo um sangramento. Na ultrassonografia, que corre para fazer no hospital, parece que tudo vai bem com o bebê:
“- Foi só um deslocamento da placenta. A menina está bem “ diz o médico.
“- Menina!” exclama Elisa feliz, que não sabia o sexo do bebê.
“- Infelizmente não tenho boas notícias para você Elisa...”
E os exames, confirmam o temor do médico porque havia um tumor maligno incurável.
“- Mas vou conhecer a minha filha? “
Ninguém tem essa resposta para Elisa. Frente a essa dúvida cruel, a saída que ela escolheu foi a de fazer uma lista com os presentes que ela escolheria para cada aniversário da filha até os 18 anos. Será que ela vai pensar na mãe através dos presentes escolhidos com tanto cuidado? Assim Elisa esperava que acontecesse.
No dia em que nasce Anna, Elisa se vai. Emocionado e assustado aquele pai não sabe como vai ser a vida dos dois sem ela. Não vai ser fácil.
E a cada aniversário da menina vemos a festinha e o presente imaginado por Elisa e colocado na lista. Sempre feliz com o que a mãe pensara para dar a ela, Anna surpreende a todos porque o piano, presente daqueles 8 anos, ela detestou.
E os anos passam e alguns aniversários depois ela já está crescida e já sabe que a mãe morreu quando ela nasceu. Os adultos, bem intencionados mas totalmente enganados, pensaram que ela sofreria menos se contassem que a mãe estava fazendo uma longa viagem.
E é então que Anna deixa sair a revolta surda em que vivera imersa. Foge de casa na véspera dos 18 anos e segue pela estrada pedindo carona.
Anna (Benedetta Porcaroli) é esguia, morena e tem brilhantes olhos azuis. Logo para uma Ferrari. Uma carona com um homem mais velho poderia acabar mal, se não fosse o fato que ele conhecia o pai de Anna. Preocupado, liga para ele. E Anna foge atrapalhada. Está confusa, distraída. Não vê o carro que se aproxima e a atropela. Caída na estrada é acudida por uma mulher que se debruça sobre ela. Reconhecemos Elisa, a mãe de Anna.
E é nesse momento que o filme, com bastante originalidade, deixa em aberto o que teria acontecido.
O espectador pode entender à sua maneira, através da espiritualidade, religião ou mesmo ficção científica. Para mim, Anna desacordada, vai para um estado entre mundos onde acontece um sonho ou delírio, algo que ela precisava vivenciar.
A primeira parte do filme é baseada em fatos reais mas a segunda é fantasiada. O pai de Anna ajudou na escrita do roteiro através das muitas cartas que Elisa deixou para que ele lesse depois da morte dela.
Emocionante e com uma solução bem desenvolvida que possibilita o luto que Anna não tinha vivido, “18 Presentes” é delicado e nada melodramático.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Hollywood





“Hollywood”- Idem, Estados Unidos, 2020
Direção: Ryan Murphy

No portão alto dos estúdios ACE uma pequena multidão se acotovela exibindo seu melhor sorriso. Todos ali aspiram a um lugar na tela do cinema, onde as estrelas brilham. E por que não? Mas somente alguns serão escolhidos pela nada simpática encarregada do elenco.
“Hollywood” é uma série Netflix que se passa nos anos 50 e conta a história de cinco personagens, todos aspirantes a estrelas, que vão mostrar se tem o talento e a sorte de ver realizado seu sonho.
O bonitão Jack Castello (David Corensweet) que havia voltado da guerra há pouco tempo, não tem um tostão e vai ter que encarar ser frentista no posto de gasolina de Ernie (Dylan McDermott), onde os rapazes mais bonitos da cidade prestam também outros serviços a quem puder pagar. Uma delas é a poderosa Avis Amberg (Patti Lupone), mulher do dono dos estúdios ACE, que vai ser importante na vida dos jovens aspirantes.
Já para Archie (Jeremy Pope), jovem e talentoso roteirista, o problema era a cor da pele e sua preferência sexual. Naqueles anos 50 o racismo era especialmente cruel no “showbusiness”. Mesmo um mestiço filipino, Ray Ainsley (Darren Cris) tem que esconder esse segredo para ser aceito.
E uma bela garota negra, Camille (Laura Harrier), apesar de ser excelente atriz, só era escalada para interpretar empregadas domésticas.
Já outro dos preconceitos da época escondia uma farsa, o machismo, que proibia qualquer tipo de sexualidade que se afastasse do “papai e mamãe” nos filmes. O público era levado a crer que “aquilo” não existia em Hollywood, quando a verdade era bem outra.
E o filme ilustra o sofrimento que essa mentalidade causava através de Jake Picking, na vida real Rock Hudson, que se apaixona por um dos frentistas de Ernie e encara o preconceito. Se bem que essa é uma licença poética da série porque o grande Rock Hudson nunca pode viver livremente sua sexualidade como o filme mostra. O público só veio a saber da verdade pelo próprio ator quando ele estava no fim da vida com AIDS.
A produção de arte é perfeita. Todos os atores excelentes, locações e figurinos seguindo bem o espírito da época. E, apesar de não manter o ritmo nos capítulos intermediários, o começo e o fim de “Hollywood” fazem por merecer que a série seja apreciada por todos que amam o cinema americano.


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Coisa Mais Linda



“Coisa Mais Linda”, Brasil, 2019
Direção: Julia Rezende

Foi no fim dos anos 50 que eu acordei para o mundo das mulheres. Mas antes disso eu já tinha um olho para o feminino. Em conversas com minha avó Baby descobri que Alceu Penna (1915-1980) era primo dela. Vovó e ele eram de Minas. Adorei saber do parentesco porque “As Garotas do Alceu” eram as minhas páginas preferidas da revista ”O Cruzeiro”. Queria ser como elas quando crescesse.
Descoladas, risonhas, vestidas com roupas coloridas e atraentes, um tantinho atrevidas, “As Garotas do Alceu” me encantavam.
E um pouco disso eu reencontrei na série da Netflix, “Coisa Mais Linda”. Boa surpresa.
Com roteiro de Giuliano Cedroni e Heather Roth, a série parecia contar para mim histórias daquelas garotas do Alceu, agora um pouco mais velhas e mais vividas.
Um elenco bem escolhido interpreta quatro mulheres e suas histórias se entrelaçam.
Maria Casadevall é Maria Luiza, paulista que vem para o Rio abrir um restaurante com o marido e descobre que ele a abandonou, levando todo o dinheiro que era dela. Consolada por Adélia (Pathy Dejesus) que trabalhava como doméstica no prédio, ela anima Malu como chamam a paulista no Rio. Negra, mãe solteira e morando na favela, sabe o que é passar por fases duras. E as duas acabam sócias no “Coisa Mais Linda” que é um Clube de música, como diz Malu.
Fernanda Vasconcellos é Lygia, amiga de infância de Malu, casada com Augusto, candidato a prefeito, machista e que não quer que ela siga carreira de cantora, sonho dela.
E Mel Lisboa é Tereza, cunhada de Lygia, a mais livre das amigas, que tem mais talento mas ganha menos que o editor da revista feminina, escrita por homens, onde trabalha.
Os anos 50 foram marcados por um machismo que não era discutido. Homem mandava e pronto. Mas a série mostra o começo da mudança dessa mentalidade. “Coisa Mais Linda” espelha o contraste entre as que temiam seus “senhores” como Lygia e a mãe de Malu e as que mandavam no próprio nariz como Teresa, Malu e Adélia.
Tudo se passa num cenário que não era bar nem restaurante. Com música ao vivo e boa, e uísque barato, “Coisa Mais Linda” era uma novidade no Rio, porque podia ser frequentado por gente não pertencente ao “high society”.
E o clube de Malu vai ser o lugar onde Lygia vira estrela com voz doce que canta tanto samba como a bossa nova que nascia.
No mais a produção de arte encontrou móveis da época, figurinos que não são cópia mas com toques dos anos 50 e as imagens do Rio mostrando Ipanema, Copacabana e o Corcovado são belíssimas.
A série tem 7 capítulos e eu vi tudo de uma vez só, sem ver o tempo passar.
E a segunda temporada ainda não tem data mas vem aí. Não percam.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Freud




“Freud”- Idem, Áustria, Alemanha, 2020
Direção: Marvin Kren

Definitivamente o Freud apresentado na série da NEFLIX não tem nada a ver com Sigmund Freud, famoso médico austríaco, pai da psicanálise, nascido de uma família de judeus, em 6 de maio de 1856, durante a vigência do império austro-húngaro, sob Francisco José.
Já na primeira cena do primeiro capítulo, quem conhece a história do cientista célebre, percebe que não vai assistir a episódios verdadeiros de sua vida, mas pura ficção que usa Freud como pretexto para contar uma história rocambolesca e por vezes ridícula.
Com que propósito o roteiro inaugura a série com o suposto Freud ensaiando com a própria empregada uma cena de falsa hipnose que será apresentada na Universidade de Viena aos professores ilustres? Freud um charlatão?
Vamos esclarecer esse fato. Formado pela Universidade de Viena, Freud estudou também em Paris com o famoso professor Charcot no Hospital La Salpetrière e lá conheceu a hipnose e as famosas histéricas.
Freud não escondia que tinha dificuldades em hipnotizar e foi graças a isso que nasceu a terapia da fala, batizada de “limpeza de chaminé” pela primeira paciente histérica, Anna O. (Berta Pappenheim), que Freud herdara de Breuer
Portanto, quem vai assistir à série tem o direito de saber que não vai ver a biografia de Freud, mas a uma série de eventos imaginados com a intenção de prender o espectador com golpes de estado, erotismo, espiritismo, magia, bruxaria, assassinatos e sangue muito sangue.
Nada contra a imaginação. Mas Freud não tem nada a ver com isso.
Robert Finster está muito bem no papel do jovem médico, e Ella Rumpf, ótima atriz, faz a paciente chave na série, uma bela húngara, que seria médium, explorada por um casal de húngaros (Georg Friedrich e Anje Kling) mal intencionados.
Outro uso indevido do roteiro é dar o nome de Fleur Salomé a essa paciente que estaria possuída por um demônio ou pela histeria e se envolve com o médico. Claro que a intenção é fazer lembrar de Lou-Andreas Salomé, também psicanalista, que nunca foi amante de Freud mas muito próxima dele, tanto que frequentava o grupo das Quartas feiras que se reunia para discutir os casos clínicos e a teoria psicanalítica, em torno a Freud.
O roteiro de Stefan Brunner e Benjamin Hessler tem algumas passagens interessantes e esteticamente atraentes mas é confuso e por vezes beira o ridículo.
A produção da série é magnífica quando se trata de retratar a Viena Imperial e seus habitantes com locações bem escolhidas e cuidado nos mínimos detalhes de decoração e figurinos.
Portanto, estão avisados. O Freud da série não é  Sigmund Freud, pai da psicanálise, um dos homens mais célebres do século XX.
Vou sugerir para quem quiser se aproximar de algo mais verdadeiro sobre o assunto, o filme de John Huston de 1962, que também é uma biografia romanceada, com roteiro de Jean-Paul Sartre que ganhou o Oscar e um magnífico Freud interpretado pelo saudoso Montgomery Clift.



terça-feira, 5 de maio de 2020

O Zoológico de Varsóvia




“O Zoológio de Varsóvia”- “The Zookeeper’s Wife”, Estados Unidos, 2017
Direção: Niki Caro

Ao invés de dormir com gatos, Antonina (Jessica Chastain, bela e ótima atriz) tem dois leõezinhos na cama com ela, quando acorda para mais um dia de trabalho no Zoológico de Varsóvia.
Ela e o marido Jan (Johan Heldenberg) cuidam de todos os animais com extrema dedicação e carinho. O Zoológico é um dos maiores da Europa e é um modelo seguido por outros.
Abertos os portões ao público que já espera lá fora, Antonina de bicicleta e seguida por um dromedário jovem, dá bom dia para o tigre, leões, girafas, macacos, urso polar, elefantes. Ao hipopótamo oferece uma maçã. Ela é querida por todos os animais.
É o verão de 1939.
À noite, o casal Zabinski, ele um biólogo renomado, recebem visitas para o jantar, quando um dos funcionários vem chamar por Antonina. É a elefante fêmea que está com um problema. O filhote que acabara de nascer jaz inerte numa poça de sangue. A mãe está assustada e agitada.
Antonina mostra sua capacidade fazendo massagem cardíaca no pequeno elefante que logo começa a respirar.
Um dos convidados, Lutz Herck (Daniel Bruhl) responsável pelo Zoológico de Berlim, avisa que está armado para qualquer eventualidade. Ele não lida com animais como Jan e Antonina, que pedira calma à fêmea com palavras doces. Ela sabe que seu filhote estava em boas mãos.
E logo já o vemos dando os primeiros passos e a tromba da mãe acariciando seu bebê e sua salvadora.
Mas o pior estava por acontecer, a guerra parecia iminemnte e Jan pressente que o melhor seria tirar Antonina e o filho Rys de Varsóvia. Mas já era tarde demais.
No dia 1º de setembro de 1939 os alemães bombardearam Varsóvia e o Zoológico foi quase todo destruído, causando grande sofrimento para Jan e Antonina que não tinham como proteger os animais assustados e feridos. Muitos deles seriam sacrificados e mesmo mortos como distração quando os alemães tomaram o local.
O filme foi baseado no livro de Diane Ackerman, “Zookeeper’s Wife”, escrito em 2007. E vai contar sobre a perseguição aos judeus poloneses pelos nazistas nos anos do Holocausto de 1939 a 1945, os maus tratos, o Gueto de Varsóvia e os trens que levaram milhares para a morte em Treblinka.
Todo o carinho e compaixão do casal Zabinski voltou-se para ajudar a tirar secretamente muitos judeus do gueto para dar-lhes abrigo no porão da casa deles no Zoológico. Arriscaram ser mortos por traição mas queriam salvar vidas. Trezentos judeus passaram pelo Zoológico. Uns ficaram dias, outros ficaram anos. Todos sobreviveram, exceto duas mulheres que preferiram um hotel m Varsóvia.
O casal Zabinski foi homenageado duas décadas depois pelo Yad Vashem como “Justos entre as nações”. Plantaram árvores com o nome deles numa placa, em Jerusalém.
“O Zoológico de Varsóvia” é uma história real que fala da compaixão que habita os seres humanos em contraste com a bestialidade que também pode nos possuir se não nos vigiarmos.



sexta-feira, 1 de maio de 2020

O Poço



“O Poço”- “The Plataform”, Espanha, 2020
Direção: Galder Gaztelu-Urrutia

É preciso gostar de filmes de terror para poder ver “O Poço”. Não é meu gênero favorito mas de raro em raro consigo ver um bom. Mas esse de que falo aqui é um filme que não pode ser rigorosamente tachado como  um filme de terror.
Horror tem de sobra, mas usado como metáfora para ilustrar aquele lado sombrio que nos habita e do qual a maior parte do tempo não temos notícia.
Esclarecido esse ponto, acrescento que pessoas sensíveis devem se abster.
“O Poço” é uma prisão com níveis um abaixo dos outros. O quanto é fundo só no fim iremos saber.
Cada andar tem duas camas monásticas, duas pessoas, uma pia simplória e um buraco retangular no meio do chão da cela que corresponde a um buraco igual no teto, que perpassa todos os níveis, uma vez por dia, ficando ali por pouco tempo. Através desse lugar vazado desce uma mesa coberta de iguarias, preparadas com esmero por cozinheiros competentes. Há ali comida para alimentar todos os que estão presos.
Mas, se o pessoal dos primeiros níveis tem à sua disposição fartura para se saciar à vontade, um único senão parece reger a pressa, a avidez e a maneira como abocanham nacos de qualquer prato sem nem prestar atenção ao gosto do que estão comendo.
Ali ninguém trata a comida servida em cristais e prataria como se fossem pessoas educadas num restaurante.
Como não sabem para onde vão no próximo mês, acumulam calorias. Sim, pois nos níveis mais baixos são obrigados a conviver com restos nojentos dos níveis de cima. Ou até mesmo mesas vazias de qualquer indício de comida, com cristais quebrados e dejetos humanos. E ninguém sabe para onde vai no próximo mês. Parece ser uma escolha aleatória.
Aqueles prisioneiros atacam a comida com as duas mãos e a boca cheia, olhando feio para o companheiro de cela. Há ódio de sobra no Poço.
Claro que todo esse quadro de horrores quer ser uma crítica aos nossos tempos de avidez pelo dinheiro e pelas coisas, num consumismo perverso que aliena a maior parte da população mundial desse festim.
Fica muito evidente a ideia de que, se as pessoas se limitassem a consumir o que precisam, teria para todos.
Mas não. O egoísmo impera. E a lei do mais forte é soberana. Se houvesse solidariedade, como é proposto no filme por uma das prisioneiras, todos sobreviveriam sem ter que apelar para o crime, que é a saída da fome. E um tabu é desrespeitado com crueldade em nome da sobrevivência.
O lobo é o lobo do homem? O inferno são os outros? Hobbes e Sartre já o disseram nos séculos XVII e XX, entre outros. E Freud falou em Thanatos, o instinto de morte que vai ganhar da vida no fim.
Os assuntos dos quais trata o filme através da metáfora dessa horrenda prisão que é o Poço, devem ser pensados, principalmente nos tempos difíceis que atravessamos no mundo todo.
Mas o filme exagera no visual de horrores, quando poderia dizer tudo o que disse de uma forma um pouco mais palatável. Porque dessa forma dificulta a identificação com as pessoas. Algumas vão dizer:
“- E daí? ”, acrescentando para si próprios que o filme não tem nada a ver com eles.