sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Meu Rei


“Meu Rei”- “Mon Roi”, França, 2015
Direção: Maiwenn

Como explicar a paixão? É um sentimento avassalador que prende com nó cego a possibilidade de pensar e agir com liberdade.
Tony (Emmanuelle Bercot, tão verdadeira) fica refém dessa armadilha e só vê Georgio (Vincent Cassel, convincente) na sua frente. Ela, um pouco tímida, advogada, já tinha visto ele na boate e bar onde trabalhava quando era estudante. Sempre cercado de mulheres lindas.
Quando o encontra novamente, naquela mesma boate, toma coragem e aproxima-se dele, repetindo o gesto que ele fazia, de respingar água do balde de champagne no rosto das moças, parecendo dizer:
“- Você vem para a cama comigo!”
Surpreso, Georgio não se lembra dela. Mas esse gesto dele, repetido por ela, tanto tempo depois, atraiu o narcisismo dele.
Os olhos dela já brilhavam de paixão antes mesmo do convite para a cama. E, depois, ele se torna “meu rei”, o dono de Tony e seus desejos.
Ela ri encantada com tudo que ele diz. Drogada? É a sensação.
Olhares cúmplices e orgasmos longos. Os olhos dela são de devoção. O mundo era deles e era sempre uma festa.
Tony estava cega e imersa numa realidade fantástica criada pela presença de Georgio. Em transe, o mundo dela desapareceu e ela se inseriu no dele, ou assim pensava ela.
Mas, a realidade, que aparece aos poucos, primeiro desprezada, vai ferir Tony de tal maneira, que serão precisos dez anos para que ela possa acordar e lentamente recuperar-se.
Mas, antes disso, do alto dos Alpes nevado, com o rosto e os cabelos batidos pelo vento gelado, ela lança-se na descida íngreme como se algo terrível a perseguisse. Cai.
Na clínica à beira mar, com o diagnóstico de rompimento total do ligamento cruzado anterior no joelho direito, ela vai ter um tempo para voltar a andar e começar a limpar a cabeça daquilo que a envenena.
A história é contada em “flashbacks” e entendemos, junto com Tony, o que foi que aconteceu.
A decepção devolve a liberdade roubada pela paixão.
O filme é de Maiwenn, jovem e bela diretora (“Polissia” 2011) e atriz francesa, 40 anos, que assina também o roteiro de “Meu Rei”.
Emmanuelle Bercot, 48 anos, atriz e também diretora  (“De Cabeça Erguida” 2015), ganhou o prêmio de interpretação feminina pelo papel em “Meu Rei” no Festival de Cannes 2015. Mereceu. Ela nos assusta e comove.

“Meu Rei” é um filme que pode ensinar uma ou duas coisas sobre os perigos da paixão. Sem falsos moralismos, nem seriedade demais.

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