sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Django Livre


“Django Livre”- “Django Unchained”, Estados Unidos, 2012
Direção: Quentin Tarantino

Já na abertura, com aquela música típica de faroestes italianos dos anos 70 e os enormes letreiros vermelhos, adivinhamos que Tarantino vai se esbaldar.
O ano é 1858, dois anos antes da Guerra da Secessão que opôs o norte e o sul americanos, numa luta sangrenta, tendo como motivo de discórdia a escravidão, da qual o sul dependia por causa das grandes plantações de algodão, “plantations”, onde a mão de obra era escrava e negra.
De cara, os personagens principais se encontram. Dr King Schultz (Chistoph Waltz, dispensando adjetivos), o alemão escondido atrás de uma falsa identidade de dentista, para melhor fazer o que sabe: vender corpos. Ou seja, é um caçador de recompensas. Lembram daqueles cartazes: “Procurado - Vivo ou morto”? Pois é o que ele faz. Traz o morto para receber o dinheiro prometido. E o outro é Django, que de escravo acorrentado passa a homem livre, companheiro de Schultz, que o ensina a atirar para matar. Faz mais, devolve ao negro humilhado (Jamie Foxx, espetacular), sua auto-estima e o poder de vingar-se de quem fez mal a ele e sua mulher, de quem foi separado à força e com crueldade.
Ele vai encontrá-la na “plantation” de Calvin Candie, o malvado interpretado com perfeição por Leonardo DiCaprio.
Como na saga dos Nibelungos, cantada no "Anel" de Richard Wagner, Django é casado com Brunhilde, que tem o mesmo nome da princesa, filha do deus Wotan, uma das Walkirias, que o pai coloca no alto de uma montanha, cercada por fogo. Uma bela adormecida que terá de ser salva por um principe corajoso. Sem medo de dragões nem de fogo. Django, claro.
O racismo é uma chaga ainda aberta em muitos lugares dos Estados Unidos e por isso Tarantino foi criticado. A palavra “nigger”, impolíticamente correta, é usada o tempo todo.
Spike Lee disse:
"-A escravidão na América não foi um "western spaghetti" de Sergio Leone. Foi um holocausto."
Jamie Foxx respondeu:
“- Era assim que os senhores falavam na época. Reproduzir a fala não significa referendar o conceito deles.”
A Associação de Críticos Afro-Americanos acabou com a discussão, elegendo o filme como um dos melhores do ano.
A infame organização Ku Klux Kan também é alvo de piadas que expõem ao ridículo seus participantes, que também não devem ter gostado nada disso.
Mas isso é puro Tarantino. Seu humor ácido não se intimida e não poupa ninguém. E os banhos de sangue e cabeças cortadas são uma vingança na tela contra seres humanos que não merecem esse nome.
Tarantino é irreverente com tudo mas também sabe fazer o espectador se emocionar. Entre outras, as cenas finais são belíssimas e fazem lembrar de Obama e Michelle, vencedores e enamorados.
“Django Livre” não é indicado apenas para admiradores de Tarantino. O filme é tecnicamente perfeito, a câmara bem dirigida aumenta a tensão sempre que necessário, as paisagens são muito bem usadas como momentos de respiração e os figurinos recriam a época, com toques de modernidade.
Depois de “Bastardos Inglórios” parecia que ia ser difícil acertar outra vez mas ele fez de novo. É um grande cineasta.

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