quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Amor


“Amor”- “Amour” França, Alemanha, Áustria, 2012
Direção: Michael Haneke


O que se pode dizer da vida quando vemos a morte? Nada, além de que é uma certeza. E, talvez por isso, Michael Haneke comece seu filme mostrando o fim, igual para todos nós.
Mas volta à plateia do teatro onde George e Anne assistem a um concerto de um ex-aluno. Estão ambos na década dos 80 anos, são cultos, sóbrios e exalam uma elegância sem data.
É visível a delicadeza entre eles.
Depois da conversa no ônibus, que não ouvimos, chegam ao apartamento confortável onde moram. A fechadura foi forçada, repara George. Mas ninguém entrou, nem roubou nada. Ainda.
Já no café da manhã quotidiano e agradável, na cozinha, o inesperado os visita. Anne se ausenta de si mesma e desespera George, que não sabe o que fazer. Mas logo ela volta a si e não se lembra de nada.
E, a partir daí, começa a prova mais difícil do amor. “Até que a morte os separe”.
Planos horizontais fixos e poucos “closes”, quando o diretor nos faz os olhos de George ou de Anne. No mais, a câmara aguarda, como nós, testemunhas mudas de algo que nos assombra. Freud dizia que a morte não possui inscrição no nosso inconsciente.
Mas o que importa aqui é o comportamento do amor.
George (Jean-Louis Trintignant, magnífico) encarna esse sentimento, assistindo Anne em tudo que ela precisa. E são tarefas cruéis para os dois.
Emmanuelle Riva, aos 85 anos, interpreta Anne com tal realidade, que nos comove e nos horroriza. Porque ela é o espelho do nosso futuro.
“- Você promete que não me leva mais ao hospital?” diz ela a George.
E um pouco mais tarde ajunta:
“- Não quero mais.”
George, aquele que sofre junto, só demonstra o que sente para nós, que vemos seus olhos abertos sondarem a noite e que fabrica um pesadelo que aponta o caminho cruel e necessário.
Michael Haneke, 70 anos, austríaco, ganhou sua segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2012. A primeira foi para “A Fita Branca” de 2010. E uma enxurrada de prêmios importantes fazem crer que ele é o mais cotado para o prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar 2013. Emais. "Amor" está entre os 10 melhores filmes do ano, também no Oscar. E outras três indicações somam cinco no Oscar 2013: melhor diretor e melhor roteiro, ambos para Michael Haneke e melhor atriz para Emmanuelle Riva. Já foi consagrado como o melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro 2013. É forte concorrente a todas as cinco indicações no Oscar.
Entrevistado, ele disse:
“- Na minha família alguém sofreu algo assim e foi terrível para mim estar lá sem poder fazer nada. Este foi o ponto de partida do filme. Como lidar com o sofrimento de uma pessoa que você mais ama?”
Isabelle Huppert faz uma participação especial como a filha Eva, fruto do amor de George e Anne. Parece que Michael Haneke colocou nela esse “sem poder fazer nada” que ele diz que viveu.
A morte é certa. Mas sem dúvida mais suave para quem tem o privilégio de ter um amor ao lado.

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