sábado, 18 de fevereiro de 2017

Até o Último Homem


“Até o Último Homem”- “Hacksaw Hidge”, Estados Unidos, 2016
Direção: Mel Gibson
A abertura, em câmara lenta e com som abafado, nos joga brutalmente no filme, um inferno de explosões que faz corpos voar, soldados correndo em chamas, tiros. Mortos pavimentam o solo sangrento. Horror.
Ouve-se em “off” a voz, que depois vamos saber que é do soldado Desmond Doss (Andrew Garfield):
“...aqueles que esperam no Senhor
renovam suas forças...”
E alguém diz:
“- Desmond, aguenta mais um pouco. Nós vamos tirá-lo daqui!”
E um “flashback”nos tira da guerra e nos leva para 16 anos antes, com os irmãos Doss brincando nos campos e rochedos da Virginia.
O pai deles (Hugo Weaving) é um sujeito que bebe e é violento e não se esquece dos amigos mortos na Segunda Guerra a seu lado. Faz visitas frequentes ao cemitério.
Quando Desmond atinge seu irmão Hal numa briga e pensa que ele morreu, vemos a que ponto a culpa se entranha no coração do garoto.
O pai tira o cinto mas a mãe (Rachel Griffts) acode:
“-Pare! Desmond, Hal vai ficar bem!”
“- Ele poderia ter morrido...” balbucia Desmond.
“- Sim e não há maior pecado do que tirar a vida de alguém”, diz a mãe.
O pai grita com a mãe.
“- Por que ele nos odeia tanto?” pergunta Desmond à mãe.
“- Ele odeia a si mesmo. Queria que vocês tivessem conhecido ele antes da guerra...”
E, por causa dessa infância, começamos a ter uma ideia do caráter de Desmond que, apesar de se alistar no exército depois do ataque a Pearl Harbour, como o irmão, recusa-se a pegar num rifle no treinamento do exército.
“- Vou ser médico e salvar vidas, Dorothy. Não vou matar”, diz à noiva enfermeira (Teresa Palmer).
Essa postura ética e religiosa (ele é adventista), que ele defende com perseverança, vai custar muito sofrimento a Desmond. Chamam ele de covarde, louco, idiota. Mas nada disso o abala. Mesmo quando os companheiros de dormitório passam a surrá-lo à noite.
Enfrenta uma corte marcial e é o primeiro “Opositor Consciente”que parte para a guerra sem uma arma. Na mão leva a Bíblia, com a foto de Dorothy.
A história é verídica e no fim do filme vemos o próprio Desmond Doss dar seu depoimento, antes de morrer aos 87 anos. Outros companheiros de seu batalhão, inclusive o sargento, falam sobre sua atuação heroica na batalha de Okinawa, no Japão em 1945, quando salvou 75 vidas. Foi condecorado com a Medalha de Honra do Congresso.
Mel Gibson dirige o filme, indicado para 6 Oscars, inclusive melhor filme e diretor. Parece que ele resgata a inspiração de “Coração Valente” de 1995, depois de um tempo eclipsado, por causa de sua reputação de anti-semita e homofóbico.
Há no filme de Gibson muito dele mesmo. Crueza e quase que um mau gosto em mostrar cenas desnecessárias no campo de guerra, com um sadismo que cansa, porque é repetitivo. Mais do mesmo.

Mas o filme envolve o espectador porque o personagem principal, interpretado com grandeza e humildade por Andrew Garfield, é um homem fascinante, só agora conhecido do grande público.

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