sexta-feira, 6 de março de 2015

Blind


“Blind”- Idem, Noruega, 2014
Direção: Eskil Vogt

Ingrid (a talentosa Ellen Dorrit Petersen) apresenta-se na tela como uma mulher solitária. Alta, pele muito branca, olhos de um azul escuro, rosto nórdico, cabelos lisos louríssimos. Ainda jovem, senta-se num apartamento despojado, perto da janela. Tem computador e aparelho de som a seu lado.
Quando começa a narrar em “off” sua cegueira, não o faz para lamentar-se. Descreve o que aconteceu. A mancha no olho, a visita ao especialista, o diagnóstico.
“- Dizem que minha capacidade de visualizar vai desaparecer porque o nervo óptico vai definhar sem novas impressões. Mas também disseram que eu posso retardar o processo me exercitando todo dia.”
Lembranças, associações, desejos, conflitos, medo. Tudo isso vai entrar em cena.
Presa no apartamento por sua fobia, a princípio, como não vê, não quer ser vista.
Demora um pouco para o espectador perceber, mas a mente observadora e criativa de Ingrid vai abrindo espaços, através das histórias que ela conta para si mesma. Essas narrativas aparecem visualmente na tela, assim como aparecem na mente de Ingrid. Estamos dentro da cabeça dela, vendo o que ela imagina.
Ingrid encontrou sua Sherazade e as histórias vão sendo escritas no computador, pensadas e mesmo sonhadas.
“- Quando sonho, posso enxergar. Aí acordo pensando que vou voltar a ver e não...”
Para combater a solidão e a depressão, a libido de Ingrid vai ajudá-la a encontrar imagens e, em seu mundo interno, personagens se movimentam.
Há pornografia, sexo comum, voyeurismo, amizade, maternidade. Os cenários são os que ela conhecia antes de ficar cega. O humor começa a aparecer e ela sorri sózinha.
Porque ela sente que o casamento está em crise, o marido Morten (Henrik Rafelsen) é o centro de sua atenção.
“- Agora ele vai chegar, contar como foi o dia dele e perguntar do meu. Quer saber se eu saí. Não fala nada mas deve ficar decepcionado comigo...”
A auto-estima de Ingrid está abalada mas ela vai aos poucos ficando mais confiante, transmutando paranoia em desejo e, ao invés de procurar um outro mundo para o marido, longe dela, introduz o homem que ela ama em suas fantasias.
“- Às vezes eu sinto que ele está aqui no apartamento. Ele diz que não é para eu ficar imaginando coisas... Mas o piso faz barulho...Ele poderia estar sentado, calado e me observando...”
A luta de Ingrid para conseguir viver na escuridão, sair da depressão e o desejo de amar e ser amada, são traduzidos em imagens fantasiadas e vivências na realidade, às vezes difíceis de serem diferenciadas, devido à montagem impecável.
O roteiro é fascinante, escrito pelo próprio diretor, norueguês, que já nos envolveu com o roteiro de “Oslo – 11 de agosto” de 2011. Esse é o primeiro longa de Eskil Vogt, 40 anos,  o que aponta para uma carreira brilhante no cinema.
Elogiadíssimo pela crítica e premiado pelos festivais por onde passou, “Blind” é um filme raro, que provoca o espectador, para que ele possa refinar sua sensibilidade.
Uma experiência enriquecedora. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário