terça-feira, 2 de julho de 2013

Tabu


“Tabu”- Idem, Portugal/ Brasil/ Alemanha/ França, 2012
Direção: Miguel Gomes

A África sempre se prestou a metáforas interessante.
A sexualidade feminina que  desafiava Freud a um difícil entendimento, ele a chamou de "Continente Negro".
Miguel Gomes, o diretor de “Tabu”, parece também partilhar dessa ideia da África simbolizando o lugar de sexo proibido, liberado por uma pressão extrema frente ao selvagem, ao primitivo e assustador.
Na África de “Tabu”, o homem branco colonizador é seduzido pelo mistério de suas profundezas inexploradas, num cenário que o impele a experimentar o proibido.
O amor de perdição, tema tão caro a um dos grandes escritores portugueses, Camilo Castello Branco, titulo do livro de 1862, também inspira Miguel Gomes.
Em “Tabu”, há um prólogo que introduz o assunto, o amor perdido que impele à morte, na figura do português desconsolado que vai para a África para esquecer a mulher morta mas é arrastado para o rio onde espreita a única saída para o esquecimento.
O crocodilo, comedor de homens, animal fetiche, é quem o leva a seu fim.
A primeira parte de “Tabu”, “Paraiso Perdido”, passa-se em Lisboa, onde três mulheres solitárias entrelaçam suas histórias tristes.
Pilar (Teresa Madruga), de meia idade, sozinha no cinema, olha para nós, que somos a sua tela. Quantas vidas assistindo outras vidas, que servirão para nos lembrarmos de nós mesmos.
As outras duas mulheres são Santa, negra africana, que serve de companhia à dona Aurora, uma elegante senhora no fim de seus dias (Laura Soveral).
Ela sonha com macacos que se transformam em homens e tudo é uma desculpa para ela esquecer nas mesas do Cassino do Estoril, aquele amor que vive na África, aos pés do Monte Tabu, na fazenda de seu marido.
Estamos já na segunda parte do filme, “Paraiso”, onde novamente aparece o animal fetiche de Miguel Gomes, o crocodilo, brinquedo perigoso que Aurora (Ana Moreira), recém-casada, ganha do marido (o brasileiro
Ivo Muller).
No sopé do monte imaginário, cercado pela neblina onde os nativos enxergam demônios, a jovem, guiada pelo crocodilo, se deixa envolver pelo amor de Ventura (Carlotto Cota) que a fará viver dias de paraíso e inferno.
O preto e branco, a narrativa em “off” do amor proibido, as cartas trocadas entre os amantes, os diálogos que não ouvimos porque aqui o filme é mudo, só sendo ouvidos os sons da natureza, o vento, o coaxar dos sapos, o murmurar das águas, os grilos na noite e o rock dos anos 50, remetem o espectador ao seu próprio passado.
Miguel Gomes homenageia com seu filme, um grande diretor alemão do passado, F.W. Murnau, que fez “Tabu” em 1931 e “Aurora” em 1927.
“Tabu” de Miguel Gomes foi considerado pela revista “Cahiers du Cinéma”, a bíblia do cinema, como um dos 10 melhores filmes de 2012.
“Tabu” é um momento diferente do cinema a que estamos habituados mas prova que o amor ainda é e sempre será um tema que a todos atrai.
Diz o diretor Miguel Gomes que o verdadeiro paraíso perdido será sempre a juventude, tempo dos amores loucos e das paixões.
Só os mais velhos poderão confirmar isso, lembrando do passado com “Tabu”. Aos jovens, resta pensar que a hora é agora.


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