domingo, 24 de março de 2013

Depois de Lucia



“Depois de Lucia” - “Después de Lucía”, México, França, 2012
Direção: Michel Franco

A estranheza toma conta do espectador que assiste às primeiras cenas do filme. Afinal, por que esse homem corpulento e silencioso vai buscar um carro que mandou consertar e logo o abandona no meio da rua, com a chave dentro, como se fugisse de algo?
“Depois de Lucia” é assim. Seco. Sem concessões. Sem trilha sonora. Um filme diferente, premiado em Cannes na mostra “Un Certain Régard”, segundo longa de Michel Franco, jovem diretor mexicano que já se destaca no mundo do cinema.
A câmara quase sempre fixa de Michel Franco, também roteirista, documenta as cenas. É como se entrássemos na vida de um pai e sua filha sem convite, abruptamente. E seguíssemos com eles, com muitas perguntas na nossa cabeça.
Aos poucos, vamos entendendo que aconteceu alguma coisa terrível. O comportamento do pai (Hernán Mendoza) é claramente o de um homem deprimido. A filha (Tessa Ia)  traz um semblante tranquilo mas adivinha-se que ela também está sob o impacto de algo trágico. Os dois não conversam sobre o que ocorreu. Mas, pelos telefonemas do pai, começamos a entender o que se passou.
Lucia, a mãe de Alejandra, morreu em um acidente de carro. Aquele que foi abandonado.
É disso que fogem pai e filha? Como foi que aconteceu o acidente? Não sabemos. O fato é que eles até mudam de cidade. E não comentam com ninguém sobre a morte de Lucia.
Para Alejandra, a nova escola parece que vai bem. No grupo de adolescentes na sala de aula ela é a nova, a estranha no ninho e a enchem de perguntas. As respostas são lacônicas mas ela quer ser aceita. Precisa de companhia. Porém passa muito tempo na piscina, nadando e pensando.
O exame de sangue, obrigatório naquela escola, denuncia que ela usa maconha. O pai estranha mas aceita, de um jeito desligado, a promessa de Ale que isso não vai mais acontecer.
Parece que ela não quer sobrecarregar a situação do pai que está francamente desnorteado. Assim, irrita-se no novo trabalho como “chef” de um restaurante. Briga no trânsito por nada. Pede demissão do emprego sem uma razão que justifique essa atitude. Tem crises de choro frequentes.
Mas, pai e filha, apesar de não falarem sobre o assunto, sabem como o outro está se sentindo. Um luto pesado envolve aqueles dois. E as consequências vão aparecer logo.
Numa festinha, Ale transa no banheiro com um garoto que filma a cena toda no celular. No dia seguinte, todos na escola já sabem de tudo. E começa o martírio de Alejandra.
Hipócritamente, o comportamento da menina é tratado pelos outros jovens como o de alguém que merecesse censura e castigo. E o “bullying” é violento.
Mas por que ela não reage? Por que aceita tudo como se quisesse ser punida?
A passividade estoica de Ale incita os colegas a aumentar a violência dos ataques.Mas ninguém repara que pai e filha estão prestes a explodir.
A depressão está relacionada à raiva que se vira contra a própria pessoa. Freud falou em melancolia quando o luto leva a uma diminuição extrema da auto-estima. Parece que são esses os temas que levam pai e filha a agir de forma extremada. O filme tem um desfecho arrasador.
Além de contextualizar um problema contemporâneo, o “bullying”, “Depois de Lucia” sugere que ele é sintoma da violência maior que nos cerca.
O filme denuncia uma ausência de soluções por parte dos adultos, pais e professores. Talvez porque o mundo de hoje aceite passivamente a violência geral sem ver uma saída?
“Depois de Lucia” ajuda nessa reflexão.

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