sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Neruda


“Neruda”- Idem, Chile, Argentina, França, Espanha, 2016
Direção: Pablo Larrain

Pablo Neruda (1904-1973) poeta e político chileno, foi o personagem escolhido por Pablo Larrain, como assunto de seu novo filme.
Mas não pensem que vão ver uma biografia na tela. Porque Pablo Larrain, diretor de “No” e “O Clube”está longe de ser um diretor conservador. Quando fala do Chile, seu país natal, usa um modo ao mesmo tempo crítico e criativo de fazer cinema.
Assim, em “Neruda”vamos ver cenas da vida do poeta, algumas verdadeiras, outras de pura ficção, em um filme “nerudiano”, como explicou Larrain para a imprensa no Festival de Cannes 2016. E o que ele quer dizer com isso? Que vamos ver um filme poético, político, com toques de um humor nada reverente e até mesmo a criação de um personagem inventado,  que faz o contraponto ao grande Neruda.
O filme começa ao som de Edwad Grieg (Suite Peer Gynt) e vemos o poeta e senador, interpretado por Luis Gnecco, em 1948, discursando e acusando o presidente Gabriel Gonzales Videla (Alfredo Castro) de ser um traidor. Diz que Videla esquecera de suas raízes de esquerda para se aliar aos Estados Unidos.
Videla declara guerra ao Partido Comunista e seu mais famoso membro é obrigado a fugir para não ir para a prisão.
Esse é o período de vida de Neruda que Larrain escolheu como referência histórica para acompanhar com sua câmara. Essa fuga vai inspirar o diretor e seu roteirista Guilhermo Calderron a mostrar um Neruda mais imaginado do que real. O mito.
Como realçar uma fuga? Fazendo dela uma perseguição.
Porque no filme vemos o poeta dizer:
“- Mas essa tem que ser uma caçada selvagem!”
E inventando o detetive interpretado por Gael Garcia Bernal, supostamente convocado por Videla para seguir Neruda e prendê-lo, Larrain nos faz pensar na função de imaginação do poeta. O diretor inventa um personagem, que seria invenção do poeta para que a fuga fosse mais estimulante.
Gael Garcia Bernal faz o detetive Oscar Peluchenneau, um tipo apagado que quer a todo custo prender Neruda e alçar sua figura às alturas de seu pai, famoso chefe de polícia que o renega. Sendo a mãe uma prostituta, Oscar precisa de um feito heroico para ser alguém.
Larrain coloca o detetive como o narrador em “off” e sua voz aparece bem antes de o ver na tela. Há tiradas engraçadas envolvendo uma perseguição de gato e rato. Neruda se diverte deixando como pistas pelo caminho, as novelas policiais que ele adora ler e que deixa autografadas e bem colocadas, para que o pobre detetive encontre. Ele está sempre um passo atrás.
A fuga, inicialmente imaginada pelo mar, transforma-se numa aventura maior pois há que atravessar os Andes, mostrado em belas cenas na neve e entrar na Argentina, para de lá ganhar a Europa.
O filme agrada a quem gosta de literatura, de imaginação e de toques surrealistas. Não há a intenção de diminuir o poeta, mas de mostrá-lo como ele era: amante da boa vida, das mulheres e do bom humor. O que não o impediu de ser admirado por sua voz que defendia as liberdades e o povo humilde do Chile.
E, relembrando o Prêmio Nobel de Literatura chileno e sua personalidade carismática, Pablo Larrain mostra o seu talento e assina um novo sucesso em sua carreira brilhante.



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