domingo, 1 de abril de 2018

Deixe a Luz do Sol Entrar



“Deixe a Luz do Sol Entrar”- “Un Beau Soleil Intérieur”,França 2017
Direção: Claire Denis

Isabelle (Juliette Binoche, atriz extraordinária) procura o verdadeiro amor com desespero. Já na primeira cena a vemos esplêndida em sua nudez na cama, onde sempre vai parar com diversos parceiros. Só que nenhum serve.
Ela vive em Paris, divorciada e com uma filha de 10 anos. Chora todas as noites, conta a menina para o pai, que se preocupa. Ele até telefona para ela e quer conversar. Mas acabam brigando nos lençóis macios dela. Como sempre, o príncipe vira sapo. Ela chora e ele se enerva.
Mas qual é o problema dela? Parece que Isabelle tem um radar para localizar homens complicados como ela. Eles fogem ao primeiro sinal de que ela quer aprisionar alguém na sua gaiola chamada Amor.
Ela é pintora mas sentimos, pela única vez que a vemos começar um quadro, que isso não a distrai de sua obsessão. Sempre que a campainha toca ou o celular chama, pode ser ele, pensa ela, aquele que ela busca sem cessar.
Toda relação que começa provoca nela um olhar de transe. É como se ela entrasse num estado alterado. Naquele rosto masculino, ela vê a esperança de ser feliz. Não à toa, a câmera de Agnes Godard filma quase sempre em “close”, para captar esse olhar dela que vai sendo desmontado conforme a conversa se encaminhe para algo que não ecoe o amor.
Nenhuma paciência. Como uma adolescente mimada, ela quer alguém que adivinhe seus desejos, alimente sua carência e fique com ela para sempre.
Mas será mesmo? Porque a idealização do amor como algo mágico que leva a um ambiente de sonho onde as necessidades e angústias da vida normal desaparecem, só leva à frustração. É uma armadilha montada pela própria pessoa, inconscientemente, com medo daquilo que pensa que é o que se quer. E não quer. Porque dá trabalho, é uma construção a dois, exige desapego, renúncias e bom humor.
Isabelle precisa amadurecer, melhorar sua autoestima, interessar-se por si mesma, como recomenda um Gérard Depardieu (sempre extraordinário), surgido do nada.
Ele diz para ela ficar aberta e que deve cultivar um bom sol interior. Clichês e insinuações veladas. Com olhos de esperança, Isabelle ouve só o que quer ouvir. E aquele homem que a aconselha já é visto como alguém especial.
Inspirado vagamente no livro de Roland Barthes, “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, com diálogos inteligentes da diretora e da escritora Christine Angot, o filme tem como atração principal Juliette Binoche, 54 anos, linda e desejável, sexy e melancólica. Ela é o filme.


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