domingo, 24 de setembro de 2017

Mãe!


“Mãe!” - “Mother!”, Estados Unidos, 2017
Direção: Darren Aronofsky

Quando tudo recomeça naquele dia, Mãe (Jennifer Lawrence, divina) acorda e procura Ele na cama:
“- Baby?”
Bela, jovem, longos cabelos louros numa trança, vestindo uma camisola branca, ela anda pela casa esperando encontrá-lo.
Abre a porta da frente e vemos uma natureza intocada. Só ouvimos o barulho do vento e o canto dos pássaros. A casa é isolada. Não há caminhos que levem a ela.
Quando ela se volta para entrar na casa, dá de cara com Ele:
“- Por que você não me acordou? ”pergunta Mãe.
“- Precisava clarear as ideias. Ficar só. ”
Ele tinha ido correr. É bem mais velho que ela. Sobe as escadas para tomar um banho e ela, que restaurou sozinha aquela casa depois de um incêndio, dedica-se a uma das paredes.
Estranhamente, um close em seus olhos fechados e em sua mão pousada na parede, leva à imagem de algo pulsando em seu interior. Vida.
Ele (Javier Bardem) é um escritor e está sofrendo um bloqueio criativo. A mãe cuida da casa e dele e se assusta quando, à noite, alguém bate à porta.
Ele vai abrir e um homem (Ed Harris) entra. Ele parece animar-se com essa presença. Mãe não entende por que Ele convida o estranho a ficar na casa.
Os dois conversam muito e o homem fuma e bebe sem parar. Mãe logo o ouve vomitando e vê Ele que o ampara. Ela vislumbra um estranho corte no corpo do homem na altura da costela.
Logo vão chegar outros. A mulher do homem (Michelle Pfeiffer, excelente), invasiva e desagradável com Mãe e os filhos deles (Damhnall e Brian Gleeson), que vão cometer o primeiro crime.
Eu não leio críticas antes de assistir um filme mas é quase impossível deixar de ver as frases nas manchetes. E há chamadas sobre o filme de Aronofsky que falam numa alegoria bíblica. Então, a essas alturas, quem tem instrução religiosa pensa logo em uma metáfora dos primórdios da história da humanidade, tirada do livro do Gênesis: Deus, a Natureza criada que chamamos Mãe, Adão, Eva saída de sua costela, Caim e Abel.
E essa leitura é um “abre-te Sésamo” para o que vem depois, nas imagens terríveis do fotógrafo Matthew Libatique, quase todas em closes. Muitos de Mãe.
Multidões ensandecidas invadem a casa. Todos querem estar com Ele. Mas, ao mesmo tempo, assustam Mãe e começam a destruir a casa. Fanáticos gritam, choram, lutam entre eles. Há medo e caos. E o fogo vai trazer novamente o apocalipse. Nos créditos finais, Patti Smith canta sobre o fim do mundo.
Darren Aronofsky, 48 anos, que além de diretor é também roteirista, produtor e ambientalista, passa sua mensagem ecológica e contra todos os fundamentalismos religiosos, com intensidade e paixão, em “Mãe!”.  Para isso ele utiliza histórias bíblicas, recicladas para o século XXI, com as quais teve contato durante sua educação como judeu nascido no Brooklyn.
“- O meu Deus é sempre o do Antigo Testamento”, diz ele.
O diretor de “Pi”1998, “Réquiem para um Sonho”2000, “Fonte da Vida”2006, “O Lutador”2008, “Cisne Negro”2010 , já tinha em mente mudanças climáticas na origem de catástrofes naturais quando fez “Noé” em 2014.
Em entrevista sobre “Mãe!” ele disse:
“Acho que é a coisa mais forte que já fiz. É a que tem o maior impacto. A ideia é, ao olhar dentro da escuridão, você revela a luz.”
E saber tudo isso de antemão estraga a visão do filme? Ele mesmo responde:
“Não acho que saber a alegoria, e saber onde estamos indo, vá, de alguma forma, afetar sua experiência ao assistir. Ainda será muito intensa.”
Sabendo que se trata de um filme artístico, com alegorias sobre a Bíblia e interpretações magníficas, você não sente vontade de conferir “Mãe!”?
Eu adorei.




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