sábado, 3 de junho de 2017

Z - A Cidade Perdida



“Z – A Cidade Perdida”- “The Lost City of Z”, Estados Unidos, 2016
Direção: James Gray

O começo do século XX foi uma época em que viagens para lugares ainda intocados por homens brancos, realizadas por exploradores, granjeavam fama e admiração.
Quando encontramos o Major Percy Fawcett (1867-1925), que viria a ser um chefe de expedições famoso, ele está em uma caçada, galopando atrás de um veado, numa trilha perigosa em Cork, Irlanda. Com um tiro certeiro mata sua presa. Os companheiros militares admiram seu manejo da montaria e pontaria. Será o centro das atenções no jantar de gala daquela noite, certamente.
Mas não. Muito elegante em seu uniforma vermelho mas que não ostenta as esperadas medalhas, Fawcett é esnobado pelo anfitrião que comenta em voz baixa que o major não teve sorte com a família. É barrado no jantar.
Assim, limpar seu nome, que herdara do pai, dono de uma má reputação, era o principal objetivo da vida de Percy Fawcett. E a oportunidade de realizar o que tanto buscava surgiu em 1906, quando a Sociedade Real de Geografia o chama para mapear os limites entre o Brasil e a Bolívia. A região era selvagem mas cobiçada por causa da extração da borracha. Os países precisavam de um ponto de vista neutro para resolver a questão.
Essa foi a primeira de três expedições que durante 20 anos  faz Fawcett à Amazônia, de onde volta com a certeza inabalável de que uma civilização sofisticada teria habitado o local, onde encontrara vestígios de cerâmica e esculturas em pedra, encobertas pela selva.
Percy Fawcett amava sua mulher Nina (Sienna Miller, excelente) e os três filhos, dois deles nascidos quando ele estava na Amazônia. Mas a família sofre com suas ausências longas.
A segunda, financiada por um aristocrata atrás de glórias, será pior do que a primeira, morrendo quase todos os participantes, salvando-se Fawcett e seu assistente Henry Costin, interpretado com refinamento por um Robert Pattison ótimo no papel e quase irreconhecível por causa de uma espessa barba.
A eclosão da Primeira Guerra é uma tragédia a mais para ser enfrentada e faz Fawcett sonhar com a selva como um lugar de paz.
Nina, uma mulher à frente de seu tempo, ajuda o marido buscando documentos que comprovassem sua tese, mas não pode acompanhá-lo na terceira expedição com o argumento  que a região é perigosa demais.
Ela fica mas Jack, o filho mais velho (Tom Holland), parte com o pai. E será uma viagem iniciática para ambos. Obcecado em ser respeitado, agarrado à sua esperança louca de encontrar Z, Fawcett se embrenha na selva com o filho, como se fugisse da maldição ligada à reputação do pai, que manchará também seu filho. Não quer o desprezo de seus pares e precisa acreditar que os indígenas mostrarão a ele o caminho para Z. Vê na Amazônia o sonho de uma redenção.
Charlie Hunnam, o “Rei Arthur”, agrega vigor e entusiasmo a seu personagem, que foi um homem complexo e está perfeito como o famoso explorador.
Uma curiosidade é que Brad Pitt quase incarnou Fawcett mas acabou sendo o produtor executivo do filme.
A fotografia de Darius Khondji é bela e misteriosa. A selva verde e escura, o rio dourado, aparentemente manso, tudo esconde em seu seio perigos fatais. As cores são impregnadas de um verde doentio.
A direção de James Gray é segura e o ritmo lento, imposto pela natureza, envolve aos poucos e sugere ameaças.
O roteiro foi adaptado de um dos muitos livros escritos sobre o explorador, é não-ficção, de David Grann de 2009.
E as cenas finais são de uma beleza pungente que nos acompanha quando saímos do cinema.
Belo e extraordinário. Mas não recomendado para quem só aprecia “blockbusters”.


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