quarta-feira, 15 de março de 2017

Mulheres do Século XX



“Mulheres do Século XX”- “20th Century Women”, Estados Unidos, 2016
Direção: Mike Mills

Estamos em Santa Barbara, Califórnia, em 1979. Dorothea Fields (Annette Bening, atriz maravilhosa), e Jamie (Lucas Jade Zumann), seu filho de 15 anos, olham o Ford Galaxy que queima no estacionamento do supermercado.
“- Era o carro do meu ex-marido. Nele trouxemos nosso filho da maternidade. Eu tinha 40 anos... Desde então, somos só nós dois”, diz ela em “off”, fumando o tempo todo.
Moram os dois numa casa grande construída em 1904. Está sendo restaurada aos poucos por William (Billy Crudup), que também mora lá.
Dorothea nasceu em 1924, passou pela Grande Depressão de 39, pela Segunda Guerra e pelo divórcio e agora enfrenta a adolescência do filho único, com a impressão receosa de que ela não conseguiria fazê-lo tornar-se um homem.
Para tanto, recruta duas mocinhas que estão sempre pela casa. Abbie de 19 anos (Greta Gerwig, ótima) que aluga um dos quartos e a bela Julie (Elle Fanning) de 17 anos, que é amiga de Jamie desde que eram pequenos e que dorme escondida, toda noite, na cama dele, como irmãos. Conversam e se apoiam mutuamente. Ela é filha de uma terapeuta mas não se dão bem. Aliás Abbie também tem problemas com a mãe.
Assim, Dorothea funciona como mãe para Abbie e Julie busca Jamie para fazer o papel de irmãozinho. As duas garotas são muito carentes.
Jamie é apaixonado por Julie mas ela é complexa e egoísta. Parece que não percebe o quanto Jamie precisa controlar seus impulsos amorosos e o quanto sofre ao saber que ela transa por aí com outros garotos.
Estamos no final dos anos 70 na Califórnia e a contracultura é o que impera. Dorothea tem a mente aberta, sente-se bem como divorciada mas não consegue gostar das bandas punk que Abbie e Jamie adoram.
Na TV lá está o presidente Jimmy Carter fazendo seu discurso sobre a confiança e só Dorothea curte.
Vemos os trechos do documentário “Koyaanisqati” que mostra pessoas agitadas com a câmara acelerada seguindo o ritmo do shopping center, das escadas rolantes, do consumismo e da alimentação “fast food”.
As cores da natureza nas estradas à beira mar já são psicodélicas, saturadas, arco-íris.
E o feminismo entra pela casa de Dorothea nos livros de Susan Sontag e Simone de Beauvoir que as garotas leem e emprestam para Jamie, que é o centro de atenção da casa.
Às vezes parece que ele está cansado de conviver com tantas mulheres. Mas quem sabe já não é um precursor dos homens sensíveis ao feminino que John Lennon cantará em “Woman”em 1980?
O material do filme parece vir direto das experiências do diretor Mike Mills, às voltas com a complexidade de sua mãe. E Annette Bening se apropria do papel com tanta energia e graça que não podemos deixar de simpatizar com ela.
O forte do filme são os personagens e como enfrentam seus problemas dentro do clima familiar que a mãe Dorothea comanda nas conversas ao redor da mesa do café da manhã ou do jantar.

“Mulheres do Século XX” é um filme gostoso, de afetos calorosos.

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