sábado, 16 de agosto de 2014

Amantes Eternos



“Amantes Eternos”- “Only Lovers Left Alive” Reino Unido, Alemanha, Chipre 2013
Direção: Jim Jarmush

Um amor de séculos une aqueles dois pálidos seres da noite.
Eve (Tilda Swinton), num djelabah negro e dourado, cabelos louros opacos e longos, magra, rosto sem idade, descansa imóvel ao pé de seu leito de dossel, coberto de renda. Adam (Tom Hiddleston), jeito de rock star, está deitado num sofá de veludo grená, abraçado a um alaúde, dorso nú, olhos fechados.
Estão distantes mas muito perto um do outro.
Assim que se faz noite, ela, de rosto velado, anda por uma cidade muçulmana antiga, de ruelas e escadas, que descobrimos ser Tanger, no Marrocos e entra num bar chamado “Mille et Une Nuits”.
É recebida por Bilal que diz:
“- Eve! Como está você? O mestre está frágil mas mostra espírito forte.”
Logo, chega um velho (John Hurt), de olhos embaçados, com um saco de farmácia que dá a ela, que exclama com carinho:
“- Marlowe!”
Ele vem a ser Christopher Marlowe, dramaturgo do século XVI, que confirma o que muitos acreditam: foi ele que escreveu as peças creditadas a Shakespeare. É o mestre de Eve, interessada por literatura de todas as épocas e línguas e seu fornecedor.
Adam, compositor incógnito, vive num apartamento repleto de fios, aparelhos de gravação e compra instrumentos musicais de cordas do século passado.
“- Ah! Preciso de uma bala de madeira calibre 38.”
“- Mas para quê?”
“- Um projeto artístico...”, responde, disfarçando seus impulsos suicidas.
E em seguida sai. Dirige o carro por uma Detroit escura e abandonada e entra no único prédio iluminado. Está de óculos escuros, estetoscópio ao redor do pescoço e veste um avental branco, onde se lê no crachá “Dr Faustus” e leva uma maleta.
Um homem o espera no banco de sangue. Tubos de alumínio passam para a maleta e um maço de notas muda de mão.
Vemos os três, cada um no seu lugar, frente a um cálice de cristal onde brilha um líquido vermelho escuro. Quando o sorvem, caem imediatamente em transe, entreabrindo bocas com caninos ponteagudos e avermelhados pelo sangue ingerido.
São vampiros intelectuais, sofisticados e elegantes.
Quando os amantes se falam e se veem pelo Iphone de Eve e a tela da TV de Adam, estão acordando do torpor duplo e ela, percebendo ele deprimido, promete ir a seu encontro:
“- Já passamos por isso...Você sentia falta da Idade Média, da Inquisição, das enchentes, da peste...Como vai a sua música? Me lembro quando você deu aquela sonata para Schubert...”
Adam e Eve são seculares, viveram tudo, conheceram os gênios, os sábios, os cientistas mas parecem saudosos de tudo isso. Não acham graça no mundo contemporâneo dos “zumbis”, como chamam os homens.
Jim Jarmush, 61 anos,o famoso diretor americano, se esbalda fazendo os diálogos dos dois vampiros rememorarem coisas que vão passar desapercebidas, a não ser para poucos e raros espectadores. Mas esses vão sorrir. E reconhecer tanto as alusões como os retratos na parede de Adam.
Quando chega de Los Angeles a vampira-periguete Ava (Mia Wasikowska), jovem e desmiolada, ouvimos sua irmã Eve avisá-la sobre o perigo do sangue contaminado.
“- Eles não mudam...Só percebem quando é tarde demais...” diz Adam.
Os vampiros de Jim Jarmush são seres desiludidos, nostálgicos e cansados. “Amantes Eternos” é um belo filme para pessoas que se sintam como eles. Os demais vão se aborrecer.

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