quarta-feira, 20 de março de 2013

Pietà


“Pietà”- Idem, Coreia do Sul, 2012

Direção: Kim Ki-duk


Estamos numa região decadente de uma grande cidade. Parece ser Seul, Coreia do Sul. Tudo muito pobre e precário. Oficinas sujas e ruas estreitas atulhadas de detritos. Vielas escuras com moradias improvisadas.

Ali é preciso lutar pela sobrevivência. Quando fica impossível, alguns caem na armadilha de pedir dinheiro emprestado à “Happy – Empréstimos Amigos”. Pura fachada da agiotagem.

A câmara já nos mostrara um rapaz e o que virá a ser uma decisão definitiva que ele vai tomar em sua vida. Mas ainda não o conhecemos. Por isso só no fim do filme vamos nos lembrar dela.

Ele é sózinho. Mora num apartamento onde tropeça em vísceras sanguinolentas de animais que ele mata para comer e que jazem pelo chão. Na sala, uma faca espeta um desenho de mulher com belos seios e o rosto escondido pelo cabelo.

Há um clima de terror nesse filme mas o demônio aqui tem um rosto humano.

Kang-do é bonito, violento e eficiente. Cruel, executa seu trabalho sem pestanejar. O agiota, seu patrão, quer receber o dinheiro que emprestou e pelo qual cobra juros altíssimos. Como naquela pobreza em que vivem as pessoas não conseguem pagar o que devem, o rapaz aleija os insolventes, já que a perda de uma mão ou uma perna imprestável são pagos com dinheiro pelo seguro, que o agiota embolsa.

Simples assim.

Só em uma daquelas visitas sanguinolentas vemos que Kang-do hesita. Trata-se de um jovem que vai ser pai e pede para tocar seu violão pela última vez. Queria que o carrasco lhe tirasse as duas mãos. Uma para pagar o que já devia e outra para conseguir dinheiro para sustentar o filho que ia nascer.

“- Tenho inveja do seu filho”, diz o rapaz violento para o que ia ser pai. “Como você pensa nele!”

“- Mas todos os pais não sentem a mesma coisa por seus filhos?” pergunta o rapazinho.

Dessa vez, Kang-do deixa o papel do seguro sobre a mesa da oficina e o próprio futuro pai faz o serviço em si mesmo.

Qual deve ser o tamanho do amor de um pai que faz tal sacrifício por seu filho? Esta é a primeira pista para o segredo de “Pietà” que será desvendado só no final.

Mas aquela parte da cidade está condenada. E assim como as regiões empobrecidas cedem lugar à arranha-céus, os sentimentos nobres vão desaparecendo quando as pessoas não tem mais raízes, nem ninguém para cuidar e ser cuidado.

O cineasta Kim Ki-duk disse em entrevista que seu filme quer mostrar que os extremos do capitalismo e a crise financeira acabam com as famílias.

Um dia aparece uma mulher na vida de Kang-do que diz ser a mãe que o abandonou quando era ainda um bebê. E a crueldade do jovem carrasco parece encontrar uma barreira quando, finalmente, depois de muito desconfiar, aceita esse amor recuperado. Deixa o emprego e entrega-se ao doce prazer de voltar a ser criança.

Mas algo vai provocar uma reviravolta, com tintas de tragédia edipiana. Um filho será vingado por uma mãe com ares de Medéia grega. A lei do olho por olho, justiça primitiva, tira tudo de quem não tinha mais nada a perder.

A atriz Jo Min-Soo, que incarna a mãe, assombra com seu poder de estimular no espectador simpatia e horror, mesclados à piedade.

O roteiro instigante, escrito pelo próprio Kim Ki-duk, atores magníficos, música pouca e perfeita, fotografia em tons de cinza e marrons e uma direção segura, valeram a “Pietà” o Leão de Ouro em Veneza 2012.

Emocionante, duro, humano, o filme de Kim Ki-duk é uma fábula moral com uma lição a ser aprendida. Se optarmos por nosso lado escuro, o perigo é tornar-se prisioneiro do nosso próprio mal.

Magnífico, esse filme é indicado para quem não tem medo de ver a natureza humana de perto.

sábado, 16 de março de 2013

Anna Karenina

“Anna Karenina”- Idem, Reino Unido, 2012
Direção: Joe Wright

A primeira imagem do filme é a cortina no painel, pintada de vermelho no veludo e ouro nos bordados, réplica da que existe no Opéra Garnier, em Paris. Estamos em 1874, na Rússia Imperial.
E o espetáculo começa como um “vaudeville”, em que vários personagens se apresentam no palco em cenas curtas e com um quê de farsa.
Em sua primeira aparição como Anna Karenina, a bela Keira Knightley tem um anel de brilhantes, em “close”, colocado em seu dedo, enquanto ela lê uma carta e toma café, sendo vestida pelas criadas. E surge o primeiro vestido, de seda cor de ameixa, gola alta e saia farta com a cintura marcada. Todos os holofotes brilham sobre ela.
“- Ah! Stiva...”, exclama com um meio sorriso de desaprovação, fechando a carta.
E em seu escritório, o marido, Alexei Karenin, interpretado com gravidade por Jude Law, diz a ela:
“ - Não o desculpe só porque ele é seu irmão.”
Leon Tolstoi, um dos grandes escritores russos, nos coloca no princípio de sua história o tema que propõe: infidelidade conjugal.
E, enquanto Anna tende a ser mais condescendente, o marido já mostra sua severidade. E este vai ser o drama, numa sociedade onde as regras, os costumes, são mais importantes que as leis.
O modo teatral com que o diretor Joe Wright (“Orgulho e Preconceito” 2005 e “Desejo e Reparação” 2007) imaginou sua Karenina, fotografado com perícia por Seamus McGarvey, faz com que se acentue o artificialismo da alta sociedade da época, vivendo já o começo de sua derrocada. Tom Stoppard, o roteirista, não precisou alterar nada do que havia escrito para que fosse possível a encenação do diretor.
E é estupenda a transição do artificial/teatral para o naturalismo do campo russo onde vive Levin (na pele de Domhnall Gleeson), o alter-ego de Tolstoi, que se preocupa em encontrar novos valores para sua vida. Como num sonho, o palco se abre para uma planície gelada onde brilha o sol em contraste com os holofotes do palco. Uma “dacha” de madeira e o patrão ceifando o campo junto a seus camponeses, enquanto sonha com sua Kitty (a adorável atriz sueca Alicia Vikander que fez “O Amante da Rainha” 2011).
Joe Wright apenas sugere o momento político, para privilegiar o estético e o sentimental, o que tanto pode ser seu “calcanhar de Aquiles” para alguns, como o seu ponto forte para outros. Afinal, o romance de Tolstoi e sua pobre heroína já foram vistos e revistos em dezenas de adaptações para o palco e para a tela. Greta Garbo, Vivien Leigh e Sophie Marceau, para só citar as melhores e mais famosas, viveram Anna e seu drama.
Joe Wright inova com Keira Knightley. A beleza, sensualidade e o luxo estão em primeiro plano. Uma festa para os olhos, embalada pela trilha de valsas de Dário Marinelli.
Anna K. por Chanel, ostenta joias preciosas e ao gosto do século XXI, enquanto seus vestidos, que valeram o Oscar e o Bafta para Jaqueline Durran, são chics e femininos, com saias amplas mas sem exageros de época, atuais, com destaque para as golas de pele e os chapéus pequenos, plumas na cabeça e véu de renda sobre o rosto.
E, se o Conde Vronsky (o fraco Aaron Taylor-Johnson) serve apenas como pretexto para Anna seguir seus impulsos auto-destrutivos, tudo é embalado com arte e sedução. A cena do piquenique na floresta, os dois de branco, deitados numa toalha sobre a grama fresca, tem o “close” de uma língua rosada que roça a boca do amante e passa o gosto de uma sensualidade infantil e sem problemas, que Anna busca e não encontra em seu casamento.
Anna K. ama o amor. E não hesita em entrar em choque com os preconceitos. Parece, antes, ávida para viver a vida num rodopio.
Belíssima, a cena do baile, com sua coreografia de ballet, enfatiza o sonho de Anna de viver o desejo sem pensar nas consequências.
O preço a pagar será alto.
Tolstoi inicia seu romance com uma frase bem conhecida: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são, cada uma à sua maneira”.
Anna ilustra a segunda opção e Levin com Kitty a primeira. Para contar sua história e provar sua tese, Leon Tolstoi imaginou a frágil Anna e a eternizou, como o símbolo do perigo de entregar-se à ilusão que idealiza o amor.
Muitos de nós já passaram por essa pena. Vale rever essa nova versão.

terça-feira, 12 de março de 2013

O Quarteto


“O Quarteto” - “The Quartet” Reino Unido,2012
Direção: Dustin Hoffman


Para quem gosta de ópera é uma delícia. Para os que apreciam boas atuações é um prazer. E para quem quer se distrair, é um bom entretenimento.
Dustin Hoffman, 75 anos, em sua primeira investida como diretor de cinema, acertou em cheio com “O Quarteto”.
Como bom ator que ele é, deixou que seus convidados fizessem o que sabem. E ele os acompanhou com a câmara que mostra que, se não são mais jovens, são ainda pessoas que valorizam a vida, apesar dos males que os afligem.
Tudo se passa em Beecham House, onde artistas são acolhidos numa bela mansão, cercada de um parque magnífico. E seus hóspedes foram (como extras no filme e na vida real no passado), cantores de ópera, de “vaudeville”, musicistas de todos os instrumentos, agora aposentados e, como quase todo artista, sem dinheiro.
Mesmo assim, são muito bem tratados pelo pessoal da jovem médica (Sheridan Smith) que administra a casa de repouso.
Dustin Hoffman vai apresentando os personagens sem pressa, passeando pelas salas da velha mansão, decorada com móveis antigos e cores brilhantes nas paredes, como os ingleses gostam e sabem fazer como ninguém.
Mas, parece que algo vai mal porque todos se entreolham quando o excêntrico Cedric (Michael Gambon) diz que, se não ensaiarem direito, o gala beneficente será um fracasso e a casa de repouso não terá outra saída senão fechar as suas portas.
Veremos que os empecilhos não são apenas de disciplina nos ensaios, porque fica claro que as vozes nem sempre conseguem alcançar a nota da partitura, alguém se esquece do que tinha de dizer, outro ainda não pode ficar porque passa mal e ruma para o hospital, para consternação geral.
A idade não ajuda os intérpretes que fizeram sucesso no passado e agora se reúnem para ouvir suas antigas gravações, relembrando a glória.
E quando chega a grande diva, interpretada por Maggie Smith, esplêndida em seus trajes elegantes, luvas e bengala encastoada em prata, há um rebuliço geral.
O ex-marido Reggie (Tom Courtenay), seu amigo conquistador Wilfred (Billy Connolly) e a companheira de turnês artísticas Cissy (Pauline Collins), a reverenciam e Jean recebe os aplausos dos outros hóspedes, quando chega na mansão, com graça. Mas está insegura e, sem ela, o quarteto do “Rigoletto” não poderá ser o “grand finale” do espetáculo de arrecadação de fundos.
A peça de teatro de Ronald Harwood deu origem a um bom roteiro escrito pelo autor e os diálogos são entremeados por músicas que todos conhecem.
O número final do quarteto emociona e nos faz lembrar que a velhice não precisa necessariamente ser um tempo de apenas recordações do passado.

domingo, 10 de março de 2013

Amor É Tudo que Você Precisa


 “All You Need is Love”- “Amor é Tudo que Você Precisa”, Dinamarca, Suécia, Itália
Direção: Susanne Bier


Com esse título, emprestado da famosa canção dos Beatles de 1967, Susanne Bier, a diretora dinamarquesa que já ganhou um Oscar de melhor filme estrangeiro por “Em um Mundo Melhor” (2010), vem nos contar sobre um sentimento que está sempre no centro de nossas vidas, mesmo quando parece ausente.
Mas não espere assistir a só mais uma comédia romântica ou um dramalhão. A diretora nos oferece um presente nesse filme, não só pelo roteiro bem escrito e que não cede a tentações de soluções fáceis para os pares que desfilam na tela, como pela escolha dos atores ou os lugares escolhidos para as filmagens.
Assim, a atriz dinamarquesa Trine Dyrholm, além de uma presença bonita e olhos azuis expressivos, leva bem o papel de uma mulher com filhos crescidos, que se vê presa de uma doença cruel, que a desfigura. Mas, se ela é frágil, é também forte para enfrentar não só o tratamento, como a convivência com o medo de morrer. Talvez até por causa disso, seu casamento não vai bem, mas ela só acorda para o fato quando confrontada com a cena a vivo e a cores.
Já Pierce Brosnan, ex-agente 007, o bonitão ator irlandês, está ótimo como o viúvo rico traumatizado, que foge da vida se entregando ao trabalho.
É claro que esses dois vão ter muito o que trocar, já que o destino prepara um casamento entre seus filhos, que vem a calhar.
E tem melhor cenário para falar de amor ou desamor do que a Itália, numa “Villa” antiga em Sorrento, daquelas que a gente vislumbra atrás de cercas vivas em cidades italianas à beira-mar?
As festas em torno aos noivos são motivo para que os personagens se apresentem, dancem, comam, bebam, tudo debaixo de um pomar de limoeiros e terraços que dão para o mar, com o Vesúvio ao fundo.
Durante um passeio entre os limoeiros, há uma bela metáfora sobre o amor, que o pai do noivo, Phillip, descendente dos donos da plantação, diz para a mãe da noiva:
“- Você sabia que os limoeiros foram laranjeiras há muito tempo atrás? Muitos enxertos foram necessários para que crescessem os limões “, diz para Ida.
E acrescenta:
“-É preciso muito cuidado para que continuem a dar limões”.
“- Então essas árvores podem dar laranja e limões? Não sabia disso,” responde Ida.
E assim não é o amor? Doce e amargo? Em uma combinação diferente para cada par que vive esse sentimento, delicioso e sofrido conforme o momento?
Mas quem não precisa dele?
Vá passar umas duas horas gostosas no cinema pensando sobre isso. Faz bem.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Atrás da Porta

“Atrás da Porta”- “The Door”, Hungria, Alemanha, 2012
Direção: Istvan Szabó

O amor tem muitas faces. Algumas difíceis de reconhecer.
Em “Atrás da Porta”, do diretor húngaro Istvan Szabó, falado em inglês, um sentimento raro se esconde atrás de um rosto severo e gestos secretos.
Estamos nos anos 60 em Budapeste e um casal se muda para um bairro residencial de casas simples, árvores e jardins campestres.
Ela (Martina Gedeck) é escritora e procura na vizinhança alguém para ajuda-la no trabalho doméstico, para que possa escrever em paz.
Alguém lhe indica uma senhora que cozinhava e faxinava. Morava logo em frente, num apartamento no andar térreo. Quando falou com ela, ouviu de uma pessoa zangada e olhos desconfiados:
“- Não costumo trabalhar para qualquer um. Quem são vocês?”
Louca, orgulhosa, esquisita, que mais adjetivos encontram seus vizinhos pra desqualifica-la?
O certo é que ninguém podia entrar na casa de Emerenc, a não ser Viola, o cachorrinho adotado pela escritora, que logo se tomou de amores pela criada. Só obedecia a ela e a olhava com olhos de adoração.
Mas por que Viola? Foi Emerenc que deu esse nome feminino ao cãozinho macho. Mais uma de suas excentricidades, pensou o casal que apreciava sua maneira de arrumar a casa e sua cozinha.
Só a câmara mostra os gestos de carinho de Emerenc para com sua patroa. Pratinhos com quitutes que ela preparava e deixava silenciosamente na cozinha enquanto a outra trabalhava na máquina de escrever.
Um violino toca Schumann ao fundo e vamos acompanhando o nascer de um sentimento amistoso entre as duas, patroa e empregada.
Ao marido da escritora, entretanto, não escapa a qualidade de tais pratos de porcelana deixados em sua cozinha, o que engrossa a desconfiança que ele tem sobre o passado de Emerenc na época da Segunda Guerra. Ladra? Aproveitadora do infortúnio de ricos judeus perseguidos?
O certo é que Emerenc fora educada para esconder ou mostrar pouco sua natureza generosa.
Helen Mirren, 67 anos, atriz que dispensa elogios, ganhadora do Oscar por “A Rainha”, vive Emerenc com garra e alma.
O diretor de 75 anos, de quem nos lembramos do filme “Mephisto" de 1981, inspirou-se na novela de Magda Szabó, nenhum parentesco apesar do sobrenome, e co-escreveu o roteiro com Andrea Veszits.
Uma bela história, contada com simplicidade e belas tomadas do passado, vivida por duas atrizes afinadas, que comove e nos faz pensar em sentimentos nobres escondidos em pessoas rudes.

domingo, 3 de março de 2013

Hitchcock

“Hitchcock”- Idem, Estados Unidos, 2012
Direção:Sacha Gervasi


Não foi fácil tornar-se o diretor de um dos filmes mais cultuados de todos os tempos, “Psicose” (1960), que custou U$800.000 ao próprio Hitchcock e rendeu mais de 50 milhões de dólares.
A cena do chuveiro com Janet Leigh, em preto e branco, é dessas imagens do cinema que ninguém esquece, a trilha sonora de Bernard Hermann marcando com um som estridente e repetido, o ritmo das facadas, que são sugeridas com tanta realidade pela montagem, que todo mundo pensa que viu mesmo Norman esfaqueando a loura de touca de banho.
Alfred Hitchcok (1899-1980) tinha 60 anos quando sua estrela brilhou mais forte. Dono de um programa de TV nos anos 1955 a 1962, em preto e branco, onde aparecia introduzindo suas histórias de suspense, ficou mundialmente conhecido. Mas a sua produção como diretor em Hollywood já era extensa e bem sucedida. Filmes como “Rebeca, a Mulher Inesquecível” (1940), “Festim Diabólico” (1948), ”O Homem que Sabia Demais” (1956), “Um Corpo que Cai”(1958), colocaram ele entre os diretores mais bem pagos daquela época.
Mas, depois da estreia de “Intriga Internacional” (1959), diretores mais jovens começaram a ocupar mais espaço na imprensa.
É aí que começa o filme “Hitchcock”, do diretor inglês estreante Sacha Gervasi, 46 anos.
Baseado no livro “Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose” de Stephen Rebello, 62, o filme tem Anthony Hopkins fazendo Hitch, com próteses no rosto e barrigão postiço, para ficar parecido com o diretor, mas que infelizmente engessaram o ator. E tem também a talentosa Helen Mirren como sua mulher Alma (1926-1982) com quem ficou casado por 54 anos.
Scarlett Johansson faz Janet Leigh, a estrela de “Psicose” e, numa ponta, Jessica Biel aparece como Vera Miles, irmã da loura principal.
Na verdade, Vera Miles havia desistido do papel principal de “Um Corpo que Cai” e foi substituída por Kim Novak. Hitch nunca a perdoou por trocá-lo para ter um bebê e dedicar-se à família.
Um dos traços do diretor era o tom cruel com que dirigia suas atrizes, “louras frias”, para delas tirar o melhor, desculpava-se ele.
Sua mulher Alma sabia de sua fixação pelas atrizes de seus filmes e Helen Mirren está magnífica no papel da esposa que intui o que acontece mas não deixa o palco, onde atua como a eminência parda por detrás do gênio, ajudando-o em quase todos os roteiros que ele filma.
O relacionamento entre eles era infantil e Hitch dependia dela como de uma mãe, amada e odiada. Seus ciúmes por ela eram doentios.
Aliás, essa personalidade de traços sombrios, violentos mesmo, mesclados a uma insegurança e dependência de uma mulher, que ficava oculta, faz Hitchcock ficar fascinado pelo livro de Robert Bloch “Psycho”, que conta a história de um “serial killer” de mulheres, Ed Gein, que inspirou o personagem Norman Bates, interpretado por Anthony Perkins em “Psicose”.
Não por acaso, tanto Ed (que aparece no filme em cenas de delírio de Hitch) quanto Norman, dois incestuosos, eram homens com problemas sexuais e mentes doentias.
O diretor de “Hitchcock” diz sobre “Psicose”:
“Foi um fenômeno mundial. Eu acho que todo mundo que viu “Psicose” como eu, quando era mais jovem, sofreu um grande impacto. O lado negro e a violência eram chocantes.”
Bem, se esse não é o filme definitivo sobre o mestre do suspense, é porque Hitchcock guarda ainda muito para nos contar sobre sua genialidade difícil. Outros filmes ainda virão.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A Caverna ds Sonhos Esquecidos

“A Caverna dos Sonhos Esquecidos”- “Cave of Forgotten Dreams”, França, Estados Unidos, Alemanha, 2010
Direção: Werner Herzog

Quer fazer uma viagem no tempo? Visitar o homem pré-histórico que habitou a região de Vallon-Pont-D’Arc no sul da França, no vale do rio Ardèche?
Mais. Quer experimentar o que Jean Marie Chauvet e outros dois exploradores sentiram quando, em dezembro de 1994, penetraram num buraco e cavaram até chegar dentro de uma caverna?
A tocha de Chauvet, apontada para as paredes de rocha fez com que ele exclamasse:
“- Eles estiveram aqui!”
Imaginamos a emoção daquele que deu o seu nome à caverna, e seus companheiros, quando viram os desenhos, mais de 400, que enfeitam as paredes em meio às marcas das garras de ursos, principais habitantes do lugar e cujos crânios, enfeitados por cristais brilhantes, jazem no chão atapetado de estalactites e estalagmites, entre pegadas humanas e animais, ossos e restos das tochas dos que penetraram na caverna. Tudo recoberto por um tecido brilhante de água e rocha cristalizada.
Para nosso espanto e maravilha, entramos com o cineasta alemão Werner Herzog, 70 anos (diretor dos conhecidos “Nosferatu” 1979 e “Fitzcarraldo” 1982), pela porta de aço que veda o acesso à caverna.
Sua entrada principal foi selada pelas pedras que caíram durante um terremoto há 25.000 anos. Isso fez com que a caverna se tornasse uma cápsula do tempo, contendo intactas as pinturas ruprestres mais antigas de que se tem notícia, de 30 a 32.000 anos atrás.
É um privilégio, já que turistas não são permitidos aqui. Herzog obteve uma licença especial do governo francês e conseguiu filmar os desenhos, iluminados com três focos de luz e uma pequena máquina 3D, manejada por Peter Zeitlinger.
Herzog e seu pequeno grupo são vistos durante a filmagem andando em fila indiana por uma estreita passarela. É proibido sair desses limites.
As cenas nos comovem e emudecem porque os desenhos realizados com perícia e arte, com pedaços de carvão, estão lá preservados como no dia em que foram feitos.
Cavalos com suas crinas espessas, bisões em manada, enormes mamutes, leões das cavernas sem juba, rinocerontes com longos chifres, ursos, antílopes, alces e um único leopardo, se mostram aos nossos olhos em dimensões e proporções que o artista conseguiu criar aproveitando as reentrâncias e os volumes da rocha.
O que dizer do cavalo que parece relinchar com sua boca aberta? Ou do casal de leões que jaz a um canto com a fêmea roçando seu flanco no macho? E os rinocerontes em luta com seus chifres se batendo e cascos em fúria, projetados para a frente? Ou ainda na rocha que pende do teto ostentando o único desenho de um ser humano, uma Vênus ancestral?
E o que pensar sobre o conjunto de pedras arranjadas como um altar, encimado por um crânio de um urso, em face à entrada da caverna?
E pasmem. Werner Herzog, nosso anfitrião e narrador em “off”, alude a um proto-cinema quando nos mostra as várias patas de um bisão que dão aos nossos olhos a impressão de movimento.
Nas entrevistas com espeleólogos, arqueólogos, antropólogos e outros cientistas que mapeiam e estudam a caverna, há alusão ao nascimento do homem como o conhecemos, o “homo sapiens” que, naquela época, convivia com os Neandertais, que não deixaram nenhuma marca artesanal.
O passado remoto está ali e a alma dos nossos antepassados nos espreita nos traços que deixaram.
“A Caverna dos Sonhos Esquecidos” é um testemunho imperdível da história do homem e uma aula de arte magnífica.