domingo, 19 de agosto de 2012

360

“360”- Reino Unido, França, Austria 2012
Direção: Fernando Meirelles
Nunca o mundo todo pareceu tão acessivel a todos como hoje em dia. Aviões cruzam os céus e aproximam pessoas e lugares, antes inatingíveis. Mas, do mesmo modo, há um lado caótico e impessoal nessa proximidade de estranhos, que deixa lacunas na comunicação.
Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”2002, “Jardineiro Fiel”2005, “Ensaio sobre a Cegueira”2008), gosta de movimentar sua câmara e andar atrás de seus personagens.
Em “360”, adaptação da peça de teatro “La Ronde”do austriaco Arthur Schnitzler (1862-1931) pelo roteirista britânico Peter Morgan, o mundo dá voltas e os personagens se conectam, viajando por Viena, Paris, Londres, Bratislava, Denver e Phoenix.
“- São nove histórias e a gente fica com a impressão de que não pôde desenvolvê-las como gostaria”, diz Meirelles.
Mas esse é o charme do filme que segue os personagens durante um certo trecho do caminho e logo tem que abandoná-los para seguir outros. Há uma pressa contemporânea que marca os relacionamentos entre os seres humanos e os torna fragmentados.
Na história entram na roda uma prostituta eslovaca (Lucia Siposová) e sua irmã Anna (Gabriela Marcikova), um empresário inglês (Jude Law) casado com Rose (Rachel Weisz) que tem um caso com um fotógrafo brasileiro (Juliano Cazarré) que vive com a namorada ( Maria Flor, atriz muito expressiva) em Londres, que decide voltar para o Brasil e conhece no voo o britânico John ( Anthony Hopkins), ex-alcoólatra que procura a filha desaparecida nos Estados Unidos e também Tyler (Ben Foster), criminoso em liberdade condicional. Enquanto isso, em Paris, uma russa mal casada (Katrina Vasilieva) com um chefe do crime se apaixona por outro, enquanto o marido se vê envolvido com a irmã da prostituta eslovaca do início do filme. Giro de 360 graus.
Lá pelas tantas, um dos personagens diz ao outro:
“- Cheguei em uma bifurcação. Estamos em caminhos separados agora. Onde irão nossos caminhos?”
Essa é a pergunta que todos nós nos fazemos, um dia ou outro. Por isso nos identificamos com esses personagens que buscam a ligação com outros parceiros mas também se separam porque a vida continua e novas experiências os aguardam.
O filme de Fernando Meirelles é visualmente bonito, os atores brasileiros estão ótimos, falando um excelente inglês com charmoso sotaque e Anthony Hopkins é um “monstro”em sua atuação sempre excepcional.
Se algo parece rigido na história de “360” é, talvez, porque o mundo é redondo e, girando nesse angulo proposto, voltamos sempre ao mesmo lugar e ao mesmo ser humano, sempre igual em suas incertezas, buscas e confusões em seus amores e paixões, aonde quer que estejam.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Exercício do Poder



“O Exercício do Poder”- “L’Exercice de L’État”, França/ Bélgica, 2011
Direção: Pierre Schoeller


Só pode ser um sonho, pensamos nós, ao ver as figuras surrealistas na tela. Mulheres com chapéus altos e véus negros, qual sacerdotisas de uma seita estranha, montam um escritório com objetos preciosos. Desenrolam um tapete, colocam relógio, uma escrivaninha...
Mas o que faz aquela mulher nua e branca em um canto da sala? Horror. Um enorme crocodilo, na outra ponta da sala, está de boca aberta. Pronto para avançar sobre a pobre mulher? Com surpresa vemos que acontece o contrário. A mulher rasteja e entra docilmente na goela do bicho monstruoso.
Essa metáfora, criada em cima de uma famosa foto de Helmut Newton, “A Lenda da Virgindade”, serve como uma luva para o diretor francês Pierre Schoeller abrir seu filme que fala sobre política.
Não como quis o tradutor brasileiro, que trocou a palavra “Estado” pela palavra “Poder”.
Trata-se, no filme, de colocar em imagens o exercício do Estado, função das pessoas que elegemos para ser políticos e decidir sobre muitos dos rumos da nossa vida. O titulo correto seria então, “O Exercício do Estado”.
Em entrevista a Luiz Carlos Merten, o diretor do filme explica o titulo e o equívoco cometido pela tradução:
“O poder se aplica em qualquer situação humana, há os que mandam e os que são mandados, os que aceitam e os que se rebelam. O Estado é uma forma de organização social política, em que os indivíduos, os eleitores, outorgam o poder a uma classe dirigente. Essa classe tende a formar um núcleo fechado e, eu diria que tende a usar de expedientes para se eternizar no poder.”
Lá como cá, assim são os políticos.
Mas, brasileiro tem a tendência a pensar só em corrupção quando se fala em política. Pudera, há numerosos exemplos infelizes. Para a maioria de nós, político só pensa em se dar bem.
Há numerosas e honrosas exceções, eu diria mas que, infelizmente, fazem a regra no nosso país.
Na França, os políticos, em geral, pensam em permanecer em seus postos por uma adoração ao poder que emana do Estado, o crocodilo do sonho do início do filme.
Daí o filme mostrar um Ministro dos Transportes que luta pelo seu cargo. Ao enfrentar uma tragédia de um acidente rodoviário com um ônibus que mata várias crianças, vemos que seus assessores fazem de tudo para transformar o fato em publicidade gratuita para o Ministro.
Vivido pelo extraordinário ator Olivier Gourmet, vamos observá-lo nos bastidores da política, lutando para continuar sempre em foco. Nem que por isso tenha que sacrificar amizades, amores e família.
Mesmo aqueles a quem a política não interessa, inocentes do poder do Estado sobre todos nós, deveriam ver, nem que seja uma vez na vida, um filme que tenta entender os políticos e esse vício pelo poder do Estado que os conduz.
“O Exercício do Poder” é um filme muito elogiado que poucos irão ver. Uma pena.

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À Beira do Caminho



“À Beira do Caminho”- Brasil, 2012
Direção: Breno Silveira


Quem não tem uma música de Roberto Carlos marcando um momento romântico em sua vida? O Brasil todo sabe cantarolar Roberto Carlos.
O diretor de cinema Breno Silveira (“2 Filhos de Francisco” ) é até explícito: sem as músicas de Roberto Carlos não haveria o filme “À Beira do Caminho”.
Na tela, um caminhão enfrenta a poeira numa estrada deserta da Chapada Diamantina, no sertão da Bahia. E já ouvimos:
“Quantas vezes eu pensei voltar...”
Na boleia, um cara barbudo, com o rosto fechado. Adivinha-se nele um sofrimento antigo.
À noite, sozinho na imensidão, ele e seu caminhão junto à fogueira, ele rabisca algo num caderninho. E, de novo, escuta-se a canção:
“Quantas vezes eu pensei voltar
E dizer que o meu amor nada mudou,
Mas o meu silêncio foi maior...”
E lá se vai o caminhoneiro em sua jornada lenta e solitária, perdido em suas memórias.
Até que em uma noite ele encontra, escondido dentro do caminhão, não um bicho ou um ladrão, como pensava assustado, com um revólver em punho mas um menino. Certamente num dos lugares onde parou à beira da estrada, o pequeno intruso aproveitara para se esconder lá dentro.
“- Por favor, não atira, moço. Só tava pegando uma carona...”
“- Saia já daí!”
E o garoto mulato, de olhos expressivos, pede:
“- Moço, você não vai me deixar aqui, né?”
E a sorte está lançada. Os dois vão fazer a viagem juntos.
João (João Miguel), o caminhoneiro triste e Duda (Vinicius Nascimento), o garoto que procura encontrar o pai, que nunca viu. Nessa vida ele não tem mais ninguém. O retrato 3x4 do pai está sempre com o menino, assim como o da mãe já morta, uma mulata bonita que sorri na foto.
O caminhoneiro atormentado por seu passado e o menino que ele encontrou, vão viver aventuras naquela estrada que os uniu, já adivinhamos desde o início do filme. A simplicidade da história mas também suas reviravoltas e o desempenho dos atores (inclusive Dira Paes, numa ponta que ela aproveita bem), conquistam o nosso coração e seguimos com eles.
No caminho, as paisagens de um Brasil que poucos conhecem, os rios com águas claras, o cerrado sem fim, as fogueiras para se aquecer à noite e as músicas de Roberto Carlos.
“Presta atenção! Essa é a nossa canção!
Vou cantá-la sempre aonde for
Para nunca esquecer o nosso amor...”
“- Você não tem família, João?” pergunta Duda sem medo da cara feia do outro.
E o homem só, se lembra de uma saia florida.
“Como vai você?
Que já modificou a minha vida...”
As lembranças que João traz no peito e que não o deixam em paz, causa daquele sofrimento antigo, vão reacender um sentimento em seu coração.
E nós, na plateia do cinema torcemos pelos dois que procuram a quem amar.
A traseira filosófica do caminhão ensina: Espere o melhor, prepare-se para o pior e aceite o que vier.
Um filme singelo esse “À Beira da Estrada”. Roteiro interessante de Patricia Andrade com a colaboração de Domingos de Oliveira e fotografia sem malabarismos de Lula Carvalho.
E como é gostoso ouvir a voz doce de Vanessa da Mata cantando junto aos créditos finais:
“Olha aqui,
Presta a atenção,
Essa é a nossa canção...”

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Bel Ami, o Sedutor


“Bel Ami, o Sedutor”- “Bel Ami”, Reino Unido/ França /Itália, 2012
Direção: Declan Donnellan e Nick Ormerod

Subir na vida usando o belo visual, fazendo sexo sem escrúpulos e envolvido em mentiras, pisando em tudo e todos, sem nenhum arrependimento ou remorso.
Esse é o roteiro pessoal de Georges Duroy, na Paris da última década do século XIX, no filme “Bel Ami, o Sedutor”, que se inspira no romance de Guy de Maupassant de 1885.
Mas esse livro poderia ter sido escrito hoje. O enredo não passou de moda num mundo onde muitos querem ser famosos e ricos, custe o que custar, de preferência sem fazer nenhum esforço para isso e, pior, sem medir as consequências de seus atos e jogando os escrúpulos pela janela. Chamar a atenção sobre esses tipos e o modo perverso como atuam, é uma das qualidades do filme.
Guy de Maupassant, escritor francês, autor de “Bel Ami", faz um retrato debochado da sociedade parisiense nos anos entre os séculos XIX e XX, para isso colocando no centro do palco, seu herói sem caráter, Bel Ami.
No cinema, Robert Pattison, o famoso vampiro da saga “Crepúsculo” é Bel Ami, apelido dado a Georges Duroy pela filha de sua primeira amante da alta sociedade parisiense, uma criança ingênua.
Ao chamá-lo assim, a menina viu no rapaz apenas a bela estampa, roupas caras e a vontade de agradar. Só a aparência. Tipos como Bel Ami, aliás, sempre fizeram sucesso entre as mulheres ingênuas de todas as idades...
O filme tem com subtítulo “O Sedutor". E, certamente, enfatiza mais esse lado donjuanesco do personagem. Mas Georges Duroy não tem a sedução em si como seu verdadeiro objetivo. Ele almeja poder e dinheiro, conseguindo sempre tudo o que quer através de manipulações sedutoras e inescrupulosas.
Robert Pattison se esforça no papel titulo mas não possui as características que imaginamos para o personagem quando lemos o livro. Faltam nuances em seu comportamento, frieza no olhar, insinuações libertinas e humor perverso.
O descompasso entre o ator e as atrizes que o cercam, dão ao filme um ritmo defasado. Elas brilham e ele é o coadjuvante, quando deveria ser o contrário.
Se não, imaginem. A maravilhosa Uma Thurman faz Madeleine, bela, inteligente e também manipuladora. Christina Ricci, juvenil, é Clotilde, a mais romântica e generosa. E Kristin Scott Thomas, com a sua sensibilidade apurada a serviço de sua personagem, é Virginie, a mulher mais velha e inexperiente que não entende o que Bel Ami quer com ela. Convenhamos, precisaria ser muito carismático para enfrentar um trio desses e não perder a liderança.
“Bel Ami, o Sedutor” tem uma fotografia que valoriza os atores e a cidade de Budapeste, onde foi rodado e direção de arte esmerada. Figurinos atraentes e trilha sonora bem encaixada.
O filme agrada porque tudo é bem cuidado, Robert Pattison tem uma bela figura e as atrizes são magníficas mas está longe do requinte psicológico com que Guy de Maupassant escreveu seu livro famoso, um clássico da literatura.



domingo, 5 de agosto de 2012

Elles

“Elles”- Idem, França/ Polonia/ Alemanha 2011
Direção: Malgorzata Szumowska

O que esperar de uma jornalista madura, classe média alta, que resolve escrever um artigo para a revista “Elle”, que envolve uma pesquisa com estudantes que se prostituem para pagar seus estudos?
Anne (Juliette Binoche, atriz fantástica), mergulha no assunto e se entrega. Noites sem dormir no computador, filhos, marido e casa em segundo plano. O quotidiano a enfada.
Pior. Tudo que descobre a deixa fora de prumo, excitada.
Alicja, uma garota polonesa que ela conhece através de um anúncio na internet, a envolve completamente. Com ela, Anne descobre um mundo novo, tentador, pecaminoso.
E, ao mesmo tempo, começa a focalizar os homens pela maneira como essa moça pensa sobre os seus clientes:
“- Que tipo de clientes você tem?”
“- Maridos que se aborrecem.”
“- O que você disse que faz sem camisinha?”, pergunta ela ao ouvir Alicja marcar um encontro pelo celular.
“- Felação. Esses homens só dormem com suas esposas, não tem perigo”, responde a garota.
Lola, a francesa que Anne também entrevista, perguntada sobre o que fazia antes, responde:
“- Baby-sitter, garçonete... Isso ainda me serve de cobertura para contar para meus pais, amigos e namorado. Mas é com esse trabalho que eu faço dinheiro.”
Lá pelas tantas Anne comenta:
“- Mesmo assim, não é fácil...”
“- A gente se acostuma com o dinheiro”, diz Lola.
E a polonesa Alicja, que esconde da mãe o que faz na vida, conta:
“- Você sabe como é difícil arranjar apartamento em Paris. Depois de um mês de trabalho consegui um lindo!”
Anne, uma intelectual desligada no começo do filme, começa a se preocupar com o peso, faz exercícios e dieta. Está sempre pensativa e longínqua em casa, escutando música clássica.
Inveja a jovem polonesa bonita e realista? E o que pensar sobre a francesinha que parece tão à vontade em sua vida dupla? E o sexo que elas encaram com tanta naturalidade? E os homens? E o marido?
Parece que Anne não tem outra saída. Sua sexualidade redescoberta vai ter que ser enfrentada.
O marido reclama:
“- Desde que começou a escrever esse artigo você está bizarra...”
Vai ser possível voltar ao que era antes?
Para muitas mulheres o sexo permanece um tabu.
A educação moralista dada às meninas, a ignorância sobre o próprio corpo e seus desejos, a falta de sinceridade nas relações marido/mulher e o preconceito com a sexualidade feminina existente ainda na nossa cultura, colaboram para esse resultado que empobrece a vida de muitas mulheres.
“Elles”, dirigido e co-roteirizado pela polonesa Malgorzata Szumowska de 34 anos, trata disso tudo com coragem, questionando e botando o dedo em uma ferida que parece longe de cicatrizar.

A Vida dos Peixes

“A Vida dos Peixes”- “La Vida de los Pesces”, Chile 2010
Direção: Matias Bize

“É desconcertante rever um grande amor”? Chico Buarque afirma isso na canção “Anos Dourados”.
Eu diria que é muito mais. Principalmente se o amor perdura.
“A Vida dos Peixes” coloca um reencontro desses no centro do palco e, fazendo isso, adiciona outros sentimentos mais profundos ao de ser apenas perturbador.
Quando André, que escreve guias de turismo, volta à sua terra natal, o Chile, depois de dez anos na Alemanha, ele não veio para ficar.
No aniversário de um amigo, se despede dizendo:
“- Tenho que fazer as malas... Vou amanhã, já é tarde.”
Os amigos brincam comentando as bugingangas que ele leva na mala por causa de sua profissão.
“- Viajo, me pagam bem. E depois, turistas não querem nada de importante. É tudo sempre igual. Clichês. O que fazer com a família, as crianças...”
André ganha tempo? Certamente ele evita um assunto que paira no ar:
“-Você a viu?”
“- Não...”
“- Nós a convencemos a dar um pulo aqui. Espere. Há quanto tempo não a vê?”
“- Muito...”
Ele se despede dos amigos, da dona da casa e, de repente, na sala escurecida e enfeitada por lampejos de luzes coloridas, onde pessoas dançam, ele a vê. Dá passos para trás, abalado.
Entra em um quarto, como que fugindo e encontra uma velha amiga pondo o bebê para dormir. Conversam banalidades mas o tema reaparece:
“- Quando vocês terminaram, para mim foi muito incômodo. Não sabia o que fazer... Não queria tomar partido. Então me afastei de vocês dois. Um dia fui tomar sorvete com Bea e ela me falou de você.”
Ele corta e dirige a conversa para outro rumo.
Mas não vai dar para adiar aquilo que, fatalmente, vai acontecer. Lutando consigo mesmo, ele vai ao encontro dela.
“A Vida dos Peixes” é um filme raro. Com um roteiro brilhante, co-escrito pelo diretor de cinema chileno de 34 anos, Matias Bize e atores que mergulham sem medo em uma água turva de sentimentos contraditórios, coloca a nu, a alma dos personagens. Santiago Cabrera e Blanca Lewin vivem na tela, com sinceridade, no espaço de algumas horas, o que a maioria de nós só vive em pensamento.
E, por isso, nós na plateia, perturbados, aflitos, emocionados, somos testemunhas de que reviver o amor é um sentimento complexo. Atrai, na mesma proporção que afasta.
Rever o grande amor faz um convite perigoso para viver uma vida que não aconteceu e que, por isso, pode parecer mais convidativa do que aquela que vivemos.
Somos como peixes em um aquário presos na escolha de vida que fizemos?
Talvez... Certamente que sim para a maioria de nós.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Batman, o Cavaleiro das Trevas Ressurge



“Batman, o Cavaleiro das Trevas Ressurge”- “The Dark Knight Rises” Estados Unidos/ Inglaterra 2012
Direção: Christopher Nolan

As primeiras cenas são escuras. Há um lamento que nos invade... É a nota inicial da última parte da impressionante trilogia do diretor Christopher Nolan sobre a mítica figura das histórias em quadrinhos, o Batman.
Mas, quase esquecemos o tom sombrio do começo, como se fosse uma sombra que já passou, porque a história é complexa e exige nossa atenção. O ritmo que Nolan escolhe na narrativa é o de um trem bala. As imagens filmadas em IMAX são grandiosas.
O novo vilão, Banes (Tom Hardy), entra na tela sem apresentação, comandando mercenários. Ele tem uma estranha máscara presa ao rosto e é brutal. Lidera um sequestro incrível e cruel. Pessoas são jogadas de um avião em pleno voo.
Mas, mal dá para registrar tais cenas, porque já nos envolvemos com uma grave acusação que o comissário de polícia (Gary Oldman) joga sobre Batman, que faz sua primeira aparição, em silhueta na noite.
Na mansão do milionário Bruce Wayne, o outro lado do Batman, o mordomo Alfred (Michael Caine, ótimo) que faz as vêzes de um substituto paterno, aconselha seu patrão tristonho a mudar de vida, viajar, espairecer, casar talvez.
Qual o quê... Mais deprimido do que nunca, melancólico mesmo, Bruce Wayne não conseguiu esquecer as perdas que sofreu e vive um luto negro.
Nem a visita de uma Mulher-Gato sedutora, na pele macia de Anne Hattaway, o anima. Mas, pelo menos, ela inspira a única gracinha do filme, tingida, porém, de nostalgia. Olhando o colar que ela acabara de surrupiar de seu cofre, ele diz:
“- Bonito colar... Lembra o de minha mãe.”
Selina é a nota alegre e solitária, em oposição ao soturno Batman. Ela é “sexy” e elegante nos pretinhos que desfila e especialmente provocante na fantasia de couro justa, que revela uma cinturinha de vespa invejável.
Mas as cenas à luz de uma lareira não são com ela. É a rica Miranda (Marion Cotillard) que leva Bruce para o tapete. Porém, a moça terá que se contentar com um erotismo paupérrimo. Dois órfãos que se consolam, nada mais.
Aliás, toda a história é sombria, desesperada mesmo. Todos sofrem à espera do apocalipse. Os cenários mais visitados são os esgotos da cidade. A Batcaverna, que brilha na escuridão, banhada por águas prateadas, é pouco usada.
Gotham é uma Nova Iorque fotografada em tons cinza que sofre com a ameaça de uma crise financeira nunca vista e pior, sua total destruição.
Há um terror kafkaniano que paira sobre todos.
Uma criança, “nascida no inferno”, vai atacar porque foi maltratada e nunca se esqueceu do “Poço”, prisão maldita da qual conseguiu escapar físicamente mas que colou-se em sua mente para sempre.
É claro que as lutas são perfeitas e as perseguições empolgantes com o estreante Morcego, nave supertecnológica que substitue o Batmóvel e tem uma performance estonteante.
Sem falar na Batpod, uma moto futurística que faz tudo parecer antigo e obsoleto. Obras do mago Lucius Fox (Morgan Freeman).
Mas a tristeza impera.
Esse “Cavaleiro das Trevas” traz uma história contemporânea que homenageia a vítima que se imolou para salvar seu mundo.
O tom é melancólico mas a trilogia de Christopher Nolan termina de uma maneira impactante.
Afinal, uma lenda não morre jamais.