sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Meteora


“Meteora”- Idem, Alemanha, França e Grécia, 2012
Direção: Spiros Stathoulopoulos

Numa paisagem majestosa (Kalambaka, Grécia), onde tronam dois blocos de pedras colossais, o silêncio é rompido apenas pelo canto de pássaros, o sino das cabras e o vento.
Como se fossem enormes colunas, tais pedras sustentam em seu cume, um monastério de padres ortodoxos e noutra, um convento de freiras. Face a face.
Estamos fora do tempo em “Meteora”.
Mas o isolamento em que vivem essas pessoas religiosas é quebrado por acaso. A freira Urania (Tamila Koulieva) espera o saco que vai içá-la para cima e encontra o padre Theodorus (Theo Alexander), jovem e bonito.
Nada falam mas algo se passa entre eles.
O primitivo e natural desejo assoma à superfície daqueles seres que se vestem de negro, mantém os olhos baixos e falam somente com Deus através da oração.
Quando ele retorna ao monastério pela longa escadaria, leva ela no coração e na mente.
E o encantador em “Meteora” é que o que se passa entre eles, e o caminho de cada um para o alto, é reproduzido em desenhos que parecem ícones de igreja ortodoxa. Surpresos, vemos figurinhas diminutas se mexerem entre os mosaicos dourados.
À luz de velas, cada um em sua igreja, venera os mesmos ícones que, para nós, ganham vida e recontam o encontro.
Theodorus, estático aos pés do precipício pergunta:
“- Vós testais a humanidade o tempo todo?”
E logo uma luz, brilhante como um raio de sol, dança na parede do quarto de Urania. Bem que ela se penitencia, queimando a mão na vela para afastar pensamentos proibidos mas sua carne palpita.
E ela, em desenho, vê o chão se abrir e aparecer o inferno.
Ele também tem visões de um mar de sangue que jorra, por sua culpa, mas a vontade de vê-la é maior e então ele usa um ícone espelhado para chamá-la em seu quarto.
Um piquenique, cozinhado por ele, é a ocasião para a paixão aflorar. O vinho atiça o desejo.
“O desespero é o único pecado sem perdão”, descobrem os dois numa história de um santo antigo e riem dos sons das palavras “desespero” e “liberdade” em grego e russo.
Como para todos os amantes, antes e depois deles, o riso é o sinal da excitação que os invade.
Estão felizes juntos e isso vai ser mais forte que a proibição e a austeridade.
Spiros Stathoulopolos dirigiu, roteirizou e fotografou um filme raro, com um ritmo lento como os dias das pedras e tocante como as batidas fortes de dois corações.

sábado, 16 de agosto de 2014

Amantes Eternos



“Amantes Eternos”- “Only Lovers Left Alive” Reino Unido, Alemanha, Chipre 2013
Direção: Jim Jarmush

Um amor de séculos une aqueles dois pálidos seres da noite.
Eve (Tilda Swinton), num djelabah negro e dourado, cabelos louros opacos e longos, magra, rosto sem idade, descansa imóvel ao pé de seu leito de dossel, coberto de renda. Adam (Tom Hiddleston), jeito de rock star, está deitado num sofá de veludo grená, abraçado a um alaúde, dorso nú, olhos fechados.
Estão distantes mas muito perto um do outro.
Assim que se faz noite, ela, de rosto velado, anda por uma cidade muçulmana antiga, de ruelas e escadas, que descobrimos ser Tanger, no Marrocos e entra num bar chamado “Mille et Une Nuits”.
É recebida por Bilal que diz:
“- Eve! Como está você? O mestre está frágil mas mostra espírito forte.”
Logo, chega um velho (John Hurt), de olhos embaçados, com um saco de farmácia que dá a ela, que exclama com carinho:
“- Marlowe!”
Ele vem a ser Christopher Marlowe, dramaturgo do século XVI, que confirma o que muitos acreditam: foi ele que escreveu as peças creditadas a Shakespeare. É o mestre de Eve, interessada por literatura de todas as épocas e línguas e seu fornecedor.
Adam, compositor incógnito, vive num apartamento repleto de fios, aparelhos de gravação e compra instrumentos musicais de cordas do século passado.
“- Ah! Preciso de uma bala de madeira calibre 38.”
“- Mas para quê?”
“- Um projeto artístico...”, responde, disfarçando seus impulsos suicidas.
E em seguida sai. Dirige o carro por uma Detroit escura e abandonada e entra no único prédio iluminado. Está de óculos escuros, estetoscópio ao redor do pescoço e veste um avental branco, onde se lê no crachá “Dr Faustus” e leva uma maleta.
Um homem o espera no banco de sangue. Tubos de alumínio passam para a maleta e um maço de notas muda de mão.
Vemos os três, cada um no seu lugar, frente a um cálice de cristal onde brilha um líquido vermelho escuro. Quando o sorvem, caem imediatamente em transe, entreabrindo bocas com caninos ponteagudos e avermelhados pelo sangue ingerido.
São vampiros intelectuais, sofisticados e elegantes.
Quando os amantes se falam e se veem pelo Iphone de Eve e a tela da TV de Adam, estão acordando do torpor duplo e ela, percebendo ele deprimido, promete ir a seu encontro:
“- Já passamos por isso...Você sentia falta da Idade Média, da Inquisição, das enchentes, da peste...Como vai a sua música? Me lembro quando você deu aquela sonata para Schubert...”
Adam e Eve são seculares, viveram tudo, conheceram os gênios, os sábios, os cientistas mas parecem saudosos de tudo isso. Não acham graça no mundo contemporâneo dos “zumbis”, como chamam os homens.
Jim Jarmush, 61 anos,o famoso diretor americano, se esbalda fazendo os diálogos dos dois vampiros rememorarem coisas que vão passar desapercebidas, a não ser para poucos e raros espectadores. Mas esses vão sorrir. E reconhecer tanto as alusões como os retratos na parede de Adam.
Quando chega de Los Angeles a vampira-periguete Ava (Mia Wasikowska), jovem e desmiolada, ouvimos sua irmã Eve avisá-la sobre o perigo do sangue contaminado.
“- Eles não mudam...Só percebem quando é tarde demais...” diz Adam.
Os vampiros de Jim Jarmush são seres desiludidos, nostálgicos e cansados. “Amantes Eternos” é um belo filme para pessoas que se sintam como eles. Os demais vão se aborrecer.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Apenas Uma Chance


“Apenas Uma Chance”- “One Chance” Estados Unidos, Inglaterra, 2013
Direção: David Frankel

É incrível a quantidade de transtornos que o tenor galês Paul Potts teve que enfrentar para que ele, enfim, aos 43 anos, pudesse realizar o sonho de sua vida.
O filme, que é baseado em fatos reais, começa em 1985, em Port Talbot, no País de Gales, na Inglaterra, com o ator James Corden, que faz Potts, dizendo em “off”:
“ - Desde que me lembro por gente, eu queria cantar. Cantar de verdade. Eu nasci com o que o mestre do coro chamava de “uma grande voz”. Uma voz que nasceu para cantar ópera.”
O menino gorducho, de olhos azuis no rosto redondo, pacífico por natureza, sofreu muito “bullying” na escola. Porque ele cantava o tempo todo.
“- E quanto mais eu cantava, mais eu sofria na mão dos meninos da escola. Quanto mais eu sofria apanhando, mais eu cantava.” E ele resume:
“- Foi um interminável drama, onde havia música e violência, romance e comédia. Como uma ópera. A ópera da minha vida.”
O filme “Apenas Uma Chance”, é dirigido por David Frankel (“O Diabo Veste Prada”2006 e “Marley e Eu”2008), que encontrou o tom emocional exato para contar uma história que emociona, sem cair na pieguice.
Em casa, a vida também não era fácil para Paul. O pai (Colm Meany) não via com bons olhos sua mania de ópera, nem sua gordura. Implicava com ele o tempo todo, dando a impressão de que não o considerava “macho” o suficiente para ser seu filho. Enquanto que a mãe, superprotetora, comungava com Paul a adoração pelas árias de Pavarotti e a certeza de que ele seria um dia, um grande tenor.
E, quando Paul começa a namorar Julz (a ótima Alexandra Roach, também gordinha de olhos azuis), encontra mais uma aliada para torcer por ele e ajudá-lo a realizar seu sonho.
O caminho foi longo e cheio de contratempos, alguns até mesmo trágicos, desde um apêndice que teve que ser operado às pressas na véspera de sua estreia na “Aida”, até um tumor na tireóide e um atropelamento que o deixou estropiado por mais de um ano.
Sem contar a decepção em sua passagem pela bela Veneza, quando não conseguiu cantar, de puro nervosismo, na frente de seu ídolo Pavarotti.
Ele não tinha nada a seu favor, a não ser sua voz e a confiança das mulheres de sua vida, mas ganhou o concurso da TV “Britain’s Got Talent”em 2007.
O filme é bem conduzido, os atores são ótimos e os acontecimentos levam os espectadores sensíveis muitas vêzes às lágrimas, identificados com os sofrimentos e o final feliz emocionante de Paul Potts.
Alíás é ele mesmo que dubla todas as árias que o ator James Corden finge cantar. Um presente para quem gosta de ópera.
Entretenimento gostoso, divertido, com momentos de verdadeira emoção, “Apenas Uma Chance” passa uma bela lição de persistência e apego a um sonho de uma vida toda. 

sábado, 9 de agosto de 2014

Como na Canção dos Beatles


“Como na Canção dos Beatles”- “Norwegian Wood”- “Noruwei no Mori” Japão, 2010
Direção: Tran Anh Hung

Melancolia e beleza delicada são traços presentes na cultura japonesa. Como coadjuvantes, a culpa e a vergonha engendram dramas onde a morte é a única solução. Nesse enredo, amores são impossíveis.
O franco-vietnamita Tran Ahn Hung fez um filme belo e triste que alguns vão achar que é muito lento. É preciso paciência para apreciar “Como na Canção dos Beatles”.
E é bom lembrar que esse cineasta de 54 anos concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1993, com seu primeiro longa, “O Cheiro de Papaia Verde”.
Por mais que nos queiramos distanciar da trama desse filme de 2010, ela nos arrasta, junto aos personagens. A música de violinos que choram e as paisagens bucólicas de uma natureza impassível perante o sofrimento humano, ajudam a pintar o quadro poético de um melodrama.
É 1967 num Japão onde estudantes saem às ruas para protestar contra a guerra do Vietnam. Mas Toru Watanabe (Kenichi Matsuyama) tem 20 anos e não se interessa por política e passeatas. Gosta de garotas. Só que quando chega o amor, o roteiro é pesado.
Watanabe ama Naoko (Rinko Kikuchi) mas um terrível acontecimento os separa. Tentam ficar juntos, Naoko perde a virgindade no seu vigésimo aniversário mas o segredo do passado paralisa os dois jovens amantes.
Eles habitam um exílio da vida e há um namoro com a morte, seduzidos pelo suicídio de Kisuki (Kengo Kora), ex namorado de Naoko e amigo de Watanabe.
É quase como se os dois contemplassem o abismo e se deixassem cair, lentamente, levados pela vertigem da melancolia.
Seja verão e as colinas estejam verdes, seja inverno e a neve os abrigue como um cobertor macio, eles tentam fugir do fantasma do amigo, torturados.
Naoko afunda na loucura enquanto Watanabe tenta libertar-se do apelo da morte.
Quando aparece Midori (Kiko Mizuhara) em sua vida, Watanabe sente-se atraído por ela, mais leve e coquete, mas ela também tem dores ocultas e um namorado.
O filme é uma adaptação do primeiro livro do famoso escritor japonês Haruki Murakami, de 1987, que dizem ser auto-biográfico.
A fotografia do filme, de Ping Bin Lee que fez “Amor à Flor da Pele” de Wong Kar-wai, é deslumbrante em cores frias. E a música de Jonny Greenwood faz o clima adensar-se mais e mais, até ficar sufocante.
A triste canção do título toca no final desse filme que tem uma poesia e beleza geladas e nos recordamos também de nossas dores de amores. Afinal quem as desconhece?
“Quando eu acordei, estava sózinho
O pássaro tinha voado.” (“Norwegian Wood” de Lennon-McCartney 1965)

O Melhor Lance


“O Melhor Lance”- “La Migliore Offerta” Itália, 2013
Direção: Giuseppe Tornatore

Ternos bem cortados, cabelo pintado, sempre de luvas negras no pódio da casa de leilões onde pontifica, Virgil Oldman (Geoffrey Rush de “O Discurso do Rei”) é arrogante, introvertido, odeia celulares e não tem amigos de verdade. Mas é sempre chamado para fazer avaliações de objetos, móveis e quadros preciosos. Sua opinião é considerada indiscutível. E ele só pensa em trabalho.
Em seu aniversário, janta sózinho e dispensa o bolo que o “chef” do grande restaurante traz em pessoa para ele:
“- Sou muito supersticioso. Meu aniversário é só daqui há 22 minutos. Faça de conta que aceitei.”
E deixa o bolo com vela intocado.
Virgil vive só, entre sedas, cristais e objetos de arte magníficos.
E tem um segredo. Atrás do armário de luvas, existe um quarto secreto onde sua coleção de retratos de mulheres, pintados por grandes mestres, espalha-se pelas paredes altíssimas. Uma única cadeira para um único apreciador de mulheres que ele nunca conheceu. Um esplendor guardado a sete chaves.
Quem o vê atuando nos leilões, não acreditaria no golpe de falsificações que ele maquina com o pintor copista Billy (Donald Sutherland), que o ajuda a aumentar sua coleção de mulheres por gênios da pintura a preços módicos.
Mas, a vida de Virgil Oldman vai virar de cabeça para baixo, quando é chamado para avaliar os pertences de uma família que tem uma única herdeira.
A vila é antiga, enorme e abriga milhares de peças jogadas pelos cantos, empoeiradas no chão, esquecidas.
Acontece que a jovem Claire Ibbteson (Sylvia Hoeks, bela atriz holandesa), a herdeira em questão, tem também um quarto secreto, onde se esconde do mundo. Traumatizada e fóbica, vai se tornar a obsessão do velho leiloeiro.
A história que Virgil e Claire vão viver terá um final surpreendente. Na cena derradeira, o olhar de Geoffrey Rush fica impresso na memória do espectador.
Giuseppe Tornatore, 58 anos, o cineasta de “Cinema Paradiso” 1988 e tantos outros filmes inesquecíveis, dirige e é o autor do roteiro de “O Melhor Lance”. Se este não é seu melhor filme, é certamente superior ao que se pode assistir hoje no cinema. E é a primeira vez que Tornatore filma uma história de suspense, saída de sua imaginação, num ambiente sofisticado, que joga com o tema da falsificação, seja na arte como na vida. No nosso ouvido fica soando a frase: “Há sempre algo de autêntico na falsificação”.
Com a música imbatível do maestro Ennio Morricone, 86 anos, “O Melhor Lance” ganhou quatro Davids Di Donatello, o Oscar italiano, inclusive  de melhor filme.
E somos brindados, além de tudo, com a visão de quadros que estão em museus, obras primas da arte do retrato feminino, de Goya a Picasso.
Um deleite.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Viva a Liberdade


“Viva a Liberdade”- “Viva La Libertà”, Itália, 2013
Direção: Roberto Andò

Nas antigas fábulas, encontramos histórias de pessoas que trocam de identidade, como aquela chamada  “O Príncipe e o Mendigo”, que virou romance de Mark Twain (1835-1910).
No filme “Viva a Liberdade”, dirigido por Roberto Andò e baseado em seu livro “O Trono Vazio”, a história envolve esse mesmo tema mas aqui são irmãos gêmeos que trocam de lugar e identidade. Um é político famoso, o outro, filósofo, diagnosticado como psicótico.
Quando o secretário do partido de esquerda de oposição ao governo italiano, o senador Enrico Olivieri, vê-se no último lugar das pesquisas sobre os candidatos à próxima eleição para a presidência do país, ele entra em crise.
Deprimido, não consegue enxergar uma saída dessa situação humilhante. Além do público, o partido está claramente insatisfeito com o seu desempenho.
O que fazer? Ele foge para Paris, incógnito e vai passar uns tempos na casa de uma amiga da juventude, Danielle (Valeria Bruni Tedeschi), casada com um cineasta vietnamita.
Seu assessor, Andrea (Valerio Mastrandia), da noite para o dia, vê-se às voltas com esse problemão.
O que fazer? Ele então tem uma ideia que parece brilhante. Acontece que o senador Enrico tem um irmão gêmeo, Giovanni, filósofo, culto mas que acaba de sair de um hospital psiquiátrico.
Apresentado à ideia de trocar de lugar com o irmão, está pronto a colaborar. Em silêncio, porém, acrescenta o assessor. E, em total segredo.
Por um descuido do assessor, a imprensa, que tinha sido notificada da licença que o senador pedira, fica sabendo que ele está de volta e muito mudado.
Em uma entrevista exclusiva, o repórter pergunta:
“- Senador, o senhor está diferente. Seus cabelos estão grisalhos...”
“- Isso mesmo. Não pinto mais. E isso é um conselho aos italianos. Parem de se enganar. Se os políticos são medíocres, é porque os eleitores são também medíocres. Se são ladrões, é porque seus eleitores são também ladrões. Há sempre um momento na vida de um poderoso onde ele pode ser crucificado. O medo é a música da democracia!”
Entre feliz e amedrontado com o que ouvira, anota tudo e comenta com o assessor, que deixara Giovanni sózinho no restaurante e agora volta, apavorado com o que ouve:
“- Parece outro...Essa entrevista vai ser uma bomba!”
Anna (Michela Cescon), a mulher do senador Enrico, se assusta com a ideia do assessor:
“- Mas você está colocando o partido nas mãos de um louco!”
E claro que tudo muda. O “louco”, citando poetas e filósofos e com um discurso que soa sincero e corajoso aos ouvidos de um público ávido por uma liderança otimista, é ovacionado por onde passa.
Toni Servillo faz os dois papéis com todo o talento e humor que o roteiro pede.
É a melhor coisa do filme. Ele cria uma postura e um rosto diferente para cada um dos irmãos e, com tal maestria, que sempre podemos dizer quando é um e quando é o outro que está na tela.
O filme é divertido e atual mas o ator é genial.

sábado, 2 de agosto de 2014

Amar, Beber e Cantar


“Amar, Beber e Cantar”- “Aimer, Boire et Chanter” França, 2014
Direção: Alain Resnais

Os bons artistas sobrevivem através de suas obras. Sempre que sentirmos saudades das reflexões que Alain Resnais fez sobre a natureza humana, lá estarão seus filmes, à nossa disposição, para revê-los.
O grande diretor de cinema francês que morreu aos 91 anos (1922-2014), será para sempre lembrado por suas obras primas, “Hiroshima meu Amor – Hiroshima mon Amour”1959 e “O Ano Passado em Marienbad – L’Année Dernière à Marienbad”1961, que muita gente não entendeu na época.
O tema da memória e do tempo, tratado com originalidade, vai aparecer ao longo de sua filmografia, nesses já citados e em outros como “Providence”1977, “Meu Tio da América - Mon Oncle d’Amérique”1980 e perpassa esse atual “Amar, Beber e Cantar”, seu último filme, premiado em Berlim 2014, um mês antes de sua morte.
Não se iludam. Apesar de, nos últimos filmes, Alain Resnais ter usado um tom mais humorístico, que aparece também aqui, seu humor não provoca gargalhadas. Em “Amar, Beber e Cantar” situações tragicômicas acontecem em York, pequena cidade inglesa mostrada no mapa. O filme foi adaptado da peça de teatro do autor inglês Allan Ayckbourn. Resnais assina o roteiro com um pseudônimo.
Alternam-se no filme cenas com atores em cenários, na maioria jardins, onde o papelão pintado e as cortinas de lona substituem as casas de tijolo com rosas nas cercas de ferro, que só vemos de relance.
Aqui a primeira colocação típica de Resnais, que usa o teatro para falar da vida real.
Nos desenhos e nas estradinhas serpenteando o campo inglês, tudo vai bem. Já com os personagens, três casais e a filha de um deles, que só aparece na cena final, quase tudo vai mal, se rompermos o verniz da superfície.
E o amigo George Riley, que tem seis meses de vida, é o pretexto para que a angústia subjacente à perda de um passado não vivido e a insatisfação com o presente, emerja na vida de todos.
Nunca visto, mas em torno de quem tudo gira, George é a personificação da morte que assusta os amigos que se renderam a uma vida adulta.
Sim, porque parece que o que George é, um eterno “bon vivant”, causa estragos em quem teve que amadurecer e enfrentar a vida, que nem sempre é aquilo que pensávamos que íamos viver.
Perante a certeza da morte, as dúvidas sobre o que vivemos e o que não pudemos ou não quisemos viver, sobem à tona. São as famosas saudades do que não aconteceu.
Mas esse luto por algo não vivido, pelas vidas paralelas que não vivemos, não seria algo inerente à condição humana?
O contraponto necessário é a alegria de viver, apesar dos pesares, que Alain Resnais propõe em “Amar, Beber e Cantar”.
O cineasta e pensador despediu-se do cinema com uma reflexão que deve obrigatóriamente ter brotado de sua vida. Abre os nossos olhos para que lembremos de celebrar o que temos e que não sabemos por quanto tempo ainda teremos. Grande lição.