terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Selma - Uma Luta pela Igualdade



"Selma – Uma Luta pela Igualdade”- “Selma”, Estados Unidos, 2014
Direção: Ava DuVernay

Enquanto ocorriam os episódios que esse filme conta, sobre a luta pela reinvidicação ao voto dos negros americanos, no sul dos Estados Unidos, nós brasileiros, brancos e negros, não podíamos votar por causa do golpe militar de 1964. Depois de 20 anos, esse direto nos foi devolvido pelo empenho que a sociedade mostrou, querendo democracia. Mas ainda existem países no mundo que anseiam por maior participação política.
Assim, “Selma” traz à tona um tema que ainda preocupa muita gente mundo afora ou seja, a negação de seus direitos civis, o que inclui escolher seus representantes numa democracia.
E o que o filme também põe em relevo é a persistência, o destemor, a vontade férrea daquele grupo de pessoas na cidade de Selma, Alabama, que consegue atrair a simpatia de outros cidadãos americanos, que se juntaram a eles e protestaram pelo direito dos negros votarem, mesmo não sendo negros, porque esse é o fundamento da democracia, que garante ao cidadão a escolha de seus representantes para reger os destinos de uma nação.
Tratava-se de salientar a posição de que é o voto que legitima um governo democrático. Não precisa ser obrigatório, como muitos ainda pensam, mas há que ser um direito para aqueles que quiserem exercê-lo.
O filme centra a história em Martin Luther King e a marcha pelos direitos civis em Selma em 1965. O ator David Oyelowo faz o conhecido líder dos negros e prêmio Nobel da Paz com muita força e foi indicado ao Globo de Ouro de melhor ator. A canção “Glory”  foi colocada na lista das melhores do ano do Oscar.
Oprah Winfrey, sem a qual o filme não teria existido, produz e atua de forma emocionante. Sua cena como a ativista Annie Cooper, entregando o documento que a capacitaria ao voto, é uma das melhores coisas do filme. Salienta a forma perversa como, mesmo estando na lei, o direito ao voto pelos negros era negado, sem complacência e com desrespeito.
A direção e o roteiro de “Selma” são de Ava DuVernay, que se sai muito bem nas duas tarefas e consegue emocionar e até revoltar aqueles da plateia que tenham se esquecido de como foi sangrenta essa batalha.
Aliás, o tema dos direito civis dos negros, está atualmente nas manchetes dos Estados Unidos por causa da morte dos jovens Eric Garner e Michael Brown pela violência policial. E, mostrando seu repúdio, o elenco de “Selma” vestiu no lançamento do filme uma camiseta onde se podia ler as últimas palavras de Eric Garner antes de morrer nas mãos de um policial, em junho do ano passado: ”I can’t breathe”.
Essa é uma luta que parece que ainda não acabou.
E pensar que, debaixo da pele que vemos, somos todos iguais...

sábado, 24 de janeiro de 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)



“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”- “Birdman or ( The Unexpected Virtue of Ignorance)”, Estados Unidos, 2014
Direção: Alejandro González Iñárritu

Quando o cinema mexe com o espectador, instigando-o a pensar, essa arte atinge uma influência que vai além do mero espetáculo.
“Birdman”, do diretor mexicano Iñárritu, faz isso. Empurra-nos para dentro da tela.
A câmera, quase um personagem do filme, está no nosso lugar e incorpora nossa curiosidade, seguindo os atores, perdendo-os e de novo reencontrando-os, numa coreografia criada pela necessidade de entender o que nos assalta naquelas imagens da tela.
Um homem levita? Que poderes são esses? É um ser superior? Ou, desgraçadamente, já não distingue o real do imaginário, perdido em alucinações?
Ele almeja o sucesso. Mas não o mero aplauso de qualquer público. Riggan Thomson, que já foi um super-heroi conhecido, o Birdman, agora é atormentado por esse personagem que invade sua mente e o desafia a vencer custe o que custar.
Ele vai estrear numa peça na Broadway e tem que dar certo. Seu sonho é alcançar outro patamar e deixar de ser somente uma celebridade barata para tornar-se um ator que comoverá plateias seletas. Mas ele não atina com o fato de que sonhos irreais transformam-se com facilidade em pesadelos.
Sua vida pessoal é complicada porque ele é ausente. De vez em quando visita a filha (Emma Stone, tocante) no camarim. Deu a ela um cargo na produção da peça e com isso acha que conquista seu amor. Tem uma namorada que também é tratada com distância e a ex-esposa que aparece sempre para ver como ele está. Ele precisa dela para reassegurá-lo, com jeito maternal.
Os outros só são importantes na medida em que fazem o ex-Birdman existir. Carente de tudo, a angústia de ser vazio e pior, invisível, o apavora.
Michael Keaton faz com garra e loucura um personagem que encarna uma necessidade contemporânea de querer ser visto, admirado e apreciado por muitos, que são aqueles que conferem para alguém uma identidade sonhada. Ele já ganhou o Globo de Ouro de melhor ator de comédia e o prêmio do sindicato dos críticos como reconhecimento de sua entrega ao personagem Riggan Thomson.
Os outros atores da peça, os técnicos e o produtor também tem seus anseios, emoções e surtos. Os ótimos Edward Norton, Naomi Watts, Amy Ryan, Andrea Riseborough são outras almas penadas que vagam pelos corredores daquele teatro, que fervilha em suas entranhas, por onde a câmera de Iñárritu passeia.
O roteiro de “Birdman” foi premiado em Cannes 2014, co-escrito pelo diretor e Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone e Armando Bo.
E o elenco, a fotografia, a trilha sonora, a edição e o roteiro ganharam o importante SAG AWARD do sindicato dos atores.
Iñárritu dirigiu o filme com originalidade, em plano contínuo, ou seja, numa só tomada de câmera. Se há cortes, são imperceptíveis. E a fotografia de Emanuel Lubezi encontra os tons e a luz certa para cada cena.
O filme foi indicado para 9 categorias no Oscar: melhor filme, diretor, ator (Michael Keaton), ator coadjuvante (Edward Norton), atriz coadjuvante (Emma Stone), roteiro original, fotografia, edição de som e mixagem de som.
“Birdman” é um filme imperdível por tudo isso e, principalmente, pela crítica ácida que faz à ambição voraz de ser amado por todos, ilusão de quem não consegue ter um sentimento verdadeiro por ninguém. 
  



O Jogo da Imitação




“O Jogo da Imitação”- “The Imitation Game”, Estados Unidos, Reino Unido, 2014
Direção: Morten Tyldum

Histórias reais conseguem às vezes ser mais inacreditáveis que as de ficção. A do pai do computador, Alan Turing, é uma delas.
Garoto super inteligente e tímido, sofreu na mão dos colegas da escola inglesa. Até o dia em que um outro garoto, também inteligente, disse para ele:
“- Você sabe por que te perseguem? Porque você é diferente deles.”
A partir daí uma dupla estava formada e eles passavam papeizinhos um para o outro, em código, com problemas difíceis, para resolver por pura diversão. A aula de matemática era muito elementar para os dois.
Passavam horas conversando à sombra dos velhos carvalhos do parque. Conversas que só eles entendiam. Foi desse único amigo que Alan ganhou seu primeiro livro sobre códigos.
Mas, um dia, essa amizade chegou ao final. Alan foi abandonado e nunca mais teve alguém íntimo como aquele colega inesquecível.
Anos depois, ele consegue um feito impensável. Cria uma máquina que decifra as mensagens criptografadas enviadas pela Enigma, a máquina dos alemães, que mandava mensagens ao seu exército sobre quais seriam os próximos ataques aos aliados. Foi a máquina precursora do computador que Alan chamou Chistopher.
Por causa de Alan Turing, a Segunda Guerra terminou dois anos antes do que era previsto e por isso 14 milhões de vidas foram salvas.
Mas a humanidade não é grata. E sempre foi terrível com os diferentes. Com Alan Turing, foi especialmente cruel. Ele pagou um preço alto por ser homossexual.
Benedict Cumberbatch está assustador como o matemático Alan Turing. Trejeitos, manias, olhares e aquilo que ele tinha desde criança, uma frieza com relação aos colegas, que lhe era devolvida com um tratamento especialmente selvagem dos outros meninos e de um distanciamento dos outros adultos. Esses traços transformaram Alan num ser isolado, que Cumberbatch faz surgir na tela com talento.
Até que Keira Knightley aparece e, sendo uma moça tão inteligente quanto ele, tenta fazer dele um ser mais descontraído, menos desligado e perdido em seus pensamentos e um pouco mais simpático com as outras pessoas.
Ela gostava dele. Suas cabeças privilegiadas eram parecidas. Um casamento de mentes parecia ser possível e faria dele alguém menos diferente e mais aceito.
Mas para Alan Turing tudo isso era difícil. Ele não queria abrir mão da pessoa que ele era.
O diretor inglês Morten Tyldum, em seu segundo longa, constrói a história de forma não linear, com “flashbaks” perfeitos. O uso de cenas reais da guerra em meio a outras encenadas, não parece artificial e passa o clima de terror em que as pessoas viviam na Europa.
Em “O Jogo da Imitação” tudo é muito especial. A música do mestre Alexandre Desplat comunga com os sentimentos dos personagens, os figurinos são perfeitos, os cenários muito bem trabalhados. Tudo sem defeito.
E a história é contada num crescendo incrível que fascina a plateia. Não é de se espantar que o filme esteja em todas as listas de melhores do ano. E ganhou 8 indicações para o Oscar: melhor filme, diretor, ator,atriz coadjuvante, roteiro adaptado, edição, música original e desenho de produção. 
Imperdível.



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A Teoria de Tudo


“A Teoria de Tudo”- “The Theory of Everything”, Reino Unido, 2014
Direção: James Marsh

Mente brilhante, ele não correspondia ao clichê de um coração frio. Cientista que compreendia coisas com que os outros mortais nem sonhavam, nem por isso era entediante ou orgulhoso. Óculos enormes e um sorriso brejeiro iam bem com o humor espirituoso daquele jovem tímido.
Aluno respeitado pelos professores por causa de sua inteligência inquieta e original, ele se encantou quando a viu saindo da igreja, num domingo, com um tailleur creme, chapéu com fita na copa e luvas. Levava um sorriso doce no rosto bonito e pisava leve pelo caminho.
Já havia visto Jane pelo campo da universidade. E, numa festa, ela perguntou o que ele estudava.
“- Cosmologia. Sabe? Uma única equação que explique tudo.”
“- E qual seria essa equação?”
“- Essa é a questão. Eu tento acha-la”, responde sorrindo.
Na casa dos pais dele, durante o almoço de apresentação dela, perguntam o que ela estudava. E, ao ouvir que é poesia medieval, trocam olhares zombeteiros.
Mas Jane vai mostrar-se à altura da tarefa que a espera.
Mulher de um cientista respeitado no mundo inteiro, ela será sempre seu verdadeiro amor e companheira corajosa que o ajuda a enfrentar o que seria impossível para a maioria.
Tragicamente, os médicos dão a ele só mais dois anos de vida. Ele tinha 22 anos e havia desenvolvido uma doença degenerativa incurável, a doença de Lou Gehrig, também conhecida como esclerose lateral amiotrófica (ELA).
Foi difícil para o casal com três filhos. Mas ele foi sempre um pai brincalhão e carinhoso, mesmo quando a doença o colocou numa cadeira de rodas.
Jane cuidava de tudo, incansável. Mas ele soube ser generoso com aquela que ele amava e, quando foi preciso, abriu mão dela, para que Jane pudesse ter uma vida que ele já não podia lhe dar.
Seu espírito o manteve vivo e produtivo e mesmo a morte respeitou sua vontade de viver. Stephen Hawking, 72 anos, não pensa em se aposentar.
O diretor James March trabalhou com dois atores deslumbrantes que interpretaram seres humanos excepcionais. Eddie Redmayne é assombroso como Hawking, com todas as dificuldades que o papel apresenta. Ele não só reproduz o corpo devastado pela doença mas é brilhante na compreensão do homem, que ele interpreta com uma força gentil.
O próprio Stephen Hawking, que tinha ressalvas quanto ao filme e ao ator, na estreia de “A Teoria de Tudo” assistiu ao filme chorando . Ele teria dito a Eddie Redmayne, quando se encontraram, que houve momentos, durante o filme, nos quais ele se viu na tela. Certamente digno de muitos prêmios, Redmayne já ganhou o Globo de Ouro de melhor ator e o SAG award do sindicato dos atores. Indicado ao Oscar, é um dos favoritos.
Felicity Jones nunca foi tão encantadora e suave, mostrando a coragem silenciosa de Jane, fazendo justiça a ela, que não teve uma vida fácil.
“A Teoria de Tudo” teve 5 indicações para o Oscar: melhor filme, melhor ator (Eddie Redmayne), melhor atriz (Felicity Jones), melhor roteiro adaptado e melhor trilha sonora.
Um filme para todos.

Sniper Americano



“Sniper Americano”- “American Sniper”, Estados Unidos, 2014
Direção: Clint Eastwood

Na mesa do almoço, dois meninos apreensivos, aguardam a fala do pai. O cinto dele está sobre a mesa e o ambiente é tenso. O menor está com um olho roxo e sabemos que o irmão mais velho entrou numa briga para defender o menor:
“- Na vida, existem pessoas que são lobos, agressivos por natureza, que tem que ser eliminados. Há as ovelhas e os cães pastores que as protegem. Vocês precisam entender que o seu dever é defender os nossos. Não admito que vocês não sejam cães pastores. Você acabou com ele Chris?”
“- Yes, sir.”
Depois vemos o menino com o pai, aproximando-se do seu primeiro troféu. O animal foi abatido com um só tiro. O pai o encoraja e se orgulha dele.
Não é de se admirar que esse menino tenha se tornado o maior matador individual da história militar dos Estados Unidos. Tinha no sangue a agressividade do pai e foi estimulado desde criança a matar. Ao contrário do que desejava o pai, Chris Kyle (Bradley Cooper) era um lobo.
Acompanhando sua história, no filme inspirado em seu livro de memórias, vemos que até foi difícil atirar em sua primeira criança mas durante seus 1.000 dias de guerra ele tornou-se um viciado em matar. Para Chris, ter o tiro certeiro do melhor atirador de elite, era um triunfo sem o qual não podia mais viver.
A guerra foi uma boa desculpa para ele soltar o bicho que morava dentro dele. O psiquiatra que o atende em sua volta, pergunta:
“- Você matou 160 pessoas. E voltou quatro vezes para a guerra. Agora quase matou o cachorro que brincava com o seu filho... Isso não o preocupa?”
Ele, que era amoroso com Taya (ótima Sienna Miller), a garota que ele escolhera para se casar, foi ficando cada vez mais distante, mais frio e duro:
“- Eu queria que você voltasse a ser humano!”, implora Taya, estranhando o jeito dele com ela e os filhos.
Mas, sentado na frente da TV desligada, Chris assiste a seu programa favorito. Os sons e as imagens da guerra, seu cenário ideal, estão instalados para sempre em sua mente psicótica. Só no meio da batalha ele se sente vivo, fazendo o que mais gosta. E isso foi também a sua perdição.
Clint Eastwood, 84 anos, ganhador de dois Oscars de melhor filme com “Os Imperdoáveis” e “Menina de Ouro”, volta a ocupar a imprensa americana, desde que seu último filme, lançado na temporada do Oscar, ganhou 6 indicações: melhor filme, ator (Bradley Cooper), roteiro adaptado, montagem, edição de som e mixagem de som.
Quer se goste ou não das posições políticas de Clint Eastwood, uma coisa é certa. Ele sabe como atingir o emocional das pessoas. “Sniper Americano” é um filme que faz com que se pense em como a guerra afeta de modo terrível a mente de certos indivíduos, além de matar e ferir outros tantos. E mais, como lidar com os que voltam estropiados no corpo e na alma?

Grandes Olhos



“Grandes Olhos”- “Big Eyes”, Estados Unidos 2014
Direção: Tim Burton

Os anos 50 não foram confortáveis para as mulheres americanas. Os homens tinham voltado da guerra na Europa e retomado seus postos de trabalho, que tinham deixado nas mãos delas. Assim, as mulheres foram mandadas de volta para a cozinha.
Mas Margareth tinha talento e força de vontade. Mudou de cidade com a filha, fugida, no meio da noite, quando se separou do primeiro marido no Canadá e batalhou um emprego numa fábrica de móveis para sustentar-se, em São Francisco.
Ela era pintora nas horas vagas e tinha uma marca pessoal: retratos de crianças de grandes olhos expressivos. Seu primeiro modelo foi a filha. Nos fins de semana, as duas iam para a praça onde artistas desconhecidos expunham seus trabalhos, vendidos por qualquer troco.
Mas, como a vida era difícil para uma mulher sozinha, pressionada pelo ex-marido para retirar dela a guarda da filha única, Margareth foi presa fácil para Walter Keane, pintor que ela conheceu na praça. Intempestivamente, ele a pediu em casamento.
Daí para convencê-la de que era ele quem tinha que assumir a autoria das pinturas dela, já que as dele não faziam nenhum sucesso, foi um pulo. O argumento usado por Walter Keane foi o de que era preciso alguém com a personalidade dele para vender as obras de Margareth. Afinal, ninguém se interessaria, acrescentou ele com autoridade masculina, em comprar pinturas de uma mulher.
Tim Burton dirige “Grandes Olhos” com o talento de sempre. Afinal, personalidades desajustadas são a sua especialidade. A história dos Keane é contada em cores cinemascópicas e esplêndida reconstituição de época.
Seus atores, dirigidos com perspicácia, interpretam o casal Keane com a medida certa de insegurança e ingenuidade, quase doentia de Margareth (vivida com alma por Amy Adams) versus o mau caráter aliado à sedução barata de Walter (Christopher Waltz, diabólicamente perverso).
A história é contada do começo ao fim, sem flashbacks e assusta como demonstra a facilidade com que alguém se submete aos caprichos de outro, quando uma personalidade psicopática usa da sedução para conquistar o que quer. Quando contrariada, mostra do que é capaz.
Mais uma vez, Tim Burton mergulha nas facetas mais terríveis da alma humana. E o faz com brilho.
É uma história verídica e, nos créditos finais, vemos os protagonistas desse drama em fotos. Margareth tem 87 anos e sobreviveu a Walter.
Amy Adams ganhou o segundo Globo de Ouro consecutivo por sua Margareth mas o Oscar esnobou solenemente o filme de Tim Burton. Nenhuma indicação. Manias da Academia, que ignora assim, um grande diretor e um filme atraente, com grandes atuações.

Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo


“Foxcatcher”- “Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo”, Estados Unidos, 2014
Direção: Bennett Miller

A caça à raposa, “esporte” tradicional dos inglêses, é uma farsa. A pobre criatura, perseguida pelos cães que a farejam e os cavaleiros que atiram para matar e divertir-se, é solta de seu cativeiro um pouco antes da caçada começar. Ela está destinada à morte certa.
Quando vemos o filme de época, em preto e branco, que passa antes dos créditos, mostrar claramente o que acontece com a raposa, passamos a temer pela vida de uma vítima no filme “Foxcatcher”.
Acontece que o milionário americano John du Pont (Steve Carell, assombroso) sonha em ter um time de luta-livre ou luta greco-romana, para ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Seul em 1988.
Ele se considera um patriota, herdeiro legítimo de sua família que vendia munição ao exército americano desde o início do século vinte. Possuiam a maior indústria química do mundo.
Em sua propriedade “Foxcatcher”, onde imperam os cavalos puro-sangue da matriarca (interpretada com corpo retorcido e olhos penetrantes, por Vanessa Redgrave, atriz imensa), o filho quer treinar um time liderado pelos irmãos Schultz, Dave e Mark (Mark Ruffalo, sempre competente e Channing Tatum surpreendente), ganhadores da medalha de ouro em 1984 nas Olimpíadas de Los Angeles.
Só que Dave, o irmão mais velho e treinador de Mark, não está disponível para se mudar com a família para Delaware. Bem que o milionário tenta trazê-lo. Mas só Mark aceita o convite.
O irmão mais novo está decadente, vivendo de sanduíches, numa casa acanhada, dando palestras por tostões em escolas da região. Para Mark, o chamado de John du Pont é a chance de tirar o pé da lama.
Mal sabe ele onde está se metendo.
De temperamento depressivo, auto-destrutivo, inseguro, ele embarca com gosto na vida que o milionário oferece como acompanhante de luxo, com total submissão a seu “pai, mentor e treinador” como John gosta de ser visto, com os apelidos de “águia e águia dourada”.
O bonitão Mark, ingênuo e necessitado de alguém que o use como um marionete, é argila nas mãos cruéis de John, que tenta agradar à mãe, que não esconde seu desprezo pelo filho.
A sexualidade doentia de John, combinada com bebida e drogas, dá vazão a uma crescente psicose.
Quando Dave entra em cena, o trio está completo para a encenação da tragédia.
Bennett Miller dirige o filme com talento, criando um clima de tensão desde o primeiro minuto. Seus magníficos atores interpretam com brilho a história, baseada em fatos reais, mas nem tão conhecida assim por aqui, como faz supor o título em português.
É uma encenação de arrepiar. O John du Pont de Steve Carell dá medo. O ator está irreconhecível. Ele encarna o milionário como alguém à procura de seu trágico destino.
Prêmio de melhor direção no Festival de Cannes desse ano, “Foxcatcher” foi indicado em 5 categorias no Oscar: melhor ator (Steve Carell), melhor diretor (Bennett Miller), melhor ator coadjuvante ( Mark Ruffalo), melhor roteiro original e melhor maquiagem e cabelo.
Um ótimo filme.