quarta-feira, 28 de julho de 2010

O Bem Amado








O Bem Amado





O Brasil quer rir do Brasil?

Guel Arraes, o diretor do filme “O Bem amado”, pensa que sim e explica, em uma entrevista que deu a Luis Carlos Merten:

“... O que me atrai é o humor. Até por ter convivido internamente com esse mundo da política, sempre fui atraído pela peça de Dias Gomes (1962) que deu origem à novela (1973) e à série (1980). Odorico Paraguaçu virou o emblema do político brasileiro. Existem muitos Odoricos por aí e eles acham o personagem divertido, são os primeiros a rir. Mas nenhum assume que Odorico é o retrato deles, daí o meu desejo de fazer o filme.”

Vindo da televisão (Armação Ilimitada), o diretor de “Lisbela e o prisioneiro” e o “Auto da Compadecida”, filmes onde o lirismo conversava com a graça do nordeste do Brasil, em “O Bem Amado” quer falar de política. Diz ele na mesma entrevista:

“Era o personagem que me interessava, o retrato que ele fazia do Brasil. O país mudou. O Odorico da ditadura não podia ser o mesmo da democracia. E com ele mudou tudo. A sátira política virou uma farsa.”

E, realmente, o Odorico de Marco Nanini é muito diferente do de Paulo Gracindo que marcou época com seu terno de linho amarfanhado e charuto na boca.

Agora o cabelo é daquela cor alaranjada duvidosa, o prefeito veste-se de maneira espalhafatosa e usa colete, chapéu, cartola, comendas e anéis. Mais para o patético e ridículo.

Os tempos são mesmo outros e o narcisismo desabrido ataca o prefeito Odorico e faz disso a sua marca. Pavão misterioso?

Do antigo Odorico o novo só conservou o linguajar pitoresco que o povo copiava nos anos setenta e a obsessão de inaugurar o cemitério, custe o que custe. Sua administração também é marcada por todos os defeitos da politicagem e Guel Arraes, que também assina o roteiro, dá destaque às práticas fraudulentas que tanto alimentam as manchetes escandalosas dos nossos jornais.

As engraçadas Cajazeiras, senhorinhas carolas e alcoviteiras do passado, são agora três irmãs solteiras tão espalhafatosas quanto o prefeito que, querendo ser “sexy”, se insinuam para qualquer macho que apareça mas preferiam mesmo o lugar de primeira dama de Sucupira ( Andréa Beltrão, Zezé Polessa e Drica Morais).

O público de “O Bem Amado” se diverte, principalmente aqueles que só gostam de rir, mas há momentos em que o ritmo do filme, muito acelerado mas repetitivo, cansa.

O elenco estelar de atores da Globo está à altura do que é pedido pela trama. São todos profissionais competentes e bem dirigidos.

Para mim, o ponto alto fica a cargo de José Wilker, que faz o cangaceiro Zeca Diabo com alma. Tem o mérito de resistir à caricatura e ser o personagem mais contundente do filme.

As paisagens de Alagoas, brevemente mostradas, dão vontade de viajar e conhecer as águas turqueza e as falésias de areia, tão fotogênicas.

E a trilha sonora sem defeito vai de Caetano Veloso, Zélia Duncan, Zé Ramalho e Jorge Mautner. Uma delícia.

Guel Arraes, filho do ex-governador Miguel Arraes, figura de proa na oposição à ditadura militar, faz uma bela homenagem a seu pai mostrando-o no grande comício das “Diretas já”, que foi um momento importante na reconquista da democracia no Brasil.

Talvez esse seja o momento mais tocante do filme quando se vê que não só de Odoricos vive a política brasileira.

E mais ainda, eu diria que pensar nas próprias “maracutaias” não faz mal a ninguém. Isso não é privilégio dos políticos. Rir é bom e eu gosto mas por que não tirar conclusões mais amplas desse filme em tempo de eleições importantes no nosso país?


domingo, 18 de julho de 2010

À prova de morte





“À prova de morte”-“Death Proof”, Estados Unidos, 2007
Diretor: Quentin Tarantino

Jovens pés femininos, com pulseirinha no tornozelo, descansam sobre o painel de um carro que corre por uma estrada ao som de um rock animado.
“À prova de morte” abre com um dos fetiches do diretor Quentin Tarantino, que também produz, dirige a fotografia e seleciona as músicas da trilha sonora, além de atuar em uma ponta.
Claro que não é diversão para uma platéia convencional. Mas, quem conhece e gosta do estilo desse diretor, vai se deliciar com todos os clichês “a la Tarantino”que estão em “À prova de morte”, filme de 2007 que fazia a segunda parte de uma sessão dupla que começava com “Planeta Terror”de Roberto Rodrigues. Os diretores pensaram em homenagear as sessões de cinema com dois filmes dos “drive-in” americanos dos anos 60 e 70. Nelas passavam os filmes B de baixo orçamento e com muita violência, sexo, terror e perseguições em carros “envenenados”.
O projeto não fez sucesso nos Estados Unidos e apesar de ter sido exibido na Mostra de São Paulo e no Festival do Rio em 2007, só agora “À prova de morte” chega ao nosso circuito.
Propositalmente, o filme apresenta borrões, ranhuras e aqueles cortes mal feitos quando se passava de um rolo de filme para outro, como acontecia antigamente.Tudo produzido com tecnologia digital para criar o ar “retrô” dos anos 70.
O forte de “À prova de morte” não é a história. Já no “trailler” conta tudo: Stuntman Mike, um ex-dublê cabotino e meio ridículo com seu topete e casaco prateado, usa seu carro, um Chevy Nova 1970, com uma caveira pintada no capô, para atrair belas garotas que vão nutrir seus instintos assassinos. Elas morrem com as manobras violentas que faz o dublê porque só o banco do motorista é “death proof”, protegido e reforçado, à prova de morte. Mas isso ele só conta quando a aterrorizada garota já está sentada no outro banco.
Para o psicopata sanguinário, Stuntman Mike, seu carro é como que extensão de seu corpo impotente, para conseguir orgasmos letais. Mas haverá castigo surpresa.
Na primeira parte do filme, garotas safadinhas que falam e riem contando umas às outras seus casos amorosos, são excrutinadas pela câmara “voyeur” de Tarantino que explora a bela anatomia delas. “Close” em pernas, peitos e traseiros em shortinhos apertados. Estão naquele carro, que corre pela estrada, Jungle Julia, “a DJ mais sexy de Austin,Texas” (Sydney Tamiia Poitier, filha do ator Sidney Poitier) e suas amigas Shanna ( Jordan Lad) e Arlene ( Vanessa Ferlino). Elas vão ao bar do Warren (Quentin Tarantino se divertindo muito), onde bebem e dançam antes de partir para um fim de semana só de garotas.
Uma série de diálogos picantes e de duplo sentido esquentam a temperatura do bar para onde vai o dublê assassino atrás das garotas. E o “clímax” dessa excitação toda é a “lap dance”, dança erótica de Vanessa Ferlino para um participante Stuntman Mike (Kurt Russell, ótimo no papel). Quentíssimo.
A cena que encerra a primeira parte do filme, uma espetacular colisão, é mostrada quatro vezes porque é filmada a partir do ponto de vista de cada uma das quatro garotas que morrem em meio a latas retorcidas, vidro quebrado, explosões e fogo, com direito até a uma perna decepada no meio da estrada. Muito sangue, claro.
Graças a um xerife caipira que entende tudo o que aconteceu (referência a “Fargo” dos irmãos Cohen), o dublê assassino tem que mudar de estado e vamos para Lebanon, Tennessee, onde acontece a segunda parte do filme.
E se na primeira metade estamos na noite, com muito néon e bebida, na segunda parte a luz do sol ilumina a cena com cores vibrantes. As garotas que o psicopata escolhe dessa vez também são bonitas mas poderosas. E ele não sabe.
Este é um tema recorrente nos filmes de Tarantino que já vimos, por exemplo, em “Kill Bill” 1 e 2 (2003 e 2004), com Umma Thurman e Pam Grier em “Jackie Brown”( 1997).
Como se para vingar as outras quatro, em um carro branco desafiam o carro preto do assassino. “Quem com ferro fere...com ferro será ferido”, diz o ditado popular.
Quentin Tarantino, que sabe como ninguém brincar no cinema, em “À prova de morte” mostra que, mesmo quando faz de propósito um filme ruim, consegue ser divertido e original. Coisa fácil para ele.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

“O profeta"


A tela é escura. Vozes se entrecortam. Os letreiros aparecem em amarelo. Alguém reclama das algemas em seu pulso. Sentimos, no escuro, que o medo é o melhor aliado da sobrevivência.

Nesse primeiro impacto já se anuncia a saga do anti-herói Malik, um menino francês de origem árabe em Paris, que sai do reformatório e vai direto para a prisão cumprir pena de seis anos porque ficou adulto. Passa pela “cidade das luzes” no breu de um carro de polícia.

Pouco ou nada sabemos desse garoto que não conseguimos ver nas imagens indistintas e tumultuadas que abrem o filme “O profeta”. Mas o mais importante é o que se percebe desde o início: sua história lê-se no corpo magro marcado por cicatrizes profundas. Foi muito castigado.

Nada possue, a não ser uma nota de 500 euros que esconde com cuidado e da qual é despojado na entrada da cadeia. Revistado em todos os buracos de seu corpo, onde se esconde a sua alma?

Talvez seja esse o principal fio condutor para entender Malik: ele procura saber quem é. Solitário, não tem amigos nem identidade. Mas, precisa ter, para sobreviver naquele mundo onde mandam os chefes das máfias, corsos e árabes, que orquestram o crime organizado de dentro da cadeia.

Tarefa árdua para quem não sabe responder às perguntas do funcionário da prisão:

- Qual a sua língua materna?

Ele balbucia algo como “não tenho”...”reformatório”... “francês”...”árabe”...

-Mas se você preencheu a sua ficha de modo incompleto, você estudou um pouco, não?

-Até os 11 anos...

Ele é semi-analfabeto. Aliás pode até conhecer algumas letras mas nada faz muito sentido para ele. Ele até aprende a ler e um ofício na prisão. Mas é muito pouco.

O diretor Jacques Audiard conta essa história com cores rebaixadas e cortes abruptos. A ação não é interrompida por explicações. Cabe ao espectador acompanhar a descida aos infernos de Malik (Tahar Rahim).

Os modelos que ele segue na prisão, para colar-se neles porque não sabe o quê fazer, são os disponíveis. Para quem precisa de pai, ele encontra um patrão perverso, o corso Luciani (Niels Arestrup):

- “Acha que vai durar aqui sem proteção? Você vai fazer o que eu mando. Você vai matar o árabe. Você consegue. Vamos ajudar. Mas saiba de uma coisa. Se você não matá-lo, sou eu que mato você.”

Na cadeia, a desgraçadamente famosa “escola do crime”, em busca de proteção, apego, identidade, Malik vai conhecer o mundo das sombras dentro dele. E vai ter relances do que poderia ter sido, se o destino não o colocasse em situações-limite nas quais as reações são às cegas e o medo da morte rege a mente.

Malik se apega a seus demônios internos na falta de uma tábua de salvação. Mas ele já afundou e não sabe.

Há momentos de lirismo e quase felicidade quando Malik voa de avião pela primeira vez em sua vida, quando conhece o mar ou nina o bebê, filho do amigo Ryad. Mas ainda é muito pouco.

Malik é a presa no mar de lama e sangue onde afundou. Por isso percebe o perigo que correm as gazelas na estrada que corta o bosque e por onde transita um carro a toda velocidade. Massacre.

-Como adivinhou Malik? Você é profeta?

E na cena final somos nós que, com horror, percebemos o perigo que ronda um Malik que, finalmente liberto da prisão, acha que se encontrou e que vai ter e dar amor.

Alguém canta de um modo sarcástico a canção “Mack the Knife” da “Ópera dos três vinténs” de Brecht que fala de um tubarão que esconde os dentes...

“O profeta” ganhou o “Grand Prix” do Festival de Cannes em 2009 e confirmou sua carreira de sucesso com nove Césars, o Oscar francês, entre os quais o de melhor filme, melhor ator para Tahar Rahim, melhor ator coadjuvante para Niels Arestup, melhor argumento original e melhor cenografia.

É um filme duro, difícil de ver mas obrigatório para quem quer pensar as questões humanas em boa companhia.





O Profeta - “Un prophète”
França/ Itália, 2009
Diretor: Jacques Audiard
Elenco: Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adel Bencherif, Hichem Yacoubi, Reda Kateb, Jean-Philippe Ricci
Produção: Lauranne Bourrachot, Martine Cassinelli, Marco Cherqui
Roteiro: Thomas Bidegain, Jacques Audiard
Fotografia: Stéphane Fontaine
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Classificação: 12 anos
Em cartaz

Veja o trailler



Eleonora Rosset é psicanalista.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

"Amantes"

"Amantes" (Two Lovers, James Gray, 2008 - EUA)
Postado em 9 de janeiro de 2010, às 12:00
É uma pena mas a tradução do título do filme do inglês para o português faz com que se perca o sentido de entre dois amores que existe na história que "Amantes" quer contar.
Joaquin Phoenix, um ator que tira uma máxima expressão de pormenores, dá vida a Leonard, um homem só, perdido, abandonado. Sua aparição no "pier" escuro nos faz compreender de imediato o estado desesperador em que se encontra. Em câmara lenta larga a roupa envolvida em plástico de lavanderia que levava e pula a mureta. Mergulha para a morte.
Mas é salvo e vamos descobrindo através das conversas entre seus pais que essa é a segunda tentativa de suicídio por causa da noiva que o abandonou. O retrato dela está ainda lá em seu quarto para que possa remoer essa dor.
Em "flashback" vemos a moça indo embora e ficamos sabendo que ambos eram portadores da possibilidade de uma doença genética grave. Não poderiam jamais ter filhos e ela não queria adotar.
Leonard toma remédios para doença bipolar e é a imagem da derrota.
Sabemos o quanto de ódio existe nesse estado de alma que chamamos depressão.
Pois bem, quando quis morrer, Leonard parecia querer matar tudo que nele o enchia de frustração: a doença genética, a angústia do abandono, a dor de não poder mudar nada disso. Doia nele, principalmente, a revolta contra a vida que ele não queria que acontecesse do jeito que estava acontecendo.
E não é por acaso que se sente imediatamente atraído por Michelle, desde a primeira vez que a vê, no corredor de seu prédio. São vizinhos.
Gwyneth Paltrow, também excelente no papel, faz essa "pirralha mimada" como diz o pai dela aos berros, saindo de uma visita à filha.
No mesmo instante em que a vê, Leonard crava os olhos nela: uma garota dourada que se veste de preto.
Claro que para esquecer a noiva amada, nada melhor que uma moça que parece só, perdida e abandonada como ele. Uma miragem.
Mas é a auto-destruição que ele fareja nela que o seduz.
Michelle não tem foco na vida: drogas, baladas, assistente e amante de um advogado casado que diz amá-la mas não larga a família...
Ela é o amor de perdição para Leonard.
Ele, de família judia tradicional, tem o carinho da mãe e do pai.

Isabella Rosselini faz a "jewish mamma" de forma sutil, só olhares preocupados e gestos contidos de proteção.
Para Leonard seus pais escolhem Sandra (Vinessa Shaw), boa moça de família judia com as mesmas tradições que eles. E Sandra atrai Leonard para si naturalmente. E o prende com um amor que não é exigente. Bonita e sensual faz amor com ele em uma cena sem gritos mas erótica. Paciente e compreensiva, o aquece com as luvas que comprou para suas mãos geladas.
Ela é o amor de redenção para Leonard.
"Amantes" ficou em cartaz por seis meses em São Paulo. Penso que o público é atraído por esse filme porque há nele o que há nos grandes romances literários ou seja, humanidade, conflito e paixão.
Além de uma trilha sonora belíssima que vai de bossa nova tocada por Stan Getz (Tom Jobim com "Vivo sonhando" e Jorge Benjor com "Chove chuva"), a árias de várias óperas entre as quais "Cavalleria Rusticana" e "Manon Lescaut" no vozeirão de Pavarotti.
"Amantes" nos fala da importância das escolhas que fazemos na vida. E da responsabilidade que vem com elas.
Entrevistado por Luiz Carlos Merten, James Gray disse: "Queria dar ao filme essa textura muito intensa que só se encontra na grande literatura romântica, nos maiores melodramas e na ópera. O amor como sentimento visceral."
James Gray conseguiu o que queria.
"Amantes" é um filme que merece ser visto e não vai ser esquecido.

“A vida íntima de Pippa Lee”

“A vida íntima de Pippa Lee” (The private lives of Pippa Lee, 2009 - EUA - Rebecca Miller)
Postado em 16 de janeiro de 2010, às 12:30
É um filme estrelado. Nomes como Robin Wright Penn (Pippa Lee adulta), Alan Arkin (o marido 30 anos mais velho do que ela), Maria Bello (a mãe de Pippa), Monica Bellucci (a ex do marido), Julianne Moore (o "caso" da tia lésbica), Winona Ryder (o "caso" do marido), Keanu Reeves (o "cara" meio pancada”) e Blake Lively (Pippa quando jovem) participam de um filme escrito e dirigido por Rebecca Miller, filha do conhecido dramaturgo Arthur Miller (1915-2005). Como se não bastasse, o produtor executivo do filme é ninguém menos do que Brad Pitt.
A diretora, que escreveu e adaptou seu próprio livro, diz em uma entrevista: - "Arthur (Miller) era meu pai, só penso nele assim, embora como intelectual me interesse muito a construção e repercussão de sua obra. Se isso é bom ou mau para a minha carreira, se ele me ilumina ou projeta uma sombra, confesso que são questões que só surgem quando dou entrevistas."
E ela é casada com Daniel Day-Lewis que já ganhou dois Oscars por "Meu pé esquerdo" e "Sangue Negro".
Poderíamos indagar onde fica a figura da mãe no universo familiar da autora. Ninguém perguntou sobre isso... Mas, para Pippa Lee, sua personagem, certamente essa pergunta é crucial. Porque ela tem muitas vidas, muitos recomeços. Isso perdeu-se na tradução do titulo do filme do inglês para o português: "Como muita gente, já vivi muitas vidas", diz Pippa no início do filme.
Em sua primeira vida, vivida na tela por Madeline McNulty, ela é a bebê mimada por sua mãe narcisista que a trata como uma extensão de si mesma.
Já maiorzinha, vestida de anjo, "cowgirl", dançarina, posa para sua mãe pintora, toda admiração pela filhinha. "Ela é um bebê ou um bichinho de estimação?", pergunta o irmão.
Esse foi o paraíso de Pippa mas que durou muito pouco.
"Eu era o seu bem mais precioso", diz uma Pippa adulta, relembrando dessa primeira vida.
Entrando na adolescência, dá-se conta de que a mãe é triste, que seu humor tem altos e baixos e ela se crê a culpada de tudo isso: - "Meu dever era fazer ela feliz outra vez. Seu humor governava a minha vida".
E Pippa, identificada com sua mãe, tenta entender o enigma de sua instabilidade agindo como ela. Toma todas as anfetaminas que acha no armário da mãe e que ela tomava para não engordar.
"Eu te amo tanto. Agora nós duas podemos ficar "chapadas" e "felizes", grita uma menina enlouquecida.

A mãe fica furiosa e Pippa foge de casa começando assim a sua segunda vida que vai iniciá-la na sexualidade, na perversidade e na "dolce vita" do fim dos anos 60.
Ela é uma menina perdida que encontra um homem importante, o maior editor da época, trinta anos mais velho do que ela (Alan Arkin, comovente) e que se apaixona por Pippa.
Alguém a define como uma "femme fatale" ingênua.
Vive, então, a sua terceira vida já na pele de Robin Wright Penn, que está maravilhosa no papel.
Nessa vida ela vai tentar viver da melhor maneira possível mas se torna um "enigma adaptável", segundo seu marido que envelhece e de quem ela cuida como se ele fosse um bebê. Ou alguém à beira da morte.
Começam estranhos episódios em sua vida enquanto ela se pega menos controlada, mais sensível.
E ela se pergunta: - "Será que não estou tendo um 'nervous breakdown' (colapso nervoso) silencioso?"
O roteiro do filme propõe novas interrogações para Pippa que parece finalmente aceitar sua dissociação cabeça/coração.
E nós, na platéia, torcemos por ela, que se redescobre e se reinventa enquanto ainda (?) há tempo para isso.
Fatalmente, alguns de nós vamos nos perguntar na saída do cinema: - "Quantas vidas eu me permiti viver?"

"A Partida"

"A Partida" (Okuribito), Yojiro Takita, Japão, 2008
Postado em 23 de janeiro de 2010, às 13:00

Ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009, "A Partida" saiu de cartaz em São Paulo depois de mais de 6 meses de exibição. Mas agora está de volta em algumas salas de cinema (ver serviço).
E o filme trata de um tema aparentemente difícil para todos nós: a morte. Aliás, pior ainda: o corpo do morto. Sabemos como esse assunto levanta tabus não só culturais mas também religiosos.
Talvez a maneira empática com que o filme nos leva a seguir a personagem principal, o ex-violoncelista Daigo Kobayashi, interpretado com muita arte por Masairo Motoki, seja a chave para entender o seu sucesso.
Passo a passo seguimos Daigo primeiro tocando na orquestra (e sentimos com ele a decepção quando esta é dissolvida e ele fica sem emprego), depois a aventura de se mudar com a mulher para a cidadezinha de sua infância.
E vamos descobrindo com a personagem os horrores, nojo e medo que se seguem à sua hesitação em prosseguir na carreira de "encomendador de corpos" que ele não escolhera livremente.
Quase que arrastado pelo patrão, que será seu mestre nessa difícil arte, Daigo cresce, amadurece e aprende a ver beleza onde antes existia apenas asco.
A experiência com o ritual que antecede a colocação do corpo no caixão vai mudar radicalmente a vida de Daigo.
A cena inicial do filme na qual uma tela branca vai mostrando, aos poucos, um carro que trafega em uma estrada em meio a uma nevasca é paradigmática.
Tanto que ela é repetida no meio do filme e aí já compreendemos melhor o que Daigo diz: - "Vejo o quanto foi inexpressiva a minha vida até agora.’"
O espectador também se encanta com a extraordinária beleza da cerimônia presidida por Daigo, que se tornou um profissional dessa arte.
Antigamente, no Japão, as famílias se ocupavam em preparar os corpos dos parentes mortos mas depois essa tarefa foi transferida para profissionais e assistida pela família.
Daigo é iniciado nesse ritual por um mestre, Shoel Sasaki (Tsutomu Yamasaki). Apreensivo nas primeiras vezes e confiante depois, fazendo ele mesmo o trabalho, Daigo e seu mestre executam os passos dessa cerimônia com gestos suaves, quase carícias. Primeiro distendendo os músculos da face do rosto da pessoa morta, depois despindo-a com pudor para que nenhum membro da família veja nenhum pedaço da pele do morto, depois ainda limpando-o com delicadeza.
Ai o corpo é vestido e por fim a maquiagem faz com que o rosto ganhe brilho, beleza e...vida.

Este é o momento mais emocionante para os familiares que reencontram a pessoa que morreu.
E é o momento do adeus. Todos fixam em seus corações a imagem bela que ficará na lembrança. E só ai é que o corpo é colocado suavemente no caixão.
A cerimônia independe da religião da família. No filme vemos tanto um enterro cristão como uma cremação budista.
E como o roteiro convida, seguimos Daigo também em sua vida pessoal. Assistimos à sua raiva contra o pai que abandonou a família quando ele tinha 6 anos e depois sua reconciliação madura com o homem que lhe ensinara a gostar de música e lhe dera o violoncelo da infância.
É com esse instrumento que Daigo toca no campo, ao ar livre, em meio a montanhas nevadas e gansos cruzando os céus, enquanto procura o pai dentro de si.
A mais comovente lembrança de Daigo envolve uma tradição que seu pai lhe ensinara: a linguagem das pedras-cartas. Aprendemos então que, antes de existir a escrita, as pessoas mandavam pedras umas às outras. Conforme a textura, o tamanho e a cor, elas inspiravam sentimentos diversos em quem as recebia.
Uma vez o pai de Daigo o leva ao rio e eles trocam pedras entre si.
Aquela que o pai lhe dera, ele encontrou junto ao violoncelo da infância, embrulhada numa partitura.
Mas onde estará aquela que ele deu ao pai?
A cena final do filme comove até o mais empedernido espectador.
Na evolução dessa história, contada com maestria, a música ajuda a aprofundar as emoções. Joe Hisaishi é o responsável pela trilha sonora que vai da Nona Sinfonia de Beethoven com o coro cantando a Ode à Alegria até a Ave Maria de Gounod e o Wiegenlied de Brahams em solos de violoncelo e a belíssima canção-tema do filme.
"A Partida" fala de um tema universal mas é japonês até no mínimo detalhe. E esse é o seu mérito. Pois não é falando de sua aldeia que o homem é compreendido por toda a humanidade?

“Chéri”

“Chéri”, Stephen Frears, Inglaterra/França (2009)
Postado em 29 de janeiro de 2010, às 12:00

Cenários suntuosos onde brilham materiais e móveis preciosos sob uma iluminação perfeita. Locações de sonho: Paris, Normandia, Biarritz. Figurinos de época trabalhados com arte para encantar. Elenco de primeira, tendo à frente uma belíssima mulher e um jovem lindo como um deus grego. Mas não se enganem. Esse não é mais um filme de época feito para ganhar alguns Oscars de segunda categoria.
Vinte e um anos depois de impactar o mundo do cinema com o seu premiado "Ligações perigosas" (Liaisons dangereuses, 1988) no qual tratava das defesas perversas frente aos perigos do amor, o diretor inglês Stephen Frears traz para a tela “Chéri” (2009), baseado no livro de 1920 da escritora francesa Colette (1873-1954). E retoma o tema do amor.
A beleza dos figurinos e dos cenários escolhidos não servem apenas como uma distração para nossos olhos. Ao contrário, pontuam uma preocupação decadente com o mundano que marcou o fim do século XIX e o começo do século XX - a “Belle Époque”- que teria um fim com a Primeira Grande Guerra.
Entre o aconchego dos veludos, plumas e peles do jardim de inverno de uma casa francesa vão ocorrer os fatos que desencadeiam uma história de amor não-ortodoxa.
É nesse jardim de inverno que famosas ex-cortesãs passam suas tardes a recordar seus momentos de glória nas rodas aristocráticas e boêmias da Europa.
Essas mulheres, cultivadas e até mesmo refinadas, não podem ser confundidas com meras prostitutas. Algumas marcaram em seus salões o destino da arte e cultura da época. Outras se tornaram muito ricas devido às relações com a aristocracia endinheirada. Mas nunca foram recebidas oficialmente nas altas rodas da sociedade. Por isso conviviam entre si.
Ficamos sabendo que a dona da casa, Charlotte Peloux (Kathy Bates), preocupa-se com o filho Fred de 19 anos (Rupert Friend), apelidado "Chéri" por uma colega de ofício que o conhece desde pequeno, a ainda bela e bem sucedida Lea de Lonval (Michelle Pfeiffer). Aos 49 anos, ela pensa em abandonar o "métier" (profissão).
Entregue aos cuidados de Lea para largar a vida de dissipação que levava, Chéri, quase sem querer, vai marcar e ficar marcado para sempre.
Ele, que a chama de “Nounoune”, vai encontrar na cama e nos braços de Lea não só os prazeres do amor carnal, mas as delícias dos mimos e dos cuidados maternais que tanto faltaram na vida desse rapaz que se considerava "órfão". Sem pai e com uma mãe que não tinha muito tempo para ele.
Ela, Lea, que envelhece com dignidade, não se dá conta, apesar de toda a sua experiência, que essa história vai custar caro aos dois. Era virgem em matéria de amor.
E ela não apenas “adota” Chéri. Coloca o rapaz no centro de sua vida. E o educa para a masculinidade. Ele que tanto se atraia pelas pérolas cor-de rosa.

Um Édipo que consegue uma realização feliz. Ao menos por uns anos... Porque depois a vida vai se encarregar de arrancar Chéri dos lençóis cor-de-rosa de Lea.
Essa cobrança que a vida faz em nome da tradição poderia ser uma oportunidade de crescimento para os dois amantes.
Mas a que melhor aproveita essa lição é Lea. Bem dizem os franceses: ”Si la jeunesse savait...Si la vieillesse pouvait...”(Se os jovens soubessem...Se os velhos pudessem...)
As disputas sutis e venenosas entre a mãe e a amada de Chéri é um dos pontos altos do filme. Diálogos ferinos escritos pelo roteirista e dramaturgo Christopher Hampton que adaptou o livro de Colette são brihantes e dão oportunidade a Kathy Bates de mostrar a sua verve humorística refinada.
Michelle Pfeiffer que ganhou o Oscar de atriz coadjuvante em “Ligações perigosas” fazendo o papel da pura Mme. de Tourvel que se torna presa de um perverso John Malcovitch, brilha em “Chéri”como a cortesã Lea.
Ela atua com tanta sutileza que parece que só a câmara capta, em segredo para a platéia, a crispação de seu belo rosto frente às provocações de Mme. Peloux (Kathy Bates), mãe de Chérie, que sempre foi uma rival ciumenta.
E é com muita sinceridade que a vemos lamentar, quase que em silêncio mas com uma postura alquebrada, o rumo dos acontecimentos.
Mais ainda, belissima como sempre foi, a atriz oferece generosamente ao nosso olhar um pescoço já marcado por rugas e um rosto que começa a perder o viço.
Stephen Frears que a dirigiu 21 anos atrás parece que sabia que Michelle Pfeiffer seria uma maravilhosa Lea de Lonval. E ela aceitou prontamente o papel.
Penso que não foi por acaso ou por coincidência que o diretor convidou Michelle Pfeiffer para o papel e repetiu com ela o close final de Glenn Close em “Ligações perigosas”. Lembram-se?
Em “Ligações perigosas” o close servia para mostrar a atriz tirando a maquiagem e, assim fazendo, desnudar nos traços melancólicos de seu rosto a tragédia que resultou de suas maquinações perversas.
Em “Chéri”, Stephen Frears coloca Michelle Pfeiffer também em close, frente a um espelho que somos nós, testemunhas de sua maturidade triste mas sadia. Um rosto envelhecido mas de certa forma enriquecido pelas venturas e desventuras vividas plenamente.
Duas personagens femininas bem diferentes.
Acho que há nessa escolha do diretor uma lição nada moralista mas bem realista: a aceitação da passagem do tempo é um árduo mas necessário fardo para todos nós. A única saída é viver plenamente.

E, quanto ao amor, vamos repetir aqui os versos tão conhecidos do “Soneto da fidelidade” do grande Vinicius de Moraes:
"Que não seja imortal, posto que é chama.
Mas que seja infinito enquanto dure."