sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O Farol



“O Farol” – “The Lighthouse”, Estados Unidos, Canadá 2019
Direção: Robert Eggers

Há muitas maneiras de viver no mundo. A mais trágica delas é quando há uma impossibilidade de ver e aceitar a realidade que, por pior que seja, é o que temos e onde podemos mudar alguma coisa, por mínima que seja.
Nessas situações em que a realidade é negada e cria-se um outro mundo para se viver, o resultado é sempre um pesadelo. Porque mesmo quando a realidade ameaça e é substituída pela mente doente, não há como negá-la inteiramente. Ela vai se infiltrando e traz o medo com ela porque nesses casos a realidade é sentida como ameaçadora. Há algo que a pessoa não aceita de jeito nenhum mas não consegue se livrar de sua aparição. Quanto mais ela foge, mais tem que correr dessa realidade que a persegue.
“O Farol” espelha uma situação assim e pode ser visto como um filme de terror.
Numa leitura mais superficial, dois homens, um velho e um jovem estão num farol no meio do mar, longe do mundo. Precisam trabalhar arduamente para sua sobrevivência. É a cisterna suja, são os detritos que mancham a pedra do farol. Mesmo dentro da casa há vestígios de sujeira por mais que o jovem esfregue o chão. O velho obriga o jovem a uma insana tarefa de limpeza impossível, já que o próprio velho tem hábitos sujos.
Tudo isso é mostrado numa tela quase quadrada, em preto e branco e com uma trilha sonora que empresta vida ao farol e à natureza em torno. Ouvem-se sons cavos, lamentos, o uivar do vento, o grito raivoso das gaivotas, o estrépito das ondas, o rugir da tempestade. Para não falar da buzina do farol e do incessante estrépito das máquinas.
O farol mostra-se inabalável em toda sua altura e trabalha para si mesmo porque não se vê navio naquele mar. Uma escada em caracol leva ao alto, à luz. Mas só o velho tem acesso a ela. O jovem sente-se atraído pelo lugar que lhe é negado. Isso aumenta sua dor de humilhação constante.
E o que vemos, desde o início é a aparente tranquilidade do jovem ir desaparecendo. A sereiazinha de cerâmica que ele encontra em seu colchão, guardada no peito, é uma primeira alusão à mente que começa a alucinar. Ou é tudo um grande delírio desde o começo? A construção de uma mente atormentada que nem naquele fim de mundo consegue ter paz?
O que vemos é uma loucura crescente. Um ator que mostra todo o seu talento nisso (Robert Pattinson) e o outro que parece ter prazer em atormentar o novato (o ótimo Williem Dafoe), fazendo de sua vida um inferno. Veio com o jovem ou não passa de uma projeção de seu torturador interno?
Não vou contar mais porque o espectador tem direito a ver tudo, principalmente o final, que tem mais de sofrimento indizível que de terror.
“O Farol” é uma imersão numa vivência extraordinária do que pode a mente humana quando perde o prumo, levada pela culpa, resultado da falsa interpretação dos acontecimentos.
Muito bem dirigido por Robert Eggers (“A Bruxa”) e magnificamente interpretado, eu o vi como uma encenação da loucura. A presença do terror dentro da mente de uma pessoa é bem mais assustadora do que os monstros habituais.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças




“Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”- “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, Estados Unidos, 2004
Direção: Michel Gondry

Se viver é perigoso, o amor, um dos sentimentos mais desejados, é também um dos mais temidos, porque expõe o ser humano ao que há de mais sublime e também à mais infernal das torturas. Pois não há amor sem momentos infelizes. Somos diferentes uns dos outros e atraídos, quase sem escolha, porque é algo emocional, a seres que vão nos transportar tanto ao céu quanto ao inferno.
E se pudéssemos apagar os amores intensos e infelizes? Tirar da memória e fazer com que desapareçam os traços daquilo que não queremos mais?
Esse é o tema do roteiro assinado por Charlie Kaufmann, que ganhou o Oscar de melhor roteiro original, nesse filme que tem como título uma frase de um poema do poeta inglês, Alexander Pope (1688-1744).
Não esperem uma ordem cronológica. O charme do filme é que estamos com Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) e vemos começar o amor deles num trem. Depois vamos ver a festa na praia, o casaco laranja e a outra primeira conversa dos dois.
Estranho? Pois isso é a memória de Joel. Os bons momentos e logo os males daquele amor. Mas não queira compreender tudo de cara. Dê um tempo.
Porque a fantasia de apagar da mente o amor que nos faz infelizes, é procurada primeiro por Clementine, a dos cabelos cada dia de uma cor. Aquela que ao ver um bebê, inveja sua mente inocente que, assim pensa ela, não guarda lembranças indesejadas.
Joel fica furioso ao descobrir que Clementine entregou-se a essa experiência de apagá-lo da memória na Clínica Lacuna. Entende porque ela se afastou dele e sofre mais ainda. A impulsividade dela, o pouco caso com aquilo que viveram, tudo dói no peito de Joel.
Então ele também vai se expor ao mesmo tratamento.
Só que há algo que não é explicado nisso tudo. E se no meio Joel quiser parar? Pode ser que ele entenda melhor o que está fazendo e não queira se perder numa espécie de demência.
Como ele vai poder sair daquilo? É um pesadelo.
Quanto mais que os assistentes do médico (Tom Wilkinson) são dois irresponsáveis (Mark Rufallo e Kirsten Dunst)?
Na verdade, a fantasia que tem um lado tentador, ou seja, apagar da memória aquilo que nos tortura, passa a ser um método que ensina ao incauto Joel que, sem lembranças, ele não é mais ele mesmo. Como continuar a viver sem se lembrar dela? Esboça-se a compreensão de que ela é um pedaço dele e ele um pedaço dela.  
O filme é muito bem planejado. Os efeitos especiais originais e belos. E a trilha sonora é muito bem escolhida.
Um filme inesquecível.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Aqueles que ficaram



“Aqueles que Ficaram”- “Akik maradtak”, Hungria, 2019
Direção: Barnabás Toth

Sabemos do sofrimento nos campos de concentração na Segunda Guerra. O extermínio dos judeus nas câmaras de gás horrorizou o mundo. As fotos das vítimas nas valas comuns, corpos maltratados, expressões vazias, nos enchem de dor.
Mas “Aqueles que Ficaram” conta a história dos que escaparam desse destino. O diretor Barnabás Toth, 42 anos, em seu primeiro filme, quer passar algo que ele não viveu pessoalmente mas encontrou no romance de F. Zsuzsa. Aqueles que ficaram não estavam bem.
A culpa pela sobrevivência é um sentimento estranho e forte que abate quem poderia estar de luto mas aliviado porque foi poupado.
Em 1948, Aldo, médico ginecologista e obstetra (Károly Hajuk), 42 anos, que tinha conseguido sair vivo dos campos onde perdera a mulher e dois filhos, voltara a trabalhar em seu consultório no hospital de Budapeste. Seu semblante liso e calmo não deixa ver seu interior onde ele sufoca uma solidão melancólica.
Klara (Abigél Szoke) era menina ainda aos 16 anos e não menstruava quando foi levada pela tia Olgi (Mari Nagy) para uma consulta com o médico. Reclama que a sobrinha não ia bem na escola, estava sempre de mal humor e revoltada. Negava a morte dos pais escrevendo longas cartas para eles.

“- É a entrada na puberdade. Os hormônios estão provocando tudo isso. Volte daqui a 6 meses. ”
De tranças na primeira consulta, ela agora tem os cabelos soltos, o mesmo rosto de anjo e olhos muito claros, quando volta só ao consultório de Aldo. Desembaraçada e falante, acabam indo juntos para o apartamento dele. No caminho, critica as colegas da escola, muito chatas, a tia que não a entendia e o casaco dele que ela achava horrível. O chá oferecido ele quase recusa mas resolve provar.
“- Você não deveria estar na sua casa? ”
“- Minha tia gostaria que eu nunca mais voltasse...”
Aldo que sabe o que Klara sente mas que não expressa, não se surpreende com o abraço dela na cozinha da casa dele. Não se retrai e fica em silêncio.
Esses dois vão desenvolver um relacionamento que vai uni-los na mesma necessidade de ternura, carência explícita e cuidados mútuos. Quando Klara vem dormir na cama dele, Aldo não faz nenhum gesto para tirar ela dali. Compreende o que é o medo e a solidão que a menina sente.  Ela tem uma enorme necessidade de calor humano e silêncio.
Até a tia vai entender que Klara precisa da companhia de Aldo que ocupa o lugar de um pai provisório.
“- Seu pai também era médico? ”pergunta um dia a ela.
“- Era não. É. Está preso mas vai voltar. ”
Tal era a postura de Klara em perene negação ao acontecido. Foi preciso muita compreensão para que ela pudesse finalmente fazer o luto.
Enquanto durou, a relação paternal amorosa foi salutar e terapêutica para os dois envolvidos.
“Aqueles que Ficaram” é um filme sutil e delicado, mais de sentimentos interpretados em silêncio do que de falas dos protagonistas.
Representante da Hungria para o Oscar de melhor filme internacional, já está na primeira lista dos 10 indicados.


sábado, 28 de dezembro de 2019

Uma Mulher Alta





“Uma Mulher Alta”-“Dylda”, Rússia, 2019
Direção: Kantemir Balagov

Quando aconteceu o fim do cerco de Leningrad (antes e hoje em dia, São Petersburgo) que durou de agosto de 1941 a janeiro de 1944, contavam-se um milhão e quinhentos mil mortos na cidade que, quando começara o cerco pelas tropas alemãs, tinha dois milhões e meio de habitantes.
Além da fome, havia medo, doenças e crimes. A distinção entre o bem e mal estava borrada. Todos lutavam pela sobrevivência como podiam.
É no cenário do fim do cerco da cidade que o diretor Balagov, 27 anos, situa seu segundo filme, inspirado pelo livro “A Guerra não tem Rosto de Mulher”, escrito pela vencedora do Nobel de Literatura, Svetlana Aleksiévitch. É então através do olhar e dos acontecimentos que envolvem duas mulheres jovens que o diretor, discípulo de Alexei Sakurov, vai contar sua história.
Iya (Viktoria Miroshnichenko) é a “mulher alta” do título do filme, a “varapau”, a “grandona” como a chamavam. Ela é enfermeira no hospital da cidade que recebe os restos de soldados que sobreviveram no front. Homens sofridos. Muitos esperam a morte como um alívio aos traumas pelos quais passaram.
Iya sofre de crises de ausência, devido a uma concussão cerebral. Ela fica estática, olhos de cílios brancos mirando o vazio. Todos se acostumaram a vê-la assim no hospital. Ela é muito loura, quieta, mas doce e paciente com os soldados de quem cuida.
Pashka, um menino de uns 5 anos está sempre com Iya. Ela cuida e brinca com ele no quarto da casa de cômodos onde moram. Ele a chama “Mamãe”. Para a grande infelicidade de Yia, durante uma dessas brincadeiras, aconteceu uma tragédia.
E, quando Iya vê a mala vermelha de Masha (Vasilisa Prelygina) em sua porta quando volta do hospital, fica muito aflita porque não sabe como contar o que acontecera para a amiga, que estava no front e confiara a ela o filho pequeno.
Mas não há como não dizer a verdade, mesmo que não inteiramente. A partir daí Masha vai querer que Iya lhe dê um filho, já que ela ficara impossibilitada de ter filhos por coisas que aconteceram no front.
Para aquela geração traumatizada pela guerra e o cerco infernal, tudo estava perdido e não haveria recuperação possível. Era preciso mais do que reconstruir a cidade. Era preciso curar as feridas nas almas das pessoas desumanizadas.
É essa geração de uma vida nova, que Masha tanto insiste que quer e crê que vai ser o que salvará as duas mulheres do vazio em que vivem. Com uma criança entre elas haveria a esperança de um futuro a ser construído.
A direção de arte e os figurinos do filme usam tonalidades de verde e vermelho nas paredes, decoração e nas roupas das personagens femininas. Um toque de beleza em meio a tanta miséria humana.
O diretor Kantemir Balagov foi premiado como melhor diretor no Festival de Cannes na Mostra “Un Certain Régard”. Seu filme é o representante da Rússia no Oscar de melhor filme internacional e está entre os 10 selecionados na primeira lista.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Uma Segunda Chance para Amar



“Uma Segunda Chance para Amar”- “Last Christmas”, Inglaterra, Estados Unidos, 2019
Direção: Paul Feig

Essa é a história de Katarina, uma menina nascida na Iugoslávia. Ela está cantando no coro de uma igreja e como um anjo, canta solo para grande emoção de sua mãe Petra (Emma Thompson), que enxuga lágrimas. Estamos em 1998, antes da guerra que assolou essa região e fez a família fugir para a Inglaterra.
Anos mais tarde, em 2017, estamos em Londres, na época do Natal. Kate (Emilia Clarke), como gosta de ser chamada, está vivendo fora da casa dos pais, não se alimenta direito, bebendo e transando com homens que ela conhece em bares. Uma vida atrapalhada. Não tem pouso certo. O último é no apartamento de uma amiga grávida, onde ela chega fora de hora, estraga coisas sem querer e deixa a amiga brava.
O que será que aconteceu com Kate? Parece que a mãe liga mil vezes no celular dela mas a filha não atende, o que aborrece também a irmã Marta, que se irrita com o comportamento caótico dela.
E lá vai Kate pelas ruas de Londres com sua mala de rodinhas e casaco de onça “fake”. Ela trabalha numa loja que vende decoração de Natal o ano inteiro. É um elfo, um ajudante de Papai Noel, vendedora na loja de “Santa”, uma bela oriental.
Pois até ela reclama de como Kate mudou. No início prestativa e simpática, agora desatenta e desastrada:
“- Você precisa se cuidar, menina! Senão vai morrer na frente dos clientes! ”
Também a irmã aparece e chama Kate na rua:
“- Liga para a Mamãe! Você perdeu 5 consultas...”
Kate deve ter tido um problema de saúde grave. O jeito dela de fazer de conta que não liga para nada, pode ser explicado como uma depressão. Ela nega a doença e não se cuida.
Mas o aparecimento do misterioso Tom (Henry Golding) um rapaz alto e bonito na vida dela, como que caído do céu, começa aos poucos a mudar o estado de Kate.
Sempre com a sua bicicleta e sem celular, ele a leva para conhecer lugares em Londres, onde ela nunca tinha ido. O beco mais estreito, o ring de patinação e o jardim secreto dele. “Look up” dizia ele sempre. Levante os olhos, procure.
E fez ela conhecer o lugar onde os sem-teto faziam fila para ganhar uma refeição e onde ele trabalhava como voluntário.
Tom apareceu na vida de Kate de uma maneira mágica e na hora certa. Ela voltou a ser a garota alegre e pronta a ajudar quem dela precisasse.
O filme é quase um conto de fadas, com roteiro de Emma Thompson e Briony Kimmings. E tem a música de George Michael (1963-2016) que combina tão bem com a história de Katarina.
Vá ver e se deixe levar pela emoção.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Dois Papas




“Dois Papas”- “Two Popes”, Reino Unido, Itália, Argentina, Estados Unidos, 2018
Direção: Fernando Meirelles

Ao ouvir no telefone que o nome da pessoa que queria comprar uma passagem aérea era Jorge Bergoglio, a atendente pergunta:
“- Como o Papa? ”
A voz masculina murmura algo e quando é questionado sobre o endereço e responde meio sem jeito, “Cidade do Vaticano ”, a atendente irritada desliga na cara dele, certa de que era uma brincadeira de um desocupado.
Ninguém imaginaria que um Papa faria reservas em seu próprio nome. Mas o Papa Francisco não aceita as regras estipuladas e costuma fazer tudo do seu jeito.
O filme volta no tempo a 2005 e o vemos num bairro pobre de Buenos Aires falando para o povo numa linguagem simples e ajudando a preparar refeições para uma festa popular.
É então que ele fica sabendo que o Papa João Paulo II morreu. O cardeal Bergoglio tem que ir para Roma e participar do conclave que vai eleger o próximo Papa.
Da simplicidade colorida da periferia de Buenos Aires, passamos para a majestade do Vaticano. Mármores preciosos e afrescos magníficos, vestes de seda e veludo, correntes de ouro e chapéus vermelhos.
A praça está repleta para ver passar o esquife do Papa polonês sendo levado para a cripta da Basílica de São Pedro, depois de um pontificado de 26 anos.
Quando começa o conclave, as imagens são belas e tudo é organizado nos mínimos detalhes. O povo na praça espera o sinal da fumaça. A cada votação, os votos incinerados soltam fumaça negra enquanto não é conseguida a maioria necessária para a eleição do novo Papa, que é a mensagem da fumaça branca. “Habemus Papam”.
O cardeal alemão Joseph Ratzinger, agora Bento XVI, assoma ao balcão e saúda o povo. Bergoglio suspira aliviado. Fora o segundo colocado mas nas conversas entre os cardeais, dizia sempre que não queria ser Papa.
Na volta a Buenos Aires ele reassume suas funções e cada vez mais é visto como um homem de grande simpatia, que sabe falar com o povo, que entende como são os problemas que vivemos e que acredita que a Igreja deve estar presente não só no campo religioso, mas na vida das pessoas e proteger os mais pobres e frágeis.
Decidido a aposentar-se mais cedo, antes dos 75 anos exigidos, escreve ao Papa. Precisa da anuência papal. Mas como não recebe resposta, compra uma passagem para Roma. Estranhamente, ele recebe uma carta pedindo que venha a um encontro com Bento XVI.
Tudo isso é fato real. E o encontro dos dois também aconteceu. Mas o que falaram, ninguém ouviu.
Anthony McCarten (“A Hora Mais Escura”, “Bohemian Rhapsody”), que escreveu o roteiro e Fernando Meirelles, diretor (“Cidade de Deus”), conseguiram criar conversações que combinam com o que sabemos sobre os dois. São o ponto alto do filme porque através delas ficamos conhecendo as posições que os separam. Um é muito diferente do outro.
Bergoglio convencido que nada é estático e confessando que suas opiniões sobre a vida e a Igreja mudaram com o passar dos anos. Bento XVI austero, intelectual, conservador, diz que não gosta de nada do que o outro diz e faz. Mas não assina a aposentadoria que o outro tanto quer.
Uma frase do Papa Bento XVI é interessante e talvez explique o encontro imaginado por ele:
“- Dizem que o novo Papa vem para consertar os erros do anterior...”
E Bento XVI vivendo um período extremamente difícil, com acusações sérias que talvez o envolvam, aos 85 anos, diz que vai renunciar ao cargo de sucessor de São Pedro, para grande espanto e horror de Bergoglio.
Os dois atores estão fantásticos. Anthony Hopkins sempre convence nos papéis que representa. Mas é incrível como seu olhar se parece com o de Bento XVI. Já Jonathan Pryce tem aparecido pouco na tela. Aqui ele está assustadoramente perfeito. Emociona. E nunca é demais naquilo que aponta para Bento XVI. Convincente e oportuno.
Confissões de atos que pedem perdão e misericórdia vão acontecer ente os dois e ensinar que ninguém é perfeito, que todos somos humanos e sujeitos a erros.
Esta é a grande mensagem do filme de Meirelles. Os diferentes podem e devem se entender pelo bem maior.
“Dois Papas” recebeu quatro indicações para o Globo de Ouro: melhor filme (drama), melhor ator Jonathan Pryce (drama), melhor ator coadjuvante Anthony Hopkins, melhor roteiro Anthony McCarten.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

As Golpistas



“As Golpistas” – “Hustlers”, Estados Unidos, 2019
Direção: Lorene Scafaria

Publicada na revista “New York Magazine” em 2015, uma reportagem escrita por Jessica Presley fez sucesso e foi adaptada por Lorene Scafaria para o filme que ela produziu e dirigiu e que conta uma história incrível.
”As Golpistas” vai ser o relato em flashback à repórter (Julia Stiles) das memórias de Destiny (Constance Wu). Ela consegue ser escolhida para dançar e entreter homens num Clube especializado. Só que ela é novata, inexperiente e inibida. E fica fascinada quando vê a belíssima Ramona (Jennifer Lopez) fazer a “pole dance” mostrando seu corpo perfeito. O palco fica forrado de dólares que os homens à volta jogam sobre ela. Os mais afoitos introduzem as notas no string que a despe mais que veste.
Dorothy, o nome real de Destiny, uma bonita garota asiática, pequena e muito jovem, vive com a avó e precisa de dinheiro para pagar a casa dela. O que ela ganha é pouco depois dos descontos que o Clube cobra. Ela decide então, naquela noite, ir atrás de Ramona que estava no terraço no alto do prédio. Vai pedir que ela ensine como fazer o que ela faz com tanto carisma.
E essa cena, na noite fria, com Ramona fumando, vestindo um belo casaco de lince, sela o destino de Dorothy. A mais velha acolhe a jovem, aconchegando a garota dentro das peles que veste. Mais maternal que sensual, esse sentimento é a tônica entre as duas que se tornam melhores amigas.
Ramona ensina os movimentos da “pole dance” e também como fazer a “lap dance” quando a garota senta no colo do homem e o estimula com movimentos lentos e corpo arqueado. As duas também enlouquecem os homens atrás da cortina do íntimo “champagne room”.
Mas, em 2008, um ano depois, explode a crise econômica e o Clube sente as consequências. Os ricos corretores de Wall Street começam a desaparecer. O Clube está sem clientes.
É nesse momento que Ramona tem a ideia do golpe que vão aplicar nos seus clientes ricos que sobraram. Reúne Destiny e duas outras garotas para que juntas, armem uma vingança contra esses homens em bares diferentes. Cada uma delas leva o cliente para beber e quando as “irmãs” chegam, colocam droga na bebida dele fingindo que bebem também. Então “limpam” o cartão de crédito dos desavisados corretores.
Claro que era ilegal e criminoso o que faziam mas, como aqueles homens também haviam enganado as pessoas para tirar o dinheiro delas e não tinham sido punidos, essa vingança era até merecida. Ladrão que rouba ladrão...
As roupas ultra sexies que as moças usam no palco, uma iluminação que realça a beleza de seus corpos e depois, elas chegando no bar para dar o golpe em saltos altíssimos, vestidas para “matar”, tudo isso cria um clima de fascínio em torno a essas mulheres. São cenas atraentes e bem filmadas.
Assim, o filme “As Golpistas” é totalmente feminino e mostra mulheres poderosas e seduzidas não por sexo, casamento ou mesmo maternidade, mas em primeiro lugar pelo dinheiro.
“Somos uma família”, diz Ramona, “mas com dinheiro. ” E acrescenta: “O país todo é um clube de strippers. Uns tem o dinheiro e os outros dançam”, diz Ramona.
Jennifer Lopez foi indicada a melhor atriz coadjuvante no Globo de Ouro.