quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Simplesmente Amor



“Simplesmente Amor”- “Love Actually”, Reino Unido, França, Estados Unidos, Irlanda, 2003
Direção: Richard Curtis

Tudo começa num aeroporto com pessoas chegando e sendo abraçadas e beijadas. Casais, pais e filhos, amigos, todos contentes abrindo os braços para quem chega. O narrador comenta a cena e diz que vamos ver o amor em toda parte. É quase Natal.
E as 8 histórias do filme falam de amor. Seja o início ou o fim de um amor, a traição, a perda e o luto, a timidez que dificulta, o sexo que facilita e o amor pelo amigo.
O neozelandês Richard Curtis escreveu o roteiro com o mesmo talento que usou em “Quatro Casamentos e um  Funeral”, “Um Lugar Chamado Notting Hill” e “O Diário de Bridget Jones”. Aqui, além do roteiro, ele dirige pela primeira vez. E faz isso com graça, leveza e não deixando que a gente se perca, seguindo os casais, de alguma forma entrelaçados por uma história de amor.
Londres está enfeitada para o Natal que está chegando. E o roqueiro que já foi mais moço (Bill Nighy) quer aproveitar o espírito natalino para vender seus discos. O empresário ajuda a reciclar uma canção. E ele faz uma promessa hilária.
E uma surpresa vem com o primeiro casal que aparece. Ela está traindo o marido (Colin Firth) com o irmão dele. Deprimido, ele resolve se trancar em sua casa na Provence para escrever. Não estava no programa que a moça da limpeza (Lucia Moniz) fosse uma bela portuguesa.
Numa grande agência, o rapaz dos sanduiches (Kris Marshall) não faz sucesso com as garotas britânicas e vai tentar a sorte na América. Sarah (Laura Linney) também trabalha na agência e está apaixonada pelo desenhista bonitão (o nosso Rodrigo Santoro) que não dá bola para ela.
O dono da agência (Alain Rickman), casado com Karen (a maravilhosa Emma Thompson) sofre com a tentação do assédio da secretária.
John e Judy (Martin Freeman e Joanna Page) são os substitutos dos atores de um filme pornô para o teste de luzes no estúdio. Nus,conversam banalidades para disfarçar o que começa a acontecer entre eles.
Enquanto a linda noiva (Keira Knightley) entra na igreja, o noivo (Chivetel Ejiofor) e seu melhor amigo param de conversar para que Mark (Andrew Lincoln) pudesse filmar tudo o que acontece. E a dúvida é: ele se atrai pelo noivo ou pela noiva?
Liam Neeson faz o viúvo recente que tem que ser o bom padrasto para Sam (Thomas Sangster) que está deprimido com a morte da mãe e vivendo seu primeiro amor não correspondido.
E Hugh Grant é o Primeiro Ministro inglês, com aquele jeito meio inseguro e sexy que chega a 10, Downing Street, e se encanta por Natalie (Martine McCutchen) sua atraente secretária.
O elenco é muito bom mas Hugh Grant e Emma Thompson se destacam.
“Simplesmente Amor” é um filme com um roteiro divertido e inteligente. Vai fazer você sorrir quando acabar de assistir na NETFLIX.

sábado, 14 de dezembro de 2019

Synonymes




“Synonymes”- Idem, França, Israel, Alemanha, 2019
Direção: Nadav Lapid

Ele buscava um lugar para ser, existir como pensava que seria melhor.
A França é escolhida por Yoav (Tom Mercier ) como uma espécie de paraíso sonhado, bem diferente de sua terra natal, Israel. Troca Tel-Aviv por Paris, mochila nas costas.
Mas, já na primeira noite lá, num apartamento emprestado, é confrontado por algo que não esperava. Roubam tudo que ele tem. E é tão pouco. Deixam Yoav nu e quase congelado de frio.
Na manhã, é encontrado pelos vizinhos, Émile (Quentin Dolmaire) e Caroline (Louise Chevillotte), que vão ser seus pontos de referência, “pai e mãe” que dão conforto e compreensão. Eles o salvam da morte, aquecem e alimentam.
Refeito, Yoav parte para sua nova vida com roupas de Émile, dinheiro, celular e um dicionário roubado numa livraria. Recusa-se a falar hebraico. Mas seu francês não é tão bom quanto gostaria que fosse. Claro, ele leu mais do que ouviu falar francês. E isso vale também para o estilo de vida que experimenta em Paris. Pouco sabe sobre isso.
Frente ao Sena com Émile, despeja uma porção de palavras detestáveis para qualificar Israel. O amigo, surpreso, responde:
“- É melhor você escolher uma só dessas palavras. Nenhum país é tudo isso que você falou! ”
Logo virá a decepção. Yoav se engana mas não é fácil admitir.
Anda de cabeça baixa frente ao Sena e à Notre Dame, para não se deixar levar pela beleza e perder a rota para o coração de Paris, que ele procura. E não acha. Talvez porque está diante dele mas ele não vê. Assim como é difícil aceitar sua própria identidade colada à sua pele da qual não pode fugir.
Nadav Lapid, 44 anos, o diretor israelense, viveu o que encena em “Synonymes”, quando tinha 20 anos e foi morar na França. Como Yoav, levava tudo a ferro e fogo, sem nuances. Não conseguia tirar de dentro de si aquilo que tentava negar. Projetava no mundo que abandonara algo que o perseguia onde quer que fosse.
Hoje, distanciou-se desse radicalismo da juventude. Amadureceu. Mas diz que seu filme não é para ser “palatável” para o público. Lapid quer chocar, envolver e tirar o espectador da zona de conforto habitual.
E consegue.
“Synonymes” ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim desse ano.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Entre Facas e Segredos




“Entre Facas e Segredos”- “Knives Out”, Estados Unidos, 2019
Direção: Rian Johnson

Quando vemos o casarão com tintas de mal assombrado e os cães negros correndo em primeiro plano, percebemos que há ali uma intenção de fazer humor pelo exagero.
E quando entramos na casa, os objetos de gosto duvidoso, necessários à trama, confirmam o tom caricaturesco de “Entre Facas e Segredos”. A casa do escritor de livros de mistério, Harlan Trombley (Christopher Plummer) é quase um personagem da história. Escura, com escadas e janelas secretas, é o perfeito cenário para um crime.
Mas, quem leva uma caneca de café da manhã com os dizeres “Minha casa! Minhas Regras! ” para o dono dela, é uma mocinha bonita e prestativa. Vai encontrar um cenário assustador. O escritor, que acabara de fazer 85 anos, jazia ensanguentado no sofá.
Uma semana depois, nos damos conta de que vimos um suicídio. Será mesmo?
A mocinha (Ana de Armas) que encontrou o morto, está na sala com a família do escritor de quem era a enfermeira.
“- Marta, qualquer coisa que você precise, é só falar. Você é parte dessa família ” diz alguém num tom falsamente solícito.
Os membros da família e Marta vão ser interrogados pela polícia, presente na casa.
Aos poucos vamos acompanhando os relatos de cada um e ficamos sabendo o que cada um deles conta sobre a festa dos 85 anos do escritor, na véspera de sua morte.
Numa poltrona ao fundo da sala, um homem observa o que se passa. Ele é o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), famoso por trabalhar para celebridades.
Mas quem o contratou? Nem ele sabe. Um envelope com dinheiro foi mandado, convocando-o para a reunião da família do escritor morto.
Os dois filhos (Michael Shannon e Jamie Lee Curtis) e a viúva do terceiro (Toni Colette) não parecem entristecidos ou chocados. Todos respondem às perguntas do policial com um ar arrogante. Na sala estão também os netos (Chris Evans, Katherine Langford e Jarden Martell).
Todos são suspeitos mas se dizem inocentes, aproveitando o interrogatório para lançar as suspeitas sobre os outros. São egoístas e sempre viveram explorando o morto, que era o dono do dinheiro, vindo da venda de seus livros best-sellers.
Marta, a enfermeira latina, é a única que parece sentir a perda do patrão para quem trabalhava desde muito jovem. Ficaram amigos e ele se preocupava porque a mãe dela era uma imigrante ilegal.
Rian Johnson diz que levou 10 anos escrevendo o roteiro e os acontecimentos no país relacionados a imigrantes só vieram reforçar o que ele já havia escrito. Os muito ricos e seus serviçais latinos que são “como se fossem da família” são um clichê americano.
“Entre Facas e Segredos” torna-se um filme crítico dessa postura quando Marta, a latina, ora uruguaia, ora brasileira, fica no centro do palco, como a suspeita ideal.
O filme foi sucesso de bilheteria nos Estados Unidos e por onde passou. É entretenimento bem feito, com boas cenas para cada um dos atores do grande elenco poder brilhar. Até mesmo quando muito breves como a da bisavó (K. Callan).
Daniel Craig e a cubana Ana de Armas foram indicados como melhores ator e atriz de comédia no Globo de Ouro e “Entre Facas e Segredos” obteve indicação de melhor filme de comédia.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

História de um casamento



“História de um casamento”- “Marriage Story”, Estados Unidos, 2019
Direção: Noah Baumbach

Nicole e Charlie estão vivendo um momento difícil do casamento. Na terapia de casal, os dois tem que escrever uma lista daquilo que gostam no outro. O terapeuta acha que é bom começar com uma nota positiva, para ambos não esquecerem que amaram a outra pessoa e o porquê.
Entendemos pela lista dela que Nicole (Scarlett Johansson) mudou de Los Angeles para Nova York para ser a estrela das peças de teatro de Charlie. E que ela acha que ele não deixa que opiniões contrárias o façam desistir de suas ideias. Além disso, ela pensa que ele é muito competitivo e que quase nunca se dá por vencido. Sabe que ele adora ser pai, que veio do nada e que a violência e o álcool estiveram presentes na infância dele.
Enquanto que Charlie (Adam Driver) entende que ela deixou a mãe e a irmã em Los Angeles para ser a atriz dele em Nova York e que ela é sua atriz preferida. Depois escreve que ela é uma boa ouvinte, que dá presentes incríveis, que é uma mãe que brinca e que corta o cabelo do filho e o dele. E que adora tentar entender suas ideias malucas.
Nicole sai da sessão de terapia brava. Longe dos olhos de Charlie, ela chora.
E se muda para a casa da mãe em Los Angeles. É estranho mas parece que ela não está de todo convencida que a separação é o melhor caminho.
Mas aí começa a bola de neve que vem ribanceira abaixo e vai virar uma avalanche.
Entra em cena a advogada famosa e competente (Laura Dern), que escreveu um livro, assistiu as peças de Charlie em Nova York e viu Nicole na série da TV. Pergunta se ela que viver em Los Angeles ou Nova York. E a resposta chorosa é a de que ela quer continuar a ser amiga do marido.
E, quando ele chega e conta que ganhou uma bolsa importante, ela o abraça com sinceridade. Mas logo dá um passo para trás quando vê a mãe afetuosa e efusiva com Charlie e ele gostando.
E cada um de nós pensa em como é difícil essa fase do divórcio quando ainda existem sentimentos contraditórios. O diretor e roteirista Noah Baumbach diz que o filme tem conteúdos autobiográficos, o que faz com que tudo tenha uma verdade indiscutível.
Mas o maior acerto foi a escolha dos atores. A Nicole de Scarlett Johansson é simpática, atraente e é ótima mãe para Henry de 8 anos. E tudo parece ser mais fácil para ela porque volta para a casa onde sempre viveu, para a cidade na qual casou com Charlie e onde o filho nasceu.
E Charlie, que parece não conseguir sobreviver sozinho, passa uma dor e um desamparo terríveis. Faz um Charlie inesquecível. A cena onde ele canta “Being Alive” de Stephen Sondheim é especialmente tocante.
E tudo termina numa troca de argumentos e farpas entre os advogados, a dela e o dele (Ray Liotta), e o juiz mandando uma observadora hilária para verificar as relações entre o filho e o pai e o menino e a mãe. Entrevistas tragicômicas.
“História de um Casamento” é comovente e tem atuações extraordinárias, além de um roteiro com diálogos sinceros.
Um dos melhores filmes do ano.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Indicados ao Globo de Ouro - Cinema


Hoje foram anunciados os indicados ao Globo de Ouro, que serão entregues dia 5 de Janeiro. Abaixo a lista dos indicados no cinema:

Melhor filme – Drama
“O Irlandês” (Netflix)
“História de um Casamento” (Netflix)
“1917” (Universal)
“Coringa” (Warner Bros.)
“Os Dois Papas” (Netflix)

Melhor Atriz – Drama
Cynthia Erivo (“Harriet”)
Scarlett Johansson (“História de um Casamento”)
Saoirse Ronan (“Little Women”)
Charlize Theron (“Bombshell”)
Renée Zellweger (“Judy”)

Melhor Ator – Drama
Christian Bale (“Ford vs Ferrari”)
Antonio Banderas (“Dor e Glória”)
Adam Driver (“História de um Casamento”)
Joaquin Phoenix (“Coringa”)
Jonathan Pryce (“Os Dois Papas”)

Melhor filme– Musical ou Comedia
“Dolemite Is My Name” (Netflix)
“Jojo Rabbit” (Fox Searchlight)
“Knives Out” (Lionsgate)
“Era Uma Vez em...Hollywood” (Sony)
“Rocketman” (Paramount)

Melhor Atriz– Musical ou Comedia
Ana de Armas (“Knives Out”)
Awkwafina (“The Farewell”)
Cate Blanchett (“Cadê Você Bernadette”)
Beanie Feldstein (“Booksmart”)
Emma Thompson (“Late Night”)

Melhor Ator – Musical ou Comedia
Daniel Craig (“Knives Out”)
Roman Griffin Davis (“Jojo Rabbit”)
Leonardo DiCaprio (“Era Uma Vez em…Hollywood”)
Taron Egerton (“Rocketman”)
Eddie Murphy (“Dolemite Is My Name”)

Melhor Animação
“Frozen 2” (Disney)
“How to Train Your Dragon: The Hidden World” (Universal)
“The Lion King” (Disney)
“Missing Link” (United Artists Releasing)
“Toy Story 4” (Disney)

Melhor Filme Internacional
“The Farewell” (A24)
“Les Misérables” (Amazon)
“Dor e Glória” (Sony Pictures Classics)
“Parasita” (Neon)
“Portrait of a Lady on Fire” (Neon)

Melhor Atriz Coadjuvante
Kathy Bates (“Richard Jewell”)
Annette Bening (“The Report”)
Laura Dern (“História de um Casamento”)
Jennifer Lopez (“Hustlers”)
Margot Robbie (“Bombshell”)

Melhor Ator Coadjuvante
Tom Hanks (“A Beautiful Day in the Neighborhood”)
Anthony Hopkins (“Os Dois Papas”)
Al Pacino (“O Irlandês”)
Joe Pesci (“O Irlandês”)
Brad Pitt (“Era Uma Vez em... Hollywood”)

Melhor Diretor
Bong Joon-ho (“Parasita”)
Sam Mendes (“1917”)
Todd Phillips (“Coringa”)
Martin Scorsese (“O Irlandês”)
Quentin Tarantino (“Era Uma Vez em...
Hollywood”)

Melhor Roteiro
Noah Baumbach (“História de um Casamento”)
Bong Joon-ho and Han Jin-won (“Parasita”)
Anthony McCarten (“Os Dois Papas”)
Quentin Tarantino (“Era Uma Vez em... Hollywood”)
Steven Zaillian (“O Irlandês”)

Melhor música
Alexandre Desplat (“Little Women”)
Hildur Guðnadóttir (“Coringa”)
Randy Newman (“História de um Casamento”)
Thomas Newman (“1917”)
Daniel Pemberton (“Motherless Brooklyn”)

Melhor Canção Original
“Beautiful Ghosts” (“Cats”)
“I’m Gonna Love Me Again” (“Rocketman”)
“Into the Unknown” (“Frozen 2”)
“Spirit” (“The Lion King”)
“Stand Up” (“Harriet”)

domingo, 8 de dezembro de 2019

Feliz Aniversário





“Feliz Aniversário” – “Fête de Famille”, França, Bélgica, 2019
Direção: Cédric Kahn

“Famílias felizes são todas parecidas”, diz a primeira frase do livro “Anna Karenina” de Leon Tolstoy. E prossegue, “cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira. ” O filme de Cédric Kahn vai mostrar momentos felizes e infelizes de uma família francesa que comemora uma data especial.
A propriedade da matriarca da família, Andrea (Catherine Deneuve, bela e majestática) tem um bonito parque cercando o casarão branco com trepadeiras na fachada. Tudo parece idílico. Ouvem-se as crianças brincando no jardim ao sol.
Na cozinha, Andrea conversa sobre o tempo. Vai chover? Faz pizzas para o almoço. Alguém sugere substituir o coentro pelo gengibre, já que falta o primeiro ingrediente. E todos concordam. Não há receitas a seguir mas muita improvisação naquela cozinha.
É o aniversário da mãe e os filhos estão com ela. O primeiro que vamos conhecer está na cozinha, é fotógrafo e quer fazer um documentário sobre aquele dia de festa. Ele trouxe com ele Rosita (Izabel Aimé Gonzales-Sola), uma argentina alta, morena, de olhos azuis, que faz sucesso entre os membros da família.
A câmera passa por outra garota, a neta Emma, que ensaia uma peça com os outros dois netos, para ser apresentada à noite. Ela explica os personagens para as crianças e diz que é tudo ficção, apesar do assunto ser a família.
O filho mais velho (Cédric Kahn, o também diretor) é o mais tímido, casado, pai dos dois meninos. Ajudado por Romain, o documentarista, eles arrumam a mesa do almoço no jardim, improvisando uma cortina como toalha.
Ninguém esperava. Mas Claire (Emmanuelle Bercot), a filha mais velha, que não via a família há anos, aparece. Diz querer se aproximar da filha que está lá com um namorado negro.
A chegada de Claire vai ser a gota d’água que faltava para surgirem desacordos, enquanto uma chuvarada faz todo mundo voltar correndo para dentro de casa.
Para piorar os desentendimentos, Romain insiste em filmar tudo que acontece, aborrecendo todo mundo e impedindo que os embaraços se resolvam sem testemunhas.
Claire, a filha desequilibrada, volta à família para brigar, reivindicar direitos não respeitados. Não foi exatamente para fazer as pazes com a filha que não vê há três anos e que foi acolhida pela avó e seu marido Julien, que ela voltou.
“- Hoje é o dia do meu aniversário e eu gostaria que só falássemos de coisas agradáveis, ” diz Andrea, mostrando que a mãe e avó daquela família não concorda com o ambiente pesado que se criou em torno a Claire e sua loucura.
Mas, apesar do diretor incluir no filme uma dança muito simpática, o clima é de irritação com tudo que desandou naquele dia que era para ser de festa.
Parente é serpente. Lembrei desse filme italiano do saudoso Mario Monicelli, que também tem um desencontro familiar em torno a uma mesa de jantar. Com muito mais humor negro, é verdade.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A Resistência de Inga




“A Resistência de Inga”- The County”, Islândia, Dinamarca, França, Alemanha
Direção: Grimur Hákonarson

Em um dos países mais isolados do mundo, a Islândia, terra do gelo e do fogo, onde se fala uma língua só conhecida por lá, a religião é a luterana e os habitantes são pouco mais de 300.000, passa-se a história de Inga, baseada em fatos reais.
Inga tem meia idade, é forte, robusta e seus cabelos são de um tom louro avermelhado. Ela (Arndis Hronn Egilsdottir, atriz excepcional) e o marido trabalham de sol a sol na fazenda de vacas leiteiras, sem ajuda humana. Só máquinas fazem o trabalho pesado. Por causa da necessidade de investimento, a fazenda herdada exigiu muito dinheiro para ser equipada. E o marido de Inga se endividou por causa disso.
Estamos numa comunidade de fazendeiros, num lugar deserto, uma paisagem que parece a Lua, amarela e branca com a neve.
O lugar é gelado e as vacas só saem do estábulo no verão. A ordenha é feita por máquinas, o estábulo é limpo por um robô mas, quando chega a hora de uma vaca dar à luz, é Inga que tem o jeito de tirar o bezerrinho que estava difícil de sair.
Ela parece preocupada com as dívidas e com o marido que chega tarde, acabrunhado.
Quando o telefone toca e ela é chamada para reconhecer o corpo do marido que se acidentara com o caminhão, vemos que ela não entende quando dizem que foi suicídio.
Não há marcas de freios na estrada. Ele se deixou levar ribanceira abaixo.
Inga, pensativa e triste, segue os rituais da morte. Chora muito e a filha fica preocupada:
“- Não quer vir ficar conosco? ”
Inga não quer. Algo a martiriza. Pergunta-se:
“Por que ele não deixou um bilhete, uma carta? ”
Mas ela sabia a resposta. Fazia tempo que eles dois reclamavam do monopólio instaurado pela cooperativa. Só podiam vender o leite para eles. E o supermercado, com preços altos, era obrigatório para os sócios da cooperativa.
Ela adivinha o que acontecera. O marido tinha sido acuado. Para não perder a fazenda, delatava quem comprasse produtos necessários com outros, com preço mais barato.
Pois bem. Ela vai se levantar e lutar contra a injustiça que domina a comunidade. Ninguém tem coragem de denunciar a máfia? Temem prejuízos? Acham que ninguém vai comprar o leite deles?
“Veremos” diz Inga para si mesma. Segue-se uma divertida cena com o leite da fazenda dela.
A luta de Inga é a de uma mulher contra a empresa poderosa. Davi e Golias. Mas a arma dela é sua convicção de que tudo tem que mudar ali, nem que perder a fazenda seja o preço da liberdade.
Uma história de coragem contra a corrupção. Inerente ao ser humano. Mas que pode ser combatida na raiz para que não cresça e faça mais vítimas.
A história de Inga, contada de uma maneira bem humorada, é exemplar.