terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um Limite Entre Nós


“Um Limite Entre Nós”- “Fences”, Estados Unidos, 2016
Direção: Denzel Washington
Depois do Oscar 2016 ter sido criticado como “sowhite”, tão branco, deu-se uma reviravolta em 2017 com dois filmes de elenco inteiramente negro e outro com mulheres negras como as estrelas principais. Todos os 3 indicados a melhor filme.
“Um Limite entre Nós”é também dirigido por um negro, o ator Denzel Washington, que é o personagem principal. O roteiro é uma adaptação da peça teatral “Fences”, premiada com o Pulitzer, escrita em 1983 pelo teatrólogo August Wilson (1945-2005), que não chegou a finalizar a adaptação, retomada por Tony Kushner.
Todo o elenco adulto do filme participou do “revival” da peça teatral na Broadway em 2010. Ganharam o prêmio “Tony”de melhor “revival”, ator para Washington e atriz para Viola Davis. E esse é o grande acerto do filme. O elenco trabalha muito bem, com grande conhecimento do texto. E isso ajudou também na direção. Mas a impressão da plateia é a de estar vendo teatro filmado.
A história passa-se em Pittsburg, final dos anos 50. Tony Maxton é um lixeiro quase na idade da aposentadoria, que quer ser motorista de caminhão de lixo e não coletor. Ele, que se viu frustrado em seu desejo de jogar beisebol como profissional, culpa o racismo por esse fracasso que o levou à prisão por roubo. Depois casou-se com Rose e estão juntos há 18 anos.
Tony diz ao amigo e companheiro de trabalho que seu casamento é muito feliz. Mas Bono (Stephen Henderson) vê que ele anda atrás de uma mocinha. E, nas entrelinhas  e nos olhares de Rose (grande Viola Davis), lemos coisa diferente do que Tony diz.
E o cerne dos acontecimentos se revela na dificuldade que Tony tem de ser um bom pai para seus filhos. O mais velho quer ser músico e tem a desaprovação do pai. O mais novo sonha em jogar beisebol, a grande frustação da vida de Tony, que tenta dissuadi-lo de todos os modos, chegando até a violência.
A famosa cerca que dá nome à peça teatral é uma metáfora bem imaginada. Há uma frase lapidar do amigo Bono, que ajuda Tony a construir a cerca a pedido de Rose:
“- Tem gente que constrói cercas para se isolar do mundo. Manter as pessoas fora. Outros, para ninguém sair. Para manter unidos aqueles que ama.” E diz que Rose é uma pessoa da segunda espécie.
Mas o fato é que o casamento não vai bem.Tony bebe muito e fala o tempo todo. Gosta de ser o centro das atenções mas não se move um milímetro de suas posições duras.
Temos a impressão de que Tony culpa a todos por suas frustações, cobrando no presente pelo passado que já aconteceu e não pode ser mudado.
O final é surpreendente. E Viola Davis mostra seu imenso talento.
“Um Limite entre Nós”, mesmo sendo teatro filmado e muito longo, é um filme com grandes interpretações.

O filme foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor filme, ator para Denzel Washington, atriz coadjuvante para Viola Davis e roteiro adaptado.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Moonlight - À Luz do Luar


“Moonlight: à Luz do Luar”- “Moonlight”, Estados Unidos, 2016
Direção: Barry Jenkins
Ele é negro, pequeno e assustado. Todos o chamam Little. Mas seu nome é Chiron (Alex Hibbert). Vive com a mãe drogada, Paula (Naomi Harris)
Se não fosse aquele homem negro, grandão, todo enfeitado de ouro, que passeia num Cadillac azul antigo e salva Little dos garotos da escola que, sentindo sua fragilidade, se aproveitam para maltratá-lo, não saberíamos o que seria daquele menino. Calado, ombros caídos, ele é a imagem da necessidade de sustentação.
E Juan (Mahershala Ali, magnífico), o grandão de dentes com capa de ouro, brincos e um lenço negro amarrado na cabeça e que vende drogas, põe Little sob sua proteção. Conversa com ele, faz perguntas e como Little não responde, leva ele para comer na casa da namorada Teresa (Janelle Monaé):
“- Você não fala nada, mas come muito, ein?”diz rindo Juan.
E, finalmente o garoto se abre:
“- Meu nome é Chiron mas as pessoas me chamam de Little.”
“- Vive onde?”
“- Miami, Liberty City.”
“- Com sua mãe? “
Little acena com a cabeça. “- E seu pai? “
Silêncio. E ele vai dormir ali pela primeira de muitas vezes. Teresa sempre será um abrigo para Chiron, quando sua mãe não o quer por perto.
E Juan, que veio de Cuba, faz o que aquele menino sem pai nunca tinha feito. Leva ele para aprender a nadar no mar.
“- Eu te seguro. Você relaxa.”
 Assim, com a câmara boiando a seu lado, numa bela cena, começa o resgate de Chiron. Juan tinha tido uma vida parecida. Mãe drogada. Em seu peito amplo, Chiron podia se sustentar.
Mas os meninos do colégio continuam a perseguir Chiron. Ele não reage. Mas sentimos que a raiva está se acumulando naquele corpo magro.
Kevin, o único colega que se aproxima dele, dá uma força e ensina a lutar:
“Você precisa ser mais duro.”
E é com Kevin que Chiron (Ashton Sanders) vai ter uma experiência afetiva, fumando maconha, quando já é um adolescente. Não se trata simplesmente de sexo. Vemos uma carência enorme que começa a poder ser preenchida. Depois de Juan, que funcionou como um pai, Kevin é seu primeiro amigo.
E, quando tudo que foi acumulado de desgosto e raiva explode com fúria, Chiron vai ter que passar por uma prova difícil e vai se tornar Black.
Juan foi o Blue porque uma mulher disse que ele ficava azul ao luar. Chiron vai ser Black (Trevante Rhodes) até poder abrir seu coração.
Numa estrada ao luar, num Cadillac preto, ao som de “Paloma”, cantada por Caetano, Chiron nos convence que fez a passagem de sua vida miserável quando criança para uma auto-confiança saudável. Ele também é Blue ao luar. Não sómente Black. E ser triste não é uma doença fatal.
Saímos do cinema comovidos e encantados com a sensibilidade do diretor Barry Jenkins, 37 anos, em seu segundo filme, inspirado na peça teatral “À luz do luar garotos negros ficam azuis”de Taren Alvin McCraney.
“Moonlight”ganhou o Globo de Ouro de melhor filme drama e 8 indicações para o Oscar: melhor filme, diretor, atriz coadjuvante (Naomi Harris), ator coadjuvante (Mahershala Ali), fotografia, roteiro adaptado, edição e trilha sonora.

Excelente. “Moonlight” tem um brilho sublime.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Até o Último Homem


“Até o Último Homem”- “Hacksaw Hidge”, Estados Unidos, 2016
Direção: Mel Gibson
A abertura, em câmara lenta e com som abafado, nos joga brutalmente no filme, um inferno de explosões que faz corpos voar, soldados correndo em chamas, tiros. Mortos pavimentam o solo sangrento. Horror.
Ouve-se em “off” a voz, que depois vamos saber que é do soldado Desmond Doss (Andrew Garfield):
“...aqueles que esperam no Senhor
renovam suas forças...”
E alguém diz:
“- Desmond, aguenta mais um pouco. Nós vamos tirá-lo daqui!”
E um “flashback”nos tira da guerra e nos leva para 16 anos antes, com os irmãos Doss brincando nos campos e rochedos da Virginia.
O pai deles (Hugo Weaving) é um sujeito que bebe e é violento e não se esquece dos amigos mortos na Segunda Guerra a seu lado. Faz visitas frequentes ao cemitério.
Quando Desmond atinge seu irmão Hal numa briga e pensa que ele morreu, vemos a que ponto a culpa se entranha no coração do garoto.
O pai tira o cinto mas a mãe (Rachel Griffts) acode:
“-Pare! Desmond, Hal vai ficar bem!”
“- Ele poderia ter morrido...” balbucia Desmond.
“- Sim e não há maior pecado do que tirar a vida de alguém”, diz a mãe.
O pai grita com a mãe.
“- Por que ele nos odeia tanto?” pergunta Desmond à mãe.
“- Ele odeia a si mesmo. Queria que vocês tivessem conhecido ele antes da guerra...”
E, por causa dessa infância, começamos a ter uma ideia do caráter de Desmond que, apesar de se alistar no exército depois do ataque a Pearl Harbour, como o irmão, recusa-se a pegar num rifle no treinamento do exército.
“- Vou ser médico e salvar vidas, Dorothy. Não vou matar”, diz à noiva enfermeira (Teresa Palmer).
Essa postura ética e religiosa (ele é adventista), que ele defende com perseverança, vai custar muito sofrimento a Desmond. Chamam ele de covarde, louco, idiota. Mas nada disso o abala. Mesmo quando os companheiros de dormitório passam a surrá-lo à noite.
Enfrenta uma corte marcial e é o primeiro “Opositor Consciente”que parte para a guerra sem uma arma. Na mão leva a Bíblia, com a foto de Dorothy.
A história é verídica e no fim do filme vemos o próprio Desmond Doss dar seu depoimento, antes de morrer aos 87 anos. Outros companheiros de seu batalhão, inclusive o sargento, falam sobre sua atuação heroica na batalha de Okinawa, no Japão em 1945, quando salvou 75 vidas. Foi condecorado com a Medalha de Honra do Congresso.
Mel Gibson dirige o filme, indicado para 6 Oscars, inclusive melhor filme e diretor. Parece que ele resgata a inspiração de “Coração Valente” de 1995, depois de um tempo eclipsado, por causa de sua reputação de anti-semita e homofóbico.
Há no filme de Gibson muito dele mesmo. Crueza e quase que um mau gosto em mostrar cenas desnecessárias no campo de guerra, com um sadismo que cansa, porque é repetitivo. Mais do mesmo.

Mas o filme envolve o espectador porque o personagem principal, interpretado com grandeza e humildade por Andrew Garfield, é um homem fascinante, só agora conhecido do grande público.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Lion - Uma Jornada para Casa


“Lion – Uma Jornada para Casa”- “Lion”, Estados Unidos, Austrália, Reino unido, 2016
Direção: Garth Davis

Sobrevoamos montanhas, desertos e praias. O mundo de paisagens diferentes em que vivemos. Estamos em 1986 e o contato entre lugares distantes é difícil. Ainda não havia a ideia de globalização que hoje vivemos com naturalidade, com nossos IPhones e computadores dotados de um poder de comunicação desconhecido nessa época.
Logo somos apresentados a dois meninos indianos. Guddu, o maior (Abhishek Bkarate) e o menor, Saroo, (Sunny Pawar, a melhor surpresa do elenco), que se divertem juntos. Moram com a mãe (Privanka Bose) e a irmãzinha ainda bebê, numa casa pobre, em uma aldeia minúscula na India rural. Mas há riqueza de afeto naquele lugar.
Desce a noite e a mãe e o filho maior saem para sua segunda jornada de trabalho numa pedreira. E Saroo, que deveria ficar em casa cuidando da irmã, implora tanto a Guddu que o leve junto com eles, que o irmão cede.
Mas não dura muito o fôlego do pequeno e Guddu tem que levar ele nas costas. Arrepende-se de ter concordado em trazer o irmãozinho e coloca-o para dormir num banco do depósito da estação de trem:
“- Não saia daqui até eu voltar”, diz para Saroo que, adormecido, mal ouve o que o irmão fala.
Quando acorda, horas depois, está assustado e sozinho. Vaga pelo lugar deserto chamando pelo irmão e acaba entrando num vagão de trem, onde adormece de novo.
No dia seguinte, o trem em movimento leva Saroo para o desconhecido.
O longo percurso levará o menino para o sul da India, Calcutá, uma cidade grande, densamente povoada e perigosa para aquele pequeno de 5 anos.
A India é um país de dimensões continentais, com mais de um bilhão de habitantes que falam diferentes línguas e seguem religiões diversas. Em Calcutá a maioria é hinduísta e fala o bengali. Saroo veio do norte onde se fala hindi e a religião é a muçulmana. Além de não entender o que falam, o menino não sabe o nome da mãe e usa uma palavra que ninguém conhece para dizer de onde veio. Ele vai passar por maus bocados.
O filme “Lion” baseia-se na biografia de Saroo Brierley, “A Long Way Home”. E tem dois capítulos: a vida de Saroo aos 5 anos e depois aos 20, na pele de Dev Patel.
A história real é extraordinária e, num lugar onde 80.000 crianças desaparecem por ano, Saroo vai ter a sorte de encontrar as pessoas certas que o adotam como filho na longínqua Tasmânia (Nicole Kidman, numa interpretação comovente e David Wenham).
Tudo parecia correr às mil maravilhas. Saroo conhece Lucy (Rooney Mara) e apesar da relação difícil com seu irmão adotivo, ele é a alegria da família australiana.
Porém, o núcleo afetivo primitivo de Saroo não o abandona. Reaparece em sonhos e visões, com um forte apelo para ele voltar para casa.
Essa jornada de volta vai ser mais difícil que a da vinda. E nós acompanhamos Saroo com o coração apertado.
“Lion” é um filme comovente, com ótimas interpretações e uma história inacreditável. É o primeiro longa de Garth Davis que consegue acertar em quase tudo, ajudado pela bela fotografia de Greig Fraser, que cria imagens poderosas, traduzindo estados de espírito que são difíceis de ser expressos em palavras.
Quem é sensível vai derramar lágrimas.

“Lion” foi indicado a melhor filme, melhor atriz coadjuvante  (Nicole Kidman), melhor fotografia, melhor roteiro adaptado e melhor trilha sonora no Oscar 2017.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A Qualquer Custo


“A Qualquer Custo”- “Hell or High Water”, Estados Unidos, 2016
Direção: David Mackenzie

O cenário rude e crestado pelo sol inclemente do Velho Oeste é o mesmo desde que o mundo é mundo. É uma geografia de planícies, mesas e um solo que, ao invés de produzir comida, fornece petróleo e gás, riquezas descobertas pelos brancos que dominam o Texas há tempos.
Antes eram os comanches, índios aguerridos, que eram os donos da terra, até 1875, quando o exército acabou com a supremacia dos “Senhores das Planícies” que se retiraram para uma reserva em Oklahoma. Ainda restam alguns deles no Texas, cheios de um ódio calado contra os usurpadores de sua morada ancestral.
“A Qualquer Custo” passa-se nesse cenário onde tantos faroestes foram filmados. Mas este filme é um neo- faroeste. E agora são os bisnetos dos colonos brancos que perdem suas terras para os bancos. O novo inimigo deles é o sistema financeiro que rouba as terras dos brancos pobres.
Dois irmãos, em tudo diferentes, se unem para conseguir dinheiro e resgatar o rancho de sua recém falecida mãe, da ganância do Texas Midland Bank. Devem uma fortuna em juros da hipoteca e não tem um tostão. Toby Howard (Chris Pine), o mais moço, além disso deve dinheiro da pensão à sua mulher. Tanner Howard (Ben Foster), o irmão mais velho, ex-presidiário, é alguém com quem Toby pode contar para a execução de um plano amalucado: roubar as agências do Texas Midland Bank e pagar a dívida que eles tem com o banco com esse dinheiro roubado.
Aos olhos dos irmãos isso é a justiça que tem que ser executada. Se alguém morrer na empreitada, será por causa de Tanner, o mais velho que tem um temperamento agressivo e parece definitivamente perdido para o crime.
Mas Toby é bem intencionado. Não vai ficar com o rancho para ele. Quer deixar algo para seus dois filhos: a fazendinha que foi da avó deles. Mesmo que tenha sido um pai adolescente e ausente, algo nele quer mais para os filhos do que ele mesmo teve. Seria a quebra de uma maldição de pobreza por gerações.
Só que não estava no programa o aparecimento de uma dupla de Texas Rangers, a polícia armada que investiga o roubo aos bancos.
Jeff Bridges, excelente, garantindo sua sétima indicação ao Oscar, faz Marcus Hamilton, entrado em anos mas forte bastante e experiente, tentando seu “canto do cisne”, última glória antes da aposentadoria.
Seu parceiro Alberto Parker (Gil Birmingham) é mestiço de comanche e mexicano e, por isso, alvo de piadas racistas do branco Hamilton. O que expõe outra ferida da mentalidade americana que considera inferiores todos que não são brancos.
Mas ninguém é de todo mau, nem de todo bom. E o roteiro de Taylor Sheridan mostra a complexidade dos personagens e faz o filme ter um peso de crítica social bem evidente, através do uso certeiro da ironia. Mais, de certa forma explica os motivos que os levaram a ser quem são. Não há para eles outra saída. São homens de tudo ou nada.
A direção do escocês David Mackenzie cria cenas atraentes e bem interpretadas e a fotografia de Giles Nuttgens mostra a miséria e a desesperança em tons terrosos.
Depois dos créditos finais, o diretor colocou uma homenagem. Ofereceu este filme aos pais dele, David e Ursula Mackenzie, com a data do nascimento e morte dos dois. Estranhamente, morreram no mesmo ano, apesar da grande diferença de idade e no ano que precede a filmagem de “A Qualquer Custo”. Não consegui saber o porquê mas certamente dá ao filme um sabor pessoal.
“A Qualquer Custo” foi indicado ao Oscar de melhor filme, roteiro original, edição e ator coadjuvante. Merecido.




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Jackie


“Jackie”- Idem, Estados Unidos, 2016
Direção: Pablo Larraín

Quem era pelo menos adolescente naquele 22 de novembro de 1963, vai se lembrar onde estava e o que fazia quando a notícia chegou. John F. Kennedy, presidente dos Estados Unidos, tinha sido assassinado em Dallas. As imagens repetidas incansavelmente nas TVs, ficaram na nossa memória.
Pablo Larraín, o talentoso diretor chileno que assinou “No”, “O Clube”, “Neruda”, escolheu como assunto de seu primeiro filme em inglês a figura mítica e complexa de  Jacqueline Bouvier Kennedy (1929-1994).
Mas claro que ninguém que viu seus filmes anteriores espera uma biografia cronológica. Larraín vai trazer para a tela muitas Jackies, em diferentes momentos de sua vida como mulher do presidente John Kennedy.
A primeira é entrevistada em Hyannis Port, uma semana depois do assassinato, para a revista “Life”. O ator Billy Crudup faz o jornalista e historiador Theodore H. White que ficou horas a fio com Jackie.
Ele quer que ela conte sua própria versão dos fatos mas não vai ser fácil como ele pode ter pensado. É Jackie quem vai conduzir a entrevista para onde ela quer e vamos vê-la proibir que várias passagens do que ela disse sejam escritas. Ou que ele sequer cite que ela fuma.
Vislumbramos a força e a autoridade que habitam aquela mulher, aparentemente frágil. A Jackie privada está na tela como nunca a vimos.
E as primeiras imagens da famosa visita à Casa Branca, conduzida por Jackie e televisionada pela CBS em 1962 aparecem em preto e branco. Aos que a criticavam por gastar dinheiro do governo com tecidos e decoração, ela mostra o cuidado com que os espaços públicos, abertos à visitação, foram restaurados com móveis de época, encontrados por “experts”.
O ponto alto é o quarto de Lincoln, ornado com a cama original do famoso presidente e os retratos a óleo dele e de sua mulher.
Larraín conta que colocou, entre as imagens que recriaram a Casa Branca, passagens do documentário original. São quase indistinguíveis.
E começamos a admirar a interpretação mediúnica de Natalie Portman, que recriou a voz, o porte e o jeito meio longínquo mas afável da primeira dama.
Há toques estratégicos como a amiga e assistente de Jackie, Nancy Tuckerman, interpretada por Greta Gerwig que gesticula atrás das câmeras da TV, pedindo que Jackie sorria.
Assim, Larraín mostra e recria a Jackie das imagens que todo mundo viu mas, numa demonstração de seu gênio e da criatividade do roteirista que ele escolheu, Noah Oppenheim, prêmio de roteiro no Festival de Veneza, mostra também imagens que nunca ninguém viu, mas que parecem ser as verdadeiras.
Emociona e angustia ver Jackie lavando o rosto para tirar o sangue do marido de seu rosto e cabelos, no mesmo banheiro do AirForce1 que a trouxera impecável e linda em seu tailleur Chanel rosa, debruado de azul marinho, colocando o chapéu “pillbox” que ela usaria durante o evento em Dallas.
Além dessas, há a Jackie de vestido longo de seda verde aplaudindo Pablo Casals num concerto na Casa Branca.  A que dança alegre e romântica com o marido no vermelho black-tie. A mãe que tem que dar a notícia trágica aos filhos. A que se apoia no cunhado Bob (Peter Sarsgaard). A viúva que conversa com o padre (John Hurt) sobre a dificuldade das lembranças boas não se misturarem com as terríveis. E aquela que, contra tudo e todos, faz da cerimonia fúnebre do presidente, algo majestoso e triste, sem ter tempo para chorar o luto.
Finalmente, a imagem íntima de Jackie, já viúva, insone, de camisola, colocando na vitrola o disco de “Camelot”, cantado por Richard Burton, de que o marido tanto gostava.
Natalie Portman mostra talento e sensibilidade ao incarnar  um mito, sem medo de errar. Ela está magnífica.

Pablo Larraín consegue conquistar mais uma vitória para a sua carreira de sucesso. Também sem medo de errar ao mostrar o avesso imaginário, mas tão verdadeiro, em sua recriação  de uma lenda do século XX.

Estrelas Além do Tempo


“Estrelas Além do Tempo”- “Hidden Figures”, Estados Unidos, 2016
Direção: Theodore Melfi

Quando vemos aquela menininha negra demonstrando um complicado raciocínio matemático com clareza e autoridade, ficamos certos de que ela vai ser uma figura importante no futuro.
E assim será. O filme mostra que, em 1961, Katherine Johnson (Taraji P. Henson) vai trabalhar na NASA em Hampton, Virginia, como um computador. Naquele tempo, computadores eram pessoas superdotadas para cálculos necessários ao programa espacial americano, que estava atrasado em relação ao soviético, em plena Guerra Fria.
A cena de abertura mostra três mulheres negras com um problema mecânico no carro que as leva, juntas, todo dia para o trabalho. Chega um carro com um policial que se espanta ao saber que trabalham na NASA.
Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monaé) são as companheiras brilhantes de Katherine, que conseguiram um trabalho importante por seus próprios méritos.
Mas logo vamos nos dar conta de que a vida para qualquer negro, especialmente na conservadora Virginia, não era nada fácil naquela época em que havia uma política de segregação entre brancos e negros. Assim, nos ônibus públicos deveriam sentar-se nos lugares do fundo, havia escolas só para brancos, bebedouros e banheiros públicos separados.
A história de Katherine é a melhor contada no filme. Viúva, com três filhas pequenas e trabalhando até tarde, já que tinha sido recrutada para um trabalho especial de cálculos sobre o lançamento, trajetória e retorno do foguete Atlas, que poria um primeiro americano em órbita, tinha uma vida difícil. Era a única mulher na sala de Al Harrison (Kevin Costner), chefe do programa.
Pobre Katherine. O racismo fazia com que tivesse que correr mais de 500 metros para poder ir ao banheiro. E Harrison se irrita com suas ausências, sem perceber que não havia banheiros para negros no prédio onde trabalhavam.
Mais tarde, ele vai se dar conta disso e mudar muita coisa no que dizia respeito à segregação na NASA.
Dorothy também sofria pelo fato de não ser reconhecida como chefe de departamento, onde trabalhava coordenando várias moças negras. Sua chefe (Kirsten Dunst) a tratava com frieza e menosprezo.
Mary vai ter que entrar na justiça para poder estudar à noite numa escola para homens brancos e tornar-se a primeira engenheira mulher e negra da NASA.
Essas três mulheres inteligentes, brilhantes e lutadoras vão sobressair-se e fazer um trabalho importante, que só foi reconhecido há muito pouco tempo.
O diretor Theodore Melfi adaptou o livro do mesmo nome do filme em inglês: “Hidden Figures” de Margot Lee Shetterly.
É um filme bem cuidado, com boa reprodução da época, tanto nos cenários como nos figurinos e conta a história da conquista do espaço de maneira tradicional, usando do talento do elenco, todos muito bem em seus personagens.
O racismo e a misoginia não são apenas americanos. Sabemos bem como existem de variadas formas em quase todos os países. Mas o impacto dessa história das três mulheres negras, tão importantes na corrida espacial americana, ainda que com tardio reconhecimento, é bem contada nesse filme e incentiva a refletirmos na injustiça e falta de bom senso que levam a esse tipo de comportamento.