quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Um Dia de Chuva em Nova York




“Um Dia de Chuva em Nova York”- “A Rainy Day in New York”, Estados Unidos, 2018
Direção: Woody Allen

Na nova comédia romântica, o 49º filme de Woody Allen, que quase não foi lançado por problemas com a Amazon, Gatsby Wells (Timothée Chalamet) e Ashleig, sua namorada (Elle Fanning), estudam em Yardley, uma universidade pequena e seleta, frequentada por uma elite endinheirada.
Ele tem uma família rica em Nova York e uma mãe que opina muito em sua vida. Está chegando a data da festa black-tie que ela dá anualmente no apartamento da família em Nova York e ela quer que ele venha.
Os dois namorados combinam um fim de semana em Nova York. Ele quer levá-la a conhecer lugares imperdíveis na opinião dele. Afinal, ela vem de uma família do Arizona, que não tem a cultura da dele. Mal conhece a cidade e só se lembra de ter comprado uma Birkin na rua, baratinha. É uma moça caipira e ingênua.
Ela estuda jornalismo e tem que fazer uma entrevista com um diretor de cinema importante, Rolland Pollard, para o jornal da faculdade.
No ônibus que os leva para Nova York, ela pede que ele ajude com as perguntas que deve fazer. Além de citar nomes de diretores famosos e se atrapalhar com a nacionalidade deles, ela pouco sabe sobre cinema.
Hospedam-se numa suíte do Pierre porque Gatsby, um jogador com sorte, quer mostrar o Central Park no outono para Ashleigh. Mas está quase na hora da entrevista no Soho e ela não quer se atrasar. Combinam um almoço no Daniel’s.
Ashleigh é loura, alta, bonita e jovem. De suéter e saia curta, impressiona homens mais velhos. Até por isso, gostando de ser admirada e deslumbrada com o mundo das celebridades do cinema, ela se divide entre o diretor (Liev Schreiber) que quer levá-la para o sul da França, como sua musa, o roteirista (Jude Law), que está sendo traído pela mulher dele (Rebbeca Hall) e um ator famoso (Diego Luna).
Ashleigh bebe muito, fuma um baseado e vai acabar com o fim de semana de Gatsby. Nunca está disponível para nenhum dos programas que tinham combinado. E se mete em encrencas divertidas.
Gatsby, por sua vez, encontrou por acaso a irmã mais nova de uma antiga namorada, Shan (Selena Gomez). Depois de alguns beijos para o filme de um amigo comum, acabam no apartamento dos pais dela porque começa a chover e ele quer trocar de roupa.
Há um momento melancólico e romântico quando Gatsby senta-se ao piano e canta com uma inesperada afinação “Everything Happens to Me”. Chove muito lá fora.
Reparem na cena em que há um close de Shan na janela, onde a água da chuva e luzes verde e rosa transformam o rosto dela num Renoir vivo. Ela é uma moça sem frescuras, inteligente e irônica. E sexy.
No MET, cercados por Renoirs, impressionistas e retratos de John Singer Sargent, acabam na ala egípcia, onde Gatsby dá de cara com os tios. Vai ter que ir na festa da mãe.
Sozinho, no piano-bar do Carlyle, ele recruta uma profissional lindíssima para a festa da mãe (Cherry Jones). Lá haverá uma conversa que vai mudar o jeito dele viver a vida. Ele amadurece à força e é levado a procurar o que realmente tem a ver com ele.
Toda sua insegurança, ansiedade e o resto, estavam dentro dele e não fora.
Woody Allen, 83 anos, conseguiu novamente. “Um Dia de Chuva em Nova York” é um filme que parece tratar de coisa sem importância mas o diretor nos ensina que a vida é assim. Somos frágeis e estamos à mercê dos acontecimentos. Temos que ter sorte e talento para aproveitar os bons momentos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A Vida Invisível



“A Vida Invisível”- “The Invisible Life of Eurídice Gusmão”, Brasil, Alemanha, 2019
Direção: Karim Ainouz

A perda do paraíso. Mal sabem as irmãs Guida e Eurídice, que se amam, que tudo aquilo será só uma lembrança triste. O Rio, Corcovado, Redentor, Pão de Açúcar, ali só para os olhos delas. E os ouvidos escutam o canto dos pássaros, o barulho das ondas e a algazarra dos micos na floresta. As duas sentadas nas pedras frente ao mar.
“- Vamos. Vai chover. ”
Sobem a encosta abandonando o mar mas logo Eurídice (Carol Duarte) perde Guida (Julia Stockler) de vista:
“ - Guida! Cadê você? ”
E ouvimos a voz de Guida responder lá do futuro:
“ - Você me disse vai, Eurídice. Você sempre teve as piores ideias. E eu te dei corda. Por que eu fui? Tinha que ter me trancado no quarto e engolido a chave. ”
Do que fala Guida?
O sonho de Eurídice era seu piano. Queria ir estudar no conservatório de Viena. Já Guida queria sair e festejar. Encontrar Yargos, o marinheiro do navio grego e partir. Ingênua, acreditava que ele ia casar-se com ela e Eurídice acobertava, preocupada, suas fugas noturnas.
Ao longo do filme vamos ver as irmãs perderem seus sonhos e sua ingenuidade. Vidas separadas, imaginando-se distantes. E sofremos com as cartas de Guida para Eurídice, que nunca tinham resposta. Ouvimos Guida implorando para a mãe que, se estivesse lendo a carta, que a mandasse para Viena. Depois, decepcionada, imaginando que talvez as cartas nunca tivessem sido enviadas para a Europa, onde a irmã certamente levava uma vida maravilhosa de concertista, Guida se cala.
Não foi por falta de Eurídice procurar a irmã que elas nunca mais se encontraram. O preconceito com o filho sem pai de Guida as separou. O castigo de Guida foi também o castigo de Eurídice. Um mundo machista e misógino impediria a aproximação das duas para sempre.
Karim Ainouz nos leva a seguir a vida das duas irmãs desde os anos 50, fazendo mergulharmos num mundo sufocante e em tudo dramático para aquelas mulheres que perderam seus sonhos mas ainda assim resistem, lutadoras.
E, se no princípio o Rio é uma cidade que se mistura com a floresta, com casas antigas e ruelas, cores intensas e meio borradas, como se as cenas fossem quadros, vai depois caminhando para menos sonho e mais realidade, com cores menos berrantes e foco.
Inspirado no romance de Martha Batalha, produzido pelo brasileiro de Hollywood, Rodrigo Teixeira, “A Vida Invisível” ganhou o prêmio de melhor filme da Mostra “Un Certain Régard” no último Festival de Cannes, com as cenas finais emocionantes a cargo da estrela maior, Fernanda Montenegro.
Agora espera a lista dos cinco filmes estrangeiros que irão concorrer ao Oscar. Se não ganhar, de qualquer forma ganha o Brasil mais um filme precioso. Aplausos para o talento de Karim Ainouz, que já nos deu “Madame Satã” 2002, “O Céu de Suely” 2006 e “Praia do Futuro” 2014.

sábado, 16 de novembro de 2019

Ford vs Ferrari




“Ford vs Ferrari”- Idem, Estados Unidos, 2019
Direção : James Mangold

Em 1959, Carroll Shelby (Matt Damon) foi o primeiro Americano a ganhar a famosa corrida de 24 Horas de Le Mans, pilotando um Aston Martin. Feito único. Mas o cardiologista encerra sua carreira, já que o piloto tem problemas no coração.
Assim, ele se torna um designer de carros especiais. E vai ser o homem que vai levar o herdeiro da Ford para as corridas de carros.
Acontece que a dona do carro vermelho mais bonito e veloz das pistas era a Ferrari do comendador Enzo Ferrari. Mas estava falida. A Ford tenta comprá-la, sem êxito. A Fiat de Ianelli, outra fábrica italiana é quem fecha o negócio.
Henry Ford II (Tracy Letts) ao saber que perdeu a Ferrari, fica furioso e quer contratar os melhores engenheiros e pilotos para vencer Le Mans em 1966. A Ferrari tinha levado todas as quatro últimas corridas. E chama Shelby para montar a equipe.
É então que o ex piloto vai procurar seu amigo, Ken Miles (Christian Bale) que guiava um carro como ninguém mas de personalidade difícil, para ajudá-lo a construir o carro da Ford que precisava ser melhor do que uma Ferrari para ganhar Le Mans.
O problema é que Miles, inglês mal vestido e desbocado, não fazia o tipo que os engravatados executivos da Ford queriam pilotando o carro deles. E colocam outro para vencer a corrida, passando por cima de Shelby. Foi um fracasso.
E é então que entra Shelby com sua capacidade de influenciar o patrão da Ford:
“- Perdemos a corrida mas fomos os mais rápidos na última volta, mesmo com o piloto errado. A Ferrari sabe que com o FordGT40 somos mais velozes do que eles.”
E Shelby emplaca Ken Miles para o carro da Ford, principalmente porque ele vence em Daytona. Mas houve todo o tempo uma luta feroz entre Shelby e os executivos que não gostavam do amigo dele.
O filme prende a atenção até daqueles que não gostam de carros de corrida porque não faz das pistas o recheio único. As performances de Matt Damon e Christian Bale é que são o prato principal.
Um, mais equilibrado, tem uma visão correta do que é necessário para vencer o desafio proposto pela Ford e o outro, mais passional mas talentoso, faz das corridas e dos carros sua paixão.
James Mangold, o diretor, quer mostrar os homens que estão por trás desse esporte que também é um negócio. E, por isso, o filme fica mais interessante para qualquer tipo de público.
É de Ken Miles a frase que se refere às 7 mil RPM, quando tudo desaparece e só existe um corpo movendo-se pelo espaço e tempo. Christian Bale encarna esse personagem com garra. Com a família ele tem um outro lado. Amoroso e cativante com o filho pequeno (Noah Jupe) e a mulher (Caitriona Balfe).
No mais são cenas empolgantes de carros voando pela pista, muito de perto ou de longe, criando uma estética de imagens casadas com o ronco dos motores e o derrapar dos pneus.
Ótimo filme que conta uma fabulosa história real.


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A Promessa




“A Promessa”- “The Promise”, Estados Unidos, Espanha, 2017
Direção: Terry George

A história do povo armênio é feita de lutas contra perseguições por seus vizinhos, seja por causa de religião, já que são cristãos cercados por muçulmanos ou ainda outras causas geopolíticas.
O filme de Terry George (“Hotel Ruanda”, “Em nome do pai”) conta sobre o genocídio que ocorreu durante a Primeira Guerra (1914-1918), uma “limpeza étnica” perpetrada pelos turcos, um episódio chocante, acontecido em 1915, quando 1,5 milhão de armênios foram mortos. Ainda hoje os turcos não se responsabilizam pelo massacre.  No filme “A Promessa” essa história dramática é contada através de um triângulo amoroso.
O jovem Mikael Boghosian (Oscar Isaac) é farmacêutico em sua aldeia e sonha em estudar medicina em Constantinopla. Mas sua família não tinha recursos para isso. Foi então que ele ficou noivo de uma moça da aldeia e com o dinheiro do dote dela pode fazer a tão sonhada viagem. A promessa que ele fez à noiva é que voltaria em dois anos para casar-se com ela.
Chegando à capital do Império Otomano, Mikael procura o tio e é muito bem recebido em sua bela casa no Bósforo. Ele era um próspero comerciante.
E é ali que ele vai conhecer a bailarina, também armênia, Ana Khesarian (Charlotte Le Bon), recém chegada de Paris, onde estudara na Sorbonne. E os dois se apaixonam.
Constantinopla, depois rebatizada Istambul, é de início um lugar prazeiroso para Mikael, envolvido que estava com Ana. É uma cidade luminosa com seus palácios de arquitetura bizantina e atravessada pelo mar azul que divide a parte europeia do lado asiático.
Acontece que não era só Mikael que se sentia culpado quando pensava na noiva que o esperava na aldeia natal. Ana também era comprometida com um jornalista americano Chris Myers (Christian Bale), que é correspondente de guerra.
Quando fica difícil a vida dos armênios em Constantinopla, Mikael volta para sua aldeia, a tempo de presenciar o drama que acontecia com seus conterrâneos.
Depois de muitos desencontros, os três, Mikael, Ana e Chris tentam salvar a vida dos que habitavam as aldeias, dizimadas pelos soldados turcos.
Como se vê, a história tristemente se repete hoje em dia, com a Europa tendo que acolher, bem ou mal, refugiados sírios que abandonam suas casas e tudo que possuem, para fugir da guerra.
“A Promessa” faz lembrar dessa tragédia que ainda precisa ser contada muitas vezes para que a paz seja mais procurada do que a guerra que sempre faz sofrer vítimas inocentes.

sábado, 9 de novembro de 2019

Parasita




“Parasita”- “Gisaengchung”, Coreia do Sul, 2019
Direção: Bong Joon-ho

Tudo começa num subsolo de Seul onde vive a família Kita-ek, o pai, a mãe, a filha e o filho jovens, apertados num corredor estreito com janelinhas no alto que dão para a calçada. Mas não são infelizes nem dramáticos. Dão um jeito para sobreviver. Se viram.
Lá no alto das escadas que levam para o bairro rico vive a família Park, pai, mãe, filha adolescente e filho pequeno, mais três cachorros. Ignoram as agruras da vida. Moram numa casa de um arquiteto famoso, rodeada por um jardim de árvores bem podadas e gramado impecável. Tem muito dinheiro e precisam de motorista, cozinheira, tutor para aulas particulares para a filha e psicóloga para o filho hiperativo. Levam uma vida tediosa mas confortável.
Essas duas famílias, que parecem ser uma o avesso da outra, vão conviver de forma agradável durante um certo tempo.
Acontece que o amigo universitário do filho da família Kita-ek dá aulas particulares para a filha da família Park, mas como vai viajar, recomenda o amigo para substitui-lo. E traz um presente: uma pedra que assegura saúde material para seu dono. É tudo que a família Kita-ek precisa, já que estão todos desempregados.
Como o primeiro a se infiltrar na casa dos Park, Kevin, o novo nome adotado pelo rapaz, traz a irmã, batizada de Jessica, para fazer terapia através da arte com o pequeno Park.
Daí a colocar o pai como motorista e a mãe como governanta é um passo rápido e os patrões nem desconfiam das relações de parentesco entre os empregados da casa.
Os Kita-ek assumem seus postos e novas identidades e desempenham suas tarefas com competência. Tudo corre bem. As duas famílias desfrutam do luxo e das sobras desse mundo de riquezas.
Mas isso não vai durar. Outros personagens vivem naquela casa escadas abaixo e vão brigar por espaço e seu quinhão daquela fartura. O que está submerso vai vir à tona.
E é só quando entra em cena o conflito que sempre esteve latente entre os personagens, que “Parasita” se torna um filme que nos faz lembrar que onde existem os muito ricos e os muito pobres, um dia a casa cai. E, nesse caso, estamos às voltas com um problema que toca a todos nós.
O diretor e produtor coreano Bong Joon-ho, 50 anos (“Mother” 2009, “Okja” 2017) e Jin Won Ham escreveram o roteiro bem bolado, com humor negro e também divertido, um misto de comédia e tragédia, com sustos e reviravoltas que prendem o espectador.
“Parasita” foi laureado com a Palma de Ouro em Cannes e foi considerado o melhor filme de ficção estrangeiro pelo público da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Agora é batalhar para vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro. Seria bem merecido.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Segredos Oficiais




“Segredos Oficiais”- “Official Secrets”, Estados Unidos 2019
Direção: Gavin Hood

Quem vai ver o filme sabe, pelo menos, que é uma história real. E, mesmo assim, parece inacreditável.
As imagens iniciais mostram o quase final do filme. Em 25 de fevereiro de 2004, Katherine Gun, acusada de revelar informações ultra secretas, ouve a pergunta do juiz:
“- Você é inocente ou culpada? ”
Voltamos para um ano antes.
Muita gente percebeu que tanto o presidente George W. Bush quanto o primeiro ministro britânico, Tony Blair, queriam uma guerra ao Iraque. Os dois falavam, pela televisão, com os cidadãos de seus países, afirmando que o Iraque do ditador Saddam Hussein tinha desenvolvido armas nucleares e químicas que iriam ser usadas e eram uma ameaça ao Ocidente. Não havia nenhuma prova concreta, entretanto.
Katherine Gun (Keira Knightley, ótima), tradutora de mandarim, trabalhava no Quartel General de Comunicações do Governo britânico. Uma espiã. Ouvia conversas telefônicas e lia e-mails confidenciais. Como ela diz, à certa altura do filme, ela servia ao povo de seu país e não ao governo inglês. Aliás ela afirma que sua função era proteger o povo das mentiras do governo.
E, por isso mesmo, fica surpresa e assustada quando lê algo muito grave num e-mail. Dizia o documento que a Agência de Segurança Nacional americana (NSA) estava buscando informações que pudessem servir para pressionar representantes da ONU, para que aprovassem a guerra ao Iraque.
A partir dessa descoberta, Katherine fica muito propensa a vazar essa informação. Ela pensa nos que vão sofrer com uma guerra que não vai servir a ninguém, a não ser ao poderio militar americano que iria se apossar do petróleo do Iraque.
Katherine quer ficar com a consciência limpa. E, por isso, vai sofrer ameaças, prisão, é seguida dia e noite, censuram seu telefone e vê o marido curdo e muçulmano ser indicado para deportação. Ela só consegue ter um advogado brilhante quase que por milagre. E Ralph Fiennes está maravilhoso no papel.
Como todo mundo sabe, a guerra do Iraque tirou Saddam Hussein do poder e com isso desequilibrou a região dando início a uma guerra civil entre xiitas e sunitas. Além disso fez de 500.000 a um milhão de mortos iraquianos (ninguém sabe o número exato), quase 5.000 soldados americanos pereceram, 4 milhões de iraquianos foram deslocados de suas regiões e 2 milhões deixaram o país. E foi a semente que fez surgir o ISIS.
Mais que tudo, desacreditou instituições e os políticos que mentiram para o povo sobre a necessidade dessa guerra. Não foram encontradas armas nucleares ou químicas pelos inspetores americanos.


sábado, 2 de novembro de 2019

A Odisseia dos Tontos



“A Odisseia dos Tontos”- “La Odisea de los Giles”, Argentina, Espanha, 2019
Direção: Sebastián Borensztein

Ao som de “Danúbio Azul”, de Strauss, que nos traz à memória o filme “2001- Uma Odisseia no Espaço”, estamos nesse ano na Argentina e Ricardo Darín explica o que é um “tonto”. Na tradução para o português o termo mais adequado seria “idiotas”. Então, “giles” são as pessoas que trabalham, ganham seu dinheiro, pagam impostos e vivem dentro de padrões éticos e são enganados pelo sistema.
Ora, não só na Argentina de 2001 o povo idiota foi lesado em suas economias depositadas no banco. Lá chamou-se “corralito”. No Brasil, nos lembramos do confisco da poupança no governo Collor. E, no mundo inteiro, pessoas sofreram com as consequências da crise de 2008.
No início do filme vemos uma explosão. Mas só vamos saber o que foi aquilo no fim.
Aqui, os idiotas se unem para fazer justiça. Revoltam-se contra o roubo que sofreram.
Mas vamos por partes. A história conta a reunião de amigos em torno de uma ideia. Com muita persuasão, um antigo jogador de futebol, Fermín (Darín) idolatrado por um gol histórico, convence seus amigos a juntar suas economias em dólares para comprar uma fábrica de grãos, fechada por causa da crise que assola o país. Formariam uma cooperativa. É bom lembrar que naquele momento, um dólar valia um peso.
Cada um entra com o que tem e chegam a U$153.000, que são colocados num cofre particular no banco. Fermín vai tentar levantar um empréstimo para conseguir a soma necessária e comprar a fábrica pelo preço de U$ 250.000,00. Mas ele não possuía uma conta corrente que permitisse levantar tanto dinheiro.
E o gerente do banco vem com uma solução. Se ele depositasse naquele dia mesmo os dólares do cofre, trocados por pesos, o empréstimo seria concedido certamente. Se não, ficaria muito difícil. Não podia passar daquela tarde.
Fermín luta com sua consciência, afinal ainda não contara aos amigos essa solução, mas pressionado pelo gerente que conhecia há 30 anos, faz o que ele manda.
E, no dia seguinte acontece o “corralito”. Além da desvalorização do peso frente ao dólar, cada pessoa só pode retirar 250 pesos por semana da conta corrente.
É fácil entender que tudo isso causou um imenso sofrimento.
Passa o tempo e os amigos convencem Fermín a sair da depressão em que tinha caído. Ficaram sabendo que o gerente do banco, mancomunado com um espertalhão que já sabia de antemão o que iria acontecer, levara todos os dólares que estavam no banco. E para onde foram todos esses dólares?
É respondendo a essa pergunta que os “tontos imaginam um plano para vingar-se e recuperar o dinheiro deles.
Produzido pelo próprio Darín e seu filho Chino, ambos trabalham como pai e filho no filme, o que é uma atração a mais. Além deles o elenco conta com Veronica Lilnás, que faz a mulher de Darín e mãe de Chino, Luis Brandoni, o anarquista, a mais rica do grupo, Carmen (Rita Cortese) e outros. Todos ótimos atores.
O tom é de suspense, de torcida pelos “tontos”, que não desistem e que vão atrás do prejuízo.
Adaptado do livro de Eduardo Sacheri, “La Noche de la Usina”, pelo diretor Sebastián Borensztein (“Um Conto Chinês”), contou com a ajuda do próprio Darín no preparo do texto final.
“A Odisseia dos Tontos” é um produto de qualidade, como sempre acontece no cinema argentino e vai representar seu país no Oscar 2020.