domingo, 7 de janeiro de 2018

Um Reino Unido


“Um Reino Unido”- “A Unite Kingdom”, França,
Reino Unido, 2016
Direção: Amma Asante

Quando aqueles dois se conheceram em Londres, depois da guerra, em 1947, não poderiam adivinhar como seria a história que iriam viver.
Ele estudava Direito. Ela era secretária. Seretse Khama (David Oyelowo) era negro. Ruth Williams (Rosamund Pike) era branca. Foi amor à primeira vista.
Já nos primeiros encontros percebemos que se sentem próximos, atraídos fortemente um pelo outro.
Mas, inesperadamente ele conta para ela a história de sua vida:
“- Tenho uma irmã. Nossos pais morreram quando eu tinha 3 anos. Fomos criados por meu tio, que foi o regente do país enquanto eu me preparava para ser o rei. Agora
preciso voltar para o meu povo”, diz ele para Ruth que, surpresa, pensa que ele se despede dela.
“- Não! Você não entendeu. Não posso viver sem você!”
Mas, muitas lutas viriam, sendo que a primeira, a má vontade da família dela com ele, foi a menos difícil. Casaram-se com amigos como testemunhas e seriam felizes, apesar da tensão das famílias, se algo importante não fosse um problema. Seretse era rei. Ela era branca. Como seria vista pelo povo dele? Uma rainha branca?
A política do “Apartheid” de Daniel Malan da África do Sul, obrigava negros e brancos a jamais se misturarem. Que dirá casar...
E os ingleses não tinham nenhum interesse em apoiar o herdeiro do trono com suas ideias liberais e democráticas, pregando independência do Reino Unido e o direito aos recursos naturais de seu país, que, no caso, eram diamantes, recém descobertos e já alvo de cobiça.
Mas, contra tudo e todos, Seretse é o herdeiro legítimo do trono de seu avô, no país que mais tarde será a Botswana e vai lutar por seus princípios. E Ruth, em nome de seu amor, vai ajudar o marido nessa luta. Ela mostrou-se à altura do rei, fazendo tudo que podia para mostrar ao povo que ela era um deles, que aquele país era seu lar.
A diretora Amma Asante consegue transmitir toda essa história da luta do casal contra gigantes como o Reino Unido, a pressão pelo “apartheid” e o respeito que o povo de Seretse tinha por suas tradições.
O carisma do casal foi um fator importante na sustentação dessa luta mas o amor deles foi o que os levou à vitória extraordinária que eles conquistaram.
O filme é baseado em fatos reais, contados no livro “Colour Bar” de Susan Williams. Durante os créditos finais aparecem fotos do casal.
“Um Reino Unido” conta uma bela história que vale a pena ser conhecida.



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O Farol das Orcas



“O Farol das Orcas”- “El Faro de las Orcas”, Espanha, Argentina, 2016
Direção: Geraldo Olivares

A Patagônia é uma região selvagem e bela. Altas falésias, dunas imensas e o mar azul indo e vindo com suas marés, desenhando sempre novos contornos nas pedras onde se deitam ao sol os leões marinhos, observados pelas gaivotas.
Um farol vermelho é a única construção na paisagem deserta.
Lá vive isolado, Roberto Bubas (Joaquin Furriel), biólogo marinho que escreveu um livro, “Agustín corazón abierto”, sobre suas vivências com as orcas da Península de Valdés.
Na Espanha, por causa de uma reação inusitada de seu filho autista quando assistia a um documentário sobre Beto e as orcas, sua mãe Lola (Maribel Verdú), resolveu viajar para conhecer esse lugar.
Sua esperança era que o filho, diagnosticado com a síndrome autista aos 2 anos de idade, pudesse mostrar o mesmo interesse e a alegria que ela viu acontecer frente à TV. Esperava na verdade um milagre.
Foi a primeira vez que Lola presenciou tal reação no filho e ela, que o educava sozinha, faria qualquer coisa para que isso se repetisse. Ela queria mais. Tinha a certeza que Beto e suas orcas eram o melhor remédio para Tristán (Joaquin Rapalini Olivella).
O livro de Beto conta tudo sobre essa história real e foi adaptado para o filme “O Farol das Orcas”, produzido pela Netflix. 
Durante muitos anos o biólogo estudou o comportamento de caça das orcas, que se aproximam da areia da praia  para conseguir capturar leões marinhos que nadam sem ter noção do perigo que correm.
As orcas, que são conhecidas erradamente como “assassinas”, são animais inteligentes que desenvolveram esse tipo de caça unicamente naquela península da Patagônia. É uma luta pela sobrevivência, lei da natureza, quando uma espécie é alimento para a outra.
Beto não apenas observa com seu binóculo, fotografa e segue as orcas em seu bote. Ele é a prova viva de que as orcas não atacam seres humanos na natureza. Nunca houve registro de uma ocorrência desse tipo.
Mas Beto também é o “encantador de orcas”. Com sua gaita, atrai a baleia preta e branca para a praia. Fala com ela e a acaricia e sua intimidade vai mais longe. Segura a barbatana dorsal de Shaka, a fêmea mais amiga e mergulham juntos.
Quando o menino autista chega com sua mãe, Beto recebe os dois na casinha dele, pequena e repleta de desenhos de orcas, fotos, lembranças de vida e uma caixa de madeira que guarda brinquedos, que ele não deixa ninguém abrir. É um segredo íntimo de Beto que ele só vai contar para Lola, tempos depois.
O filme é belo e fala muito perto com nossas emoções. Os atores são convincentes e verdadeiramente envolvidos com seus personagens. As cenas exteriores são belíssimas, mostrando um lugar privilegiado pela natureza e protegido.
Quem gosta de animais vai adorar esse filme que fala sobre a disponibilidade e a prontidão para o amor. Beto, amante do silêncio e sem pressa para conseguir resultados, consegue milagres com as orcas e com aquela mãe desesperada e seu filho de olhar perdido. E como é bonito de se ver ele fazer isso com tanta delicadeza e respeito.
Uma frase do biólogo ressoa nos nossos ouvidos e explica a atitude dele perante a vida:
“Há pessoas que se irritam com aquilo que não entendem e outras que não querem entender o que as irrita.”
Beto era o contrário dessas pessoas.




sábado, 30 de dezembro de 2017

O Rei do Show


“O Rei do Show”- “The Greatest Showman”, Estados Unidos, 2017
Direção: Michael Gracey

Primeiro em silhueta, depois num palco iluminado, o personagem da vida real cuja história vai ser contada, usa cartola, casaca vermelha e colete dourado (Hugh Jackman, excelente). Está cercado por artistas que dançam e cantam, incluindo a plateia. Todo esse show musical inicial talvez seja o número de maior impacto. Depois vai ser mais do mesmo.
Parece estranho, mas tanto as músicas (nenhuma memorável) quanto a coreografia, pertencem mais ao mundo do jazz, que não tem nada a ver com a época, nem com a história. Foi uma tentativa de introduzir modernidade em cena que deixa a desejar. No palco um espetáculo que mais parece um Cirque du Soleil menor, com estética equivocada da Broadway.
Dá saudades de “Moulin Rouge” (Baz Luhrmann) e “Cabaret” (Bob Fosse).
Mas o diretor australiano Michael Gracey, no seu primeiro longa, já mostra que pode tornar-se melhor do que já é agora, se tiver um melhor roteiro nas mãos.
“O Rei do Show” é uma leitura própria da vida de Phineas Taylor Barnum (1810-1891), que, vindo de uma família pobre, tornou-se milionário e o inventor do “showbusiness”.
Quando menino (Ellis Kubin) entrava nas casas ricas, onde tudo brilhava e encantava seus olhos, pela mão do pai que era alfaiate e atendia gente endinheirada. Foi assim que ele conheceu Charity (Michelle Williams), a mulher de sua vida.
O filme dá um salto no tempo e Barnum vai buscar Charity na casa dos pais, os Harletts (Frederic Lehne e Kathryn Meisle):
“- Ela vai voltar logo, quando se cansar da vida pobre que você pode dar para ela...” diz o pai.
E Barnum, que sempre acreditou que era fadado para o extraordinário, no começo erra muito. Chegam as duas filhas do casal e Barnum se esforça para conseguir dar a elas a vida que prometeu a si mesmo.
Vai atrás de figuras como a mulher barbada, o gigante irlandês, o menino-cachorro, o anão vestido de Napoleão e seu cavalo branco, o homem tatuado, os trapezistas negros e o público reage bem. Vem ver esses personagens tidos como monstros, escondidos da vista de todos e os aplaudem. Embora muitos digam que tudo é mera falsificação.
Mas o dinheiro e o sucesso de público parecem não ser suficientes para Barnum, que embarca numa “tournée” com uma bela cantora lírica sueca (Rebecca Ferguson, deslumbrante), largando família e o circo.
Esse é o público que ele queria em sua plateia, os aristocratas ricos e bem vestidos, em teatros exclusivos.
Ainda bem que seu sócio, Phillip Carlyle (Zac Efron, muito bom), o jovem escritor de teatro com sobrenome elegante, segura o espetáculo. Apaixonado pela trapezista negra (Zendaya), interpreta com ela o número mais bonito do filme.
Hugh Jackman é o centro de tudo e percebe-se que ele se doa ao personagem com paixão. Mas falta tempo no roteiro para que os verdadeiros conflitos apareçam. Ou seja, “O Rei do Show” é um musical. Não é um filme com números musicais. E a dupla de “La La Land”, Benji Pasek e Justin Paul, não conseguiu emplacar nenhuma canção que tenha a força de “City of Stars”.

“O Rei do Show”, com suas limitações, vale entretanto como um bom entretenimento para quem gosta de ver musicais no cinema.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Corpo e Alma


“Corpo e Alma”- “On Body and Soul”, Hungria, 2017
Direção: Ildikó Enyadi

Na floresta branca com a neve que cai, o veado com um grande galho, seguido por uma fêmea, procura alimento. Estão próximos e serenos mas algo faz com que haja receio. Caçadores espreitam?
Mas a cena muda.
A morte é certa para aqueles outros animais que esperam com paciência e medo. O matadouro é um lugar terrível para pessoas sensíveis.  Mesmo com os olhos fechados para não ver o instante final, penso na generosidade daquela entrega. Viveram e vão morrer para alimentar a espécie humana.
Quem consegue trabalhar num tal lugar? Há mugidos roucos, barulhos pesados, luz branca e muito sangue correndo para o ralo.
Endre, uns 60 anos, o diretor financeiro do matadouro (Marc sányi Géza) não parece ser insensível à morte do gado. Mas aceita a situação como algo que não dá para evitar. Como o seu braço esquerdo que pende inerte, paralisado.
Quando Maria (Alexandra Burbély) vem trabalhar como a controladora de qualidade da carne, há reclamações de que ela está sendo injusta em suas análises.
Ela é etérea, jovem, fala pouco, rígida, responde apenas o necessário à pergunta de Endre (“são as normas”) mas algo que não é falado começa a acontecer.
Endre interroga um novato:
“- Você tem pena dos animais?”
E ao que o outro responde que não, avisa que seria melhor demitir-se. A falta de empatia pode levar a uma depressão, diz ele, levemente ameaçador.
Sándor (Revin Nagy) parece surpreso com o que fala Endre e pressente que o diretor não gosta dele.
Mas não é a intenção de Endre ser agressivo. Sente que o outro é um macho alfa e isso faz lembrar que ele fechou-se para as mulheres. Decepções amorosas o feriram. Evita, portanto, o assunto. Ou pensa que sim. Mas Maria faz aparecer ciúmes em Endre, aquele homem aparentemente frio e fechado.
Sentado no refeitório da empresa vê Maria passar.
Aqueles dois tem em comum a reserva, o receio de aproximação, a aceitação da vida sem grandes emoções, a solidão.
Mas, inesperadamente, tudo vai começar a mudar, quando uma psicóloga, chamada por causa de um roubo, interroga os empregados do matadouro.
Endre e Maria vão ficar sabendo sobre algo extravagante e inesperado.Compartilham de noite o sonho dos veados na floresta. Os impulsos animais e primitivos de acasalamento irrompem com força naqueles dois seres, até então protegidos por muros invisíveis na vida acordada. Agora são os sonhos que os conduzem.
A diretora e roteirista Ildikó Enyedi, 62 anos, ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1989 por seu filme “My Twentieh Century – Meu Século XX” mas depois teve que enfrentar dificuldades para filmar porque o Instituto de Cinema da Hungria acabou. Levou quase 10 anos para finalizar “Corpo e Alma”.
No Festival de Berlim desse ano, a diretora foi recompensada: Urso de Ouro, prêmio da crítica internacional e prêmio do júri ecumênico.
Unanimidade para “Corpo e Alma”, delicadeza, poesia e compaixão pela humanidade.
O filme vai representar a Hungria no Oscar 2018.



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Paz, Amor e Muito Mais


“Paz, Amor e Muito Mais”- “Peace, Love & Misunderstandings”, Estados Unidos, 2011
Direção: Bruce Beresford

Jane Fonda já foi a sexy Barbarella em 1968, quando estava casada com Roger Vadim na França (1965-1973), também foi a “Hanoi Jane”, ativista contra a guerra do Vietnã, ganhou dois Oscars de melhor atriz, em 1972 por “Klute” e em 1979 por “Coming Home – Amargo Regresso”, três Globos de Ouro por esses dois filmes citados e outro ainda por “Julia” em 1978 e no último Festival de Veneza levou um Leão de Ouro, como prêmio por sua carreira. Sem falar das inúmeras indicações ao Oscar.
Sua história no cinema, que começou em 1960, está em plena atividade, tendo atuado em 2015 no filme “A Juventude” de Paolo Sorrentino, numa ponta muito comentada, fazendo uma atriz decadente, que fez ela ganhar mais um Globo de Ouro. Na Netflix, “Our Souls at Night – Nossas Noites” de 2017, marca um enorme sucesso, fazendo par com Robert Redford.
A atriz, em ótima forma, completa 80 anos hoje, dia 21 de dezembro e por isso, coloco no meu blog o filme “Paz, Amor e Muito Mais” de 2011 que está passando na Netflix. Ela faz uma avó hippie que mora em Woodstock e tem uma plantação ilegal de maconha no porão.
Não é um grande filme mas ver Jane Fonda de cabelos grisalhos e longos, saias coloridas e um sorriso de felicidade no meio de suas galinhas, cartazes para as manifestações pacifistas na praça da cidadezinha e conhecendo seus netos que não via desde que nasceram, é um prazer.
Grace, a avó hippie, também não vê a filha desde que ela se casou há 20 anos atrás e flagrou a mãe vendendo baseados no seu casamento.
Agora, Diane (Catherine Keener), divorciada, vai ser gentilmente empurrada para tirar o terninho de advogada bem sucedida e deixar rolar a parte afetiva que ela trancou durante muito tempo.
Os netos terão que ser estimulados pela avó a vencer barreiras para poder se entregar a primeiros amores. E tudo acontece com aprovação da avó amorosa e divertida que estimula os jovens a se libertar e fazer o que o coração manda.
Jane parece se divertir fazendo essa avó de Woodstock que adora “desencaminhar” os netos e a filha tão exageradamente politicamente corretos.
O diretor também parece se divertir acompanhando Jane Fonda, a filha, a neta (Elizabeth Olsen) e o neto (Nat Wolff) e seus romances. Porque como já cantavam os Beatles: “Ally you need is love!”
Vamos celebrar os 80 anos de Jane Fonda e desejar uma bela continuação de carreira porque não podemos passar sem ela!


Professor Marston e as Mulheres Maravilha




“Professor Marston e as Mulheres Maravilha”- “Professor Marston and The Wonder Women”, Estados Unidos,2017
Direção: Angela Robinson

“Mulher Maravilha”, dirigido por Patty Jenkins, foi um dos maiores sucessos de bilheteria e crítica desse ano. Estrelado pela atriz israelense, a bela Gal Gadot, agradou em cheio as plateias.
Sabíamos que a personagem tinha sido criada em 1941 pelo psicólogo Dr William Moulton Marston mas ninguém contou a incrível história da vida real que inspirou a criação de Diana Prince, a princesa das Amazonas e seu Laço da Verdade.
Pois bem. Tudo começa com o professor Marston (Luke Evans), psicólogo de Harvard, dando aulas para alunas em Radcliffe College em 1928. Casado com Elizabeth (a maravilhosa Rebecca Hall), os dois trabalhavam juntos no projeto de um detector de mentiras. Injustamente, Elizabeth, que havia cumprido todos os passos para receber um Ph.D. de Harvard, fora recusada pelo fato de ser mulher. Ora, o marido admirava Elizabeth e achava que ela era mais inteligente que ele.
Na verdade, o casal tinha ideias avançadas para o seu tempo. Acreditavam na igualdade entre homens e mulheres e no amor livre. E estávamos nas primeiras décadas do século XX.
Quando a aluna Olive Byrne (Bella Heathcote) mostra desejo de ser assistente do casal, começou uma história de amor duradoura que foi motivo de escândalo e demissão do professor Marston de seu cargo em Radcliffe.
Ora, Olive Byrne, filha da feminista Ethel Byrne, fora educada em um internato, longe da mãe que era ativista e dizia não ter tempo para cuidar dela. Carente e bela, apaixona-se pelo casal, mas mais especificamente, por Elizabeth. E é correspondida.
Será a convivência com essas duas mulheres especiais e brilhantes que vai gerar a personagem Mulher Maravilha.
Diferente em alguns aspectos da atual, que tem um caráter ingênuo, as duas tem em comum o fato de serem poderosas. Mas a primeira era também sensual e em suas aventuras, havia um conteúdo explícito de sadomasoquismo. Longe da politicamente correta e discreta Diana Prince atual, com seu Laço da Verdade, um detector de mentiras, a dos anos 40 era sexy e usava cordas e correntes para castigar os malfeitores, que, por sua vez, também aderiam a jogos eróticos com ela.
Por isso, o professor Marston teve que defender sua personagem perante uma comissão de educação que achava as histórias impróprias para crianças. O criador da Mulher Maravilha defendeu sua criação com brilho e explicou que garotos jovens tinham que aprender a respeitar mulheres poderosas.
Depois da morte de Marston em 1947, todo o conteúdo sensual foi retirado das histórias da personagem.
O filme trata com recato e delicadeza da relação a três, com uma belíssima fotografia em tons dourados e contraluz e também não mostra cenas que poderiam escandalizar plateias mais conservadoras. Mas é fato que o filme não teve grande publicidade e foi lançado sem alarde nos Estados Unidos e também por aqui, apesar das críticas favoráveis.
Infelizmente, há sempre um tanto de conservadorismo nas pessoas que gostam de censurar a sexualidade alheia, mesmo que ela seja uma heroína de histórias em quadrinhos.



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Extraordinário


“Extraordinário”- “Wonder”, Estados Unidos, 2017
Direção: Stephen Chbosky

Andamos tão cabisbaixos nos tempos em que vivemos, de notícias ruins, guerras, violência, fanatismos, que o nosso coração periga endurecer. Desacreditar da humanidade é o caminho perigoso que somos tentados a trilhar.
Mas filmes como esse “Extraordinário” vão na direção oposta e, por isso, fazem bem. Adultos e crianças precisam revigorar sua capacidade de identificar-se com a bondade. Quando “a gentileza é preferível a estar certo”, como ensina a escola do menino Auggie, nem tudo está perdido.
Quando ele aparece, vestido de astronauta, usando capacete, pulando na cama, num quarto pintado como um céu com estrelas, ele mesmo conta sua história:
“Não sou normal...meu nascimento foi hilário!”
Rindo de si mesmo, um menino de 10 anos.
Ele tem uma deformidade no rosto, a síndrome de Treacher Collins, que é genética. Depois de 27 cirurgias, ele ainda usa um capacete em público.
Educado em casa pela mãe, ele é mimado e é o centro de atenção da casa. Claro que isso afeta a irmã mais velha, a compreensiva Via (Izabela Vidovic), deixada de lado. Ainda bem que ela teve a avó (ótima Sonia Braga) que percebia a carência da neta e a amava muito. Lembrada numa cena em Coney Island, bem curtinha, é um dos pontos altos do filme.
Mas, como todo mundo tem problemas, como diz Via, talvez Auggie consiga enfrentar a escola e possa conviver com as outras crianças. Essa é a torcida da mãe (Julia Roberts) e o receio do pai (Owen Wilson):
“- É como mandar um cordeiro para o abate...”
Auggie mesmo diz:
“- Como nunca fui para a escola, estou apavorado...”
Mas ele tem o diretor da escola, Mr Tushman (Mandy Patinkin) e Mr Browne (Daveed Diggs), o professor da 5ª série, os dois de olho no que pode acontecer.
E Auggie é esperto, inteligente, simpático e bem humorado.
Adaptado do livro de Raquel Jaramillo, que usa o pseudônimo de R. J. Palacio, “Extraordinário”, defende a ideia de que antes de julgar, devemos conhecer. E quando Auggie se afasta dos outros, respeitando a estranheza que causa, por exemplo, ao comer, dadas suas dificuldades motoras, incentiva o bom garoto Jack Wills (Noah Jupe) a se aproximar e a descobrir um amigo.
O diretor Stephen Chbosky tem no currículo o livro “As Vantagens de ser Invisível”, que ele mesmo adaptou para o cinema e rendeu um filme de sucesso. Aqui, ele acertou na escolha do elenco e no ritmo do filme. Não são só dificuldades e lágrimas. Há risos e prêmios.
E tem o principal. O ator canadense Jacob Tremblay já encantara o público no filme “O Quarto de Jack” de 2015, fazendo o garoto de 5 anos que nasceu no cativeiro da mãe e não conhecia o mundo. Em “Extraordinário” ele é o  coração do filme.