
“A Missão do Gerente de Recursos Humanos”- “Le Voyage du Directeur des Resources”, Israel / Alemanha/ França, 2010
Direção : Eran Riklis
Quem viu “Lemon Tree” (2008) e se emocionou com o drama da viúva palestina que protegia o pomar de limoeiros dos seguranças de seu novo vizinho, o Ministro da Defesa do Estado de Israel, que queriam destrui-lo em nome da proteção ao chefe, vai ter curiosidade sobre o novo filme do cineasta israelense Eran Riklis, que levou cinco prêmios da Academia Israelense de Cinema, “A Missão do Gerente de Recursos Humanos”.
No titulo original, a “missão” da tradução brasileira é, na verdade, “a viagem”. Mas, vamos por partes.
Nascido em Israel, Eran Riklis, 56 anos, é um diretor de cinema sensível a temas que colocam em dúvida certezas íntimas. Estudou cinema na Inglaterra e faz filmes desde 1984. Apareceu com sucesso nos Festivais de Veneza e Berlim em 1991 com “Cup Final” e “Zohar” (1993) foi muito prestigiado pelo público em Israel. No Brasil passou também o seu “Noiva Siria” (2004).
O novo fime começa em 2002 em Jerusalém, a “Capital da Eternidade”, “A Cidade de David”, Yerushalaim. Uma bela vista com o Muro das Lamentações ao fundo, aparece no filme.
A história, adaptada do romance “A Mulher de Jerusalém” de Abraham Yehoshua, centra-se no gerente de recursos humanos de uma grande panificadora industrial da cidade.
O problema dele (Mark Ivanir, ótimo ator ucraniano) é que uma ex-funcionária, imigrante romena, Yulia Petracke (que só aparece em um filminho no celular de seu filho), morre em um atentado à bomba com outras 16 pessoas. Seu corpo está há dias no necrotério da cidade.
Um jornalista (Guri Alfi) descobre o acontecido e passa a fazer reportagens acusatórias sobre a panificadora e seu gerente. Clama por justiça para a funcionária, que não tinha sido demitida regularmente.
Para defender a empresa de pães, cabe ao mal-humorado gerente, cuja vida pessoal não caminhava bem, fazer uma viagem ao interior da Romenia, levando o corpo para o funeral.
Contada dessa maneira linear, a história perde o que tem de melhor: detalhes, olhares, cuidados, descobertas.
Ou seja, aquilo que se passa nos bastidores dos personagens é que é o mais importante e conduz a narrativa.
Assistimos à lenta transformação do que seria um trabalho meramente burocrático para o gerente, em uma viagem na qual ele vai ser tocado em seu território mais intimo.
É esse o material com que melhor trabalha o diretor Eran Riklis: a alma humana e sua possibilidade de surpreender, de superar fronteiras geográficas, culturais e religiosas.
Ele é um humanista e trata sempre disso em seus filmes.
Aliás, Eran Riklis é mestre em dizer, com cenas mudas, tudo o que passamos a saber sobre seus personagens. Em “Lemon Tree” a troca de olhares empáticos entre a palestina e a mulher do Ministro da Defesa de Israel dizia mais do que mil discursos sobre os conflitos entre esses povos vizinhos. Aqui, em “A Missão do Gerente de Recursos Humanos”, prestem atenção na neve que tomba sobre o gerente na cidadezinha em que Yulia nasceu, quase como que falando por ela, pedindo a ele um “milagre”.
É um filme que faz rir com situações tragi-cômicas enquanto convida a pensar sobre os limites auto-impostos à nossa possibilidade de sermos melhores do que somos.






