domingo, 27 de fevereiro de 2011

127 Horas





“127 Horas”- “127 Hours”, Estados Unidos / Inglaterra, 2010

Direção : Danny Boyle





Tomar decisões é obrigatório em nossas vidas e todos sabemos disso. Mas, de raro em raro, apresentam-se decisões difíceis que implicam em saber perder para talvez poder ganhar. Nesses momentos não há certezas mas probabilidades.

É disso que trata o filme “127 Horas”, dirigido por Danny Boyle, que já ganhou um Oscar em 2009 por “Quem Quer Ser Um Milionário”.

James Franco é praticamente o único ator do filme. Faz, com garra, um aventureiro, praticante de esportes radicais. Vamos segui-lo ao longo de cinco dias e viver com ele o momento mais importante de sua vida.

Tudo começa com um rapaz se preparando para passar um dia ao ar livre, em contato com a bela natureza do Parque Nacional Canyonlands em Utah, Estados Unidos.

Levanta cedo, recolhe tudo que precisa mas não consegue alcançar seu canivete suíço que rolou para um lugar difícil, numa prateleira baixa. A câmara de Boyle sinaliza esse momento, fazendo com que nós vejamos a cena do fundo do armário, com a mão do rapaz tateando e não achando o canivete.

O telefone toca mas ele não atende a mãe que deixa um recado.

O talento do diretor se mostra nesses pequenos detalhes. Ele prepara o espectador para o que vai acontecer.Tudo aos poucos.

Como um atleta, lá vai o rapaz pilotando sua bicicleta com ousadia, em direção ao cânion Blue John, numa manhã clara e ensolarada. Tudo parece tranquilo e fica mais divertido quando ele encontra duas belas garotas que querem conhecer o lugar.

Como guia esperto, ele ensina às duas o caminho mais atraente. E escorregam entre duas paredes de pedra para cair num lago azul. Pura delícia.

Boyle introduz imagens gravadas na pequena filmadora do rapaz. Por enquanto só brincadeiras e risadas.

Mas tudo vai ficar muito difícil.

Na volta, despreocupado e curtindo o corpo saudável sob o sol, os pés bem calçados pressionando a rocha, perde-se em seus pensamentos e fica desatento.

Basta um momento. Um segundo. E o inesperado acontece. A pedra falta sob seus pés e ele desmorona para o fundo da fenda...

E nós vamos junto.

Porque James Franco vai conseguir fazer com que nos identifiquemos de tal forma com o rapaz, que vai ser duro o sofrimento que vamos presenciar.

Vai doer na nossa carne.

Preso a uma pedra, sem comida nem água suficiente, o nosso rapaz vai valer-se de sua imaginação e inteligência para conseguir conviver com o inferno.

Solidão, dor, remorso.

Sem celular. E não tinha avisado a ninguém de onde estaria...

Mas ele tem uma poderosa vontade de sobreviver. Isso vai fazer toda a diferença.

A tela é usada pelo diretor de forma a acompanhar as defesas que o rapaz usa, ora lembrando-se de cenas de sua vida, ora alucinando para escapar daquela prisão.

Dentro de toda a tragédia, chega a ser engraçado quando ele usa sua filmadora para fingir que está em um programa de TV.

A trilha sonora, muito bem escolhida, ajuda a criar o clima de cada cena.

Baseado na história real de Aron Ralston que passou por tudo isso em 2003 e conta a sua história no livro “127 Horas – Uma empolgante História de Sobrevivência”, o filme foi indicado para 6 Oscars : filme, ator, roteiro adaptado, canção, trilha sonora e montagem.

A grande injustiça é que, o criador do filme, o diretor Danny Boyle (ajudado pelo talento de James Franco, uma fera de ator), não foi indicado para o prêmio.

Dá para entender a Academia?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Bravura Indômita





“Bravura Indômita”- “True Grit”, Estados Unidos, 2010

Direção: Ethan e Joel Coen





Os irmãos Ethan e Joel Coen são hoje figuras obrigatórias quando se pensa em bom cinema. Seus filmes, sempre inteligentes e quase sempre de um humor mordaz, trazem para a discussão temas que falam sobre a complexidade da natureza humana.

Para “Bravura Indômita”, eles foram buscar inspiração no livro de Charles Portis, publicado em 1968, que virou filme no ano seguinte, estrelado por John Wayne que ganhou o Oscar de melhor ator.

Mas não se enganem. Porque “Bravura Indômita” dos Coen não é uma refilmagem:

“- Não foi o filme antigo que nos deu a vontade de fazer um novo “Bravura Indômita”. Foi o livro de Charles Portis. Nossa bússola foi o livro, não o filme”, esclarecem em Berlim, onde abriram o festival com o seu filme.

As cenas iniciais começam a contar a história de uma garota de 14 anos, chegando sozinha de trem a uma cidadezinha do velho oeste. Tranças apertadas, rosto decidido, olhos inteligentes, ela quer vingar a morte de seu pai, assassinado por um empregado, Tom Chaney (Josh Brolin), que fugira, refugiando-se no território índio.

Obcecada pelo tema da vingança, ela procura quem a auxilie na caçada ao assassino. E escolhe para isso o “Marshall” (policial federal) Rooster Cogburn (Jeff Bridges, criando um tipo inesquecível e mais uma vez indicado para o Oscar).

Ela acompanha com atenção o julgamento dele, acusado de matar pai e filho, procurados pela policia, em uma emboscada.

Parece que o que agrada a Mattie Ross (a surpreendente estreante Haylee Steinfeld), é a postura atrevida de Cogburn que, apesar de assassino confesso, beberrão e mentiroso conhecido, vira a causa a seu favor e sai livre do tribunal.

Ela precisa de alguém tão obstinado e atrevido quanto ela para levar à frente o seu projeto. Mas, em sua ingenuidade e onipotência juvenil, pensa que tudo vai ser do jeito que ela quer.

Ao não poder entregar-se ao luto pela morte de seu pai, Mattie precisa encontrar alguém que a ajude a praticar o auto-engano:

“- Vai ser como no tempo em que meu pai levava eu e meu irmão para caçar guaxinins. A gente se divertia muito, contando histórias em torno da fogueira”, diz com ar sonhador, tentando convencer o debochado Cogburn a aceitar o dinheiro que lhe promete se trouxer o assassino do pai para a forca.

Eis que, então, aparece o outro homem de Mattie, o “Texas Ranger”, delegado LaBoeuf (Matt Damon), que também quer pegar o mesmo homem, acusado de outro crime, o assassinato de um senador. Ele é todo certinho, o oposto de Rooster Cogburn.

Os três vão participar de uma viagem iniciática para Mattie.

Ao longo do caminho, os dois homens vão entrar em conflito por ninharias e competir como meninos. E a garota vai ter que enfrentar a morte dos outros ao vivo, sofrer a fraqueza e a força dos seres humanos, avaliar a existência da solidariedade e do egoísmo e constatar o poder da natureza.

A vida real, com toda a sua complexidade, vai cobrar o preço a quem se atreve a enfrentar o que não conhece.

Mattie vai ter que aceitar a própria fragilidade e depender dos homens que escolheu, para sua aventura insana, quando a natureza armar uma armadilha para ela.

Os irmãos Coen, que levaram o Oscar de melhor filme e direção em 2008 com “Onde os Fracos não tem vez”, voltaram a concorrer no ano passado com ”Um Homem Sério”, filme genial, que não foi compreendido pela critica nem pelo grande público.

Dessa vez fizeram um filme-cebola, com muitas camadas e que pode ser olhado de várias maneiras.

“Bravura Indômita” pode ser visto tanto como sendo um “bang-bang”divertido pelos mais simplórios ou como um filme que propõe questões importantes na formação dos Estados Unidos como nação, pelos mais informados e até como sendo uma obra que coloca reflexões psicológicas e filosóficas mais amplas, que servem para toda a humanidade.

O filme é sucesso de bilheteria nos Estados Unidos e foi indicado para 10 Oscars, incluindo melhor filme, direção, ator, atriz coadjuvante e roteiro adaptado.

O cenário do Novo México e Texas, com suas infindáveis planícies geladas e desertas, inspirou uma fotografia belíssima a Roger Deakins, que também foi indicado para o Oscar.

A beleza das cenas na natureza selvagem ajuda “Bravura Indômita” a inserir o homem em uma escala correta e cruel, ou seja, não somos nada perante as incertezas da vida e o inevitável da morte.

É sempre esse o tema dos irmãos Coen, que são brilhantes na demonstração dessa tese em “Bravura Indômita”, um filme que merece público apesar de ter sido esquecido no Oscar.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cisne Negro




“Cisne Negro”- “ Black Swan”, Estados Unidos, 2010

Direção: Darren Aronofsky



A luz sobre a bailarina mostra mais sua silhueta que seu rosto. Em tule branco, sapatos de ponta cor-de-rosa, ela faz piruetas. Um homem aparece e quer subjugá-la. Dançam juntos. Ele se transforma em algo monstruoso. Ela foge e dança só, vestida de plumas.

Esse sonho, no início do filme “Cisne Negro” que Nina, a bailarina, chama de “louco” quando acorda no dia seguinte, realiza o seu maior desejo, ser a rainha do “Lago dos Cisnes”, mas também pressagia algo sombrio. Um preço a pagar.

Mas por que? Nina não é o bebê de sua mãe, não dorme em edredons macios, cercada de bichos de pelúcia e ao som da caixinha de música onde rodopia uma boneca bailarina ao som de Tchaikowsky?

E ela é dedicada à arte que escolheu, a mesma de sua mãe, sempre vestida de preto (Barbara Hershey), que toma conta dela como se ela fosse um “bibelot”.

Mas que não se esquece de dizer com voz cortante:

“- Abandonei a minha carreira para ter você, Nina...”

E que ninguém se engane. A vida de bailarina é dura. Disciplina, repetição, força de vontade, dores. Tudo isso está por detrás da graça, leveza e suavidade do palco. Nada é fácil.

Seus sapatos de ponta tem que ser desmontados, quebrados, esmagados, para que possam ser úteis aos pés que martirizam. A dor é companheira inseparável.

Assim vive Nina. Segue os passos de Beth (Wynona Ryder), que foi a estrela da companhia. Era sempre dela o papel principal. Porém chega o dia em que é forçada a aposentar-se. É a chance de Nina.

Mas, para conseguir ser a Rainha dos Cisnes na nova produção, ela terá que se submeter a Thomas Leroy (Vincent Cassel), diretor e coreógrafo. Apesar de apreciá-la como o Cisne Branco, sente falta de vibração quando ela dança o Cisne Negro. E para forjá-la a seu gosto, ele vai quebrá-la.

“- Eu quero ser perfeita”, diz Nina.

“- Perfeição não é só controle, é também deixar-se levar. Surpreenda-se! Surpreenda o público!”, retruca ele.

Pobre menina...

Intuitivamente Nina se protege de excessos. Percebe, lá no fundo, que isso pode ser perigoso para ela. Ela é frágil. Infantil e imatura.

No bar onde vai com Lily (Mila Kunis), a novata que compete com ela, um rapaz pergunta sobre o “Lago dos Cisnes”:

“- É a história de uma menina que vira um cisne porque foi enfeitiçada. Só o amor verdadeiro pode salvá-la. Mas o príncipe se apaixona pela garota errada. E ela se mata...”, responde Nina.

A essas alturas, a divisão interna que o papel Odile /Odete impõe, parece que já se instalou definitivamente na pobre Nina, que está possuída pelo Cisne Negro, que a domina.

Ela não diferencia mais interpretação e vida, realidade e fantasia. Loucura...

Natalie Portman, atriz nascida em Israel que vive nos Estados Unidos, tem nesse papel seu grande momento. Recebeu até agora todos os prêmios de melhor atriz e ninguém duvida que é a preferida para o Oscar.

Se tal acontecer, subirá ao palco grávida. Apaixonou-se pelo bailarino Benjamin Millepied que dança com ela como o principe do "Lago dos Cisnes". Ele é o coreógrafo do filme.

Vestida pelas irmãs Kate e Laura Mullery, que assinam a grife Rodarte e que foram as responsáveis pelos figurinos de balé, Natalie está espetacular.

Até assusta, de tão expressiva, quando dança com a roupa de asas imensas do Cisne Negro, seu rosto envolto em um véu apertado, maquiado com arte por Judy Chin, como se usasse uma máscara.

O diretor Darren Aronofsky de “O Lutador”(2008), que devolveu Mickey Rourke às telas, cria com sua câmara um ritmo frenético que causa vertigem.

Pontuadas por uma música dissonante e arranjos tonitruantes do “Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky, as cenas do final do filme mais parecem um circo de horrores.

Aronofsky escolheu ser intenso e exagerado. Há quem ache que ele perdeu-se em excessos no desenrolar da trama.

Seja como for, “Cisne Negro” merece ser visto porque o mundo do balé, mesmo quando enfocado por uma lente distorcida que quer mostrar a insanidade em cenas delirantes, traz sempre magia para a nossa contemplação.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Discurso do Rei





“O Discurso do Rei”- “The King’s Speech”, Inglaterra, 2010

Direção: Tom Hooper







Retratar problemas que podem atrapalhar qualquer ser humano parece ser a chave de sucesso de muitos filmes. Todos gostam de ver sua aflição, ou de alguém que conhecemos, ser destrinchada e superada na tela do cinema.

Em “O Discurso do Rei” é a gagueira que parece tomar o primeiro plano. Menos comum do que se imagina, aflige 1% da população do mundo e não tem cura.

E desde a Grécia antiga procura-se lidar com ela. Demóstenes, ficou famoso como orador, quando conseguiu melhorar a sua, discursando num rochedo à beira-mar, com pedrinhas na boca.

Nesse filme, dirigido com delicadeza e classe por Tom Hooper, um jovem de 39 anos, a gagueira de um pretendente ao trono da Inglaterra, quando esta ainda era um império sobre o qual “o sol nunca se punha”, parece ser o foco de atenção. Mas seria mesmo esse o principal problema do Principe Albert? Claro que não.

Quando se apresentou a situação dele assumir o trono depois da morte do pai, o rei George V e a renúncia de seu irmão David, Edward VIII (para poder levar avante um romance com uma divorciada, vista com horror pela corte), Albert já estava enfrentando o seu maior problema.

“Ser ou não ser?”

Não é só Hamlet, o personagem de Shakespeare, que se coloca essa pergunta. O Duque de York, depois Principe Albert, forçado a ser rei, também se contorcia com essa questão.

Dos três filhos, ele era o segundo. O caçula morrera aos 13 anos de epilepsia e o primeiro, o rei Edward VIII, fugia do trono para os braços da americana divorciada.

Albert, Bertie para a família, queria e ao mesmo tempo não queria enfrentar essa responsabilidade. Substituir o pai? Com o quê? Ele, em luta consigo mesmo e com sua baixa auto-estima, apoiava-se em sua gagueira para desistir desse conflito.

Quem pode ser rei sendo gago? Principalmente numa era em que aparece o rádio, a mídia mais inovadora e influente, mostrando claramente que o candidato a rei era um incapaz? Alguém que balbuciava?

Eis então que a mulher de Albert (Helena Bonham Carter, maravilhosa no papel da futura rainha-mãe, indicada ao prêmio de melhor atriz coadjuvante), encontra alguém para ajudá-lo. Surge o especialista em problemas de fala, Lionel Logue.

E só é depois de um longo episódio de relutância e insubordinação que Logue consegue falar com o Principe, a quem chama Bertie, não por provocação mas para alimentar a intimidade. E com isso Albert encontra sua voz.

Sim, porque era da falta de intimidade que o candidato a rei sofria.

Desde a infância, canhoto obrigado a ser destro, pernas curvas retificadas com varas de metal e uma total falta de empatia do pai, Albert era um solitário e um amedrontado menino espezinhado pelo irmão mais velho.

Essa história de superação, baseada não em técnicas miraculosas mas num elo de confiança e amizade entre o futuro rei e seu terapeuta intuitivo, que se coloca no lugar de um pai que Albert nunca tinha tido, emociona.

Os diálogos são escritos com perfeição por David Seidler.

A criança dentro de nós se arrepia quando Logue diz:

“_ Bertie, não precisa mais ter medo das coisas que você temia quando tinha 5 anos.”

Bom senso, empatia, capacidade de comunicar-se e de se colocar como modelo para o rei, faz Logue, ator mal resolvido, ocupar o lugar de diretor/maestro de um dos mais raros espetáculos sobre a face da terra: a coroação de um rei.

Interpretações magníficas são o prato principal desse filme inglês que não se apoia em artifícios.

Colin Firth, como o rei George VI (pai da atual rainha da Inglaterra, Elizabeth II), merece o Oscar como o melhor ator, depois de perdê-lo no ano passado. Impecável, transmite toda a raiva contida e a ambição quase destroçada do seu personagem.

Geoffrey Rush (também indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante) encarna o terapeuta com brio e humildade, fazendo-se segundo para que seu pupilo pudesse brilhar.

Em um momento dramático da história da humanidade, o rei George VI, com seu Primeiro Ministro Churchill, consegue fazer o mundo vencer a sombra do nazismo.

Não foi pouca coisa. E não deve ser esquecido.

“O Discurso do Rei” é uma ode ao melhor instrumento que existe: a voz humana. Pode ser usada para o bem ou para o mal. Mas é imbatível como forma de comunicação e persuasão.

É bom todo mundo pensar sobre isso e sobre o valor da amizade, assistindo ao “O Discurso do Rei”, o favorito do Oscar desse ano, com 12 indicações, incluindo melhor filme, melhor diretor e melhores atores.

Trailer de O DISCURSO DO REI - Legendado por claquete_com no Videolog.tv.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O Turista



“O Turista”- “The Tourist”, Estados Unidos, França,2010

Direção: Florian Henckel von Donnersmarck





Tal qual uma pantera em sua selva, ela anda mansa e bela pelas ruas de Paris. Olhos verdes e longos cabelos castanhos, saltos altos e luvas de camurça finissima que lhe sobem pelos braços acima do cotovelo, o que está fazendo? Procura alguém? A uma certa altura da caminhada, olha as horas num reloginho de ouro que se entrevê pela abertura dos botões de pérola da luva.

O que faz essa deusa andar pela terra dos homens longe de seu Olimpo?

Pronto. Com esse começo atraente, já estamos fisgados por “O Turista”. Ou melhor, por Angelina Jolie que brilha na tela sem ter dito uma só palavra.

Todos os olhares a seguem. É inevitável. Muito bem maquiada e com um vestido beje (ou “nude”como chamam agora todos os tons que lembram carne), busto cingido por uma “écharpe” de gaze cor de tangerina que se ata na altura dos quadris e voa como uma bela cauda atrás dela, La Jolie está magnífica.

Colleen Atwood, ganhadora do Oscar, acertou mais uma vez e os figurinos são um espetáculo à parte.

Se bem que os dois vestidos longos são assinados pela famosa estilista Alberta Ferretti. Tudo muito chique. O branco, simples e bem cortado, valoriza o corpo de Angelina e é uma bela surpresa para os nossos olhos, quando ela tira o casaco suntuoso de veludo negro que usa na cena do jantar a dois com Johnny Depp. Já o que ela veste para o baile é delicado e realça seus belos ombros e o colar de brilhantes deslumbrante, no pescoço de cisne posto à vista pelos cabelos presos num coque armado.

Mais sexy do que nunca, ela rouba a cena em “O Turista”, refilmagem do filme francês “Anthony Zimmer: A Caçada”, dirigida por um alemão que ganhou um Oscar em seu filme de estréia “A Vida dos Outros”(2006), Florian Henckel von Donnersmarck.

Johnny Depp, o par romântico de Jolie, faz um professor de matemática tímido e divertido, encantado pela mulher misteriosa que ele conhece no trem Paris/ Veneza.

Parece que, por acaso, seu personagem é levado a participar de uma história que não tem nada a ver com ele. Mas, fascinado pela moça linda, ele segue em frente, como que hipnotizado. E se envolve com a Scotland Yard, a Interpol, agentes policiais italianos, seguranças russos, todos perseguindo Jolie, num jogo de gato e rato com muitas reviravoltas.

A cena de fuga pelos telhados de Veneza, com Depp mal equilibrado vestido num pijama bem comportado, é muito boa e faz lembrar Cary Grant e David Niven nos telhados de Nice, vestidos em smokings elegantes em “Ladrão de Casaca”.

E aqui, também, ninguém é o que parece.

A fotografia do filme é deslumbrante e aproveita a luz de Veneza, cenário perfeito tanto para tomadas do alto como percorrendo seus canais, mostrando-a afundando sob as águas escuras, toda ocre e pedras antigas.

Gondolas, lanchas velozes e um hotel famoso num palácio veneziano principesco onde brilham mármores raros, veludos vermelhos, espelhos e objetos preciosos são o toque sofisticado para uma história intrigante.

Mas é o par Jolie- Depp que prende a atenção. São dois astros ao estilo de outros que fizeram história no cinema americano. Toda vez que estão juntos na tela há uma atração no ar.

Não causa espanto o diz-que-diz que o filme causou.

Em seu blog, Johnny Depp não faz por menos:

“Angy é tão linda que eu poderia passar o resto da vida olhando para ela”, escreve com ares de inocência.

Por essa e por outras, quem sabe, Bradd Pitt não parecia à vontade na noite da entrega do Globo de Ouro. La Jolie, num longo esmeralda cintilante, não conseguia capturar o olhar do marido, frente às cameras de TV que mostravam o casal na platéia. Arrufos passageiros? É o que esperam os fãs dessa dupla imbatível no quesito beleza.

Tudo isso e mais as indicações para prêmios levarão muita gente ao cinema.

Poucos vão se impressionar por uma parte da crítica que malhou o filme porque cinema também é divertimento. E charme e beleza são sempre uma atração irresistível.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Dieta Mediterrânea



“Dieta Mediterrânea”- “Dieta Mediterránea”, Espanha, 2009

Direção: Joaquim Oristelli





Esse é um daqueles filmes que você saboreia. Pertence a uma linha de cinema que faz sucesso explorando o tema da culinária: “A Festa de Babette”(1987), “Vatel, o Cozinheiro do Rei”(2000), “Estômago”(2007), “Julie e Julia”(2009), ”Comer Rezar Amar”(2010), para citar só alguns.

E parece certo que tais filmes são apreciados porque falam de uma arte necessária à vida prazeirosa. A cozinha, quando regida por pessoas dotadas, torna-se um lugar de descobertas, de transformações, onde sabores e cores são usados para deliciar nossos olhos e estômago.

Acrescente-se a isso uma bela pitada de sexo e temos “Dieta Mediterrânea”, um filme espanhol dirigido por Joaquim Oristelli.

“Salerosa”, Olivia Molina, a “chef” Sofia, ao redor de quem gira o filme, é uma morena atrevida, mandona e jeitosa. Encarna o eterno feminino, com tudo o que tem de matriarcado, num flexível corpo esguio e belos seios.

Ela é esposa, amante, mãe, filha e “chef” de cozinha. Segue a carreira do pai, para desgosto da mãe, Carmen Balagué, maravilhosa atriz de “Tudo sobre minha mãe” de Pedro Almodóvar.

E Sofia consegue fazer com que o seu talento seja reconhecido pelos grandes “chefs” europeus, entre os quais Ferran Adrià, que aparece em pessoa no filme.

Para quem não sabe, Adrià é o “chef” de um dos mais famosos restaurantes do mundo, El Bulli, que fica em Roses, na Costa Brava, Catalunha, ao norte de Barcelona. Usando novas tecnologias e buscando sabores inesperados aliados a texturas elaboradas, ele desenvolveu uma cozinha criativa que dá o que falar. Tem gente que faz reserva para conseguir mesa só um ano depois. El Bulli é famoso por seu menú degustação de 30 pratos, que convida as pessoas a provar sem saber o que estão comendo. Tudo pela descoberta de paladares adormecidos pelo quotidiano.

Mas o detalhe apimentado do filme é que Sofia é uma versão espanhola de nossa dona Flor, criação de Jorge Amado, vivida por uma inesquecível Sonia Braga nas telas.

As duas cozinham como deusas, são sensuais até a ponta dos dedinhos nas panelas e dão conta de dois homens.

Sofia escolhe esse destino, ao contrário de dona Flor, que parece sujeitar-se ao que acontece com ela, levemente constrangida, mas, secretamente adorando tudo aquilo.

A cena de Vadinho, o marido fantasma, nu pelas ruas de

Salvador abraçando dona Flor gingando ao lado do marido vivo, fecha o filme de Bruno Barreto de uma maneira magistral.

Em “Dieta Mediterrânea”, Sofia na cama, aprecia seus dois homens nus, em frente a ela, de costas para a platéia. A inspiração no filme brasileiro fica bem clara. Eu diria que é uma homenagem.

Mais que em “Jules e Jim” (1961) de François Truffaut, que é citado no filme, “Dieta Mediterrânea” se parece com “Dona Flor e seus dois Maridos” (1976). A diferença maior é que a “chef” Sofia, nascida em 1968, no dia do assassinato de Bob Kennedy, é mais contemporânea que a gentil professora de culinária dona Flor.

Mas longe de qualquer ousadia maior, “Dieta Mediterrânea” é um filme comportado que mais sugere do que mostra, em matéria de cama. Seu local predileto é a cozinha onde Sofia é a sacerdotisa a serviço do ritual de preparar a comida, a ser servida e apreciada.

O filme é contado através de um “flashback” que vai desde o nascimento de Sofia até o nascimento da narradora do filme, sua filha, que tem um nome muito peculiar.

Se vocês forem ver “Dieta Mediterrânea”, vão rir dessa última graça do roteiro de um filme gostoso de ver.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Mágico



O Mágico – “L’Illusionniste” França/ Reino Unido, 2010

Direção : Sylvain Chomet







Se você é uma pessoa sofisticada e não é mais uma criança, vai se encantar com o novo desenho animado de Sylvain Chomet, “O Mágico”.

Foi ele quem fez “As Bicicletas de Bellevue” (2003), um primor de animação, indicada ao Oscar.

Agora, trata-se, nada mais nada menos, de um roteiro original do grande Jacques Tati (1907-1982), o criador de M. Hulot, célebre personagem de “Mon Oncle”(Meu Tio), de 1958.

Quem tem mais de 50 anos (ou quem é apaixonado por cinema e viu o filme), lembra-se, com certeza, dessa comédia fora dos parâmetros de todas as épocas, na qual, com uma ironia mordaz, Tati fazia uma caricatura aos anos 50, troçando das “modernidades” trazidas à Europa, que tinha se americanizado, perdendo muito do charme de antes da Segunda Guerra.

Alto e magro, sempre de capa de chuva e cachimbo, o atrapalhado M. Hulot inspira o personagem Tatischeff de “O Mágico”. Aliás, esse era o verdadeiro sobrenome de Jacques Tati. Em uma cena do desenho, o mágico entra em um cinema onde está passando “Mon Oncle”. Uma das muitas homenagens que Sylvain Chomet presta a esse gênio do cinema em sua animação mais recente.

A história do roteiro de “O Mágico”, no entanto, desvenda uma característica menos conhecida de Jacques Tati: uma melancolia envergonhada.

Ele era pai de uma filha ilegítima, Helga, fruto de um romance com uma bailarina austríaca. Nunca a reconheceu, pressionado por sua irmã e nem respondia às suas cartas e telefonemas. Mas escreveu-lhe uma carta que nunca entregou... Pois essa carta é o roteiro de “O Mágico”.

Esse detalhe patético torna-se a chave para a motivação psicológica de “O Mágico”: a impotência perante certas circunstâncias da vida. Trata-se do aparecimento do irreparável.

Podemos deduzir que essa relação pai/filha seja o centro da história contada no roteiro/carta. Pois, o mágico decadente vai parar na Escócia onde encontra Alice, a menina pobre e orfã que ele leva para a capital Edimburgo, belamente desenhada com luzes de sonho.

Por Alice, ele faz de tudo. Todo os sacrifícios não são nada e ele suporta tudo para vê-la sorrir, vestida como uma princesa de vitrine. Tributo secreto a Helga, com quem nunca falou? É quase certo.

Esse roteiro, que sofreu poucas modificações, foi entregue a Chomet por Sophie, a filha legítima de Jacques Tati, a quem o diretor dedica o seu trabalho.

O traço elegante e detalhista de “O Mágico” difere em tudo dos atuais desenhos animados. Aqui a atmosfera é antiguinha, o charme dos traços lembra livros de história do começo do século passado e não há um final feliz convencional.

“O Mágico” mostra o ritmo do mundo, no qual alguém está sempre sendo descartado para que outra pessoa possa assumir o posto. Ninguém é insubstituível e o envelhecimento encolhe o ardor dos aplausos de um público que busca sempre novidades. A tristeza e a melancolia fazem parte da vida...

Quase não há diálogos nesse desenho animado para gente grande com capacidade de compreensão e empatia. E nem precisa. Tal qual Jacques Tati, Sylvain Chomet sabe comunicar-se criando situações plenas de afeto, linguagem de gestos e expressões faciais.

Esse desenho animado europeu tem agradado à crítica mundial, já coleciona prêmios, concorreu ao Globo de Ouro de melhor animação e foi indicado ao Bafta, o Oscar inglês de melhor realização técnica.

“O Mágico” trata de valores morais e sentimentos que nunca vão sair de moda. Vá ver essa pequena jóia e esqueça a brutalidade e o mau gosto que tanto enfeiam esse nosso mundo de hoje.