“Desejo e poder (Brideshead revisited, Julian Jarold, Inglaterra, 2008)
Postado em 23 de abril de 2010, às 10:30
Um homem de costas caminha na tela. Murmura:
“- Só tenho uma certeza... Meu nome é Charles Ryder. Não sei mais quais emoções sinto... Aliás só me resta uma. A culpa...”
Pelo fim. Assim se inicia “Desejo e poder - Brideshead revisited“, a versão filmada do livro de Evelyn Waugh de 1951.
Muitos se lembram ainda da mini-série em 11 capítulos que passou na saudosa TV Cultura, em 1981, com Jeremy Irons e Claire Bloom. Foi memorável. E mais fiel à obra de Waugh. Dizem os atuais responsáveis pelo roteiro que mudanças mais ao gosto de nossos tempos se impuseram. Há quem discorde.
Em todo caso, o mesmo deslumbrante cenário do castelo Howard em Yorkshire, Inglaterra, volta a encantar os nossos olhos: fontes pontuando o verde de gramados infinitos, árvores seculares, moitas esculpidas como muros altos escondendo jardins secretos e a imponente construção em suas simetrias aristocráticas. Dentro impera o mármore, os tetos são ornados de afrescos e pesados lustres de cristal, as escadarias tem gradil de renda de ferro dourado, há tapetes que sufocam passos e quadros com retratos de antepassados reais.
Poder, luxo, elegância.
Quando o plebeu Charles Ryder (Mattew Goode) encontra Sebastian Flyte (Ben Wishaw) em Oxford, numa roda boêmia, seu futuro está traçado.
Acompanha o amigo a Brideshead, a morada da família e parece embasbacado com tanta ostentação de riqueza:
“-Você pode visitar a casa por cinco xelins no dia se Santa Alexandria...”, ironiza Sebastian.
E o rapaz que queria ser pintor, começa a entrar em contato não só com a ostentação mas com os costumes decadentes do amigo.
Charles, que tinha um pai ausente, pouco interessado no que ele sonhava para a sua vida, vai querer pertencer àquela família nobre e acaba conhecendo o fim de uma época e testemunhando a agonia de uma classe social que não era a sua.
Vai amar e ser amado por Sebastian e sua irmã (Hayley Atwell), a bela Julia e será atingido pelo rigor católico da mãe dos dois, Lady Marchmain (Emma Thompson de cabelos brancos, traços envelhecidos e boca cruel).
Cara (Greta Scacchi), a simpática amante italiana de Lorde Marchmain (Michael Gambon), nos braços de quem ele se refugiou de sua mulher oficial, confidencia a Charles:
“- Aquela mulher quase o sufocou. O mesmo com os filhos. Todos tem que fazer o que ela quer.”
“- A senhora também é católica?” pergunta Charles.
“- Sim. Mas na Itália é diferente. Não temos tanta culpa”, responde Cara sorrindo ao sol de Veneza.
Os figurinos do filme são perfeitos e cada detalhe nos remete a um tempo onde ainda havia algo que desapareceu para sempre com a Segunda Grande Guerra.
Bem cuidado e com um elenco de pessoas bonitas e atores convincentes, “Desejo e poder – Brideshead revisited” vai seduzir o seu olhar. Mas talvez não deixe marcas profundas em sua memória.
Descartável? Se formos tão rigorosos como Lady Marchmain, pode até ser.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
“As melhores coisas do mundo”
“As melhores coisas do mundo” – Laís Bodanzky, Brasil, 2010
Postado em 30 de abril de 2010, às 11:00
Quem não se lembra de sua adolescência com saudades, fique longe desse filme. “As melhores coisas do mundo” não é para você.
Agora, se sente saudades ou se você ainda é um adolescente, vai se apaixonar por Mano, Pedro, Carol, Bruna e toda a galera.
Porque esse filme não se dirige somente ao mercado “teen”.
Acolhe de boa vontade quem quer saber mais sobre os jovens de hoje ou deixar-se levar por recordações de sua própria adolescência.
Certo. Outras gerações não tiveram essa liberdade que vemos no filme e na vida. A sexualidade também não era escancarada à vista dos pais. Meninas não fumavam abertamente no recreio. As conversas tentavam ser mais policiadas pelos próprios jovens de outrora.
O que se vê em “As melhores coisas do mundo” pode chocar e dar inveja a quem pensa que o importante é o comportamento externo. Ao longo do filme porém, vai ver que questões de mundo interno são sempre as inevitáveis e as que mudam o rumo do destino.
O herói da história é Mano (Francisco Miguez) e através dele, sua família e seus colegas de escola, Bodanzky vai nos revelar seu olhar interessado sobre esse mundinho: temos Pedro (Fiuk), o irmão depressivo e intelectualizado, a mãe patética (Denise Fraga), o pai problemático, a melhor amiga (Gabriela Rocha), a aparentemente liberada Valéria, a indiscreta Dri e outros mais.
Cada geração faz essa passagem do seu jeito mas o trânsito pela adolescência traz à tona sempre as mesmas velhas perguntas sobre a vida.
Bem lá no fundo, só as roupas e a música são diferentes. Nem isso, talvez, já que a canção “Something” dos velhos Beatles é tocada durante todo o filme e faz a ponte com os ouvidos da velha guarda.
Dedilhada de forma bisonha no início por Mano e seu pobre violão, ao final será o tema do solo potente de uma guitarra vermelha, nas mãos de um Mano mais amadurecido. Cantada com vozinha de bossa nova no início, no fim do filme não precisa de vozes. O toque firme das cordas daquela guitarra faz com que a gente entenda que quem a toca agora aprendeu lições não só de instrumento mas sobre si mesmo e o mundo.
A figura do professor mítico que ensina atitude e é reconhecido como o modelo que os adolescentes precisam, aparece duas vezes nessa história. Um deles é o professor Artur (Caio Blat), que rouba beijo e corações das alunas, além de possuir carisma e empatia para ensinar. O outro é interpretado com doçura e firmeza por Paulo Vilhena que ensina Mano a abraçar o violão para alcançar a tão sonhada e poderosa guitarra. E conquistar a gata.
Sem falsos moralismos mas com ética é que se aprende a ser gente. Assim, meninos saudáveis transam com meninas da mesma idade com camisinha e não gostam de bordel.
Há uma preocupação pedagógica que não é chata nem se acha dona da verdade nesse filme.
O roteiro de Luiz Bolognesi foi baseado nos escritos de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto que são adultos que se sentem responsáveis pelas novas gerações.
A música da trilha original de BiD pontua e ressalta o conteúdo emocional de cada momento do filme. A câmara de Laís Bodanzky também se faz jovem: ousa enquadramentos, corre atrás, fica lenta de cansaço e, assim fazendo, mostra bem como é o ritmo do corpo e mente dos adolescentes.
Na verdade esse filme fazia falta no cinema nacional. Falar com frescor e espontaneidade sobre o presente através da turma de uma escola de classe média em São Paulo, é mostrar de um jeito diferente um Brasil que só aparece na TV no formato novela.
Recomendo vivamente à garotada visitar o site do filme que é interativo e tem um projeto gráfico atraente. Lá você encontra informações, “downloads”, fotos e pode fazer a lista das 10 melhores coisas da vida gerando um “wallpaper” especial. De quebra pode entrar nos dois blogs que aparecem no filme e perceber que adolescentes não são todos iguais. E pode também postar um vídeo. Se for escolhido, vai aparecer no YouTube.
A voz do grande Arnaldo Antunes encerra o filme e resume tudo a que acabamos de assistir na sua canção “As melhores coisas”.
É isso aí. Uma coisa bonita de se ver.
Postado em 30 de abril de 2010, às 11:00
Quem não se lembra de sua adolescência com saudades, fique longe desse filme. “As melhores coisas do mundo” não é para você.
Agora, se sente saudades ou se você ainda é um adolescente, vai se apaixonar por Mano, Pedro, Carol, Bruna e toda a galera.
Porque esse filme não se dirige somente ao mercado “teen”.
Acolhe de boa vontade quem quer saber mais sobre os jovens de hoje ou deixar-se levar por recordações de sua própria adolescência.
Certo. Outras gerações não tiveram essa liberdade que vemos no filme e na vida. A sexualidade também não era escancarada à vista dos pais. Meninas não fumavam abertamente no recreio. As conversas tentavam ser mais policiadas pelos próprios jovens de outrora.
O que se vê em “As melhores coisas do mundo” pode chocar e dar inveja a quem pensa que o importante é o comportamento externo. Ao longo do filme porém, vai ver que questões de mundo interno são sempre as inevitáveis e as que mudam o rumo do destino.
O herói da história é Mano (Francisco Miguez) e através dele, sua família e seus colegas de escola, Bodanzky vai nos revelar seu olhar interessado sobre esse mundinho: temos Pedro (Fiuk), o irmão depressivo e intelectualizado, a mãe patética (Denise Fraga), o pai problemático, a melhor amiga (Gabriela Rocha), a aparentemente liberada Valéria, a indiscreta Dri e outros mais.
Cada geração faz essa passagem do seu jeito mas o trânsito pela adolescência traz à tona sempre as mesmas velhas perguntas sobre a vida.
Bem lá no fundo, só as roupas e a música são diferentes. Nem isso, talvez, já que a canção “Something” dos velhos Beatles é tocada durante todo o filme e faz a ponte com os ouvidos da velha guarda.
Dedilhada de forma bisonha no início por Mano e seu pobre violão, ao final será o tema do solo potente de uma guitarra vermelha, nas mãos de um Mano mais amadurecido. Cantada com vozinha de bossa nova no início, no fim do filme não precisa de vozes. O toque firme das cordas daquela guitarra faz com que a gente entenda que quem a toca agora aprendeu lições não só de instrumento mas sobre si mesmo e o mundo.
A figura do professor mítico que ensina atitude e é reconhecido como o modelo que os adolescentes precisam, aparece duas vezes nessa história. Um deles é o professor Artur (Caio Blat), que rouba beijo e corações das alunas, além de possuir carisma e empatia para ensinar. O outro é interpretado com doçura e firmeza por Paulo Vilhena que ensina Mano a abraçar o violão para alcançar a tão sonhada e poderosa guitarra. E conquistar a gata.
Sem falsos moralismos mas com ética é que se aprende a ser gente. Assim, meninos saudáveis transam com meninas da mesma idade com camisinha e não gostam de bordel.
Há uma preocupação pedagógica que não é chata nem se acha dona da verdade nesse filme.
O roteiro de Luiz Bolognesi foi baseado nos escritos de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto que são adultos que se sentem responsáveis pelas novas gerações.
A música da trilha original de BiD pontua e ressalta o conteúdo emocional de cada momento do filme. A câmara de Laís Bodanzky também se faz jovem: ousa enquadramentos, corre atrás, fica lenta de cansaço e, assim fazendo, mostra bem como é o ritmo do corpo e mente dos adolescentes.
Na verdade esse filme fazia falta no cinema nacional. Falar com frescor e espontaneidade sobre o presente através da turma de uma escola de classe média em São Paulo, é mostrar de um jeito diferente um Brasil que só aparece na TV no formato novela.
Recomendo vivamente à garotada visitar o site do filme que é interativo e tem um projeto gráfico atraente. Lá você encontra informações, “downloads”, fotos e pode fazer a lista das 10 melhores coisas da vida gerando um “wallpaper” especial. De quebra pode entrar nos dois blogs que aparecem no filme e perceber que adolescentes não são todos iguais. E pode também postar um vídeo. Se for escolhido, vai aparecer no YouTube.
A voz do grande Arnaldo Antunes encerra o filme e resume tudo a que acabamos de assistir na sua canção “As melhores coisas”.
É isso aí. Uma coisa bonita de se ver.
Alice no país das maravilhas
Alice no país das maravilhas (Alice in Wonderland, Tim Burton, EUA, 2010)
Postado em 5 de maio de 2010, às 17h58
Crescer é um desafio. Quando Alice cai no buraco da árvore, dessa vez para fugir a um noivado, o País das Maravilhas está destroçado.
Passou um dragão por lá, a mando da Rainha Vermelha que, além de cortar cabeças, quer destruir também o que restou dos domínios de sua irmã, a suave Rainha Branca, e colocar para sempre a coroa em sua própria cabeça.
Claro que quem não é criança reconhece nessa metáfora a perda da idade da inocência, a destruição necessária do casulo da criancice para que possamos nos transformar em adultos. E escolher a vida que queremos.
Será que só somos felizes na infância? Outro filme que está passando (“As melhores coisas do mundo”) tem uma resposta a essa questão: podemos ser felizes também na idade adulta. Só que é mais complicado.
O diretor Tim Burton carrega nas tintas sombrias nesse filme em deslumbrante 3D em que cada cena é um espetáculo à parte.
Alice não veste mais o seu vestidinho azul com avental branco e sapatos pretos com meia três quartos.
Já no mundo lá fora ela se recusa a colocar espartilho e nada de meias, para desgosto de sua mãe. Alice agora é uma feminista em processo.
O pior aconteceu para Alice. Seu rosto está pálido, seus ombros caídos e ela perdeu o brilho da menininha que ela foi um dia. Seu pai querido morreu…
Descendo ao mundo das maravilhas perdidas, Alice faz também uma descida às regiões do luto, que sabemos como são sofridas. E só há um caminho de volta. Passa pelo reconhecimento de quem somos e da percepção de que o que foi perdido não voltará, a não ser dentro de nós.
Por isso todos perguntam a Alice:
“- Qual é o seu nome? Quem é você?”
Alice se dá conta de que aquilo não é mais um sonho infantil. Porque perder a identidade e encontrar-se nas sombras é um pesadelo.
Mas ela se apruma, reencontra a chave perdida da imaginação e vence o dragão da morte do pai, reencontrando-o em seu coração.
Quanto à infância, quem quer acha, quem quer lembra.
Felizmente é o que acontece com Alice.
Os mesmos personagens da primeira história também estão lá e vão ter que passar pela mesma repaginação que Alice sofre. Para reconquistar o próprio brilho precisam urgentemente que Alice empunhe a espada e ponha ordem no seu reino.
Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco veste o seu papel como uma luva. Sua dança em homenagem a Michael Jackson surpreende e arrepia. Helena Bonham Carter está perfeita como a cruel e ambiciosa Rainha Vermelha e Anne Hattaway toda neve, prata e luar encanta como a Rainha Branca (de batom preto para não esquecermos que estamos em um pesadelo daqueles).
Um grande achado da figurinista Colleen Atwood foi vestir Alice com roupas de “top model” que ela vai aproveitando e refazendo conforme cresce ou diminue. Porque ela não perdeu a mania de comer o bolo e beber da garrafinha da primeira história e diminuir e aumentar de tamanho.
Mia Wasikowska empresta seu arzinho sexy e matreiro à personagem e faz com graça a Alice mocinha. Arrasa no modelo de tule preto e vermelho com faixa de estampa animal. E quando coloca a armadura reluzente parece um Arcanjo.
A moral da história é: aceite as transformações e encare as próprias encruzilhadas, sabendo que o que você escolher será para sempre você.
Alice, no fim do filme, livre como uma borboleta, parte para novas aventuras.
Afinal, já sabemos que ela não foi feita para ficar em casa obedecendo a marido.
Postado em 5 de maio de 2010, às 17h58
Crescer é um desafio. Quando Alice cai no buraco da árvore, dessa vez para fugir a um noivado, o País das Maravilhas está destroçado.
Passou um dragão por lá, a mando da Rainha Vermelha que, além de cortar cabeças, quer destruir também o que restou dos domínios de sua irmã, a suave Rainha Branca, e colocar para sempre a coroa em sua própria cabeça.
Claro que quem não é criança reconhece nessa metáfora a perda da idade da inocência, a destruição necessária do casulo da criancice para que possamos nos transformar em adultos. E escolher a vida que queremos.
Será que só somos felizes na infância? Outro filme que está passando (“As melhores coisas do mundo”) tem uma resposta a essa questão: podemos ser felizes também na idade adulta. Só que é mais complicado.
O diretor Tim Burton carrega nas tintas sombrias nesse filme em deslumbrante 3D em que cada cena é um espetáculo à parte.
Alice não veste mais o seu vestidinho azul com avental branco e sapatos pretos com meia três quartos.
Já no mundo lá fora ela se recusa a colocar espartilho e nada de meias, para desgosto de sua mãe. Alice agora é uma feminista em processo.
O pior aconteceu para Alice. Seu rosto está pálido, seus ombros caídos e ela perdeu o brilho da menininha que ela foi um dia. Seu pai querido morreu…
Descendo ao mundo das maravilhas perdidas, Alice faz também uma descida às regiões do luto, que sabemos como são sofridas. E só há um caminho de volta. Passa pelo reconhecimento de quem somos e da percepção de que o que foi perdido não voltará, a não ser dentro de nós.
Por isso todos perguntam a Alice:
“- Qual é o seu nome? Quem é você?”
Alice se dá conta de que aquilo não é mais um sonho infantil. Porque perder a identidade e encontrar-se nas sombras é um pesadelo.
Mas ela se apruma, reencontra a chave perdida da imaginação e vence o dragão da morte do pai, reencontrando-o em seu coração.
Quanto à infância, quem quer acha, quem quer lembra.
Felizmente é o que acontece com Alice.
Os mesmos personagens da primeira história também estão lá e vão ter que passar pela mesma repaginação que Alice sofre. Para reconquistar o próprio brilho precisam urgentemente que Alice empunhe a espada e ponha ordem no seu reino.
Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco veste o seu papel como uma luva. Sua dança em homenagem a Michael Jackson surpreende e arrepia. Helena Bonham Carter está perfeita como a cruel e ambiciosa Rainha Vermelha e Anne Hattaway toda neve, prata e luar encanta como a Rainha Branca (de batom preto para não esquecermos que estamos em um pesadelo daqueles).
Um grande achado da figurinista Colleen Atwood foi vestir Alice com roupas de “top model” que ela vai aproveitando e refazendo conforme cresce ou diminue. Porque ela não perdeu a mania de comer o bolo e beber da garrafinha da primeira história e diminuir e aumentar de tamanho.
Mia Wasikowska empresta seu arzinho sexy e matreiro à personagem e faz com graça a Alice mocinha. Arrasa no modelo de tule preto e vermelho com faixa de estampa animal. E quando coloca a armadura reluzente parece um Arcanjo.
A moral da história é: aceite as transformações e encare as próprias encruzilhadas, sabendo que o que você escolher será para sempre você.
Alice, no fim do filme, livre como uma borboleta, parte para novas aventuras.
Afinal, já sabemos que ela não foi feita para ficar em casa obedecendo a marido.
“Tudo pode dar certo”
“Tudo pode dar certo” (Whatever works, Woody Allen, EUA, 2009)
Postado em 14 de maio de 2010, às 9h36
Um gênio com QI 200. Físico. Rabujento, excêntrico, hipocondríaco. Mas, acima de tudo, um narcisista que pensa que o mundo gira em torno dele e que ele sempre tem razão.
Um quase Prêmio Nobel, como ele mesmo se intitula, sabe tudo sobre o universo e a vida e, como perfeito misantropo, analisa os relacionamentos pessoais como se estivesse em um laboratório.
Judeu passado em anos, acha que a solução para a humanidade transformar-se seria mandar todas as crianças passar duas semanas obrigatórias em um campo de concentração para aprender até onde pode ir a maldade humana.
Reduzido a professor de xadrez, este é o momento ideal para ele triunfar sobre a humanidade. Arrasa com os aluninhos e não raro atira as peças do tabuleiro em suas cabeças enquanto aterroriza as mães com gritos sobre a estupidez de seus rebentos.
“- Você deveria abrir uma escola de diplomacia “, ironiza um de seus três amigos com quem ele monologa em um restaurantezinho italiano.
Boris Yelnikoff (Larry David) sofre de ataques de pânico e durante um deles tentou o suicídio, atirando-se pela janela. Por sorte ou por azar, escapou da morte aterissando em um toldo. Isso tornou-o manco, o que não diminue o tamanho da sua arrogância. Conta sem remorsos que divorciou-se de Jessica (Carolyn McCormick), porque “o que lhe sobrava em ego, faltava em superego”.
E, em um achado que não é novidade mas que funciona, ele ignora a divisão tela/platéia e conversa conosco, criando assim uma cumplicidade inesperada.
Boris é o novo alter-ego de Woody Allen que, segundo alguns, escreveu esse roteiro em 1977, considerado o seu período mais criativo, engavetando-o em seguida. Lenda ou verdade?
O fato é que o diretor americano mais elogiado na Europa, volta a filmar em New York, reduzindo a cidade a espaços fechados, quando muito a mesas de restaurante na calçada.
Mas o principal nesse novo filme de Woody Allen é como ele nos faz rir com situações tragi-cômicas e reviravoltas inesperadas. Quase duas horas de puro humor inteligente.
A história envolve personagens que são achados desse grande observador da natureza humana que ele é: a quase menina Melody (Evan Rachel Wood), uma lindíssima Elisa de “My fair lady” do século XXI, sua mãe e pai (Patricia Clarkson e Ed Begley Jr), sulistas religiosos que só esperam um convite da vida para revelar sua verdadeira natureza e os amigos (Michael McKean, Adam Brooks e Lyle Kanove) que também entram na dança.
Boris, em meio a discursos ácidos, pouco a pouco vai se transformando perante os nossos olhos mas nunca dando o braço a torcer.
Através de uma garota de 21 anos, ignorante e belíssima que entra por acaso em sua vida, ele vai bancar o Professor Higgins tentando ilustrar a mente simplória de Melody com teorias da física aplicadas ao quotidiano.
Mas, como bem diz Heisenberg, a presença do observador influencia o objeto observado: Boris observa Melody que observa Boris e...
“Whatever works” (ou seja, se funciona para você, tudo bem) faz todo mundo sair do cinema comentando as novas piadas de Woody Allen com prazer.
Vá você também conferir. Pode ser que funcione para tirar você da mesmice das piadas sem graça do dia a dia.
Postado em 14 de maio de 2010, às 9h36
Um gênio com QI 200. Físico. Rabujento, excêntrico, hipocondríaco. Mas, acima de tudo, um narcisista que pensa que o mundo gira em torno dele e que ele sempre tem razão.
Um quase Prêmio Nobel, como ele mesmo se intitula, sabe tudo sobre o universo e a vida e, como perfeito misantropo, analisa os relacionamentos pessoais como se estivesse em um laboratório.
Judeu passado em anos, acha que a solução para a humanidade transformar-se seria mandar todas as crianças passar duas semanas obrigatórias em um campo de concentração para aprender até onde pode ir a maldade humana.
Reduzido a professor de xadrez, este é o momento ideal para ele triunfar sobre a humanidade. Arrasa com os aluninhos e não raro atira as peças do tabuleiro em suas cabeças enquanto aterroriza as mães com gritos sobre a estupidez de seus rebentos.
“- Você deveria abrir uma escola de diplomacia “, ironiza um de seus três amigos com quem ele monologa em um restaurantezinho italiano.
Boris Yelnikoff (Larry David) sofre de ataques de pânico e durante um deles tentou o suicídio, atirando-se pela janela. Por sorte ou por azar, escapou da morte aterissando em um toldo. Isso tornou-o manco, o que não diminue o tamanho da sua arrogância. Conta sem remorsos que divorciou-se de Jessica (Carolyn McCormick), porque “o que lhe sobrava em ego, faltava em superego”.
E, em um achado que não é novidade mas que funciona, ele ignora a divisão tela/platéia e conversa conosco, criando assim uma cumplicidade inesperada.
Boris é o novo alter-ego de Woody Allen que, segundo alguns, escreveu esse roteiro em 1977, considerado o seu período mais criativo, engavetando-o em seguida. Lenda ou verdade?
O fato é que o diretor americano mais elogiado na Europa, volta a filmar em New York, reduzindo a cidade a espaços fechados, quando muito a mesas de restaurante na calçada.
Mas o principal nesse novo filme de Woody Allen é como ele nos faz rir com situações tragi-cômicas e reviravoltas inesperadas. Quase duas horas de puro humor inteligente.
A história envolve personagens que são achados desse grande observador da natureza humana que ele é: a quase menina Melody (Evan Rachel Wood), uma lindíssima Elisa de “My fair lady” do século XXI, sua mãe e pai (Patricia Clarkson e Ed Begley Jr), sulistas religiosos que só esperam um convite da vida para revelar sua verdadeira natureza e os amigos (Michael McKean, Adam Brooks e Lyle Kanove) que também entram na dança.
Boris, em meio a discursos ácidos, pouco a pouco vai se transformando perante os nossos olhos mas nunca dando o braço a torcer.
Através de uma garota de 21 anos, ignorante e belíssima que entra por acaso em sua vida, ele vai bancar o Professor Higgins tentando ilustrar a mente simplória de Melody com teorias da física aplicadas ao quotidiano.
Mas, como bem diz Heisenberg, a presença do observador influencia o objeto observado: Boris observa Melody que observa Boris e...
“Whatever works” (ou seja, se funciona para você, tudo bem) faz todo mundo sair do cinema comentando as novas piadas de Woody Allen com prazer.
Vá você também conferir. Pode ser que funcione para tirar você da mesmice das piadas sem graça do dia a dia.
Querido John
Querido John (Dear John, Lasse Halstrom, EUA, 2010)
Postado em 21 de maio de 2010, às 15h58
É cinemão. Mas tem qualidades. Vejamos.
Para começar, o diretor de “Querido John” é Lasse Hallstrom, sueco, que dirigiu um dos mais belos filmes sobre a infância, “Minha vida de cachorro”, em 1985. Esse filme revelou o talento do então jovem diretor para o mundo. Filmado do ponto de vista do garoto, encanta pelo otimismo e esperança.
Outro sucesso do diretor foi “Chocolate”, de 2000, com Juliette Binoche e Johnny Depp, filmado em uma cidadezinha francesa, tendo como prato principal a tolerância entre as pessoas.
Lasse Hallstrom também é o diretor de “Regras da vida”, de 1999, que deu a Michael Caine o Oscar de melhor ator coadjuvante e que tem como roteirista John Irving, autor do livro best-seller. Aqui outra vez há um foco em aprender a viver e harmonizar-se consigo mesmo e com o mundo.
Ou seja, o que anima Lasse Hallstrom a filmar é buscar “um entendimento do humano”, como disse a Luis Carlos Merten em uma entrevista na Folha.
Dessa vez, em “Querido John”, o diretor sueco filmou um roteiro baseado em um livro de Nicholas Spark, que está em quarto lugar na lista dos mais vendidos em São Paulo. Aliás seus livros foram muitas vezes adaptados para o cinema. Caso de “Diário de uma paixão” que virou “The notebook”em 2004 ou o ainda inédito “The last song”, “A última música” que será lançado em breve no Brasil.
Em “Dear John”, Lasse Hallstrom quer mexer com os nossos sentimentos.
E, não sei vocês, mas o casalzinho tagarela ao meu lado no cinema, passou dos risinhos às lágrimas assim que começaram a prestar atenção à história de Savannah e John. Ela, Amanda Seyfried, ele, Channing Tatum. Belos, jovens, apaixonados e separados pela guerra, escrevem cartas de amor.
Concordo. Os tempos são outros. “Querido John” não chega aos pés de “Casablanca”.
Mas, se não formos muito saudosistas e apegados a nossos critérios de cinema sofisticado, esse filme pode mexer também com os mais exigentes.
Porque existe a história paralela de John com seu pai, vivido com sensibilidade pelo ator Richard Jenkins, indicado ao Oscar desse ano por “O visitante”.
Fechado, assustado, metódico mas presente em silêncio na vida do filho sem mãe, esse pai, que a mocinha Savannah percebe como alguém que sofre de um quadro com características autistas, vai emocionar todo mundo em cenas como a do corredor do hospital ou no carro agarrado ao prato de lasanha.
E aí vocês vão ver aparecer claramente o diretor Lasse Hallstrom de corpo inteiro, dirigindo os atores com maestria e extraindo da história o que ela tem de melhor.
Esse personagem do pai doente e sofrido vai marcar a vida de seu filho, o soldado John. Ele também se fecha na guerra.
E Amanda Seyfried, que vive a patricinha Savannah e já foi a filha de Meryl Streep em “Mamma mia!” e a garota de programa de “O preço da traição”, em cartaz em São Paulo, atua com delicadeza e canta com suavidade a canção que ela mesma compôs, “Little house”.
Praias douradas, campos ao luar, a cidade de Charleston na Carolina do Sul, cavalos, crianças louras, surfe e gente bonita. E a cena das moedas caindo sobre John, que se vê como uma delas, já que tão amadas por seu pai.
Se “Querido John” não é tudo aquilo que a gente espera, tem seus momentos de bom cinema.
Postado em 21 de maio de 2010, às 15h58
É cinemão. Mas tem qualidades. Vejamos.
Para começar, o diretor de “Querido John” é Lasse Hallstrom, sueco, que dirigiu um dos mais belos filmes sobre a infância, “Minha vida de cachorro”, em 1985. Esse filme revelou o talento do então jovem diretor para o mundo. Filmado do ponto de vista do garoto, encanta pelo otimismo e esperança.
Outro sucesso do diretor foi “Chocolate”, de 2000, com Juliette Binoche e Johnny Depp, filmado em uma cidadezinha francesa, tendo como prato principal a tolerância entre as pessoas.
Lasse Hallstrom também é o diretor de “Regras da vida”, de 1999, que deu a Michael Caine o Oscar de melhor ator coadjuvante e que tem como roteirista John Irving, autor do livro best-seller. Aqui outra vez há um foco em aprender a viver e harmonizar-se consigo mesmo e com o mundo.
Ou seja, o que anima Lasse Hallstrom a filmar é buscar “um entendimento do humano”, como disse a Luis Carlos Merten em uma entrevista na Folha.
Dessa vez, em “Querido John”, o diretor sueco filmou um roteiro baseado em um livro de Nicholas Spark, que está em quarto lugar na lista dos mais vendidos em São Paulo. Aliás seus livros foram muitas vezes adaptados para o cinema. Caso de “Diário de uma paixão” que virou “The notebook”em 2004 ou o ainda inédito “The last song”, “A última música” que será lançado em breve no Brasil.
Em “Dear John”, Lasse Hallstrom quer mexer com os nossos sentimentos.
E, não sei vocês, mas o casalzinho tagarela ao meu lado no cinema, passou dos risinhos às lágrimas assim que começaram a prestar atenção à história de Savannah e John. Ela, Amanda Seyfried, ele, Channing Tatum. Belos, jovens, apaixonados e separados pela guerra, escrevem cartas de amor.
Concordo. Os tempos são outros. “Querido John” não chega aos pés de “Casablanca”.
Mas, se não formos muito saudosistas e apegados a nossos critérios de cinema sofisticado, esse filme pode mexer também com os mais exigentes.
Porque existe a história paralela de John com seu pai, vivido com sensibilidade pelo ator Richard Jenkins, indicado ao Oscar desse ano por “O visitante”.
Fechado, assustado, metódico mas presente em silêncio na vida do filho sem mãe, esse pai, que a mocinha Savannah percebe como alguém que sofre de um quadro com características autistas, vai emocionar todo mundo em cenas como a do corredor do hospital ou no carro agarrado ao prato de lasanha.
E aí vocês vão ver aparecer claramente o diretor Lasse Hallstrom de corpo inteiro, dirigindo os atores com maestria e extraindo da história o que ela tem de melhor.
Esse personagem do pai doente e sofrido vai marcar a vida de seu filho, o soldado John. Ele também se fecha na guerra.
E Amanda Seyfried, que vive a patricinha Savannah e já foi a filha de Meryl Streep em “Mamma mia!” e a garota de programa de “O preço da traição”, em cartaz em São Paulo, atua com delicadeza e canta com suavidade a canção que ela mesma compôs, “Little house”.
Praias douradas, campos ao luar, a cidade de Charleston na Carolina do Sul, cavalos, crianças louras, surfe e gente bonita. E a cena das moedas caindo sobre John, que se vê como uma delas, já que tão amadas por seu pai.
Se “Querido John” não é tudo aquilo que a gente espera, tem seus momentos de bom cinema.
Os homens que não amavam as mulheres
Os homens que não amavam as mulheres - Niels Arden Opley - Suécia /Dinamarca/Alemanha, 2009
Postado em 24 de maio de 2010, às 12h03
"Millenium" foi o nome dado por Stieg Larsson , escritor sueco, ao que seria uma série de dez livros. O primeiro volume foi um sucesso de público em todo o mundo, o segundo também. E foi triste ficar sabendo que, aos 50 anos, depois de entregar o terceiro volume ao editor, Larsson morreu de ataque cardíaco em 2004.
Volumoso, “Os homens que não amavam as mulheres” é um livro que se lê correndo, acompanhando a vida agitada e perigosa do jornalista Mikail Blomkvist que, no início da história, acaba de ser processado por uma reportagem envolvendo uma grande corporação, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas, publicada na revista “Millenium” da qual é sócio.
Nesse momento ele é contratado para descobrir o paradeiro de uma mulher, desaparecida há 40 anos quando ela tinha 16 e que seu avô milionário crê que foi assassinada. E por um membro do clã familiar.
O filme, dirigido com eficiência pelo dinamarquês Opley, tem 152 minutos de duração e é bem fiel ao livro.
Quando Blomkvist (Michael Nyquist), um homem maduro mas atraente, vai até a cidadezinha sueca em uma ilha gélida com casinhas brancas pontuando uma paisagem verde pálida e encontra o chefe da família poderosa em sua mansão imponente mas austera, já estamos conquistados pelo mistério.
Mas a entrada em cena de uma garota magra, “piercings”e uma tatuagem de dragão em seu corpo nú esguio, faz o espectador ficar ainda mais atento.
Ela, Lisbeth Salander, (Noomi Rapace) , sempre de preto estilo “punk”, é a melhor coisa do filme. “Hacker”magistral, ela tem memória fotográfica e inteligência rápida. Frágil na aparência, o que a faz parecer indefesa, Lisbeth surpreende com sua pronta capacidade de assegurar a própria sobrevivência, já que conhece todos os truques das artes marciais.
Ela vai ajudar o jornalista no caso do mistério da mulher desaparecida e roubar a cena sempre.
Perversão sexual e ideologia nazista nas altas rodas suecas apimentam a história dessa investigação cheia de suspense e reviravoltas.
Como o segundo livro já virou filme também, “A menina que brincava com fogo” estréia em São Paulo no mês que vem.
Aconselho vocês a acompanhar esse primeiro capítulo para engatar no segundo que vai girar em torno a Lisbeth Salander, a orfã de passado nebuloso.
E façam isto antes que chegue por aqui a versão de Hollywood que já está sendo filmada. Prometo para vocês que os filmes suecos são sempre mais “sexy”.
Postado em 24 de maio de 2010, às 12h03
"Millenium" foi o nome dado por Stieg Larsson , escritor sueco, ao que seria uma série de dez livros. O primeiro volume foi um sucesso de público em todo o mundo, o segundo também. E foi triste ficar sabendo que, aos 50 anos, depois de entregar o terceiro volume ao editor, Larsson morreu de ataque cardíaco em 2004.
Volumoso, “Os homens que não amavam as mulheres” é um livro que se lê correndo, acompanhando a vida agitada e perigosa do jornalista Mikail Blomkvist que, no início da história, acaba de ser processado por uma reportagem envolvendo uma grande corporação, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas, publicada na revista “Millenium” da qual é sócio.
Nesse momento ele é contratado para descobrir o paradeiro de uma mulher, desaparecida há 40 anos quando ela tinha 16 e que seu avô milionário crê que foi assassinada. E por um membro do clã familiar.
O filme, dirigido com eficiência pelo dinamarquês Opley, tem 152 minutos de duração e é bem fiel ao livro.
Quando Blomkvist (Michael Nyquist), um homem maduro mas atraente, vai até a cidadezinha sueca em uma ilha gélida com casinhas brancas pontuando uma paisagem verde pálida e encontra o chefe da família poderosa em sua mansão imponente mas austera, já estamos conquistados pelo mistério.
Mas a entrada em cena de uma garota magra, “piercings”e uma tatuagem de dragão em seu corpo nú esguio, faz o espectador ficar ainda mais atento.
Ela, Lisbeth Salander, (Noomi Rapace) , sempre de preto estilo “punk”, é a melhor coisa do filme. “Hacker”magistral, ela tem memória fotográfica e inteligência rápida. Frágil na aparência, o que a faz parecer indefesa, Lisbeth surpreende com sua pronta capacidade de assegurar a própria sobrevivência, já que conhece todos os truques das artes marciais.
Ela vai ajudar o jornalista no caso do mistério da mulher desaparecida e roubar a cena sempre.
Perversão sexual e ideologia nazista nas altas rodas suecas apimentam a história dessa investigação cheia de suspense e reviravoltas.
Como o segundo livro já virou filme também, “A menina que brincava com fogo” estréia em São Paulo no mês que vem.
Aconselho vocês a acompanhar esse primeiro capítulo para engatar no segundo que vai girar em torno a Lisbeth Salander, a orfã de passado nebuloso.
E façam isto antes que chegue por aqui a versão de Hollywood que já está sendo filmada. Prometo para vocês que os filmes suecos são sempre mais “sexy”.
O preço da traição
O preço da traição - Chloe, Atom Egoyan, EUA / Canadá / França, 2009
Postado em 28 de maio de 2010, às 12h33
“Porno-soft ”? Se visto de um ângulo conservador, esse filme pode ser colocado nesse nicho.
Mas quem conhece o diretor egípcio naturalizado canadense, Atom Egoyan, sabe que o caminho não é por aí. Quem se lembra de “The sweet hereafter”, “O doce amanhã”, de 1997, sobre o sensível tema da morte das crianças de uma cidadezinha e “Exotica”, de 1994, um quebra-cabeças emocional que se passa em um cabaré, sabe que o diretor se interessa pelos profundos mistérios da natureza humana e situações - limite que expõem nossas fragilidades.
O roteiro de “O preço da traição” baseou-se no filme francês “Natalie”, de 2003, dirigido por Anne Fontaine. E foi escrito por uma mulher talentosa, Erin Cressida Wilson. Intrigou Egoyan que viu nele “o estudo de um casamento”.
O filme pode ser contado em poucas palavras como sendo a história de um triângulo amoroso que encena infidelidade, fantasia e erotismo.
Tem Julianne Moore como a esposa de meia-idade, Liam Neeson como o marido bonito e sedutor e Amanda Seyfried como a garota de programa. Contratada pela mulher para tentar seduzir o próprio marido, já que ela desconfia de sua fidelidade, a loura menina sexy vai fazer surgir o inesperado e o trágico.
Por que será que a médica ginecologista de sucesso, interpretada por Julianne Moore, não pensou em contratar um detetive para espionar o marido? Essa é a pergunta-chave que desvenda a motivação da conduta da dra Stewart.
Casada com um professor atraente, sempre cercado de jovens alunas, Catherine mostra, desde as primeiras cenas, que está com a auto-estima baixa. Seus ombros caidos, de costas para a câmara, são a imagem externa de seu mundo interno desabando.
Envelhecer nunca é fácil. Especialmente para uma mulher bonita, deprimida, que começa a deixar-se levar por paranóias e carências.
Além disso o marido bonitão fica cada dia mais charmoso. Às tantas ela diz para ele:
“- Você ficando mais bonito a cada dia e eu me sentindo velha, tão velha…”
Uma tremenda injustiça da natureza.
Quanta inveja começa a purgar no coração de Catherine que quer para ela a vida interessante e excitante do marido... Só que a inveja nunca foi boa conselheira e vai destruir ainda mais as chances de felicidade dessa mulher.
Tudo vai de mal a pior para Catherine que, além do mais, está perdendo o seu “bebê”: seu filho único entrou na adolescência e trocou seus mimos pelas menininhas em flor que traz para casa para passar a noite com elas.
Quando surge Chloe na vida dessa mulher elegante, carente e desnorteada que mora em uma casa contemporânea, só vidros transparentes herméticamente fechados, há como que a passagem de um vento fresco de verão que estremece folhas já de outono.
Catherine quer então se ver no espelho de Chloe. Por isso não contrata detetive. Ela quer a juventude da loura e suas histórias excitantes sobre a vida sexual do marido. Perdeu o rumo. E vai pagar caro por isso.
E preste atenção. Em um jogo de imagens bem ao gosto do diretor Atom Egoyan, o filme tem duas cenas finais. Na primeira, a realidade atinge a todos com sua inequívoca clareza. Na segunda, uma fantasia narcísica de poder é encenada para cegar os olhos impotentes de Catherine e os nossos perante a dureza dos fatos. Pura ilusão.
Você pode até escolher qual delas prefere. Mas não se esqueça: devemos nos responsabilizar pelas consequências de nossas escolhas em nossas vidas. Quem enfrenta a realidade, por mais dura que ela seja, pode tentar modificá-la. Quem quer se enganar perde essa oportunidade.
Postado em 28 de maio de 2010, às 12h33
“Porno-soft ”? Se visto de um ângulo conservador, esse filme pode ser colocado nesse nicho.
Mas quem conhece o diretor egípcio naturalizado canadense, Atom Egoyan, sabe que o caminho não é por aí. Quem se lembra de “The sweet hereafter”, “O doce amanhã”, de 1997, sobre o sensível tema da morte das crianças de uma cidadezinha e “Exotica”, de 1994, um quebra-cabeças emocional que se passa em um cabaré, sabe que o diretor se interessa pelos profundos mistérios da natureza humana e situações - limite que expõem nossas fragilidades.
O roteiro de “O preço da traição” baseou-se no filme francês “Natalie”, de 2003, dirigido por Anne Fontaine. E foi escrito por uma mulher talentosa, Erin Cressida Wilson. Intrigou Egoyan que viu nele “o estudo de um casamento”.
O filme pode ser contado em poucas palavras como sendo a história de um triângulo amoroso que encena infidelidade, fantasia e erotismo.
Tem Julianne Moore como a esposa de meia-idade, Liam Neeson como o marido bonito e sedutor e Amanda Seyfried como a garota de programa. Contratada pela mulher para tentar seduzir o próprio marido, já que ela desconfia de sua fidelidade, a loura menina sexy vai fazer surgir o inesperado e o trágico.
Por que será que a médica ginecologista de sucesso, interpretada por Julianne Moore, não pensou em contratar um detetive para espionar o marido? Essa é a pergunta-chave que desvenda a motivação da conduta da dra Stewart.
Casada com um professor atraente, sempre cercado de jovens alunas, Catherine mostra, desde as primeiras cenas, que está com a auto-estima baixa. Seus ombros caidos, de costas para a câmara, são a imagem externa de seu mundo interno desabando.
Envelhecer nunca é fácil. Especialmente para uma mulher bonita, deprimida, que começa a deixar-se levar por paranóias e carências.
Além disso o marido bonitão fica cada dia mais charmoso. Às tantas ela diz para ele:
“- Você ficando mais bonito a cada dia e eu me sentindo velha, tão velha…”
Uma tremenda injustiça da natureza.
Quanta inveja começa a purgar no coração de Catherine que quer para ela a vida interessante e excitante do marido... Só que a inveja nunca foi boa conselheira e vai destruir ainda mais as chances de felicidade dessa mulher.
Tudo vai de mal a pior para Catherine que, além do mais, está perdendo o seu “bebê”: seu filho único entrou na adolescência e trocou seus mimos pelas menininhas em flor que traz para casa para passar a noite com elas.
Quando surge Chloe na vida dessa mulher elegante, carente e desnorteada que mora em uma casa contemporânea, só vidros transparentes herméticamente fechados, há como que a passagem de um vento fresco de verão que estremece folhas já de outono.
Catherine quer então se ver no espelho de Chloe. Por isso não contrata detetive. Ela quer a juventude da loura e suas histórias excitantes sobre a vida sexual do marido. Perdeu o rumo. E vai pagar caro por isso.
E preste atenção. Em um jogo de imagens bem ao gosto do diretor Atom Egoyan, o filme tem duas cenas finais. Na primeira, a realidade atinge a todos com sua inequívoca clareza. Na segunda, uma fantasia narcísica de poder é encenada para cegar os olhos impotentes de Catherine e os nossos perante a dureza dos fatos. Pura ilusão.
Você pode até escolher qual delas prefere. Mas não se esqueça: devemos nos responsabilizar pelas consequências de nossas escolhas em nossas vidas. Quem enfrenta a realidade, por mais dura que ela seja, pode tentar modificá-la. Quem quer se enganar perde essa oportunidade.
Assinar:
Postagens (Atom)