quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Sem Limites




“Sem Limites”- “Limitless”, Estados Unidos, 2011
Direção: Neil Burger

Um homem jovem está prestes a pular do terraço de seu apartamento. Ele está de pé, perigosamente equilibrado no parapeito. Escutamos um barulho alto. Alguém está arrombando a porta blindada. A saída é o suicídio? O que ele fez?
Mas o narrador, o próprio quase suicida, acalma os ânimos começando a contar sua história, num “flashback”.
Ele é Edward Morra (Bradley Cooper), um escritor lutando contra a página em branco no seu computador. O prazo de entrega de seu romance está próximo e ele não escreveu nenhuma linha. Pior, a namorada o deixou.
Está abatido, cansado, desanimado. Sai à rua para tomar um ar e tromba com o ex cunhado, Vernon (Johnny Whitworth), traficante, que o apresenta a uma nova droga, o NZT.
“- É disso que você precisa”, diz Vernon.
Já que não tem nada a perder, Eddie resolve experimentar aquela pílula transparente, que parece que estimula as atividades cerebrais. Se fosse verdade, viria a calhar.
Volta ao apartamento e, em três horas, sua editora está surpresa com o material que ele deixou em sua mesa. Eddie parece um novo homem. Seus olhos brilham, a postura é a de um homem em plena vitalidade e seu cérebro está a mil por hora. No dia seguinte ele entrega o livro pronto. E melhor, um saco com as pílulas cai do céu para o seu consumo.
Eddie está radiante com o que consegue fazer sem nenhum esforço. Todos os dados arquivados em seu cérebro, tanto os conscientes quanto os inconscientes, estão à sua disposição. Lembra-se de tudo que ouviu e aprendeu. Descobriu que é só entrar em contato com algumas frases de uma nova língua para passar a falar correntemente. Calcula com incrível velocidade e descobre facilmente soluções para problemas difíceis. Aprende a tocar piano como um virtuoso em horas. Sua visão ampliou-se e ele enxerga o mundo com olhos de um super QI.
Com tudo isso, ser escritor parece pouco para ele agora. Resolve entrar no mundo das finanças e fazer fortuna. Dito e feito. E torna-se o novo alvo de um grande investidor, interpretado por Robert de Niro, que quer ouvir suas avaliações preciosas.
E a namorada Abbie Cornish está interessada de novo. Aliás chovem mulheres em cima dele.
Nem tudo é céu sem nuvens mas o nosso drogado satisfeito vai enfrentar dificuldades como nunca tinha feito antes.
“Sem Limites” é um filme com um excelente roteiro, o sexy Bradley Cooper mostra seu carisma na tela e Robert de Niro está daquele jeito que a gente gosta.
Recomendo.


terça-feira, 30 de outubro de 2018

Meu Anjo




“Meu Anjo”- “Gueule d‘Ange”, França, 2018
Direção: Vanessa Filho

Tão lindas. Já de início, a imagem da mãe e filha seduz. Marlene e Elli, louras, olhos azuis, pele branca. Mas há uma nota de estranheza. Porque a mãe parece a mais infantil das duas:
“- Estou tão nervosa... Não posso vacilar amanhã! Tenho medo de perder a hora! ”
“- Põe um despertador mãe”, diz a menina séria. Deve ter uns 8 anos.
“- Você é o meu tesouro que vale mais do que ouro! Você me ama? Muito, muito, muito? ”
“- Sim, sim, sim! ”
E essas falas inaugurais, à noite na cama, mostram que, apesar de tanto amor, a mãe se sente insegura e se refugia na confiança incondicional da filha. Fuma sem parar e bebe muito. Usa maquiagem carregada e parece desesperada para arranjar alguém que a sustente.
Dia seguinte, no casamento de Marlene, ela vai vacilar, como tinha medo. Mas antes, pede para Elli:
“- Meu anjo, vai pegar um copo de vinho para mim? ” e faz a filha beber um gole também.
Linda, de branco, tiara e véu, Marion Cotillard mostra sua versatilidade. Uma das melhores atrizes do cinema, Oscar por sua Piaf, ela sabe fazer Marlene, mulher vulgar e carente, mãe irresponsável, de um jeito que nos leva a pensar em como é que essa personagem foi criada. Como era a mãe dela? Tentamos entender sua doce crueldade ditada por um enorme egoísmo.
Elli (Ayline Etaix), percebe-se em seus olhos, adora a mãe, aliás o único adulto por perto. O pai não existe. E assim, aquela bela loura sedutora que a todo instante diz que a ama, é o seu farol no mundo.
Por isso é tão desesperador quando some a mãe-fada e Elli tem que se virar sozinha. No começo vai à escola, como se nada tivesse acontecido.
Com aflição, vemos a menina procurar o número do celular da mãe que só dá caixa postal. Sentada no sofá esperando horas e horas.
E o que falta de comida naquele apartamento, sobra em bebida. Imitando a mãe, Elli afoga suas mágoas com álcool.
Ela já tinha começado a beber, provando de todos os copos sobre a mesa, quando a mãe a levava junto em suas saídas noturnas. Uma amiga de Marlene percebe e Elli leva uma bronca não convincente. O modelo materno fala mais alto. E Elli cheira a bebida na escola. Sofre “bullying”. Mas nada da mãe.
Quando aparece Julio (Alban Lenoir), o mergulhador, também um desgarrado, Elli gruda-se a ele como se fosse uma tábua de salvação.
O primeiro filme da diretora Vanessa Filho, que escreveu o roteiro com Diastéme, tem o privilégio de ter Marion Cotillard e a expressiva atriz mirim.
Em dias de irresponsabilidade geral e adultos infantilizados, sofrem as crianças, parece querer dizer o filme, que infelizmente não aprofunda mais essa ideia.


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Amar




“Amar”- Idem, Espanha, 2017
Direção: Esteban Crespo

Todo amor na juventude tem algo de Romeu e Julieta. Um pouco de drama também vamos ver nesses namorados jovens de “Amar”.
No caso do filme de Esteban Crespo, diretor espanhol que já ganhou um Oscar por um curta metragem, e aqui estreia seu primeiro longa, o amor é menor do que a atração física.
Laura (Maria Pedraza, muito linda) e Carlos (Pol Monen) tem 17 e 18 anos e se amam como se o mundo fosse acabar. A cena inicial já mostra uma necessidade de fusão de Carlos, que inventou uma dupla de máscaras contra gazes unidas. Os dois respiram o mesmo ar.
“- Quero respirar você! ”
Ou seja, quero ser o ar que você respira. Não posso viver sem você.
Aqui já podemos pensar como esse amor é obsessivo, já que um não pode ficar sem o outro. E a verdade é que são adolescentes e a sensualidade está à flor da pele.
Logo os vemos na cama, aproveitando que a casa da tia está vazia. Carlos diz que trouxe um presente mas que não é para abrir agora. Ela desobedece e quando abre a caixa azul diz meio brincando:
“- Mas eu já tenho um...”
“ - Mas não é para você ” responde ele.
Ouve-se a voz da tia que volta para pegar algo esquecido mas sai logo. Os dois se calam mas logo recomeçam.
No dia seguinte ele vai buscar Laura na escola e uma colega corre atrás, trazendo a sacola com a caixa azul que ela esquecera na sala de aula.
“- Você abriu a caixa? “
“ Não! Por que esse interrogatório? “
E Carlos com a cara fechada joga a sacola no lixo da rua. Sentindo-se culpado, fica paranoico achando que Laura teria contado sobre o conteúdo da caixa azul para suas amigas e agora toda a escola já sabia do assunto.
O certo é que o ciúme de Carlos, companheiro da sua suposta culpa por causa do objeto que estava dentro da caixa azul, vai envenenar o amor deles. A insegurança do rapaz o leva a atormentar Laura e o clima pesa entre eles.
Dão um tempo mas não conseguem ficar separados. E o pior é que, quando estão juntos, o ciúme de Carlos e a necessidade de se afirmar como homem, faz Laura ficar triste e ressentida, enquanto ele mergulha na depressão.
Amores de juventude, principalmente quando há satisfação no sexo, tendem a acabar porque há tanta vida ainda para viver. Estão no início de tudo que vai acontecer. E falta maturidade para enfrentar os desafios naturais de toda relação amorosa.
Mas vale a pena ver o filme e recordar essa época de nossas vidas.


terça-feira, 23 de outubro de 2018

O Primeiro Homem




“O Primeiro Homem”- “First Man”, Estados Unidos, 2018
Direção: Damien Chazelle

Como é dura a vida de um astronauta. É preciso muita coragem para entrar naquele primeiro módulo que aparece. Tão frágil. Chacoalhando tanto que parece que vai desintegrar. O perigo é palpável.
Estamos em 1961. Começou a corrida espacial e os Estados Unidos quer bater a União Soviética. Quem vai chegar primeiro à Lua?
Neil Armstrong (1930-2012) é Ryan Gosling (no tom exato) e no começo do filme vive um drama pessoal. Sua filha Karen, de dois anos, tem um tumor cancerígeno. Ele e a mulher, Janet (Claire Foy, ótima) demonstram a dor e a impotência diante da filha que chora no colo do pai.
Depois do enterro, durante o jantar tradicional, vemos Neil com a pulseirinha de contas da filha na mão e, pela janela, a Lua branca no céu. Chora copiosamente.
Esse é o começo do trajeto do homem que vai ser o primeiro a pisar na Lua. Todos nós sabemos onde estávamos naquele momento. 400 milhões de pessoas ao redor do mundo estavam na frente da TV, vendo o espetáculo. E ele disse para nós ouvirmos: “Foi um passo pequeno para o homem mas um salto gigantesco para a humanidade. ”
Mas não foi fácil. Nem para a NASA nem para os homens que sonhavam com essa missão. Muitos ficaram pelo caminho, em acidentes terríveis. Todas as mulheres de astronautas eram viúvas em potencial.
Em 1962, Neil Armstrong, que era piloto de provas e engenheiro, foi selecionado pela NASA, mesmo sendo civil, para fazer parte da equipe que vai ser treinada para o projeto Lua, primeiro o Gemini e depois o Apollo II, que só vai acontecer em 1969.
O diretor Damien Chazelle, o mais jovem a ser premiado com o Oscar com seu filme “La La Land”, aos 32 anos, no ano passado, mostra sua sensibilidade em “O Primeiro Homem”, ao trazer o espectador para dentro do módulo espacial. Sentimos o mesmo medo de Neil Armstrong quando as coisas não vão bem. A câmera colada no capacete do astronauta faz a gente se sentir lá dentro, com ele, passamos pelo suspense todo e, ao mesmo tempo, percebemos a mente trabalhando para recuperar o controle da nave.
E a música de Justin Hurwitz, colaborador de Chazelle em “La La Land”, quando ganhou também seu Oscar, é perfeita. Até na escolha da valsa quando o módulo gravita em torno à Terra e lembramos de Kubrik e seu “2001”.
As cenas na Lua são rápidas mas grandiosas. O imenso deserto cinza com crateras negras, a Terra azul lá embaixo e o pé de Neil pousando sobre um pó fino. Silêncio. E ele vai deixar uma lembrança amorosa na Lua.
O filme é inspirado no livro de James R. Hansen mas o roteiro de Josh Singer privilegia o lado íntimo do homem Neil Armstrong, de poucas palavras mas afetivo com os filhos e mesmo com os outros astronautas, seus companheiros.
Com sua mulher Janet, existe uma liga forte, ela dando a impressão de ser em casa tão corajosa quanto o marido nos céus. Ela verbaliza as emoções caladas do marido e tanto o estimula quanto recua. E a cena final do casal é linda e marcante.
“O Primeiro Homem” é um filme que é uma vida e uma aventura fantástica compartilhadas.


Nasce uma Estrela




“Nasce Uma Estrela”- “A Star is Born”, Estados Unidos, 2018
Direção: Bradley Cooper

A tela mostra um show de “country rock”, com guitarras estridentes e luzes coloridas criando um clima quente. Antes de entrar no palco, um belo homem engole um punhado de pílulas. Gritos e palmas. A multidão enlouquece com a banda e o cantor. Ele é famoso.
Depois o vemos dentro do carro, disfarçando o rosto com um chapéu, fugindo das fãs grudadas no carro e bebendo na garrafa.
“- Não quero ir para o hotel... pare aqui. ”
Ele desce do carro e entra no bar onde é reconhecido pelas “drag queens” que fazem o show. Ele bebe e se diverte vendo as performances.
De repente, uma voz canta em francês. É uma garota morena, vestido de alcinhas e meia arrastão. Ela hipnotiza a plateia, muda, ao som do “La Vie en Rose” que ela canta com paixão.
O roqueiro está fascinado com ela, deitada no palco, pertinho, olhando para ele e finalizando a canção com aquela voz poderosa. Sobrancelhas finas e pintadas dão um ar dramático à sua figura.
“- Você está chorando? ” pergunta o sujeito que o trouxe até a beira do palco.
“- Só um pouco ” responde o roqueiro com olhos brilhantes.
“- Venha. Você tem que conhecê-la. ”
Jackson Maine (Bradley Cooper, belo e carismático) vai ao camarim conhecer a garçonete Ally (Lady Gaga, presença e voz poderosas) e os dois nunca mais se desgrudam.  Existe uma atração tão forte e natural entre eles que eletriza a tela. Jack toca sua guitarra para ela ouvir e acabam a noite sentados num estacionamento, conversando, depois de uma briga em outro bar. Ela machucou a mão e ele cuida dela.
“- Você compõe? “
“ - Não gosto de cantar minhas músicas. Não me sinto à vontade... minha aparência não agrada...”
Ele a estimula e ela canta “Shallow” a capella. Lindamente. A música é um arraso.
“- Caramba! Acho que você pode ser minha compositora! ”
O romance está apenas começando e a plateia já está conquistada.
Bradley Cooper se lança na direção do filme com surpreendente brilho e Lady Gaga faz o papel que já foi de Janet Gaynor (1937), Judy Garland (1954) e Barbra Streisand (1976), com talento próprio. A história da cantora que faz sucesso enquanto o músico, seu descobridor, vê sua carreira entrar em decadência, é a mesma das três outras versões. Mas ainda dessa vez, encanta o público, graças principalmente à magia que a dupla de atores cria na tela.
Apesar do amor que sente por Ally, Jack está enfraquecido pela bebida e pelas drogas e ela, cheia de energia, tenta cuidar dele mas é sua carreira solo que a entusiasma. Há lágrimas nos olhos do público porque Bradley Cooper nunca foi tão comovente e frágil.
A crítica adorou “Nasce Uma Estrela”, sucesso de público também e já há previsões para saber quantos Oscars o filme vai ganhar. E merece.


domingo, 21 de outubro de 2018

Os Invisíveis




“Os Invisíveis”- “Die unsichbaten”, Alemanha, 2017
Direção: Claus Rafle

Em outubro de 1941, em meio à Segunda Guerra, começou na Alemanha a deportação de judeus para os campos de concentração. Todos haviam recebido uma comunicação do governo nazista para que declarassem seus bens sob pena de prisão.
Esse documentário do diretor Claus Rafle vai contar uma história, pouco conhecida, sobre os judeus alemães de Berlim que se recusaram a obedecer essas ordens. Foram 7.000 os que fizeram a opção de ficar “invisíveis” ou seja, não usavam a estrela amarela obrigatória e tinham papéis falsificados.
No docudrama, entrevistas com quatro desses judeus que viveram clandestinamente em Berlim, alternam-se com a encenação do que eles contam, com atores e cenários que recriam a época. Há também cenas de jornais filmados com registros da guerra e da vida na cidade, muito bem editadas com o resto do material.
Assim, Cioma Schonhaus (interpretado por Max Mauff), de 20 anos, não acompanha seus pais na deportação. Muito habilidoso, formado no Liceu de Arte, consegue falsificar passaportes com perfeição, tendo salvado muitos que precisavam de novos documentos.
Ruth Gumpei (Ruby O. Fee) é a segunda a dar seu testemunho:
“- Quanto mais pioravam as leis contra os judeus, mais tínhamos o desejo de nos esconder.”
E muitos foram ajudados a entrar na ilegalidade por famílias alemãs que os abrigavam. Por várias razões, inclusive porque não aprovavam a política de Hitler.
Foi o que aconteceu com Eugen Fried (Aaron Altaras) de 16 anos, que tinha a mãe casada com um alemão. Seu padrasto o ajuda a conseguir abrigo com famílias comunistas.
Hanni Levy (Alice Dwyer) tinha 17 anos e teve que mudar a cor dos cabelos e o seu nome e foi ajudada por uma amiga católica de sua mãe.
A verdade é que todos os “invisíveis” viviam um dia de cada vez porque não sabiam o que aconteceria no amanhã. A maioria passava fome e estava assustada. Inclusive pelo perigo de ser reconhecido pelos judeus que trabalhavam para a Gestapo, denunciando os outros e acreditando na falsa promessa de que seriam poupados da deportação.
Cerca de 1.500 dos 7.000 “invisíveis” sobreviveram em Berlim até o fim da guerra. Muitos dos que os ajudaram foram agraciados com o título de “Justos entre as Nações” pelo Yad Vashem.
O docudrama de Claus Rafle é oportuno em tempos nos quais vemos crescer a intolerância e os regimes autoritários. É nosso dever fazer a juventude saber o que aconteceu para que isso nunca mais se repita.

22 de julho




“22 de julho”- “July 22”, Noruega, Islândia, Estados Unidos, 2018
Direção: Paul Greengrass

Quando aqui chegaram as notícias, foi terrível saber que na Noruega o impensável tinha acontecido.
O filme “22 de julho”, dirigido pelo britânico Paul Greengrass, tem o mérito de contar o que se passou com detalhes e em ordem cronológica. E as interpretações são tão realistas que parece que estamos lá, ao lado dessas pessoas atingidas pelo terror.
E tudo começa naquele dia, 22 de julho de 2011, com os adolescentes, filhos de membros do Partido dos Trabalhadores da Noruega, prováveis futuros líderes do país, indo para a ilha de Utoya com o ferryboat, onde se encontrariam para palestras, esportes, fogueiras e cantos. O Primeiro Ministro era esperado.
Na véspera, acompanhamos um homem jovem que prepara algo num lugar que parece uma garagem. Mistura em liquidificadores substâncias que depois são colocadas em sacos, recolhidos numa pequena van.
No dia seguinte, o mesmo homem veste um colete onde se lê "Polícia" e carrega maletas onde colocou armas.
E vai ficando claro que ele abandona a van num estacionamento no centro de Oslo porque aquilo vai explodir. E, quando acontece, a dimensão do ataque a prédios do governo onde trabalha o próprio Primeiro Ministro, é enorme. Pânico. Estragos. Mortos e feridos. Incêndios.
Mas o homem de rosto duro, com um estranho cavanhaque, tem outra missão agora. Com horror, vemos ele aproximar-se do lugar onde parte o ferryboat para a ilha, que tinha sido suspenso devido ao ataque em Oslo, perto do local. Diz que foi mandado pela polícia de Oslo para proteger Utoya. E acreditam nele.
Lá chegando, ele não perde tempo. Começa a matança.
Anders Behring Breivik (Anders Danielsen Lie) assassinou 69 estudantes num total de 77 pessoas e feriu uma centena. A sangue frio.
Foi preso e julgado.
O que mais assusta é a convicção com que defende suas ideias extremistas e radicais. Sua missão seria punir a elite, os liberais, os comunistas, livrar a Europa do Islã e proteger os direitos dos europeus. Ele pertenceria a uma organização de extrema direita chamada “Os Cavaleiros Templários” e é o autor de um manifesto de 1.500 páginas, onde defende sua posição ultranacionalista, homofóbica, anti-feminista e a favor da eugenia, defendida pelo nazismo. E diz claramente no tribunal que faria tudo de novo, o ataque e a matança, se pudesse.
O filme tem uma duração de 143 minutos mas não cansa o espectador porque, em suas diferentes fases, ou seja, a preparação do atentado, o ato terrorista, o tribunal, seguir a família de Viljar, um garoto que sobreviveu a duras penas, acompanhar o advogado de defesa e as famílias das vítimas, tudo interessa e nos envolve.
O diretor tem no currículo filmes intensos como a trilogia Bourne e filmes baseados em fatos reais como “Voo United 93” e “Capitão Phillips”, com o ótimo Tom Hanks.
Mais que tudo, é um filme necessário, produção original da Netflix, que vem ajudar espectadores brasileiros a refletir sobre o radicalismo, o extremismo e a intolerância com o diferente, que estão assustadoramente presentes nas eleições atuais, algo jamais visto por aqui.