sábado, 23 de outubro de 2010

Como esquecer





“Como esquecer”, Brasil, 2010

Direção: Malu de Martino



Ficou claro, ultimamente, que temas polêmicos para os brasileiros como a homossexualidade e o aborto, precisam ser discutidos em espaços mais amplos, favoráveis à reflexão.

Nessa linha, a diretora de “Como esquecer”, Malu de Martino, parece não temer a excomunhão e enfrenta os preconceitos de frente.

Seu filme, baseado no livro “Como esquecer – Anotações Quase Inglêsas”, de Myriam Campello, conta a história de Julia, professora de literatura inglesa que chora a perda de um amor, Antonia.

A bela Ana Paula Arósio encarna Julia, uma mulher desglamorizada que não consegue esquecer aquela que a abandonou. Entrega-se a um masoquismo explícito, ferindo-se e pensando em morrer. Um luto patológico.

Para interpretar Julia, Ana Paula aparece de rosto lavado, olheiras, cabelo sem brilho e sempre preso, vestida em roupas escuras e largas. Ela é alguém que não quer conformar-se. Afasta as pessoas. Não quer consolo. Fechou-se para a vida.

Em “off”, a voz de Julia atua revelando mais a sua personagem, dando um caráter literário ao filme. Às vêzes esse recurso fica exagerado, outras vêzes cai bem.

“Desde o dia em que Antonia foi embora da minha vida eu me pergunto: o que é o contrário do amor? O ódio? Não. Para mim é uma perplexidade ferida de onde só vou conseguir escapar com a ajuda de quem me abandonou. O que será o contrário do amor?“, ela pergunta.

Hugo (Murilo Rosa), homossexual assumido, ator amigo de Julia, propõe irem morar em uma casa em Pedra de Guaratiba, perto do mar e do sol. Ele também está de luto. Seu companheiro morreu.

Aos dois junta-se Lisa (Natália Lage) que, abandonada grávida pelo namorado, faz um aborto e sofre também com a perda.

Julia, retraída e inconsolável, diz em “off”:

“Dividir a casa com outras pessoas pode nos dar um calor de rebanho mas é também uma perturbação contínua.”

Ou ainda : “Até os amigos íntimos não agüentam nosso sofrimento...Faz lembrá-los de dores passadas ou que virão...”

Mas o fato é que o tempo passa, a aluna Carmem e a pintora Helena (Arieta Correa) se aproximam de Julia e ela começa a respirar melhor e a sair da casca protetora que construira para si mesma. E então as emoções penetram e acendem luzes na alma de Julia que se surpreende consigo mesma:

“O amor exige muito e eu tenho pouco para dar...”

“Como esquecer” fala do luto, da impossilidade do amor mas também do trabalho interno necessário para suplantar uma dependência mórbida e escapar do egoísmo extremo que nos aprisiona e nos tranca fora dos prazeres quotidianos nas trocas com outros seres humanos.

“Já conheço os passos dessa estrada,

Sei que não vai dar em nada,

Seus segredos sei de cor...

Já conheço as pedras do caminho

E sei também que aí sozinho, eu vou ficar

Tanto pior...”

Elis Regina canta “Retrato em branco e preto”de Tom Jobim e Chico Buarque na abertura do filme. A música vai soar ao longo dessa história e acompanhar a dor dos “embates amorosos catastróficos”, como diz Julia.

Mas nos letreiros finais, k. d. lang fecha o filme com “Coming home”que canta uma tristeza doce, despertada pelas lembranças de infância de Julia que vão certamente ajudá-la a melhor conhecer a si mesma, libertando-a para novas escolhas.

O maior mérito de “Como esquecer” é humanizar preconceitos e por isso mesmo, desconstrui-los.

domingo, 17 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2



“Tropa de Elite 2 “- Brasil, 2010

Direção : José Padilha





“Apesar de possíveis coincidências com a realidade, este filme é uma obra de ficção”, adverte o letreiro que aparece na tela ainda negra. E já nos assalta no escuro o barulho de armas pesadas sendo carregadas.

Com quase três milhões de espectadores na semana de lançamento, “Tropa de Elite 2” é um campeão de bilheteria no mercado brasileiro de cinema. E, para evitar a pirataria que aconteceu com o primeiro filme, esse aqui foi distribuído pelo próprio diretor, José Padilha.

Esse sucesso nacional é um filme cruel, violento e competente. São imagens que petrificam, suspendem a respiração, grudam espectadores em suas poltronas. Assustam.

Muito sangue, barulho ensurdecedor de tiros, homens de uniforme preto armados correndo atrás de homens de shorts e camiseta armados, blindado negro subindo o morro e passando por cima de tudo, helicóptero qual ave de rapina matando sem dó nem piedade, o horror de corpos incinerados... Guerra.

O capitão Nascimento está de volta. Wagner Moura faz o personagem com o talento de sempre mas, há um tom diferente em sua voz grave, em “off”, narrando os acontecimentos. Coronel do Bope e logo Subsecretário de Segurança do Rio, ele mudou e vai mudar ainda mais durante o decorrer dos anos que o filme cobre.

O contraponto ao coronel Nascimento é o Fraga (Irandhir Santos), o defensor dos diretos humanos. No início do filme parece que ele é o palhaço da história. E o público ri do gordo na TV “macaqueando” o Fraga. Mas a trama desse filme é mais complexa que a do primeiro. Agora, o coronel Nascimento vai ter que rever muito daquilo em que acreditava piamente. Uma das certezas que vai ser abalada envolve seu filho que agora mora com a ex-mulher e seu marido, que, por ironia do destino é o Fraga, defensor dos direitos humanos desprezados por Nascimento.

Em “Tropa de Elite 2” há uma luta pessoal do ex- capitão do Bope contra o que ele chama de “sistema”, o maior responsável por tudo que há de ruim no Rio e que detém o poder e o dinheiro do tráfico. “O inimigo agora é outro” é o subtítulo do filme. Nascimento abriu o olho.

Na história da bandidagem e seus chefões no Rio de Janeiro houve uma troca de poder. Os traficantes deram lugar às milícias de policiais corruptos, protegidos e a mando de um poder político ganancioso e covarde, que compra votos, traindo a democracia. Essas odiosas milícias cariocas extrapolam o tráfico de drogas e hoje controlam tudo no morro e periferia do Rio.

Mais assustadores até que o próprio tráfico, vendem proteção. A máfia carioca.

E o povo da Cidade Maravilhosa?

Os moradores das favelas do Rio, na sua maioria gente de bem, que trabalha e sobrevive com dificuldade, aparece de relance no filme, assustados, se escondendo dos “manda-chuva” do crime, que encenam batalhas campais, matando quem se opõe a eles.

O povo carioca é a grande vítima desse “sistema” que enlouqueceu, perdeu os limites e institucionalizou o deboche, a malícia e o cinismo.

Mas a pergunta é: todo político é venal? Claro que não. Como quase todos os moradores do morro também não são bandidos. E esse é o limite de “Tropa de Elite 2”. Quando generaliza demais, perde a consistência e o poder de denúncia.

Sabemos todos que temos uma saída dessa situação perversa. Por exemplo, as Unidades Pacificadoras já instaladas nos morros cariocas. De dentro, protegem os cidadãos.

Mas não sejamos ingênuos. Claro que todos sabem que essa deturpação do estado de coisas na qual a polícia é que é o bandido, só vai acabar no dia em que a polícia for mais valorizada, bem paga e controlada por um Estado que exige ordem e recompensa quem faz a proteção do cidadão.

O Mal sempre vai existir entre nós. Mas vontade política do Bem também existe e existirá sempre.

Cabe a cada um de nós informar-se, abrir os olhos, separar o joio do trigo e exercer o direito do voto de forma consciente para eleger políticos que tenham ética, responsabilidade e, principalmente, compaixão do pobre povo brasileiro que não merece sofrer nas mãos de oportunistas.


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Comer Rezar Amar



“Comer Rezar Amar” – “Eat Pray Love”, EUA, 2010

Direção : Ryan Murphy





A vontade de sair mundo à fora para buscar respostas quando se vive uma crise, já passou pela cabeça de muita gente. Aliás, o tema inspirou a criação de personagens célebres que fizeram viagens iniciáticas tanto em livros quanto em óperas e filmes.

Elizabeth Gilbert, escritora e habitante de New York, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, também teve a idéia, fez a viagem e escreveu o livro.

“Comer Rezar Amar” virou bestseller e encantou principalmente leitoras no mundo todo.

Agora é filme, dirigido com bom gosto por Ryan Murphy, que veio do seriado de sucesso na televisão, “Glee”, e é estrelado pela charmosa e simpática atriz Julia Roberts e pelo “gatão” latino Javier Baden.

Quase nove milhões de livros vendidos até agora, falam a favor da escritora que sabe seduzir, principalmente leitoras. Até por isso alguns críticos chamaram “Comer Rezar Amar” de “filme de meninas”. Mas acho que meninos também podem gostar. Afinal, belas paisagens em lugares românticos e histórias de amor agradam a todo mundo que vai ao cinema.

Dividido em três partes, o filme, muito fiel ao livro, conta o ano sabático de Liz Gilbert, através de peripécias acontecidas na Itália, India e Indonésia. A escritora escolheu o roteiro enquanto convalescia de um complicado divórcio. Conta ela no livro que emagreceu sofridos quinze quilos no processo, o que explica o foco em comida como sua primeira escolha de trajeto.

E preparem-se para um festival de closes apetitosos em massas, risotos, pizzas e sorvetes. Tudo lindamente apresentado e comido com gosto por uma Julia Roberts fazendo uma mulher que recupera o viço e o prazer de viver. E mais ainda, enquanto comia, Liz aprendia o italiano, língua que lhe dava tanto prazer quanto a comida e a reconciliava com os afetos e a comunicação gestual, nas fotogênicas vielas romanas. Uma festa para os sentidos.

A India, objeto preferido de consumo de todo “globetrotter” minimamente sofisticado, inspira a parte mística do filme, já que Liz resolve ficar no “ashram” de uma guru famosa, desistindo do turismo. Nem Taj Mahal, nem Ganges, nem Rajastão.

No livro, a escritora passa para o leitor suas experiências com a descoberta da meditação e da sabedoria do hinduísmo. E os sacrifícios envolvidos nisso. Horas e horas em posição de lótus, acordar às 4:30 da manhã para rezar, agüentar picadas de mosquitos famintos em um calor de rachar além de lavar todo o dia o chão do templo, acabam mostrando a Liz o que ela viera procurar na India.

No filme, a ênfase é posta em sua relação com o texano melancólico Richard (feito por Richard Jenkins, ator sempre competente), que promove “insights” em Liz com seus comentários bem colocados e a garota Tulsi, que dá o colorido indiano ao filme.

E na terceira parada, a ilha de Bali, na Indonésia, com praias e campos de arroz de um verde inesquecível, é o cenário perfeito para Liz colocar em prática tudo que tinha aprendido em sua peregrinação até aqui.

Afinal, amar e ser amado é coisa primordial para seres humanos que buscam realização. E, para ela, é o reconhecimento de que suas feridas amorosas estavam curadas.

Tenho ouvido críticas ao sotaque de Javier Baden que faz o brasileiro do filme. Ora, sugiro que prestem mais atenção no de João Gilberto cantando “ ’S Wonderful” que toca como fundo de uma cena romântica. Bem “macarrônico”, o inglês do João em nada prejudica o show de afinação e balanço de bossa que ele dá. Pensem nisso e dêem uma chance ao charme latino.

Aliás, a trilha sonora escolhida é para comprar e ficar ouvindo sem parar. Vai de Mozart à bossa nova.

“Comer Rezar Amar”, sem ser um filme excepcional, agrada a quem também gostaria de fazer uma viagem dessas buscando respostas para seu auto-conhecimento e encontrando ainda mais prazeres na vida.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Dois Irmãos






Dois Irmãos - Dos Hermanos, Argentina/ Uruguai/ França, 2010

Diretor : Daniel Burman





Todos nós conhecemos o Caim e o Abel que vivem em nosso mundo íntimo. São eles os responsáveis tanto pelos momentos de amor fraterno, quanto pelo ódio das lutas fratricidas.

Tão universais quanto o Édipo, os irmãos bíblicos são o tema do novo filme do jovem diretor argentino Daniel Burman, conhecido entre nós por “Ninho Vazio”(2008), que trata do casal sem os filhos que partiram para a vida e “Abraço Partido”(2004) que lida com a questão do pai ausente.

Adaptado do livro “Villa Llaura” do escritor e também roteirista Sergio Dubcovsky e filmado em Buenos Aires e Carmelo, no Uruguai, “Dois Irmãos” é uma tragicomédia que conta com dois excelentes atores argentinos, Graciela Borges e Antonio Gasalla.

A história é simples e se ocupa de dois irmãos, já entrados em anos, em tudo opostos entre si. Enquanto Marcos aceita seu destino com o coração aberto apesar de alguma mágoa, Susana tenta, através de perucas, maquiagem, figurinos excêntricos e andar desenvolto, manter a aura de beleza e viço da mulher que ela foi um dia e que quase não está mais ali. Os dois chegaram a uma idade em que, dificilmente, a vida dá uma virada para melhor.

Susana, corretora de imóveis extrovertida e egoísta, passou sempre por cima do irmão Marcos, tímido e generoso, a quem entregou o trabalho de ocupar-se da mãe velhinha. Quando ela morre, Susana vende o apartamento em Buenos Aires, apropria-se do dinheiro e convence Marcos a mudar-se para Carmelo, balneário pobre no Uruguai.

Relutante, Marcos escuta a irmã dourar a pílula, enquanto atravessam o rio da Prata, na balsa que os leva ao país vizinho:

“-Você precisa pensar que, em Villa Llaura, vai passar seus últimos dias em um lugar de sonho.”

Tão dócil com a irmã como tinha sido com a mãe de ambos, Marcos aceita a troca de países e volta ao antigo trabalho de ourives. Mas, genuinamente aberto para a vida, durante um passeio pelo povoado simples, encontra o sonho verdadeiro, que era cruel mentira na boca da irmã mal intencionada.

Mais uma vez, através da personagem Susana, Burman debruça-se sobre o panorama da classe média decadente mas que não perde a pose na cidade portenha.

O Brasil entra na história através de um episódio engraçado em que, em uma festa da embaixada, os irmãos, qual primos pobres, enchem a bolsa e os bolsos de petiscos e frutas brasileiras.

O diretor argentino, como é seu estilo, filma essa história com delicadeza. Há um olhar carinhoso e otimista sobre a vida, com o qual nos conforta, porque faz pensar que a velhice não precisa ser, necessáriamente, feia e solitária.

A cena final encanta pela doçura e pela beleza do rio que se chama da Prata e que aqui faz juz ao nome que tem.

E, quando passam os créditos finais, não saiam correndo do cinema porque os velhinhos se divertem, vestidos a caráter para um sapateado ao som de “Put it on the Ritz”.

E a gente vai para casa acreditando, como Burman, que a vida pode sempre melhorar, dependendo, claro, do nosso talento para tanto.

Ou, como disse Graciela Borges, a Susana de “Dois Irmãos” em entrevista no Brasil:

”- O tempo nos ajuda se a gente absorve tudo que a experiência nos ensina.”

domingo, 26 de setembro de 2010

Wall Street - O dinheiro nunca dorme






“Wall Street – O dinheiro nunca dorme”, Estados Unidos, 2010

Diretor : Oliver Stone





Os megaespeculadores, assim como os tubarões, nunca dormem. Sempre atrás de fazer dinheiro a qualquer custo, gananciosos e aéticos, se dão bem seja nas “bolhas” do mercado financeiro, seja com as crises que acontecem de tempos em tempos.

Esse é o universo que Oliver Stone revisita em seu “Wall Street – O dinheiro nunca dorme“, ressuscitando seu personagem mais famoso, Gordon Gekko, que valeu o Oscar de melhor ator para Michael Douglas em 1988.

No primeiro filme, Gekko, rei de Wall Street, criava sua célebre frase “a ganância é boa”. Era 1987 e Oliver Stone retratava a época dos “yuppies” e da cobiça pelos bens de consumo. Ter um apartamento no melhor lugar da cidade, o melhor carro, a loura mais bonita e gastar dinheiro à vontade, era o sonho americano da época. Mas para Gekko virou pesadelo e ele acabou na prisão por crimes financeiros.

O novo filme começa em 2001 com o mesmo Gordon Gekko saindo da penitenciária onde ficara por oito anos. Ninguém o espera na saída. Visivelmente decepcionado, toca a vida.

Passam-se sete anos.

Estamos em 2008 e constatamos que, como bom tubarão, Gekko não desanimou. Vende o livro que escreveu na cadeia usando sua frase como título, agora com uma interrogação no final e dá palestras em universidades, divertindo a nova geração com suas tiradas irônicas.

Oliver Stone escolheu, como centro de seu novo filme, a crise econômica global de 2008 que levou ao colapso o sistema bancário americano.

O filme tem o mérito de mostrar claramente, mesmo para quem não entende de altas finanças, como se formou o que ficou conhecido como “subprime”. E Susan Sarandon dá um show de interpretação, fazendo a ex-enfermeira que vira corretora de imóveis e que, entrando no jogo das penhoras em cima de penhoras das casas que compra, se vê obrigada a apelar para o filho, porque chega um momento em que não consegue pagar as prestações no banco.

Mas há uma novidade em “Wall Street 2”. Nesse segundo filme há uma nota de otimismo com relação ao ser humano.

Em Manhattan não há sómente megaespeculadores e jovens corretores ambiciosos querendo ganhar bônus milionários. Gekko tem uma filha, Winnie (Carey Mulligan), que não quer ver o pai nem pintado e que escreve em um site sem fins lucrativos. Ela namora um corretor chamado Jake (Shia LaBeouf), que gosta de dinheiro mas se interessa por energia limpa. Ele se conscientiza da ganância criminosa de seus pares quando o banco em que trabalha é induzido a uma quebra de modo fraudulento. Em conseqüência disso, seu chefe e mentor se suicida (Frank Langella, excelente). Jake quer vingá-lo.

“Essa é uma história de família. Sobre pessoas buscando o equilíbrio entre o seu amor pelo poder e pelo dinheiro e sua necessidade de serem amadas por alguém”, diz Stone.

Dinheiro traz felicidade? Pode até ser. Mas, o jogo voraz da ganância pelo dinheiro a qualquer custo e a qualquer preço, traz também muita desilusão e um vazio feroz. O cínico personagem Bretton James (Josh Brolin) demonstra essa equação em que, da noite para o dia, a queda acontece e ele está sozinho no vácuo que construiu.

A cena mais irônica, na opinião do diretor, passa-se no Olimpo dos poderosos, o Metropolitan Museum, onde acontece um jantar beneficiente. Lá é a arena onde competem os muito ricos, através do brilho coruscante dos quilates nos pescoços e orelhas das mulheres na sala imponente. Desafiam-se e trocam informações privilegiadas que podem levar as ações de uma empresa a subir ou cair vertiginosamente.

Gekko, que conseguiu a entrada de U$10.000,00 com o namorado da filha comenta:

“Se jogassem uma bomba aqui hoje à noite, não sobraria ninguém para governar o mundo.”

Alguns viram no final de “Wall Street – O dinheiro nunca dorme“ um cacoete americano. Para mim, Oliver Stone, que admirava seu pai, corretor da Bolsa de New York dos anos 30 aos anos 70, faz uma homenagem aos homens de bem que, também, como os tubarões, nunca deixarão de existir.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Baarìa - A porta do vento


“Baarìa – A porta do vento”, Itália, 2009
Diretor : Giuseppe Tornatore


A Sicília é uma ilha que hoje faz parte da Itália mas tem história própria de esplendor e decadência.

No Vale dos Templos, próximo a Palermo, podem ser visitadas ruínas que datam do século V AC. Ao longo dos milênios, esses monumentos e outros mais antigos ainda, viram a ilha ser invadida pelos mais diferentes povos: fenícios, gregos, romanos e árabes.

Com todas essas influências, e apesar delas, a Sicília de hoje já viu tempos melhores. Terra de deuses, os heróis ainda caminham por lá, mas perdidos, decadentes, chorando suas derrotas. E o povo siciliano?

Giuseppe Tornatore, o grande diretor italiano de filmes como “Cinema Paradiso”(1988), Oscar de filme estrangeiro, “O Homem das Estrelas”( 1995) e “Malena”(2000) com a belíssima Monica Bellucci, parece querer contar essa história, situando-a durante o século XX, em seu filme “Baarìa - A porta do vento”.

Nascido nos anos 50, na aldeia siciliana que dá nome ao filme, Tornatore abre gavetas e baús da família para contar o passado e diz, aos jornalistas que o entrevistaram, que “Baarìa”é seu filme mais pessoal.

Alguns criticaram o diretor, que também assina o roteiro, dizendo que o filme é superficial, decorativo, que apenas tangencia os episódios históricos e que não aprofunda nada.

Eu discordo porque penso que a intenção de Tornatore não foi contar a história com H maiúsculo. Antes, quer contar casos que ouviu de seus avós e de seus pais e os que viveu, ainda pequeno, em Baarìa, nome em dialeto local para Bagheria, cidadezinha que pertence à província de Palermo.

A memória afetiva, mais rica que a história tradicional, traz à tona uma Sicília que é a terra da infância, da maturidade e velhice de homens e mulheres que lutam para sobreviver com garras e dentes.

Tornatore faz aqui um painel de sua terra e sua gente, pintado com as tintas das lembranças que ele recolheu. Uma arqueologia sentimental.

Com pinceladas de realismo mágico e sob os trovões e dilúvios que se alternam com um sol cruel e tempestades de areia, um fluxo de imagens vai mostrando para os nossos olhos, sonhos e memórias que falam sobre os costumes, as crenças e as superstições do povo de Baarìa.

Assim, ouvimos os registros sonoros de gritos, choro e gargalhadas ecoando personagens de três gerações de uma família siciliana. O avô Cicco (Gaetano Aronica), pastor de ovelhas e cabras que tem paixão por livros, recita o poema épico “Orlando furioso”, para uma platéia de vizinhos fascinados. O filho, Peppino Torrenuova (Francesco Scianna), passa, ainda menino, pelos horrores da Segunda Guerra e do fascismo, testemunha o sofrimento dos camponeses explorados pela máfia, apaixona-se pela política e por Mannina (Margareth Madè, parecida com Sophia Loren e com a nossa Maria Fernanda Candido). E o neto, Pietro, cresce nos anos sessenta, faz passeata e tem paixão por cinema.

Esse retrato lírico da terra natal tem trilha sonora esplêndida de Ennio Morricone e direção de arte impecável de Maurizio Sabatini que reconstruiu Baarìa na Tunísia e sinaliza a passagem do tempo com sutileza e realismo.

Como não poderia deixar de ser, o cinema, paixão de Tornatore, é também personagem em “Baarìa”. E acompanhamos na tela o cinema mudo dos anos 30, os filmes de Fred Astaire nos anos 40, uma filmagem em Baarìa e Fellini sendo citado em uma carta de Peppino à família quando estava em Paris tratando de assuntos do Partido Comunista Italiano.

Uma auto-referência torna-se uma brincadeira com o público e envolve a atriz Monica Bellucci de “Malena”, que é citada na publicidade de “Baarìa”e faz uma micro-ponta, seduzindo os meninos e o professor de uma escola que acompanham mudos, pela janela, uma tórrida cena entre a bela atriz e o pedreiro de uma construção em frente.

Comovente história afetiva de um povo, narrada por um de seus talentosos filhos, “Baarìa”é um filme para ser degustado sem pressa e apreciado pelo coração.


domingo, 12 de setembro de 2010

O Refúgio



“O Refúgio”- “Le Refuge”, França, 2009
Direção : François Ozon



De muita coisa fala o novo filme de François Ozon, em cartaz em São Paulo, “O Refúgio”: a fragilidade do ser humano, a morte, o luto, a maternidade.
Longe, porém, de ter um discurso chato com tentativas de ensinar e moralizar, esse é um filme delicado, especial, feito mais de sugestões e dúvidas que de verdades sólidas.
Mousse (Isabelle Carré) e Louis (Melvil Poupaud) moram em Paris, a cidade das luzes, mas procuram a escuridão e o abandono que a heroína traz. São muito jovens mas a vida já parece pesar sobre eles. O refúgio é a droga. Caminho perigoso, quase sempre a busca de um suicídio inconsciente.
Os dois recebem o traficante que entra pela porta aberta do apartamento:
“- Você nos salvou”, diz Louis.
Rostos fatigados e pálidos, os dois se injetam o que vai ser uma “overdose”.
Só Mousse sobrevive. Acorda no hospital.
“-Há quanto tempo não menstrua? Sou o seu médico.”
“- Não sei...”
“- Você está grávida de 8 semanas...”
“-Onde está Louis?”
“- Ele não resistiu... Está morto.”
Mousse perde a voz, uma lágrima escorre, ela desliza para o esquecimento.
Como um fantasma, assiste ao enterro de Louis, conhece Paul (o cantor e ator Louis-Ronan Choisy) e a mãe deles que a aconselha a não ter o bebê.
“-Espero que não queira ter esse bebê...Não queremos descendentes de Louis. Posso apresentá-la a um médico que cuidará disso”.
“- Não sei ainda...”
O interessante é que Ozon escolheu uma atriz grávida para o papel de Mousse. E o filme teve que se adaptar a isso, ser filmado em ordem cronológica e respeitar o ritmo de uma gravidez. Desejo de um homem de decifrar o mistério da maternidade?
Em entrevista a Luiz Carlos Merten, Ozon responde:
“-Sua pergunta já carrega um pouco a resposta. A maternidade é um mistério que escapa ao homem. Podemos estudar científicamente as transformações que ocorrem em seu corpo e ainda assim haverá uma zona de sombra. As próprias mulheres se surpreendem, muitas vezes, ao vivenciar o processo de gestação. E há aquelas que reagem contra o ser que cresce dentro delas, que o consideram um estranho. Queria entender um pouco o fenômeno e, por isso, há tempos acalento o projeto de “O Refúgio”.(...)Ela decide ter o filho sozinha, mas o que quer, no próprio corpo, é prolongar a vida do homem amado e que perdeu.Minha personagem encara o desafio da maternidade sem ter o desejo de ser mãe.”
Mais uma vez, Ozon toca em um ponto delicado para todos nós, mortais. O luto é um processo difícil e envolve um trabalho duro de aceitação da realidade da morte.
Em “Sob a areia”(2000), Charlotte Rampling foi a atriz escolhida pelo diretor para viver a agonia de perder o marido e não entender o que acontecera. Não havia a morte... Como chorá-lo?
Aqui, Mousse agarra-se a si mesma, como se pudesse, mágicamente, dar a luz a Louis. Trazê-lo de volta e negar a separação.
François Ozon é um diretor que gosta de trabalhar aspectos complexos da natureza humana. Agrada ao diretor francês levantar dúvidas, mexer com tabús e focalizar o que não é óbvio.
Em “O Refúgio”, Mousse foge de Paris e procura na casa da praia outro refúgio, onde tenta livrar-se da heroína e se iludir, tentando esquecer que perdeu seu outro lado, com quem vivia uma ilusão de fusão na droga que era a vida deles.
Paul, irmão de Louis, que chega sem aviso prévio e propõe a ela a alteridade, vai ser o intruso que a coloca um pouco mais perto de si mesma e da dor.
Quando chega a hora, uma canção de ninar embalará Louise, o bebê de Mousse.
E ela começa uma procura, para poder viver o amor generoso, que nela é uma promessa.
Um filme simples mas marcante.