segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

No Portal da Eternidade




“No Portal da Eternidade”- “At Eternity’s Gate”, França, 2018
Direção: Julian Schnabel

Ao ser rejeitado com seus quadros, os únicos de uma exposição num bar, o pintor holandês Vincent Van Gogh é aconselhado por outro pintor, Paul Gauguin, a procurar fazer como ele. Escolher a liberdade para ser quem ele é na verdade. Esquecer o resto do mundo e pintar.
Sugere que o amigo deveria ir para o sul da França, já que sempre dizia:
“- Quero pintar a luz do sol.”
E ele vai para Arles. Mas o frio congela o pequeno quarto, onde só seus quadros coloridos aquecem as paredes.
Vemos que ele monta o cavalete, a tela e pega a paleta de tintas. Olha ao redor e vemos seus sapatos velhos e sujos sob o piso de ladrilhos. A mão na tela usa o preto, o amarelo e o vermelho e lá estão os sapatos como ele os vê. Uma transformação que faz pensar não só em sapatos mas, talvez, em para onde vai o dono deles. Lá fora o vento.
Um campo de girassóis queimados pelo frio. Olhamos pelos olhos de Vincent. E a paisagem traz sentimentos depressivos e mórbidos à mente. Um piano toca notas melancólicas.
Mas eis que vemos Van Gogh transformado. É verão e ele sente a terra e a grama debaixo dos pés. Um céu muito azul e uma aleia de plátanos altos e verdes oferece um caminho de sombra e luz ao pintor, que leva um chapéu de palha na cabeça.
A tela, o cavalete e as tintas ele traz às costas. Parece procurar algo. Deita-se na grama, um punhado de terra nas mãos que ele joga sobre o rosto. Uma sombra de angústia. De repente um sorriso. Monta a tela e começa a pintar imediatamente a paisagem. Com rapidez frenética.
A natureza é para onde Vincent corre para fugir de seus demônios, das vozes que ele escuta sem compreender o que falam.
Filho de pastor, ele também quis ser como o pai. Mas foi rejeitado pela comunidade que não entendia os seus sermões. Então ele encontrou Deus na natureza.
A bela fotografia de Benoit Delhomme e a câmera do diretor Julian Schnabel, ora numa posição, ora em outra, balança e embaça para dar ao espectador uma ideia de como seria o mundo de Vincent Van Gogh.
“- Quando vejo uma paisagem plana, vejo a eternidade. Só eu olho assim? Sou o único a vê-la? Mas a existência não pode ser sem razão.”
Em Arles ninguém gosta dele. Excêntrico, louco. Jogam pedras nele.
Ele vai a um hospício, por vontade própria. O irmão amado, Theo, vem visitá-lo.
“- Eu gostaria de morrer assim”, diz deitado com a cabeça no ombro de Theo.
Mas o acolhimento que ele busca é impossível. Ou quase.
Quando Paul Gauguin (Oscar Isaacs) vem ficar com ele em Arles, parecia que tudo correria bem. Mas não. Eram muito diferentes.
O diretor Julian Schnabel (“Basquiat”1996, “O Escafandro e a Borboleta”2007) escreveu o roteiro com Louise Kugelberg e o famoso Jean-Claude Carrière. Trata-se de um apanhado de acontecimentos dos últimos anos de Vincent Van Gogh. Um filme de sensações e epifanias logo vividas como visões de pesadelo.
William Dafoe interpreta um Van Gogh etéreo, espiritualizado, carente e ambíguo. Não há palavras para descrever uma mente doentia que produzia tanta beleza estranha como defesa contra o que o atormentava.
Vincent Van Gogh morreu aos 37 anos e nunca vamos saber de fato o que aconteceu.
“Ele amava o amarelo, esse pobre Vincent”, disse Paul Gauguin.
“Talvez Deus tenha me feito pintar para gente que ainda não nasceu”, disse Van Gogh.


domingo, 24 de fevereiro de 2019

A 91a Noite do Oscar




A 91ª Noite do Oscar

A ansiedade sempre marca essa noite. Ela está presente entre os artistas, diretores, técnicos, produtores, todo o mundo do cinema. Afinal são 26 milhões de pessoas ao redor do globo assistindo ao espetáculo. E quem ganha o Oscar muda de status.
Esse ano foi diferente dos outros porque não havia um apresentador fixo, com texto especial e piadinhas prontas. Quem apresentou os prêmios foram os próprios atores. Hollywood no palco e na plateia. Boa ideia.
As mulheres estavam mais despojadas? Algumas certamente não. Haviam excessos. Mas não deu vontade de falar de moda. Todas estavam do jeito que gostam de aparecer. Pouca elegância mas alguns vestidos bonitos.
As premiações foram merecidas. E algumas surpresas aconteceram.
Os Oscars foram distribuídos entre os melhores filmes e não houve campeões de prêmios.
Vamos relembrar:
“Bohemian Rhapsody”- 4 Oscars: melhor ator (Rami Malek), edição, edição de som e mixagem de som.
“Roma”- 3 Oscars: melhor diretor, melhor filme estrangeiro, melhor fotografia.
“Green Book”- 3 Oscars: melhor filme, roteiro original e ator coadjuvante (Mahershala Ali).
“Pantera Negra”- 3 Oscars: figurinos, produção de arte, música original.
“Nasce uma Estrela”- 1 Oscar: melhor canção original (Lady Gaga).
“A Favorita”- 1 Oscar: melhor atriz (Olivia Colman).
“Se a rua Beale falasse”- 1 Oscar: melhor atriz coadjuvante (Regina King).
“Vice”- 1 Oscar: melhor cabelo e maquiagem.
“First Man”- 1 Oscar: melhores efeitos especiais.
“Infiltrado no Klan”- 1 Oscar: melhor roteiro adaptado.
Os outros foram:
Melhor animação - “Homem-Aranha no Aranhaverso”
Melhor documentário: “Free Solo“
Melhor curta de animação: “Bao”
Melhor documentário curta: “Period- End of Sentence”

No mais, para Glenn Close foi difícil mas ela não perdeu a pose e sorriu um sorriso que deveria parecer alegre. Não teve jeito. Olivia Colman estava magnífica em “A Favorita”. 
O momento romântico da noite foi o par de “Nasce uma Estrela” cantando juntos. Bradley Cooper e Lady Gaga encantaram a todos.
Mas o clima da noite colocou outro tipo de amor em cena. Aquele amor que respeita o diferente, que faz existir a aceitação do outro, do que não é igual. Houve um elogio do não preconceito, da possível igualdade entre os homens.
A mensagem foi dada com arte, sem arrogância. E Barbra Streisand falando da admiração dela por Spike Lee foi um momento de reflexão sobre a América e seus filhos. Afinal, essa terra não foi construída também pelos que vieram de todos os cantos do mundo?

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Todos Já Sabem




“Todos Já Sabem”-“Todos lo Saben”, Espanha, França, Itália, 2018
Direção: Asghar Fahadi

Um gênero muito popular no cinema, teatro e na literatura, é o policial, que Agatha Christie escrevia como ninguém. Nele, todos são suspeitos e portanto, o criminoso pode ser qualquer um.
Asghar Fahadi, o premiado diretor iraniano, famoso por seus filmes (“A Separação”, “Procurando Eli”, “O Passado” e outros), escolheu o gênero policial para o seu primeiro filme rodado fora de seu país. Mas não se enganem. É o mais fácil filme de Fahadi mas há camadas e mais camadas psicológicas no desenvolvimento dos personagens, que vivem uma complexa situação numa família espanhola que já viveu dias melhores.
A história envolve três irmãs, seus maridos e filhos.
Mariana (Elvira Minguez), a mais velha e seu marido Fernando (Eduardo Fernández), Ana (Irma Cuesta) que vai se casar com Juan (Roger Casamajor) e Laura
(Penélope Cruz) e seu marido argentino (Ricardo Darín).
Mariana, com seus filhos Felipe e Rocio (Sara Sálamo), e Ana, vivem na casa do pai.
São muitos personagens, mas o drama toca de mais perto a Laura e sua filha adolescente, Irene (Carla Campra), que chegaram da Argentina para o casamento de Ana, a irmã mais nova.
A única ausência notada é a do marido de Laura (Ricardo Darín) que não pode vir para a festa. Seus motivos pessoais parecem obscuros e dão lugar a comentários de todo tipo.
Outro personagem que tem papel importante na trama é Paco (Javier Bardem), que foi namorado de Laura na juventude e agora é casado com Bea (Barbara Lennie).
E o drama acontece durante a festa de casamento. Irene, a filha de Laura é sequestrada.
O roteiro escrito pelo diretor Fahadi dá a todos os personagens seus holofotes e, apesar de Laura, Paco e Alessandro serem o foco principal, outros personagens aparecem e assumem o protagonismo.
Por causa do sequestro são revividos traumas antigos que tocam a todos naquela família e envolvem até mesmo habitantes da aldeia onde sempre moraram.
Javier Bardem está ótimo e bonitão e Penélope Cruz, sua mulher na vida real, passa da mais pura alegria e beleza a uma mulher sofrida, envolvida em segredos do passado.
Fahadi mostra que é mestre em montar um suspense que vai colocando a plateia na ponta da cadeira do cinema e o final é até menos importante que toda a história que foi contada.
“Todos já Sabem” é um filme que demonstra a versatilidade de Asghar Fahadi que tem o poder de agradar a todo tipo de público, sem nunca perder sua arte e sensibilidade.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Uma História Impossível




“Uma História Impossível”- “Secretariat”, Estados Unidos, 2010, NETFLIX
Direção: Randall Wallace

Essa incrível história real começa em Denver,1969, quando o telefone soa cedo na casa dos Tweedy. Penny (Diane Lane), a mãe da família de quatro filhos, atende e seu semblante fica grave e triste:
“- Iremos essa tarde.”
A mãe dela tinha morrido na Virginia em Medows Farm, onde o pai criava cavalos de corrida. E, como o pai estava doente, vemos Penny Chenery, seu nome de solteira, tomar a decisão de sua vida. 
Recusou-se a vender a fazenda e passou a administrar a propriedade. Ia e vinha entre o Colorado e a Virginia.
O marido pergunta:
“- Como você pode viver duas vidas numa só?”
Claro que ela teve que negligenciar um pouco seus filhos e marido mas ela tinha nascido para aquilo. Era bonita, charmosa e elegante mas principalmente inteligente e amante de cavalos de corrida.
Era março de 1970 quando Penny, emocionada, vê nascer o potrinho da égua Something Royal, comprada pelo pai. Intuitivamente, ela já sabia que ele seria sua paixão. Algo inexplicável acontecia entre eles e essa comunicação vai nortear a vida dos dois. Dizem que nunca se viu um potro levantar-se e ficar em suas patas tão rapidamente depois do nascimento.
O filme vai contar a história desse potrinho que se tornou o cavalo de corrida mais famoso dos Estados Unidos. E vamos ver como sua dona soube montar uma equipe de primeira. Penny, o treinador Lucien Laurin (John Malkovitch, divertido) e seu tratador Eddie Sweat (Nelson Ellis) vão levar Secretariat, o nome oficial escolhido para Big Red, como era chamado na intimidade, a desenvolver todo o potencial com que ele nasceu.
Em 1973, Secretariat tornou-se o primeiro cavalo a ganhar a Triple Crown em 25 anos. São três corridas: o Kentucky Derby, Preakness Stakes e Belmont Stakes. Essa última, a mais longa, ele venceu por inacreditáveis 31 corpos de vantagem. E ironicamente, alguns diziam que ele era um cavalo bom só para distâncias curtas.
Em uma semana, Secretariat estava na capa da Time, Newsweek e Sports Illustrated.
O filme é dos estúdios Disney e conta essa história incrível que agrada a todos, mesmo os que não entendem nada de cavalos, nem de corridas.
“Uma História Impossível” deixa a plateia embasbacada com a força e inteligência desse cavalo maravilhoso e com a equipe que conseguiu ultrapassar todas as dificuldades e ficar na história, não só dos esportes mas deixando uma lição de persistência, confiança e amor entre humanos e cavalos.


domingo, 17 de fevereiro de 2019

Homem-Aranha e o Aranhaverso



“Homem-Aranha no Aranhaverso”- “Spider-Man Into the Spider-Verse”, Estados Unido, 2018
Direção: Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman

Confesso que saí do cinema meio zonza com tantas cores, reviravoltas, quedas, trambolhões. Mas o charme do Homem-Aranha continua intacto, apesar dele morrer nessa animação.
Deixaram para trás o personagem criado por Stan Leee Steve Ditko? Não. Porque o Homem-Aranha, com seu espírito de adolescente, brincalhão, imperfeito mas sempre disposto a ajudar quem precisa, está lá. Não em um mas em vários Homens-Aranhas e uma única Mulher-Aranha.
Mas vamos por partes. O Homem-Aranha morreu e o nosso herói Miles Morales não sabe que vai ser o herdeiro do título. Ele mora no Brooklyn com o pai que é um policial negro, Jefferson (Brian Tyree Henry) e a mãe que é uma latina. Ele foi sorteado e ganhou uma bolsa de estudos. Vai ter que sair da escola do bairro e entrar numa escola particular que tem um ensino mais puxado e uniformes.
Miles não está particularmente satisfeito com isso e usa de estratégias para não ser aceito. Erra todos os quesitos de um teste, o que prova que ele sabia direitinho quais eram as respostas corretas. A única coisa que o atrai nessa nova escola é a presença de Wanda, uma loirinha esperta e bela.
Miles sai com o tio Aron (Mahershala Ali), que o pai não aprova por causa de seu estilo de vida e vão fazer grafitagem num lugar escuro e proibido do metrô.
Lá aparece uma minúscula aranha radioativa e pica Miles, que não se importa nada com isso.
Só que na escola ele começa a perceber que está mudado. O que seria aquilo em suas mãos que gruda em tudo? Até no cabelo de Wanda, para a aflição dos dois?

Bem. Miles vai precisar ser preparado para se tornar o Homem-Aranha. E quando o Rei do Crime aciona uma máquina que cria um portal para outros universos, Miles vai encontrar um mentor, o próprio Homem-Aranha, numa versão alternativa, mais velho, deprimido, menos musculoso e com um pouco de barriga, Peter B. Parker (Jake Johnson).
Junto com essa versão virão outros, de outros mundos, como a Spider-Gwen (Hailee Seinfeld), Aranha-Noir (Nicolas Cage), Peni Parker (Kimiko Glenn) e Peter-Porker, o Porco-Aranha (John Mulaney). Todos juntos vão encarar o Rei do Crime e a malvada Olivia Octavus e arrumar os universos de novo, cada um com seu Aranha.
A mensagem mais importante do filme é a de que ninguém nasce feito e até quem tem superpoderes tem que crescer, aprender e amadurecer. Como qualquer outro ser humano.
Miles Morales, um garoto carismático, diz para a plateia : “Qualquer um pode usar a máscara!”
Ou seja, como está escrito no fim do filme na tela: “Quem ajudar o outro sem ter essa obrigação, é o verdadeiro herói.”
Não foi à toa, que essa animação já ganhou o Globo de Ouro e o Critic’s Choice Award e está na lista dos indicados a melhor animação no Oscar 2019.
Merecidos prêmios por sua originalidade e a arte com que são feitos os desenhos. Uma viagem lisérgica!


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Guerra Fria




“Guerra Fria”- “Cold War”, Polonia, 2018
Direção: Pawel Pawlikowski

Um homem bonito, pianista e compositor, Wiktor (Thomasz Kot) e uma produtora, viajam pelo interior da Polonia pós guerra, 1949, com um microfone na mão. Gravam canções e sons de instrumentos próprios dos camponeses, para montar um show folclórico.
Uma visita de Wiktor a uma igreja em ruinas, com afrescos desbotados que mostram um rosto de olhos límpidos, prepara o tom melancólico da história que vai ser contada.
Na audição dos jovens que farão parte do grupo “Mazurka”, um olhar intenso se faz notar entre Wiktor e Zula (Joanna Kulig), jovem loura e bela que canta lindamente uma canção nada polonesa mas tirada de um filme russo. Ela é da cidade e tem um ar decidido mas enigmático.
Quando ouve que Zula esteve na prisão por atacar o pai que ameaçava a mãe dela, com uma faca, Wiktor parece mais interessado ainda por ela.
Zula torna-se a estrela da companhia que passa a cantar e dançar não mais o puro folclore da Polonia mas algo muito sovietizado. Como pano de fundo, agora é o rosto de Stalin que faz parte do cenário. E na plateia em Varsóvia, quando o grupo se apresenta, membros do partido lotam o teatro.
Zula e Wiktor são muito diferentes. Ele é reservado, talentoso mas se ressente da falta de liberdade na Polonia. Ela é uma força da natureza, impulsiva e desconfiada de tudo e todos. A paixão vai sofrer com esses temperamentos opostos.
Quando se apresenta uma oportunidade de fuga para Paris, 1952, ele espera por ela na rua de Berlim, no frio e na neve por horas. Mas ela não aparece.
E vai ser assim a vida desses dois que vão viver se desencontrando depois de encontros apaixonados.
A música talvez seja a melhor ilustração para entender como são diferentes. Wiktor vai tocar jazz, improvisando no piano seus estados de alma, num clube noturno em Paris e Zula vai continuar a cantar e dançar o falso folclore.
Numa dessas noites que se encontram pelo mundo ele diz:
“- Você precisa ter mais confiança em si mesma.”
“- Eu tenho confiança em mim mesma. Mas não tenho confiança em você”, responde ela.
A escolha de Wiktor é pela liberdade de exercer sua profissão e viver a vida. A de Zula é pela segurança de escolher algo que ela conhece, apesar de não lhe trazer felicidade. Ela sofreu mais do que ele.
E talvez Zula represente a Polonia espoliada de uma identidade própria, culpada por aceitar o jugo totalitário mas com medo e desconfiada de tudo. Paris vai ser melhor do que Varsóvia?
Pawel Pawlikovski (“Ida”) inspirou-se na vida de seus pais para escrever o roteiro e Lucas Zal ilumina a tela com imagens em preto e branco mais sombrias quando na Polonia e mais brilhantes quando em Paris. Uma tela negra separa os momentos de encontro desse casal que viveu intensamente coisas que a separação não consegue fazer esquecer.
Vão se amar a vida toda.
Pawlikovski ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes do ano passado e seu filme representa a Polonia na lista dos indicados a melhor filme estrangeiro no Oscar 2019.
Um filme romântico e triste.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Cafarnaum



“Cafarnaum” - “Capharnaum”, Libano, 2018
Direção : Nadine Labaki

No tempo de Jesus, Cafarnaum era uma cidade na Galileia, onde ele pregou e curou doentes Em 665 d.C. foi destruída por um violento terremoto. Em 1894 o lugar onde a cidade estava foi adquirido dos beduínos, donos da terra, pelos franciscanos que, pacientemente, restauraram a cidade bíblica. O nome da cidade virou sinônimo de “cáos” em árabe.
Beirute, uma cidade esplêndida à beira mar, tem bairros onde impera a pobreza e a violência. Foi palco de guerras, tragédias e muito sangue derramado. Uma vista aérea mostra um lugar sem cores nem brilho, telhados improvisados, ruas estreitas, buzinas, balbúrdia, poeira e crianças nas ruas brincando de guerra com armas de brinquedo.
Zain, um menino mirrado de uns 12 anos, com ar decidido e sempre muito sério, rostinho amuado, vive com os pais e muitos irmãos num prédio caindo aos pedaços. Dormem no chão, estão mal alimentados e os menores vivem chorando.
Falta tudo naqueles cômodos sujos. Principalmente cuidado com as crianças. Pai e mãe não tem jeito para carinhos. São pessoas duras, sofridas e ignorantes. Fazem filhos sem responsabilizar-se por eles. Não sabem educar, só castigar.
Zain trabalha fazendo entregas dos comerciantes locais mas a família é sustentada pelo tráfico de Tramadol, uma droga que o menino compra sem receita na farmácia, inventando mentiras que são aceitas sem problemas.
Através de um estratagema original vendem a droga na prisão onde está o tio.
Zain tem uma irmã que ele adora, de 11 anos, Samar, que os pais querem vender ao filho do locatário do prédio onde moram. O menino tenta evitar a execução desse plano mas não consegue impedir o negócio.
É então que ele sai de casa, amaldiçoando pai e mãe. E vai viver seu inferno particular.
Em suas andanças perdidas na cidade, Zain encontra Rahil, uma etíope ilegal que tem um bebê e acaba ajudando ela, tomando conta de Jonas. Toda a atenção que nunca teve, Zain vai exercitar com esse bebê. Há cenas engraçadas e ao mesmo tempo angustiantes com as aventuras dessa dupla.
Mas o cáos não dá trégua e envolve cada vez mais Zain que, finalmente, é tomado pela ira.
Depois de muito penar, o primeiro sorriso de Zain emociona e é uma nota de esperança que levamos conosco, em meio a lágrimas.
Nadine Labaki, que aparece no filme como a advogada de Zain, ganhou o prêmio do Júri de Cannes e seu filme está na lista dos indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro.
“Capharnaum” mostra que sua diretora tem o olhar humanista que é tão necessário nos dias em que vivemos. Imperdível.