domingo, 30 de dezembro de 2018

O Confeiteiro



“O Confeiteiro”- “The Cakemaker”, Alemanha, Israel, 2018
Direção: Ofir Raul Graizer

Estamos em Berlim e Oren, que vive em Jerusalém, cada vez que visita a cidade a trabalho, gosta de ir no Kredenz Café e pedir o bolo de chocolate Black Forest. Sem esquecer de comprar biscoitos de baunilha para levar.
Um dia, Oren (Roy Miller) pergunta a Thomas (Tim Kalkhof), o jovem dono do café, se ele teria uma sugestão para o presente de aniversário do filho dele. Thomas sugere um trem e se oferece para levar Oren à loja que ele conhece.
Os dois descobrem que tem muito em comum, já que um ano depois, toda vez que Oren vem a Berlim, hospeda-se com Thomas. A câmera é discreta mas percebemos o quanto um gosta da companhia do outro.
Oren não esconde que tem família, mulher e um filho, em Jerusalém. E conta que Anat (Sarah Adler) vai abrir um café.
Thomas que fora criado pela avó, longe de Berlim, porque sua mãe morrera cedo, estava acostumado a ser só e valorizava a única vinda de Oren, uma vez por mês.
Quando Oren vai embora esquecendo as chaves e os biscoitos, Thomas se preocupa e liga no celular dele. Mas só dá caixa postal e ele deixa recados.
E Thomas não sossega, quer notícias. E vai ao trabalho de Oren. Chocado ouve que Oren morreu num acidente em Jerusalém.
Quando Thomas se decide a ir para Jerusalém, com passagem só de ida, ficamos apreensivos, tanto por ele quanto pela viúva. Por que ele quer ficar próximo do mundo de Oren? O luto é um sentimento complicado.
Vai ao café de Anat, pobre e sem graça, com comida kosher para ter o certificado religioso de funcionamento. Mal paga as contas. Mas depois de alguma insistência, tudo vai mudar quando Thomas é contratado e vira o confeiteiro.
Mas e o perigo de Anat descobrir tudo? Parece que Thomas não pensa nisso. Ele quer ocupar o lugar de Oren? O mesmo desejo inspira Anat a vesti-lo com as roupas do marido?
Thomas sonha com Oren e dorme com a sunga dele, deixada no Centro Esportivo. A chave esquecida abriu o armário.
Nada é dito claramente mas pode ser que a mãe de Oren tenha intuído a verdade sobre Thomas e o filho Oren. Mas ela gosta dele. Cozinham juntos e se dão bem.
Thomas, que não teve mãe mas avó, gosta do ambiente feminino de uma cozinha onde sabe o que fazer. Ele é principalmente muito carente. Alguém que é solitário mais por timidez que por escolha.
Muitas perguntas vão ficar no ar com esse primeiro filme de Ofir Raul Graizer. Mas o roteiro escrito por ele permite ao espectador que pense em tais questões, que não precisam se ater a uma única reposta.
E essa fluidez de territórios no preenchimento das carências humanas abriga melhor os personagens dessa história. Thomas e Anat não seguem regras? Não devem ser os únicos nesse mundo complexo em que vivemos.

sábado, 29 de dezembro de 2018

À Pé Ele Não Vai Longe




“A Pé Ele Não Vai Longe”- “Don’t Worry, He Won‘t Get Far on Foot”, Estados Unidos, 2018
Direção: Gus Van Sant

Como foi que aconteceu? Como John Callahan ficou condenado a uma cadeira de rodas por toda a vida?
Joaquin Phoenix, fazendo o irreverente cartunista, com o talento camaleônico de sempre, conta sua própria história no grupo terapêutico que frequenta, sob o comando de Donny (Jonah Hill, ótimo), seu “coach” de vida:
“- Acordei e ainda estava bêbado da noite anterior, no último dia em que andei. ”
Aquele cara ruivo, 21 anos, de óculos, com uma camisa estampada, jeans e chinelos, vai correndo até a loja de bebidas. Não podia ficar sem. O álcool o controlava.
À noite vai a uma festa e conhece Dexter (Jack Black), um gordo de bigode que o convence a ir para outra festa, onde os dois já bêbados, bebem mais ainda. No Volkswagen azul, Dexter ao volante, vomita pela janela.
Param num parque de diversões mas não param de beber. Dentro do carro, os dois dormem e o carro anda em zigue-zague.
“ - E foi assim. Dexter confundiu um poste com uma saída e batemos a 145 milhas por hora. ”
John foi para a UTI, quase morreu e Dexter saiu sem um arranhão.
“- Teve sorte “, diz o médico que não poupa John de ficar sabendo de todos os detalhes de sua péssima situação.
Ele tem uma história triste que conta no grupo com humor amargo:
“- Sei três coisas sobre minha mãe: era ruiva, irlandesa-americana e não me queria. “
Foi longo o caminho que John Callahan teve que percorrer para aceitar sua condição de tetraplégico com colostomia, que dependia de um cuidador para tomar banho e todo o resto.
E, além disso, foi duro admitir que era um alcoólatra, conseguir executar os 12 passos dos Alcoólicos Anônimos e livrar-se dessa dependência.
Ajudou-o seu espírito curioso e não convencional e um olhar irônico sobre a vida. Numa das cenas, ele anda pelas ruas, como sempre, acima da velocidade permitida em sua cadeira de rodas elétrica e cai. Um grupo de jovens o ajuda a levantar e veem um desenho dele onde cowboys a cavalo olham uma cadeira de rodas vazia em pleno deserto. Um deles diz:
“- Não se preocupem. A pé ele não vai longe. ”
Essa frase tornou-se o título de sua autobiografia, na qual o diretor Gus Van Sant se inspirou para o roteiro do filme. Contada em idas e vindas no tempo, a história desse homem incomum, que morreu em 2010, faz a gente pensar no que ele não tinha e no que nós temos e nem valorizamos.
E John Callahan teve também um anjo sueco em sua vida, Annu (Rooney Mara) que o ajudou a desenvolver e a expressar a parte delicada de sua alma.
Um filme comovente e nada patético.


domingo, 23 de dezembro de 2018

Bird Box




“Bird Box”- “Às Cegas”, Netflix, 2018
Direção: Susanne Bier

A sobrevivência é algo precioso para os seres vivos. Para nós, humanos, entretanto, existe uma saída trágica dessa vida através do suicídio. Que é sempre um enigma.
Pois “Bird Box” trabalha justamente o medo paralisante, o terror e o fim do terror através da morte, preferida à visão de algo extremamente perturbador. Esse algo provocaria o surto psicótico que leva ao suicídio.
O que é esse algo? O que ameaça e faz as pessoas se matarem? Não sabemos e não saber é um estado de sofrimento que vai se instalar ao longo do filme.
No começo, as irmãs Malorie (Sandra Bullock) e Jessica (Sarah Paulson) a pintora e a criadora de cavalos, não dão muita atenção ao que a TV está mostrando. Pessoas estão se matando na Rússia. Há uma epidemia de suicídios pelo mundo.
Mas Malorie tem uma consulta com a médica obstetra e Jessica larga tudo para acompanhá-la. Está preocupada com a apatia da irmã que não dá sinais de estar ligada em seu estado. Há algo de negação e de repúdio à gravidez não desejada e fruto de uma relação que não vingou.
A médica tenta alertá-la e até propõe o caminho da adoção, já que talvez Malorie não tenha nascido para ser mãe.
Já na saída do hospital as irmãs veem uma moça batendo a cabeça no vidro do corredor. Realizam rapidamente que a epidemia de suicídios tinha chegado. Nas ruas, carros batem, capotam, atropelam pessoas. Gente correndo sem rumo. Pânico.
Jessica, que está dirigindo o carro naquela rua cheia de gente enlouquecida, vê algo e põe o carro em situação de perigo. Malorie não consegue despertá-la de um estranho estado. Capotam mas sobrevivem. Quando Jessica olha Malorie com um olhar vazio e se deixa atropelar por um caminhão, é o nosso primeiro grande susto.
Malorie consegue ajuda e se refugia numa casa levada por um homem (Trevante Rhodes), não sem antes ver enlouquecer uma mulher que também vinha na sua direção. O marido dela (John Malkovich) assiste a tudo sem poder fazer nada.
O filme vai alternar dois cenários e dois tempos: a casa trancada e com as janelas vedadas, onde se refugiam algumas pessoas e o rio, onde, cinco anos depois, Malorie vai tentar sobreviver com duas crianças num barco a remo, com vendas nos olhos. Leva consigo uma caixa com pássaros porque eles sinalizam a presença do perigo ameaçador de que fogem. Este fato dá nome ao filme e também passa a ideia de confinamento a que os personagens estão condenados, já que não podem sair ao ar livre sem vendas e, assim mesmo, se arriscando à tentação de querer ver o que causa o perigo de morte.
Sandra Bullock, 54 anos, que já ganhou um Oscar de melhor atriz por “Um Sonho Possível” de 2009 e atuou em “Gravidade” de 2013, dirigida por Cuarón, está brilhante no papel de uma pessoa apática que passa a dar valor à vida e a sentir-se ligada, com todas as suas forças, ao objetivo de sobreviver com as duas crianças.
Susanne Bier, diretora dinamarquesa, 58 anos, levou o Oscar de melhor filme estrangeiro com “Em um Mundo Melhor” de 2010. Ela consegue passar o clima de suspense e terror na medida certa em seu filme. O roteiro de Eric Heisserer (“A Chegada”) é uma boa adaptação do livro de Josh Malerman, dizem os que leram o livro.
Agora, quem não gosta de ver sangue e assassinatos, nem de sentir ansiedade, melhor pular essa produção da Netflix. Uma pena porque vão perder um filme muito interessante. Aos outros, eu recomendo vivamente.


sábado, 22 de dezembro de 2018

O Retorno de Mary Popkins




“O Retorno de Mary Popkins” - “Mary Popkins Return”, Estados Unidos, 2018
Direção Rob Marshall

Talvez não seja um filme para as crianças de hoje em dia. Mas certamente continua encantando uma geração que viu o original com Julie Andrews, em 1964, no papel da babá mágica e com espirito de aventura, que rendeu à atriz seu primeiro Oscar.
Quanto precisamos agora dessa mensagem de esperança, de que tudo é possível e de que as perdas não são aquilo que pensamos quando estamos deprimidos, mas a oportunidade de procurar as coisas perdidas no nosso coração.
A história se passa em Londres, durante o período da Grande Depressão, anos 30, no qual uma família está a um passo de perder a casa onde moram na rua das Cerejeiras.
Bem Wishaw é Michael Banks, viúvo recente e pai de três crianças, deprimido e endividado. Seus filhos, Annabel (Dixie Davis), John (Nathanael Saleh) e Georgie (Joel Walters), também sentem a falta da mãe, embora tenham a tia Jane (Emily Mortimer), irmã do pai e Ellen (Julie Waters), a empregada que os adora.
As coisas chegaram a tal ponto que falta comida na despensa e as crianças vestem roupa suja.
É então que vem literalmente do céu, com sua sombrinha voadora, a ex babá do pai e da tia, que não envelheceu um dia sequer.
Com ela, as crianças vão entrar na linha e começar a experimentar o afeto e a magia que o pai e a tia tinham vivido com Mary Poppins (Emily Blunt), anos atrás.
O filme é um musical e tem números de dança e canto muito bem executados por Lin Manuel-Miranda, o acendedor de lampiões e Emily Blunt, charmosa e com voz afinada, apoiados por coro e coreografias que incluem outros personagens.
Meryl Streep, por exemplo, participa de uma única canção mas ela é uma craque e consegue divertir a plateia como a russa Topsy, prima de Mary Poppins, que faz consertos em tudo, coisas grandes e pequenas.
Colin Firth é o mal intencionado Presidente do Banco que quer tirar a casa dos Banks e Dick Van Dyke é seu tio, afastado por causa da idade, que faz um retorno aos 92 anos, emocionando a todos, dançando em cima da mesa.
Com surpresa, vemos Angela Lansbury, aos 93 anos, cantando e vendendo balões mágicos no parque, que bem escolhidos, fazem a pessoa voar.
“O Retorno de Mary Poppins” é para gente que ainda tem boas lembranças de sua própria infância no século XX. Para os demais vai soar antigo demais.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Aquaman



“Aquaman”- Idem, Estados Unidos, 2018
Direção: James Wan

Em uma noite de tempestade, o faroleiro Tom (Temuera Morrison) enxerga, em meio aos raios e ondas do mar, algo que parece um corpo, jogado nas pedras. Ele desce até a praia e se depara com uma bela mulher vestida de escamas prateadas (Nicole Kidman) que ele leva nos braços para casa. Lá ele fica conhecendo a história dela. É a Rainha Atlanna, que fugiu de um casamento arranjado pelo pai.
Os dois se apaixonam e tem um bebê, que vão chamar Arthur, como o Rei das histórias de cavalaria. Mas um dia, soldados vem buscá-la e ela vai para o fundo do mar para que Tom e Arthur sejam poupados.
E vemos o menino crescer forte, moreno, junto ao pai. Um dia, quando Arthur ainda era pequeno, num passeio ao aquário com a escola, se deparando com o mundo aquático atrás do vidro, fica encantado com os peixes.  Isso é motivo para um grupinho de alunos mais velhos caçoarem dele e mesmo empurrar Arthur. E o inesperado acontece.
Um enorme tubarão investe contra o vidro com muita força e várias vezes. Quer proteger o menino.
Todos se assustam porque parece que a parede de vidro vai se quebrar. Mas Arthur levanta a mão e a fúria se acalma. O tubarão fica dócil como um peixinho. Todos ficam se perguntando quem seria aquele menino.
E, como ele é filho da Rainha Atlanna, Vulko (Willem Dafoe), conselheiro real, vem do reino de Atlante para ensinar tudo que ele precisa saber para ser o futuro Rei dos Mares. O menino é talentoso e adora nadar com os golfinhos mas não se interessa pelo reino de Atlantis.
São lindas as cenas em altas falésias de pedra de onde Vulko e Arthur mergulham no mar e nadam como só os atlantes sabem fazer. Muito rápido. Na praia, treinam lutas e o manejo de arpões.
O filme “Aquaman” é um delírio de imagens quando afundamos no mais profundo mar e vemos os reinos que lá existem. A imaginação criou uma fantasia com tubarões, orcas, baleias, polvos, peixes de todos os tamanhos e cores, com cavalos marinhos gigantes servindo de montaria para os guerreiros e naves com formatos e cores esplêndidas.
Os Atlantes tem olhos que enxergam no escuro do mais profundo mar onde habitam e lá vamos nós com eles, em 3D, velozmente cruzando cardumes, atravessando corais coloridos, anêmonas e águas-vivas gigantes. Isso para não falar dos monstros marinhos jamais vistos que ora ameaçam, ora ajudam o Aquaman.
Foi a Princesa Mera (Amber Heard) que o convenceu a ir até o reino que um dia será dele e conhecer o meio irmão Orm (Patrick Wilson) que também quer ser rei e vai desafiar o Aquaman, a quem chama de mestiço e bastardo, o filho mais velho da Rainha Atlanna mas fora do casamento e com um humano da terra seca.
Jason Momoa tem o físico de um viking e com um corpo perfeito, olhos faiscantes, longos cabelos e barba selvagem, é um pouco brega, comparado ao irmão elegante, sem um fio do cabelo louro fora do lugar e bem vestido com roupas prateadas. Mas o Aquaman é mais sexy.
O mesmo pensa a Princesa Mera, de pele branca e cabelos vermelhos, num belo contraste. Ela tem atitudes de uma mulher segura de si e que sabe lutar pelo que quer. Vestida com seu longo que parece uma água viva transparente, lilás e flutuante, os cabelos ostentando uma tiara de ouro, ela é a imagem da força delicada. Não hesita em enfrentar o perigo.
Aquaman que pertence à terra e ao mar, é o personagem ideal para ser a ponte entre os dois mundos e dissuadir seu meio irmão de declarar guerra à terra seca.
Um pouco longo demais, o filme é um sucesso de bilheteria, inclusive na China.
Adorei o visual do fundo do mar que me lembrou a Sapucaí, um Carnaval de formas e cores.


A Balada de Buster Scruggs




“A Balada de Buster Scruggs”- “The Ballad of Buster Scruggs”, Netflix
Direção: Joel e Ethan Coen

Um conjunto de seis histórias que se passam no Velho Oeste, com cenários grandiosos por onde circulam os homens à procura de dar sentido à sua existência, é o novo filme dos irmãos Coen. Foi premiado como melhor roteiro no Festival de Cannes.
Um livro verde, com o desenho de uma arvore morta e uma caveira de boi na capa, insinua o que vamos ver. São tempos de violência e a vida humana está sempre em perigo. Como os Coen são críticos irônicos, podemos começar a pensar que o lugar e o tempo escolhidos, de intensa selvageria, fazem uma alusão ao mundo como ele sempre foi e ainda é.
Não por acaso, o livro se abre com o desenho de um cemitério, antes da ilustração da primeira história, que dá nome ao filme,
Vestido de branco (Tim Blake Nelson), ele canta montado em seu cavalo. Ele se acha o máximo. Chega às raias da arrogância. Invencível com uma arma na mão. Não se dá conta de que vai encontrar o que procura.
Na segunda história, James Franco faz o cowboy que acha que vai ser fácil roubar aquela agência de Banco caindo aos pedaços, no meio do nada e com aquele gerente velhinho. Ele não sabe o que está para vir. Um arrogante distraído.
Na terceira história Liam Neeson vai de cidadezinha em cidadezinha apresentando um ator (Harry Melling) raro. Até o dia que a cobiça inspira uma troca e um crime.
Já na quarta história, um vale intocado e belo, cortado por um rio de águas cristalinas, vai padecer com a visita de um garimpeiro (Tom Waits) em busca de ouro. Basta aparecer um homem para tudo se complicar. A cobiça é má conselheira.
Na quinta, Zoe Kozan é uma moça sem família, numa caravana para o oeste que vai ter que tomar uma decisão difícil.
E o conjunto se fecha com “Mortal Remains”, a pitada de horror, com uma viagem de diligência que começa ao por do sol, caminhando em direção à noite e um destino certo.
As paisagens são espetaculares. O fotógrafo francês Bruno Delbonnel capta com talento o esplendor das Montanhas Rochosas na neve, a beleza das pradarias imensas onde pousam rochas enormes, os desfiladeiros estreitos e os vales verdejantes. Um apelo estético ao bom senso para a preservação da natureza e a saúde do planeta.
Quem conhece os Coen (“Fargo”, “Um Homem Sério”, “Bravura Indômita”, “Onde os Fracos não tem Vez”), sabem que eles estudam a natureza humana e não pregam moral mas mostram atos e consequências desses atos, com um humor peculiar.
Graças à Netflix podemos ver esse grande filme sem sair de casa. E revê-lo quantas vezes você quiser.


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Roma




“Roma”- Idem, México, Estados Unidos, 2018
Direção: Alfonso Cuarón

Num preto e branco que tem cinza, nácar e infinitos tons de negro, ladrilhos lavados com água e sabão abrem uma janela de luz no chão, que reflete o céu. Aquele avião, que aparece no espelho d’água, vai passar de tempos em tempos sobre aquela casa de classe média alta no distrito de Roma, Cidade do México.
Mas a janela de água de Cuarón, o diretor, produtor, roteirista, fotógrafo e editor de “Roma”, abre-se também para o seu próprio passado. Voltamos ao início dos anos 70, no México.
E convivemos com uma família: o médico Dr Antonio (Fernando Grediaga), e sua mulher Sofia (Marina de Tevira) tem quatro filhos Tonio, Paco, Sofi e Pepe, o menor, em quem o diretor se projetou, e a avó Teresa.
O casamento vai mal mas as crianças são cuidadas com carinho e doçura por Cleo (Yalitza Patricio, uma novata talentosa), que é uma mexteco, vinda do seu “pueblo”, que também cuida da casa com Adela (Nancy Garcia). As duas são amigas e moram num quarto na edícula. Acima é a lavanderia, com tanques e varais, onde as crianças também vem brincar. E o cachorro Borras late como todos os outros nos outros terraços vizinhos.
Buzinadas marcam a chegada do Ford Galaxy do Dr Antonio, que mal cabe na estreita garagem da casa.
Durante o almoço, o país se introduz com Paco, que conta que viu um menino jogar sacos de água num jeep do exército e morrer com um tiro na cabeça.
“- Que horror ”, diz Cleo que servia a mesa. É a única a se manifestar.
Depois, um longo plano sequência mostra Cleo e Adela correndo pelas ruas, rindo. Vão encontrar os namorados, Ramón e Firmin. Uma dupla vai ao cinema e Cleo e Firmin a um hotelzinho, onde Firmin, nú em pelo, faz uma demonstração de artes marciais. Ela, amorosa, o recebe na cama e engravida sem saber.
Cleo é a personagem central de “Roma”, embora esteja sempre meio de lado e quieta. É doce e ingênua. Ama as crianças da família e é amada por elas. É ela que as leva para a cama cantando no fim do dia e é ela que as acorda, cantando, para não perder a hora da escola. É como se fosse um membro da família.
Entretanto há um México violento nas conversas entre os empregados da fazenda, onde dona Sofia com os filhos e Cleo vão passar o Ano Novo. Na cozinha, falam em voz baixa sobre os que morreram, vítimas dos conflitos sobre terras. E vemos, pela janela da loja de móveis, onde estão Cleo e a avó Teresa, o massacre de Corpus Christi, como depois foi chamado, quando cerca de 120 estudantes foram mortos numa manifestação, pelo exército e as milícias.
Cleo vê com seus próprios olhos assustados, Firmin atirar num homem que entrara correndo dentro da loja. Só então se dá conta de que Firmin era da milícia e entende os treinos de artes marciais.
Cuarón introduz na história um tremor de terra, incêndio na floresta da fazenda, sinistros bichos empalhados nas paredes e a taça quebrada por Cleo. São sinais de que virá?
Não sabemos. Assim como escutamos com surpresa o menino menor, Pepe, falar de suas vidas “quando era velho” para Cleo:
“- Antes de eu nascer, você estava lá também. Eu era piloto de avião e desci de paraquedas. Outa vez eu era marinheiro num navio e não sabia nadar. Morri durante uma tempestade. ”
Reincarnação? Vidas Passadas? Fantasia?
A belíssima cena na praia com ondas ameaçadoras, faz Cleo entrar no mar, sem saber nadar, para resgatar as crianças levadas pela correnteza. Depois ela chora abraçada com elas e confessa uma culpa que estava enterrada em seu coração. Desabafa e pode voltar para casa com o olhar sereno.
Há cumplicidade entre mulheres também. Dona Sofia diz para Cleo:
“- Por mais que falem ao contrário, nós mulheres, sempre acabamos sozinhas...”
No espelho do passado de Alfonso Cuarón, Roma é Amor.
E quem fica assistindo ao filme durante os créditos descobre que a Cleo dele era Libo, a quem dedica o filme.
No final, vemos escrito na tela:
“Shanti, Shanti, Shanti”, uma palavra que vem do hinduísmo que quer dizer paz.
A mensagem é de Cuarón, idealizador desse filme raro, que já ganhou o Leão de Ouro em Veneza, tem três indicações para o Globo de Ouro, melhor filme do ano para a crítica de Nova York e Los Angeles e está na primeira lista de nove filmes selecionados para competir pelo melhor filme estrangeiro.
Muitos prêmios mais virão, com certeza.