domingo, 24 de abril de 2011

Homens e Deuses





“ Homens e Deuses ”- “ Des hommes et des Dieux “, França, 2010

Direção : Xavier Beauvois


O diretor francês Xavier Beauvois escolheu o Salmo 82 da Bíblia católica como epígrafe de seu filme “Homens e Deuses”:

“Eu disse: Vós sois deuses e todos vós, filhos do Altíssimo.

Todavia, morrereis como homens e caireis como qualquer um dos governantes.”

O Livro dos Salmos é o coração do Antigo Testamento.

Lá estão poemas e cânticos que foram entoados em hebraico, há milênios, no Templo de Jerusalém e hoje são recitados como orações ou louvores tanto no judaísmo como no cristianismo e também no islamismo.

Escritos em hebraico, depois traduzidos para o grego e o latim, os salmos são um elo comum, e raro, entre as três grandes religiões monoteístas.

Foi certamente por isso que o sensível diretor Xavier Beauvois escolheu um salmo para introduzir o seu filme, que fala de solidariedade e de aproximação entre os homens, seja qual for a sua religião.

O filme levou o grande prêmio em Cannes, além de ganhar o César de melhor filme francês e foi campeão de bilheteria.

Essa história real que é contada lentamente, com simplicidade e emoção, nos leva para um mosteiro em uma região remota da Argélia, na última década do século passado.

Vamos observando, no filme, cenas do cotidiano da vida austera de oito monges que cuidam da terra e dos animais de uma pequena propriedade, fabricam mel, rezam e convivem em paz uns com os outros.

Mas a principal função deles é atender, sem intenções missionárias, a população do vilarejo próximo que recorre ao mosteiro em suas aflições, seja do corpo, seja do coração. Recebem conselhos e remédios ministrados de graça, com simpatia e cuidado.

Na feira local, os monges vendem seus produtos lado a lado aos moradores da vilazinha pobre.

Na singela capela do mosteiro, entoam cantos gregorianos com beleza e convicção.

O velho médico, o irmão Luc (Michael Lonsdale), atende todo dia uma longa fila de pacientes. São mulheres que trazem crianças, velhos com problemas de saúde de todo tipo e até feridos graves. Não recusa ninguém.

Mas o país está em plena guerra civil e começa a ter problemas com fundamentalistas exaltados e grupos armados de terroristas.

Um dia eles chegam àquela região longínqua.

Em uma noite de Natal, com a neve caindo, ao invés de paz na terra, esses homens de boa vontade terão suas vidas sacudidas por uma escolha difícil: ficar ou abandonar o vilarejo à própria sorte?

A população pobre precisa tanto deles que à certa altura do filme ouvimos uma moradora dizer aos monges:

“- Nós somos os pássaros, vocês são os galhos. Se forem embora onde vamos pousar? ”

Mas eles estão encurralados pelo governo argelino que quer vê-los longe da Argélia, já que lembram a odiada ocupação francesa e os grupos armados que não gostam da influência que os monges exercem sobre a população do vilarejo.

Não há possibilidade de negociação.

O prior (Lambert Wilson), mortificado por essa decisão terrível, busca a ajuda de Deus na natureza e o seguimos em longas caminhadas entre as árvores seculares. À mesa ouve cada um dos monges sobre sua decisão pessoal.

Dolorosa mas consciente vai ser a posição que eles vão preferir.

Uma última ceia comovente, ao som de um inesperado e bem escolhido “Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky, emociona e nos faz ainda mais próximos desses monges exemplares, que a câmara nos mostra em closes reveladores, interpretados por atores excepcionais. Cinema em tom maior.

A fé desses homens será a solução para um dilema que será colocado dramáticamente.

Um filme tocante e com um tema muito atual: até quando a humanidade vai preferir a violência ao diálogo?

Vá você também ao cinema pensar sobre esse assunto.




terça-feira, 12 de abril de 2011

Rio





“Rio”- Estados Unidos, 2011

Direção : Carlos Saldanha





Uma manhã em paz. Árvores tropicais e palmeiras em meio à neblina matinal nas encostas das montanhas. Aos poucos, o pio de pássaros vai acordando a floresta adormecida.

Ouve-se o som de uma cuíca que vai agregando os instrumentos de uma escola de samba. E explode a coreografia colorida de papagaios e araras, cantando o Carnaval no Rio.

Uma abertura que homenageia a cidade natal de Carlos Saldanha, criador da animação mais bonita dos últimos anos. O Rio, aqui mais do que nunca “a cidade maravilhosa”, vai ser o pano de fundo das aventuras de uma ave em extinção no Brasil, a ararinha azul, que na verdade só é encontrada em cativeiro.

Entramos em um oco de árvore e lá está o filhote sem a mãe. Rebola o rabinho ao som da música que canta a magia do Rio. Mas, enquanto as araras amarelas aprendem a voar com a mãe delas, a ararinha azul órfã cai do ninho... E é enjaulada por traficantes de pássaros.

A sorte do nosso órfão é que Linda (voz de Leslie Mann), uma menina de óculos e olhos meigos é quem abre a caixa onde ele está aprisionado, triste e assustado, depois de uma longa viagem de avião:

“- OK. OK. Eu vou tomar conta de você“, promete a garota.

Amigos para sempre.

A partir daí, batizado de Blue (voz de Jesse Eisenberg), a ararinha azul é seu animal de estimação e é tratado como uma criança querida.

Os dois se bastam em uma cidadezinha dos Estados Unidos, onde Linda tem uma livraria. Tímida, Blue é a única companhia dela.

Mas, eis que em um frio dia de inverno, chega Túlio (voz de Rodrigo Santoro), um ornitólogo (entendido em pássaros) com um cachecol verde e amarelo, que dá a notícia:

“- Viajei 10.000 milhas só para vê-lo. Blue é o último macho de sua espécie. Encontramos uma fêmea e temos que ir todos para o Rio de Janeiro.”

Ele joga a ararinha azul para o alto, na esperança de vê-lo voar para que possa haver o acasalamento mas...Decepção. Blue não aprendeu a voar...

“- Talvez ele seja muito domesticado... Mas temos que tentar porque ele é a nossa única chance.”

Blue e Linda se entreolham preocupados.

E, a partir da chegada ao Rio, começam as aventuras de Blue em pleno Carnaval carioca.

A ararinha azul fêmea, chamada Jade nas legendas da versão original mas que é Jewel, jóia em inglês, na voz de Anne Hathaway, é sestrosa, tem olhos azuis e faz de tudo para que Blue possa voar.

Eles vão rodar pela cidade em companhia de outros pássaros, o cardeal Nico e o canarinho Pedro, exímios sambistas, e o descolado tucano Rafael que ajudam o par azul a escapar dos traficantes e da malvada cacatua Nigel, que é o vilão da história.

Um buldogue simpático e micos pivetes também dão a ar de sua graça e aprontam confusões divertidas.

São cenas que vão se desenrolando em ritmo acelerado, que mostram muito bem a cidade, desde as calçadas de Copacabana, ao bairro de Santa Tereza com o bondinho, Ipanema, o Pão de Açucar, a Pedra da Gávea e as asas delta, sem deixar de passar pelos barracos e vielas das favelas cariocas.

Tudo muito bem cuidado. Vê-se que um carioca “da gema” lembrou-se de todos os detalhes que fazem do Rio uma cidade única no mundo.

Ao som de músicas de Sergio Mendes, Carlinhos Brown e Jorge Benjor, para só falar dos brasileiros, o Rio deslumbra com suas belezas bem desenhadas.

E, claro, tratando-se do Rio e do Carnaval, nada melhor que acabar na Sapucaí, no desfile das escolas de samba, o maior espetáculo a céu aberto que se conhece.

Carlos Saldanha, conhecido pela animação “Era do Gelo”, acertou em cheio em “Rio” que tem tudo para agradar o público brasileiro e internacional, adultos e crianças.

Afinal, bicho e natureza são os temas da hora e Saldanha não faz de “Rio” um samba exaltação. Fala tanto das belezas como das mazelas de uma cidade habitada por seres humanos simpáticos mas nem todos ”do bem”, com mão leve e carinho. Há um frescor de emoções singelas que encanta, seja na versão 3D legendada ou dublada.

Aproveitem a chance do filme estar passando em muitos cinemas e não percam “Rio”. Vocês vão adorar.

domingo, 10 de abril de 2011

Turnê

“Turnê”- “Tournée”, França, 2010 Direção : Mathieu Amalric

“Turnê”- “Tournée”, França, 2010

Direção : Mathieu Amalric



É um filme agridoce. Tem momentos de comédia, outros de drama. Como a vida.

Entre plumas já meio gastas, boás que precisam de remendos e paetês que ainda brilham, apresentam-se as artistas do neo-burlesco americano para o público francês.

Elas não são o tipo que a gente se acostumou a ver fazendo “strip-tease”. Mas recebem aplausos calorosos do público feminino e masculino que entende o que elas querem comunicar: alegria e sensualidade.

Apesar das gordurinhas e das rugas ou, ao contrário, até por causa delas, essas mulheres enfrentam o palco com coragem, vontade de agradar e humor. Principalmente humor.

O diretor do filme que é conhecido como ator, Mathieu Amalric, e que faz o empresário do show, um tipo decadente, para quem a vida não está exatamente sorrindo, ganhou o prêmio de direção em Cannes no ano passado.

Entrevistado, ele ressaltou essa condição essencial do humor:

“- Quando se tem humor e se encara até as dificuldades como parte de toda a experiência, nada pode ser tão ruim”.

Com seus cabelos vermelhos, rosa, louro oxigenado e perucas extravagantes, cinco americanas com nomes de “guerra” hilários como Kitten on the Keys, Dirty Martini, Evie Lovelle, que não são atrizes profissionais, são as meninas que Joachim Zand, o empresário do show, faz desfilar com espantosas bijuterias, estrelas e pompons colados nos mamilos e tapa-sexos de contas brilhantes em bundas enormes e seios cansados.

Elas cantam, tocam piano, dublam, sacodem os cachos e os peitos e encantam as platéias que aplaudem e assoviam porque se comovem com a beleza delas, seu talento e imaginação.

Nos trens, vans e hotéis baratos em que se hospedam durante a turnê pela França, elas são uma família. Amparam-se mutuamente, riem, choram, trocam confidências. São solidárias até com o empresário que faz com elas uma turnê interiorana e não consegue o teatro para o tão sonhado show em Paris.

Mathieu Amalric, que foi um dos escritores do roteiro, conta em entrevista em Cannes que se inspirou em um texto da famosa escritora Colette. Ela era atriz e, aos 30 anos, participou de shows nos quais representava pequenas cenas com pouca roupa, o que causava escândalo e sensação. Fruto dessa experiência, ela escreveu “L’Envers du Music Hall”.

Amalric diz que encontrou no neo-burlesco americano, a tradução atual para o que Colette escreveu. E assim nasceu o roteiro.

Aliás , foram as próprias intérpretes que inventaram a coreografia e os figurinos que vemos no filme.

“Turnê” é uma homenagem à solidariedade, à beleza fora dos cânones oficiais, à sensualidade e à vontade de viver.

Mas, acima de tudo, põe em destaque a força de mulheres que tem o poder de transformar a vida em algo que vale a pena viver, mesmo que em meio a dificuldades e desenganos.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Tributo à Elizabeth Taylor

Tributo à Elizabeth Taylor (1932-2011) >



Tributo à Elizabeth Taylor (1932-2011)



Das estrelas de Hollywood, uma sempre foi a preferida de muitos – Liz Taylor. Com os olhos “de uma cor que mais ninguém possui”, como diria Roberto Carlos, azul de violetas, passava através deles algo que foi notado pelos que a rodeavam: parecia mais velha do que era, desde menina.

Uma alma antiga? Profundo e misterioso aquele olhar violeta...

Seus pais, Sara Warmbrodt e Francis Taylor, eram amigos de infância e casaram-se em 1926 em Nova Iorque. Ela atriz de teatro, ele “marchand” de quadros. Deles, Liz herdou sangue alemão, irlandês e escocês, além de talento para representar e gosto estético.

Quis o destino que eles se mudassem para Londres onde Francis foi dirigir a galeria de arte de seu tio rico.

Sara abandonou o teatro e teve seu primeiro filho em 1929.

Moravam em uma casa espaçosa, cercada de jardins, em um “chic” bairro londrino.

Quando Elizabeth nasceu, em 27 de fevereiro de 1932, deu um susto em todo mundo. O corpo dela era todo coberto por uma feia penugem negra. Hipertricose residual foi o diagnóstico. Passaria logo mas, enquanto não passou, as visitas ficavam penalizadas.

Mas, a partir daí, ela não parou mais de encantar a todos com seus olhos violeta cercados por dupla fileira de cílios espessos, cabelereira negra e a pinta do lado direito do rosto, “marca de beleza”, como se dizia. Quando cresceu, cintura fina e seios generosos completavam a imagem feminina e sensual que ela passava no cinema.

E tudo começou porque a família teve que abandonar Londres em 1939 por causa da guerra, para se instalar em Los Angeles, perto de Hollywood.

Ao ver a pequena Elizabeth na rua ou no colégio de classe alta que ela freqüentava, todos insistiam com sua mãe para que a levasse para um teste no cinema.

Foi assim que Liz começou, aos 9 anos, uma carreira de 60 anos nas telas, sendo a única atriz- mirim que deu certo como atriz adulta.

“National Velvet” de 1944, fez dela uma estrela aos 12 anos. As aulas de equitação que tivera em Londres, foram úteis ao papel da garota que treinava seu cavalo para vencer uma corrida nacional.

Começou então a paixão da câmara e do público por Elizabeth Taylor.

Na adolescência fez muitos filmes e o mais marcante foi “Quatro Destinos” em 1949, a história de quatro irmãs durante a guerra, esperando o pai voltar, que foi um sucesso. Liz fazia Amy, de peruca loura e um pregador de roupa no nariz na hora de dormir, para afinar o que considerava um nariz nada aristocrático.

Aos 17 anos filmou “Um Lugar ao Sol” ao lado de Montgomery Clift e ficaram amigos por toda a vida.

Casou-se aos 18 com o herdeiro Nick Hilton mas o casamento durou apenas meses.

Aos 20, encontrou o segundo marido, Michael Wilding, nas filmagens de “Ivanhoé”. Tiveram dois meninos.

Um de seus grandes filmes acontece em 1956, “Assim Caminha a Humanidade”, contracenando com Rock Hudson e James Dean, que também se tornaram seus amigos. Liz gostava de homens “gays” e eles sempre a adoraram.

Em 1957 foi indicada ao primeiro Oscar por “Árvore da Vida”.

Tinha 25 anos quando se casou com Michael Todd. Um grande amor. Converteu-se ao judaísmo e daí em diante sempre defendeu as causas de Israel. Tiveram uma filha, Liza.

Liz ficou destroçada quando ele morreu em um desastre de avião.

O melhor amigo do terceiro marido era Eddie Fisher e todo mundo conhece a história que fez a delícia das colunistas de escândalos da época. Ele abandonou Debbie Reynolds e casou-se com Elizabeth em 1958, tornando-se o quarto marido.

No cinema, nesse mesmo ano, ela filma com Paul Newman,"Gata em Teto de
Zinco Quente” e seu papel como “Maggie, the cat”, marca o momento em que o salário dela começou a ser um dos maiores da indústria do cinema.

A foto de 1959 durante a filmagem de “De repente no Último Verão”, com aquele maiô branco, é um dos mais belos retratos de Liz. Inesquecível.

Então, aos 34 anos, faz a garota de programa de luxo, vestindo uma “sexy” combinação de cetim em “Disque Butterfield 8 “ e ganha seu primeiro Oscar.

Mas a grande mudança em sua vida ainda estava para acontecer. O convite para filmar “Cleópatra” veio acompanhado por um salário de 1 milhão de dólares.

E ela contracena com Richard Burton, seu Marco Antonio. Paixão.

O filme ficou famoso por causa do romance entre os dois e das brigas violentas do casal. Burton, o quinto marido, foi o segundo amor de Liz.

Jóias, ela dizia, eram o terceiro amor em sua vida. E Burton sabia disso.

Como presente de casamento ela ganhou o diamante Krupp de 33 quilates. Logo depois Burton comprou para ela a famosa pérola “La Peregrina”, que tinha enfeitado o colo de tantas rainhas. Quando ela fez 40 anos ganhou o diamante Taj-Mahal, em forma de coração.

Mas o presente mais vistoso foi o diamante Taylor-Burton, comprado da Cartier e que tinha 69.42 quilates em forma de pêra. Custou 1 milhão de dólares.

Foi durante seu casamento com Burton que Liz recebeu seu segundo Oscar pelo papel de Martha de “Quem tem medo de Virginia Woolf?”, em 1966, contracenando com ele. Tinha 34 anos e teve que fazer uma maquiagem especial para parecer mais velha e decadente.

Elizabeth e Burton ficaram casados de 1964 a 1974, divorciaram-se e voltaram a se casar em 1975 por pouco tempo. Adotaram uma filha, Maria. E Liz contava Burton como o quinto e sexto marido.

O sétimo seria o senador John Warner com quem ficou casada até 1982.

Nessa época internou-se na Clinica Betty Ford. A primeira de algumas vezes. Bebida, tranqüilizantes e analgésicos eram o problema.

Aos 51 anos voltou a contracenar com Burton na Broadway na peça “Private Lives”, um ano antes da morte dele causada por um enfarto fulminante aos 58 anos. Liz ficou destruída mais uma vez.

Sua vida nos anos que se seguiram foi marcada por vários problemas de saúde que a levaram a muitas cirurgias e hospitalizações.

Em 1985, quando morre de AIDS seu amigo Rock Hudson, ela passa a participar ativamente na luta contra a doença através da Elizabeth Taylor AIDS Foundation.

Com 59 anos casa-se com o oitavo e último marido, que conhecera na Clinica Betty Ford, Larry Fortensky, numa cerimônia na propriedade Neverland de Michael Jackson, de quem foi íntima amiga. Separaram-se em 1995.

Em 2000, a grande estrela de cinema recebe o titulo de “Dame”das mãos da Rainha da Inglaterra, que muitos anos antes, ainda Princesa Real, visitara o camarim da mãe de Liz na estréia de uma peça em Londres, ofertando-lhe um broche de brilhantes.Coincidência feliz.

Em 2003, Elizabeth Taylor anuncia que não fará mais filmes.

E, em 23 de março de 2011 morre de insuficiência cardíaca, doença ligada à mutação genética que, ironicamente, a premiara com sua dupla fileira de cílios...

Mas, da mesma forma que admiramos o brilho de estrelas já mortas em noites escuras, Liz continuará refulgindo por muito tempo.

Seus filmes poderão ser vistos no cinema ou em nossas casas e neles vamos nos encantar sempre com as jóias mais belas que ela tinha, os olhos violeta e com seu talento de atriz, que ainda vai surpreender muitas gerações de fãs de cinema.

domingo, 27 de março de 2011

O Retrato de Dorian Gray





“O Retrato de Dorian Gray”- “Dorian Gray”, Inglaterra, 2009

Direção: Oliver Parker





Oscar Wilde (1854-1900) morreu na prisão, vítima da crueldade do falso moralismo da era vitoriana na Inglaterra.

Homossexual, não podia viver livremente suas escolhas. Atormentado, criou um personagem que era sua patética confissão de que o mal o habitava.

“O Retrato de Dorian Gray”, publicado em 1890, é um livro cujas raízes estão no conflito do autor em tentar reprimir nele mesmo o que era proibido pelos costumes preconceituosos da época e que, ao mesmo tempo, faz uma declaração pública, a favor da punição aos que ousassem desafiar as regras, ou seja, condenando o próprio autor.

Oscar Wilde tentou de tudo para se ajustar ao modelo da época em que vivia mas falhou.

“O Retrato de Dorian Gray”, o filme, dirigido por Oliver Parker, é a história do anti-heroi Dorian Gray (Ben Barnes), que chega ingênuo e sem vícios a Londres, recriada com lirismo e fotografada em tons frios por Roger Pratt.

Logo no início do filme, vemos o jovem chegando à estação de trem onde é abordado por mendigos, prostitutas e rapazes “gay”. Dorian, que recebera uma herança do avô, passa cego por esses presságios e vai ao encontro de seu destino entre os membros fúteis da alta sociedade londrina.

Em um concerto beneficiente conhece o pintor Basil Hallward (Ben Chaplin) que, seduzido pela beleza de Dorian, pinta o seu retrato. E o faz de forma tão soberba, que vai desencadear o drama.

Lord Henry Wotton (Collin Firth, antes do Oscar), personifica aquele que vai arrastar Dorian a viver a filosofia de vida amoral e perversa que prega mas não pratica inteiramente. São discursos eloqüentes e cínicos que o frágil jovem Dorian incorpora e repete, tanto em palavras como nas escolhas que faz para a sua própria vida.

O sotão da mansão familiar herdada por Dorian Gray esconde segredos. Com suas paredes descascadas e janelas vedadas, dá o tom sombrio às memórias infantis, envolvendo Dorian e seu avô.

Cacos de espelho pelo chão, anunciam o fracasso da visão clara...O narcisismo maligno de Dorian vai ser o terreno fértil para pactos demoníacos.

Frente ao seu retrato, enamorado por sua própria figura, diz que faz qualquer negócio para manter a juventude e a beleza eterna.

Metáfora de um canto da mente de Dorian Gray aberto à perversão, o sótão será o lugar do retrato, escondido aos olhos do mundo, corrompendo-se à medida que o jovem vai se entregando à degradação e à luxúria.

O retrato espelha a alma de Dorian Gray e condena suas ações, que vão se tornando mais e mais repugnantes.

Sem amor e com uma curiosidade insaciável pelos prazeres mundanos, Dorian é um excluído.

Parece que Oscar Wilde previa o seu próprio futuro que não tardaria a chegar...

O filme é bem cuidado tanto na direção de arte quanto nos figurinos criados com riqueza de detalhes requintados por Ruth Myers.

E o seu grande mérito é reviver um clássico. Se bem que, adaptado pelo roteirista estreante Toby Finley, dobra-se ao gosto da juventude de hoje por filmes de horror com muito sangue, música tonitruante e até um beijo “gay”.

Espero que leve gente jovem ao cinema e que, seduzidos pelas imagens, redescubram o livro e fiquem sensibilizados por toda a sutileza, ironia e inteligência de Oscar Wilde.

Feliz que Minha Mãe Esteja Viva





“Feliz que Minha Mãe Esteja Viva”- “Je Suis Heureux que Ma Mère Soit Vivante”, França, 2009

Direção: Claude e Nathan Miller





Olhos azuis muito claros buscam algo que não sabemos...É um garoto com rosto belo e grave (Vincent Rottiers).

No carro, a família de férias vai ao mar. Mãe e pai, dois filhos. Linda vista se descortina à frente deles.

Na praia, a mãe passa protetor solar no menino menor. O maior, de olhos azuis, chama o pai para nadar.

Com uma prancha, ele vai cortando as ondas muito rápido. Chega às pedras e bóia de olhos fechados, segurando a prancha, como se sonhasse com o algo muito buscado e agora encontrado.

O pai alarmado grita:

“- Thomas! Thomas!”

As águas do mar se agitam e as ondas assustam. A câmara sobe e mostra o pai sozinho na imensidão azul.

Finalmente encontra o filho sentado em uma bóia:

“- Que estupidez a sua nadar até aqui!”, exclama o pai com raiva.

“- Ficou com medo?“, pergunta o menino.

“- Lógico!”

“- Desculpe.”

E, de chofre, emenda:

“- Como era a minha mãe? Bonita?“

“- Não sei”, responde o pai visivelmente contrariado. “Eu nunca vi sua mãe. Ela não queria nos ver.“

“- Eu me lembro. Ela era linda!”, diz o menino com um ar ao mesmo tempo sonhador e atrevido.

“- Você só tinha 5 anos... Como pode se lembrar?“

“- Mas eu me lembro“, diz desafiador.

“- Bom... Tudo bem...”, responde o pai com ar incrédulo e chocado.

Tudo está bem claro agora. O menino de olhos azuis é adotado. Bem como o irmão menor.

Cenas em “flashback”, misto de fantasia e lembranças, mostram os dois com a mãe biológica ( Sophie Cattani) em momentos de ternura, tomando banho, ela dando de mamar ao bebê sob o olhar do maiorzinho, colocando-o na cama junto a ela, carinhosa e muito jovem.

Vemos também porque dá os filhos para adoção: imatura, irresponsável e sem dinheiro mas com uma grande sede de viver. Os filhos atrapalhavam.

Os pais adotivos tudo fazem mas Thomas, o menino de olhos azuis, conforme o tempo passa, fica ainda mais rebelde. Briga seguidamente na escola porque os outros meninos descobriram que é adotado e perguntam o nome de sua mãe verdadeira. Um colégio interno parece ser a única solução para contê-lo.

“- Eu descobri muita coisa. Mas vou descobrir mais ainda. Eu me lembro dela. Vocês não são meus pais! Meu irmão não é irmão de pai. Se eu quiser, vou embora! Odeio vocês!”

E, aos 20 anos, vai atrás de um sonho amoroso que vira pesadelo.

Tornou-se um clichê em nossa cultura falar sobre o complexo de Édipo. Sabem, quase todos, que foi Freud que assim nomeou o misto de sentimentos amorosos e hostis que uma criança sente pela mãe e pelo pai. Ele já vinha escrevendo sobre isso desde antes do livro de 1900, “A Interpretação dos Sonhos”, que marca a fundação da psicanálise. Valeu-se da tragédia grega “Édipo Rei” de Sófocles, para ilustrar o que observava em si mesmo e nas crianças ao seu redor:

“...é possível que todos tenhamos sentido, a respeito de nossa mãe, o nosso primeiro impulso sexual, a respeito de nosso pai, o primeiro impulso de ódio; são testemunhas disso nossos sonhos. Édipo, que mata seu pai e casa com sua mãe, não faz mais do que realizar um desejo de nossa infância.“

Freud também explica um sentimento obscuro de culpa que pode fazer com que uma pessoa cometa um ato criminoso para ter, finalmente, ao quê atrelar essa culpa, proveniente do Édipo infantil, que quer matar o pai e ter relações sexuais com a mãe.

No filme, Thomas, que embarca num jogo de sedução com a mãe biológica, dá livre passagem a amores e ódios transbordantes que são a marca registrada do Édipo infantil.

Frustrado e rejeitado na infância, ele nunca se curou de uma ferida antiga, que reabre perigosamente no convívio com a mãe, ao mesmo tempo amada e odiada.

Aqui, seria bom que pensássemos nos traumas perigosos ligados ao narcisismo que entraram em cena. Thomas se olha muitas vezes em espelhos, vitrines e janelas, numa alusão a uma identidade buscada em seu passado.

“Feliz que Minha Mãe Esteja Viva” é um filme baseado em fatos reais descritos em um artigo de Emmanuel Carrère, que serviu de inspiração para o roteiro dos diretores Claude e Nathan Miller, pai e filho. Aponta para os perigos que estão adormecidos dentro de nós e que precisam ser elaborados. Se não, quando se apresenta a chance, a tragédia surge.

O menino de olhos azuis, no fim do filme os tem vazados, como os do Édipo grego que se cegou porque não agüentou olhar a realidade cruel.

Um filme inquietante.

domingo, 20 de março de 2011

Cópia Fiel





“Cópia Fiel”- “Copie Conforme”, França, Itália, Irã, 2010

Direção: Abbas Kiarostami





Quando é que a sétima arte, o cinema, imita a vida?

Quando é que um filme torna-se um acontecimento para alguém?

Talvez quando um roteiro, escrito, dirigido e interpretado com sensibilidade, propõe temas que nos tocam profundamente e começamos a nos perguntar sobre nós mesmos. A história precisa nos comover e nos convidar a pensar. O filme fica na cabeça, as imagens voltando e nos estimulando para diálogos íntimos. A sós ou acompanhados.

Assim é com “Cópia Fiel”, o primeiro filme ocidental do diretor iraniano Abbas Kiarostami.

Uma mulher, Elle, (Juliette Binoche) sente-se atraída por um homem, James Miller (o barítono inglês, William Shimell). O filho adolescente dela é o primeiro a perceber. E ela se irrita por ser tão transparente assim...

Os dois trabalham com arte. Ela tem um antiquário. Ele escreveu um livro sobre a cópia de uma obra de arte, coisa tão antiga quanto os romanos e que pode valer mais que o original.

Vão se encontrar e andar juntos por um dia, pela Toscana, onde ela mora.

No começo é o livro dele e a questão da originalidade, do falso e do autêntico na arte, que parece ser o centro da história. Mas, logo, essas questões vão convergir para a relação afetiva dos dois. O discurso intelectual serve apenas como um pano de fundo para os sentimentos que já brotam com força:

“-Não acredito que você está sentado no meu carro!”, exclama ela, logo no início do passeio.

E, com a câmara fechada no rosto dos dois, vamos seguindo o diálogo. A bela paisagem da Toscana é ignorada.

Ela traz para a conversa a amiga Marie, que tinha sido a primeira a ficar intrigada com o livro dele. Elle, a francesa, conta para James, o inglês:

“- Ela diz, melhor uma cópia que o original. Por isso só usa jóias falsas. Assim não tem com que se preocupar.”

E, como quem não quer nada, acrescenta que Marie tem um marido apaixonado, um homem simples, que gagueja e que ela adora.

Ele autografa o exemplar de Marie e escreve: ”Você é original!”

“- Somos parecidos, eu e Marie”, comenta ele.

E é aí que surge a faísca que vai uni-los e separá-los durante aquele dia:

“-Não acho. Marie não quer convencer ninguém. Você sim, com o seu livro.”

“-Eu escrevi esse livro para ser honesto, para convencer a mim mesmo. Não é fácil ser simples.”

Ela retruca:

“-Mas não precisamos ser simples! Somos complexos!”

E, na parada para o café, surge a dona, uma italiana, que os confunde com um casal e comenta com Elle sobre os confortos do casamento.

Pronto. O jogo vai começar.

Ele saíra para falar ao celular e quando volta, ela diz:

“-Sabe que a dona do café nos confundiu com um casal casado?”

O rosto dela vai mudando, uma lágrima logo aflora e Elle instiga James a segui-la numa conversa íntima sobre um casamento de 15 anos.

E a dúvida nos assalta. Mas não se trata de desconhecidos? São mesmo casados e se separaram ou é tudo uma farsa?

Não importa. Ao topar o jogo, o inglês vai ter que acompanhar Elle, que dirige a ação.

Juliette Binoche, que ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes por essa atuação, disse em uma entrevista ao jornal Valor:

“Sim, ela conduz a ação! Isso não é maravilhoso? Porque, às vezes, são as mulheres que têm que arrancar as emoções dos homens! (Risos) As mulheres são capazes de despi-los de suas carapaças para que se revelem. Somos como deusas do amor, estamos aqui para revelar os homens. Se não fosse pelos homens, como poderíamos ser mulheres?”

O iraniano Abbas Kiarostami que apresentou ao mundo seu país e sua cultura, através de seu povo (“O Balão Branco” 1995, “Gosto de Cerejas” 1997, “Onde fica a casa de meu amigo?” 2000), em “Cópia Fiel” fala de algo que todo mundo entende: as glórias e os fracassos do amor no casamento.

Os sinos da Toscana dobram ou repicam para esse amor casado? Ou talvez apenas toquem para acordar quem mantém ilusões que sustentam relacionamentos equivocados?

Elle inveja o casal de velhinhos que vê sair da igreja. Será que ela sabe dos auto-enganos que tiveram que ser superados para que acabassem juntos a vida?

Mais perguntas que respostas...Cabe ao espectador pensar sobre elas.

É bom lembrar que Kiarostami aproveita também para denunciar ao mundo, através de sua opção de filmar na Itália, que seu país sofre nas mãos de um regime autoritário que inibe a liberdade de expressão.

Em entrevista ao jornal O Globo, quando perguntado sobre a opressão no Irã, Kiarostami, 70 anos, com 40 de cinema no currículo, citou uma declaração de outro cineasta iraniano, Asghar Farhadi, que ganhou o Urso de Ouro esse ano em Berlim:

“Vivendo sob tamanha pressão, não sei se paro de filmar e passo a me expressar a partir de atos políticos radicais ou se devo continuar filmando, sabendo que as reflexões propostas pelos nossos filmes podem mudar mentalidades e esclarecer pessoas.”

Por enquanto, Abbas Kiarostami escolheu seguir fazendo filmes.

Sorte nossa.