quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Nasce uma Estrela




“Nasce Uma Estrela”- “A Star is Born”, Estados Unidos, 2018
Direção: Bradley Cooper

A tela mostra um show de “country rock”, com guitarras estridentes e luzes coloridas criando um clima quente. Antes de entrar no palco, um belo homem engole um punhado de pílulas. Gritos e palmas. A multidão enlouquece com a banda e o cantor. Ele é famoso.
Depois o vemos dentro do carro, disfarçando o rosto com um chapéu, fugindo das fãs grudadas no carro e bebendo na garrafa.
“- Não quero ir para o hotel... pare aqui. ”
Ele desce do carro e entra no bar onde é reconhecido pelas “drag queens” que fazem o show. Ele bebe e se diverte vendo as performances.
De repente, uma voz canta em francês. É uma garota morena, vestido de alcinhas e meia arrastão. Ela hipnotiza a plateia, muda, ao som do “La Vie en Rose” que ela canta com paixão.
O roqueiro está fascinado com ela, deitada no palco, pertinho, olhando para ele e finalizando a canção com aquela voz poderosa. Sobrancelhas finas e pintadas dão um ar dramático à sua figura.
“- Você está chorando? ” pergunta o sujeito que o trouxe até a beira do palco.
“- Só um pouco ” responde o roqueiro com olhos brilhantes.
“- Venha. Você tem que conhecê-la. ”
Jackson Maine (Bradley Cooper, belo e carismático) vai ao camarim conhecer a garçonete Ally (Lady Gaga, presença e voz poderosas) e os dois nunca mais se desgrudam.  Existe uma atração tão forte e natural entre eles que eletriza a tela. Jack toca sua guitarra para ela ouvir e acabam a noite sentados num estacionamento, conversando, depois de uma briga em outro bar. Ela machucou a mão e ele cuida dela.
“- Você compõe? “
“ - Não gosto de cantar minhas músicas. Não me sinto à vontade... minha aparência não agrada...”
Ele a estimula e ela canta “Shallow” a capella. Lindamente. A música é um arraso.
“- Caramba! Acho que você pode ser minha compositora! ”
O romance está apenas começando e a plateia já está conquistada.
Bradley Cooper se lança na direção do filme com surpreendente brilho e Lady Gaga faz o papel que já foi de Janet Gaynor (1937), Judy Garland (1954) e Barbra Streisand (1976), com talento próprio. A história da cantora que faz sucesso enquanto o músico, seu descobridor, vê sua carreira entrar em decadência, é a mesma das três outras versões. Mas ainda dessa vez, encanta o público, graças principalmente à magia que a dupla de atores cria na tela.
Apesar do amor que sente por Ally, Jack está enfraquecido pela bebida e pelas drogas e ela, cheia de energia, tenta cuidar dele mas é sua carreira solo que a entusiasma. Há lágrimas nos olhos do público porque Bradley Cooper nunca foi tão comovente e frágil.
A crítica adorou “Nasce Uma Estrela”, sucesso de público também e já há previsões para saber quantos Oscars o filme vai ganhar. E merece.


domingo, 14 de outubro de 2018

Minha Filha




“Minha Filha “- “Figlia Mia”, Itália. 2018
Direção: Laura Bispuri

Desde a história do Rei Salomão no Velho Testamento e as duas mulheres que se diziam mães do mesmo bebê, o tema da disputa envolvendo a maternidade é lembrado em várias versões.
Aqui, a diretora italiana Laura Bispuri, em seu segundo longa, escolheu a Sardenha, no verão, como seu cenário. Uma terra antiga onde ainda existem necrópoles milenares escondidas em grutas subterrâneas. Lá vamos encontrar duas mulheres, muito diferentes, que vão se enfrentar pelo amor de uma menina.
Numa praia, durante um rodeio, vemos Vittoria (Sara Casu), 10 anos de idade, andando a esmo e se deparando com uma mulher loura e vulgar, magra, num vestido azul colado ao corpo, atracada a um homem, num canto mais escuro. Ao ver a menina, a mulher se afasta de seu par.
Outra mulher, morena, vem ao encontro dela:
“- Vamos para casa?” diz Vittoria.
“- Claro amor. Vamos procurer o papai?”
Angélica, a loura (Alba Rohrwacher), é uma mulher que vive entre os homens no bar, bebendo e fazendo sexo para ganhar algum dinheiro. É atraente mas sobretudo carente e infeliz.Tem um pequeno sítio mas vive sem dinheiro.
Tina, a morena (Valeria Golino), é doce, recatada, sempre atenta aos cuidados com Vittoria, mas no fundo, também é infeliz.
Há um acordo entre aquelas duas. Vemos Tina trazendo compras do mercado para a outra e limpando seu quintal.
Quando chega em casa, depois do rodeio, Vittoria se olhara no espelho e entendemos que se perguntava sobre seus cabelos ruivos e a pele muito branca, que lembravam a mulher que acabara de ver junto ao homem. A menina já percebera e descobrira o segredo de seu nascimento:
“- Pai, você estava lá quando eu nasci?”pergunta ela.
“- Não querida. Estava viajando.”
Na igreja, as duas mulheres se deparam:
“- O que está fazendo aqui?”diz a morena para a loura, com o rosto fechado.
“- Ela é mesmo ruiva…”diz a outra olhando a menina ao longe.
“- Mas vai escurecer.”
“- Estou vendendo os animais e vou embora para sempre. Está contente?”
“- Melhor assim. Vá viajar. Você sabe que pode contar sempre com a nossa ajuda.”
Em seguida vemos Vittoria perguntando para a mãe:
“- Quem era aquela mulher, mãe?”
“- Uma alma perdida, coitada.”
Mas a menina vai conviver mais com a loura e as cenas das duas vão ficando cada vez mais íntimas. Vittoria, cantando com Angélica uma música que tem como refrão”Nesse amor não se toca”, sofre uma transformação. Espontânea e solta, Angélica faz a menina dançar e cantar, com olhos de admiração para aquela mulher tão diferente de sua mãe.
A mãe morena vai desvendar para a plateia a origem da filha. O marido tem responsabilidade nisso.
Mas, mais do que às mães, caberá à filha resolver o impasse criado. Ela, que agora sabe de onde veio, poderá crescer e enfrentar a vida com mais liberdade e confiança em si mesma.
“Minha Filha” é um filme belo e tocante.


terça-feira, 9 de outubro de 2018

Juliet, Nua e Crua




“Juliet, Nua e Crua”- “Juliet Naked”, Estados Unidos, 2018
Direção: Jesse Peretz

Sabe aqueles filmes que começam e parece que não vão agradar? E quando a gente vê está envolvido com a história e os personagens? “Juliet, Nua e Crua” é uma dessas surpresas.
Aliás, “Juliet” não é nome de mulher, como poderíamos pensar. É o álbum “Juliet Naked”, gravado em 1993 por um roqueiro americano, Tucker Crowe (Ethan Hawke), que desapareceu, depois de terminar um romance com uma modelo de Los Angeles. Cancelou seus shows e sumiu. Desde então, lendas circulam a seu respeito. Como por exemplo, a que diz que ele vive isolado numa fazenda da Filadélfia, onde cria ovelhas. Ele é um mistério.
Mas em Sandcliff, Inglaterra, o desaparecido tem o seu maior fã, Duncan (Chris O’Dowd), que venera sua música e empapelou o porão da casa onde vive há 15 anos com a namorada Annie (Rose Byrne), com posters e fotos do seu ídolo. Ele é professor de cinema numa escola local e mantém um site que reúne os fãs ainda existentes de Tucker.
Annie dedica-se a cuidar do Museu Marítimo que seu falecido pai deixou para ela e a irmã Ros (Lily  Brasier).  E escuta pacientemente as lamúrias da irmã, sempre encrencada com suas namoradas casadas, enquanto prepara as peças para uma exposição.
Em “off” ouvimos ela contando essa história e percebemos o quanto ela se aborrece com esse homem com quem está há 15 anos e que só fala do roqueiro que idolatra. Ele não tem outro assunto.
Ainda por cima, Annie, que está com 30 anos, se ressente por Duncan não querer ouvir falar em filhos:
“- Nada de por crianças nesse mundo podre”, diz ele.
Mas a Natureza tem um chamado forte em mulheres dessa idade, como todos sabemos. E a verdade é que Annie não sente mais nenhuma atração pelo namorado.
Quando chega pelo correio um CD para Duncan, Annie abre a embalagem, meio distraída. E, como o vestido que ela comprou pela internet está grande demais, ela resolve ouvir o CD “Juliet Naked”.
Enquanto isso, Duncan está se engraçando pela nova professora da escola e vai parar na casa dela. E por isso chega tarde em casa. A tempo de ficar bravo porque Annie abriu a correspondência dele e teve a ousadia de ouvir o CD, antes dele. Furioso, vai ouvir o CD sozinho, com fones de ouvido.
E aí começa a encrenca. Duncan acha que o que tem no CD é uma obra prima. Annie acha que é uma versão chata de canções que já ouviram muitas vezes.
Para resumir, ela escreve um comentário negativo no site de Duncan sobre o CD e, num desses caprichos do destino, recebe uma resposta. Pasmem. Do próprio Tucker, que concorda com Annie.
Ethan Hawk, como Tucker, atrai Annie porque é carente, desorganizado como uma criança, irresponsável mas querendo mudar, sedutor e carinhoso. O oposto do namorado dela.
O filme, baseado no livro “Juliet Naked” de Nick Hornby, que foi adaptado pelo diretor e ex músico Jesse Peretz, com a ajuda de Tamara Jenkins e Jim Taylor, tem um roteiro bem escrito e a história tem momentos bem divertidos mas também notas mais melancólicas, em torno à questão do amadurecimento e da responsabilidades com os filhos.
Annie e Tucker vão se aproximar num primeiro momento por causa da implicância que ela tem pelo roqueiro, idolatrado pelo namorado sem graça. Mas as coisas vão evoluir e temos assim uma comédia romântica com sentimentos ternos e sem o jeito açucarado que enjoa.
Ótimo entretenimento.


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O Impostor




“O Impostor”- “The Forger”, Estados Unidos, 2014
Direção: Philip Martin

O amor entre pai e filho emociona e às vezes até surpreende. Talvez porque a mãe é quase sempre o centro do afeto da família. Mas aqui, não há mãe. Tanto Ray Cutter (John Travolta) que está na prisão e quer a liberdade para estar com o filho Will (Tye Sheridan), quanto Joseph Cutter (Christopher Plummer) avô de Will, que cuida do neto enquanto o filho está preso e já cuidou do filho quando a mãe dele morreu, e ele tinha só 4 anos, são pais amorosos.
Quando o filme começa, Ray está preso mas consegue ser solto, às custas de endividar-se pesadamente com um gangster. Por que ele faz isso se tem que cumprir só mais dez meses?
Vamos entender essa aparente loucura de Ray quando vemos Will, de 15 anos, ser levado para fazer quimioterapia no hospital. Ele tem um tumor no cérebro, inoperável, mas não sabe. Claro que tem noção do câncer mas pensa que pode curar-se. Mesmo porque é o que o pai e o avô passam para ele.
Ray, que na juventude aprendeu a gostar de pintura, tem talento mas enveredou por caminhos errados. Mas ama o filho e o pai. Agoniado, não sabe o que fazer para amainar a dor que sente.
Ray e Joseph são durões mas frente à perda inevitável, o horror da morte de um filho e neto, estão perdidos.
Will é um garoto afetivo, que logo se liga no pai que chega da prisão e percebe que ele se endividou para poder estar com ele. E, para surpresa do pai, pede que lhe conceda três desejos: conhecer a mãe que o abandonou ainda bebê, transar pela primeira vez e, finalmente, acompanhar e ajudar o pai no esquema que ele adivinha que foi montado para pagar os 50.000 dólares, que é a dívida dele com o gangster que o tirou da cadeia.
“O Impostor” não é um grande filme. Mas é emocionante e envolvente por causa da atuação de  Travolta, Plummer e Sheridan. O trio em ação faz com que a gente torça por eles.
John Travolta, que perdeu um filho de 16 anos, passa toda uma gama de emoções para a plateia, que vai da revolta à aceitação do que vai acontecer e a consciência de ter que aproveitar bem o tempo que resta.
“O Impostor” é um pequeno filme que toca nossos corações.


sábado, 6 de outubro de 2018

O Futuro Adiante



“O Futuro Adiante”- “El Futuro que Viene”, Argentina, 2017
Direção: Constanza Novick

Uma amizade da vida toda é algo precioso. Principalmente porque essas duas mulheres que vamos acompanhar em “O Futuro Adiante” são muito diferentes. Em tudo. Vão passar os bons e os maus momentos juntas e separadas, porque a vida é assim, junta e separa.
Nenhum sentimento é proibido nessa amizade. Sólida, apesar de inconstante, é um vínculo de identificações complementares. As duas unidas são mais fortes do que quando separadas.
Vemos as duas pela primeira vez na abertura do filme, meninas felizes, dançando uma coreografia que inventaram. Romi, olhos claros, cabelos louros e longos. Flor, morena, pele clara e olhos escuros brilhantes.
Vestem a mesma saia curta, que imaginamos ser o uniforme da escola, mas uma usa jaqueta e botas e a outra blusa, adereços e saltos altos. Certamente roupas surrupiadas do armário da mãe de uma delas.
As mães das meninas também são diferentes. A de Romina é bonita, delicada, se veste com roupas sexy e namora à noite, dizendo para a filha já deitada em sua cama:
“- Não atenda a campainha, não abra a porta, não atenda o telefone. Não vou demorar. ”
A de Flor é briguenta e mal casada e parece que tem inveja da mãe de Romi, mais afetiva e próxima da filha.
Não à toa, Flor quase mora na casa da amiga, que é muito mais divertida que a casa dela, onde os pais brigam e ela usa fones de ouvido para se ausentar.
As meninas competem na escola e Romi é a mais festejada. As duas gostam do mesmo menino mas é Flor, a mais atirada, que conquista Mariano.
Vamos assim, seguir as duas pelos acontecimentos da vida delas. Alegrias e tristezas. Amores e brigas.
O primeiro longa da diretora argentina Constanza Novick, 43 anos, não é um filme pretensioso. Dá leves pinceladas sobre o que significa a amizade para Romi e Flor. Um pouco mais de mãe? Alguém para compartilhar experiências e tanto consolar quanto incentivar.
Há cumplicidade na adolescência e amparo na vida adulta, quando os papéis se invertem e Romi (Dolores Fonzi) torna-se deprimida e Flor (Pilar Gamboa) a outra face, a mania alegrinha.
Mas tudo sem grandes obstáculos ou cores fortes. Mesmo porque as atrizes são ótimas e fogem do melodrama atuando com naturalidade.
As filhas repetem as mães? Essa pergunta atravessa o filme todo e é como se a diretora quisesse mostrar que é o contrário de espelhar, na superfície mas, no fundo, guardando as semelhanças com o seu modelo. Assim, Romina é sempre mais acolhedora com Florencia, que é mais mandona e briguenta e mais independente.
E quando as filhas das duas crescem parece que tudo vai se repetir nelas. Será?
O roteiro é despretensioso e não quer fazer diagnósticos sobre o que é ser mulher. Porque compreende que afinal somos todas parecidas. E muito mais complexas do que parece.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Razão e Sensibilidade



“Razão e Sensibilidade” – “Sense and Sensibility”, Estados Unidos, Inglaterra, 1995
Direção: Ang Lee

Duas irmãs que se amam muito e que, apesar de tão diferentes, vão se apoiar sempre. Uma delas, Elinor (Emma Thompson), inteligente e sensata, cuida das parcas finanças da família Dashwood quando o pai morre não deixando quase nada para as três filhas e sua mãe. A outra, Marianne (Kate Winslet), é transparente, só emoção e impulsividade romântica.
A história, escrita por Jane Austen com o pseudônimo de “A Lady” e publicada como livro em 1811, antes portanto de “Orgulho e Preconceito” de 1813, é sobre a família de uma viúva recente, a sra Dashwood (Gemma Jones) que tem que procurar onde morar com as três filhas, já que a bela propriedade onde viveram até então, Norlan Park, passa para o filho mais velho e único do primeiro casamento do marido dela, John (James Fleet). A elas cabe apenas uma pequena quantia anual. Assim ditava a lei. O filho homem herdava tudo.
Não pensem que o pai não pensou nas filhas solteiras. Mas entregou o destino delas nas mãos do filho John, pedindo que cuidasse delas. Casado com Fanny (Harriet Walter), uma mulher egoísta, John deixou-se convencer por ela que suas meio irmãs não precisavam da ajuda dele.
E assim, Elinor, Marianne e Margareth, com sua mãe, aceitam o convite feito por um primo, Sir John Middleton (Robert Hardy) e vão morar num chalé de pedra pitoresco mas gelado, perto de sua propriedade em Devonshire.
Antes porém de deixarem a casa que as viu nascer, as irmãs tem uma visita inesperada. O irmão de Fanny, Edward Ferrars (Hugh Grant) é bem recebido e encanta-se com Elinor. A atração é mútua. Mas Fanny insiste em proclamar, para que todos ouçam, que a mãe dela não permitiria casamento algum com uma moça sem dote.
E lá se vão elas para Devonshire, onde se instalam com simplicidade mas bom gosto.
E logo, Marianne, a mais bela das irmãs chama a atenção dos cavalheiros disponíveis no local, o Coronel Brandon (Alan Rickman), poderoso e sofrido e o jovem Wilhougby (Greg Wise), um futuro herdeiro bonito mas de caráter duvidoso.
Margareth (Emilie François), a irmã menor, de 11 anos, é um sopro de alegria e saúde para a mãe e as duas irmãs mais velhas.
Ang Lee, nascido em Taiwan e radicado nos Estados Unidos, tinha 40 anos quando dirigiu o filme. E encanta a todos com uma escolha primorosa de elenco, locais de filmagem como só a Inglaterra é ainda no campo, figurinos bem cuidados que mostram o status social dos personagens e muitas cenas ao ar livre tanto no sol como em tempestades. “Razão e Sensibilidade” enche nossos olhos e aquece quem tem um coração romântico.
O filme foi indicado a 7 Oscars, inclusive melhor filme e atrizes mas só ganhou o de melhor roteiro, escrito por Emma Thompson. No Festival de Veneza levou o prêmio máximo, de melhor filme, o Leão de Ouro. Premiado ainda com dois Globos de Ouro, melhor filme drama e roteiro.
Ang Lee, injustiçado pela Academia de Hollywood nesse filme, ganhou mais tarde dois Oscars de melhor direção por “O Segredo de Brokeback Mountain” e “As Aventuras de Pi”.


domingo, 30 de setembro de 2018

Um Pequeno Favor



“Um Pequeno Favor”- “A Simple Favour”, Estados Unidos, 2018
Direção: Paul Feig

Já nos créditos iniciais, ao som de uma música francesa que diz “Elle est jolie comme une poupée” ou seja, “Ela é bonita como uma boneca”, “Um Pequeno Favor” é um filme feminino. Na tela, desfilam como fundo, detalhes de rostos, copos de Dry Martini, bolsas e sapatos num closet e uma faca elétrica.
Anna Kendrick e Blake Lively, tão diferentes uma da outra, vão se tornar melhores amigas depois de se encontrar na escola dos filhos delas. Uma coisa leva a outra e assim, acontece uma tarde regada a Gin Martinis e confissões, na bela casa contemporânea de Emily, que é Blake Lively, loura e linda, corpo perfeito, cabelão, alta e ácida mas principalmente sedutora e manipuladora.
Já Stephanie Smothers é Kendrick, suburbana, baixinha e bonitinha. Viúva, mãe exemplar, baixa autoestima, fica embasbacada com Emily, ex modelo e seu quadro enorme retratando sua “Origem do Mundo” ou seja, o que está entre suas pernas, pendurado bem à vista, naquela casa refinada.
Emily é casada com um escritor bonitão (Henry Golding) e é executiva de uma empresa que lida com moda, em Nova York. Pega o metrô todo dia de Connecticut para o trabalho. Não conseguiu uma babá e por isso pede a Stephanie, sempre prestativa, um pequeno favor. Vai ter que fazer uma viagem curta e, já que seu filho Nicky estuda na mesma escola que Miles, filho de Stephanie, será que ela poderia ficar com ele até a sua volta? O pai está em Londres cuidando da mãe que teve um acidente.
A “grande” amiga, louca para ganhar pontos e não perder tudo que Emily traz para sua vida, até então um marasmo, aceita prontamente a incumbência. E, em seu vídeo diário de receitas e dicas para mães, Emily começa a aparecer como personagem principal. Principalmente depois que some, sem deixar vestígios.
“Um Pequeno Favor” não se leva a sério e mesmo quando vira “thriller” continua comédia, agora com tintas “noir”, trazendo à tona o passado de pecados das duas protagonistas. Mas sempre sem perder o toque divertido.
Paul Feig dirige com humor essa história de segredos bem guardados e suspense, dando espaço para as duas atrizes que formam um duo com ótima química.
Com figurinos que chamam a atenção e definem bem as personagens e cenários interessantes, o filme baseado no livro de Darcey Bell de 2017, faz a plateia seguir os passos das duas protagonistas, inclusive nos “flashbacks” esclarecedores do passado, mas só para os mais atentos. Os distraídos podem se perder nas reviravoltas do filme.
Brigitte Bardot e Serge Gainsbourg na trilha sonora são referência do “chic” almejado.
Sem ser profundo nem raso, “Um Pequeno Favor” quer divertir e consegue.